O objetivo desse blog é compartilhar materiais transversalmente relacionadas ao anarco-comunismo (ou comunismo libertário), bem como proposições teóricas, análises de eventos e conjuntura.
Em um muro pixado durante um protesto da revolta do Equador: Capital, mais-valia, morram com a burguesia – CONAIE.
Entre 2019 e 2022, traduzimos uma série de textos escritos e publicados em meio a uma onde internacional de revoltas ao redor do mundo. Decidimos fazer uma publicação em conjunto com todo o material traduzido e produzido. Estávamos planejando publicar esse compilado ano passado, mas acabamos priorizando outras atividades e questões conjunturais que nos ocupavam. De qualquer forma, os problemas enfrentados nesse passado recente ainda permanecem e a preservação de nossa memória histórica deve contribuir para, mediante uma avaliação crítica desses processos, extrair os ensinamentos que essas lutas nos legaram.
Como é uma publicação em conjunto com o blog Amanajé, o material todo se encontra em duas publicações desse blog e aqui nos limitamos a compartilhar os links. Ficou dividida em duas publicações devido ao limite de caracteres por publicação do blogger que foi excedido pelo material.
As publicações são:
Materiais acerca do Ciclo de Revoltas 2018-2021 [PARTE 1] (link)
Materiais acerca do Ciclo de Revoltas 2018-2021 [PARTE 2] (link)
Também vamos compartilhar a apresentação e introdução do material que escrevemos em conjunto no que se segue.
Apresentação
Essa publicação tem o objetivo de manter viva a memória histórica das revoltas que eclodiram em um período de tempo relativamente próximo (e até mesmo simultâneo) em diferentes partes do mundo entre os anos de 2018 a 2020.
Diante da efervescência dos acontecimentos, minorias revolucionárias do proletariado de distintas regiões interviram tanto prática, quanto teoricamente nessas lutas, legando uma série de textos com avaliações e proposições para o movimento que se formava. Fizemos uma seleção dessas publicações (geralmente em inglês e espanhol), traduzindo-as ao português para ampliar o alcance desses textos subversivos.
O movimento de revoltas que vamos abordar recebeu seus impulsos iniciais ainda em 2018, como no caso dos “gilets jaunes” (coletes amarelos) na França e a luta contra a reforma da previdência na Nicarágua e na Rússia, mas será em 2019 que atinge seu ponto culminante, expressando de modo mais significativo o conteúdo geral dessas lutas. A convergência e intensificação das revoltas sinalizaram uma reemergência global da luta proletária em sua fase de luta difusa e espontânea, com ações subversivas que se tornaram exemplares para a experiência contemporânea da luta de classes. Nas situações mais avançadas, isso resultou em um franco processo de ruptura das amarras conciliadoras, embora se reconheça os seus limites (que serão abordados nessa publicação, no sentido de identificá-los e propor sua superação).
Os materiais que traduzimos e buscamos difundir expressam de alguma maneira o sentido internacional das lutas e também contribuem com avaliações críticas de situações específicas. Nesse sentido, a primeira parte de nossa publicação consistirá de análises mais gerais que abordam as lutas em seu conjunto, enquanto que a segunda parte focará nas expressões locais das revoltas, analisando os dilemas que enfrentam o proletariado nas regiões onde se insurgiu. Pensamos essa publicação (e mesmo essa introdução) como um esforço crítico no sentido de compreender a luta de classes contemporânea, enfatizando o caráter interdependente da comunidade de luta proletária.
Introdução
Em nossa avaliação, a onda de revoltas que se espalhou rapidamente ao redor do mundo pode ser compreendida como uma reação generalizada diante de uma década marcada pela deterioração global das condições de vida do proletariado em função da crise de 2008 e das medidas adotadas como modo de recuperação da mesma. As reformas pós-crise geralmente consistiram de políticas de ajuste fiscal com base nas diretrizes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, mesmo quando os governos que as adotavam fossem de esquerda (a esquerda do Capital).
Podemos constatar essa conexão global através de dados do Institute for Economics and Peace (IEP) [1], que demonstram que o número de manifestações violentas vem aumentando desde 2008 (em 61 países). De 2010 em diante, o número de conflitos em todo o mundo aumentou em 88%. No total, ocorreu globalmente um aumento de 244% em revoltas, greves gerais e manifestações contra governos entre 2011 e 2019 [2].
A primeira reação à crise de 2008 ocorreu através de uma primeira onda internacional de revoltas, que passou pela “primavera árabe” de 2011-12, com levantamentos ao norte da África, em Magreb, e no Oriente Médio, alcançando depois a África Subsaariana e inspirando movimentos no Ocidente (“Indignados” na Europa, “Occupy Wall Street” nos EUA, as revoltas operárias de 2011 no Brasil assim como os protestos de 2013).
No entanto, essa onda de lutas foi paulatinamente assimilada aos quadros da institucionalidade burguesa de diversas formas: a derrubada das ditaduras do norte africano ao Oriente Médio foi enquadrada ao integralismo democrático para conter a revolta proletária nos limites de um mero movimento cívico (e disso se seguiu uma série de políticas neoliberais como reação); os “Indignados” foram cooptados pela farsa eleitoral do “Podemos” na Espanha e pelo “Syriza” na Grécia, desfigurando a luta proletária com políticas de conciliação de classes; as revoltas brasileiras continuaram até as grandes manifestações de 2013 que foram traídas pelo “Movimento Passe Livre” (MPL) em negociações com o então governo Dilma (que se seguiram pela mobilização das forças repressivas para barrar o movimento “não vai ter copa”, aprovar a Lei Antiterrorismo e, finalmente, abrir o caminho para o movimento reacionário, inicialmente financiado pela FIESP). Da mesma forma, buscou-se cooptar o Occupy nos EUA para uma luta meramente contra a “financeirização” do Capital (e não contra o capitalismo em sua totalidade), mas a revolta tinha continuado, apesar disso, com a rebelião contra a violência policial em ocasião dos assassinatos de Mike Brow e Eric Garner em 2014. No entanto, também foram assimilados após o “primeiro presidente negro dos EUA” (Obama) exigir uma “resposta construtiva” para os tumultos em Ferguson, onde a polícia reprimiu com violência os protestos ao mesmo tempo em que o movimento negro colaborava institucionalmente na mesa de negociações.
Não obstante essa primeira assimilação, um novo ciclo de lutas se formou na segunda metade da década e teve seu ponto culminante em 2019. Dessa vez os disparadores imediatos dos movimentos estavam cada vez mais ligados entre si e associados com questões econômicas que atingiam principalmente os proletários: alta nos preços dos combustíveis (Haiti, Equador), dos alimentos básicos (Sudão), reformas previdenciárias (Rússia, Nicarágua, em 2018), dentre outras formas de aumento do custo de se viver no capitalismo.
Para se ter noção da magnitude e extensão dessas revoltas, considere essa visão panorâmica de 2019: no Haiti, dezenas de pessoas morreram (entre meados de setembro até o ano seguinte) em protestos pela renúncia do presidente Jovenel Moïse, motivados principalmente pela escassez de combustível. No Equador, o país ficou paralisado por quase duas semanas em meio a protestos intensos após o cancelamento dos subsídios aos combustíveis. No Chile, uma onda de manifestações violentas contra as desigualdades socioeconômicas deixaram mais de vinte mortos e mais de 2.000 feridos. Na Bolívia, ocorreu o cancelamento da reeleição de Evo Morales, após quatro semanas de protestos que causaram dezenas de mortes. Na Colômbia, o governo de Iván Duque também enfrentou uma série de protestos, marcados por três greves nacionais e manifestações em massa nas ruas. No Sudão, Omar Al Bashir, que esteve no poder durante 30 anos, foi derrubado pelo Exército após quatro meses de revolta social desencadeada pela triplicação do preço do pão (em agosto, o país passou a ser governado por um Conselho de Transição e isso desencadeou novas manifestações contra o então regime militar). No Iraque, um protesto social contra a corrupção, o desemprego e o declínio dos serviços públicos começou em 1º de outubro, até se transformar em uma crise política para o regime (no início de dezembro, mais de 420 pessoas morreram nos protestos e milhares ficaram feridas, a maioria manifestantes). No Líbano, o anúncio, em 17 de outubro, de um imposto – posteriormente suspenso – em chamadas feitas pelo WhatsApp provocou uma forte reação popular, ocasionando a demissão do primeiro-ministro, Saad Hariri. Em novembro, o Irã é palco de vários dias de agitação, após o aumento no preço da gasolina (as autoridades relataram cinco mortes, mas de acordo com a Anistia Internacional, foram mais de 200) [3].
Diante desse aumento contínuo na instabilidade política, representantes do Capital começaram a soar o alerta. O ex-economista-chefe do FMI, Raghuram Rajan, afirmou em março de 2019 que “o capitalismo está sob grave ameaça porque não conseguiu atender às necessidades de muitos, e quando isso acontece, há muitas revoltas contra o capitalismo”, durante o programa Today da BBC Radio [4]. Ele também considera necessário estar “sempre alerta” diante da iminência de crises para evitar que “o pior aconteça”. Rajan acredita que a “democracia de livre mercado” poderia ser uma solução e trazer “equilíbrio”.
Como podemos ver, os ideólogos do capitalismo possuem consciência de que as revoltas expressam um antagonismo diante da privação de necessidades que o sistema impõe ao proletariado. No entanto, eles se colocam como defensores do sistema, buscando preservar a “ordem democrática” contra os distúrbios sociais e também tentam oferecer “soluções” para as crises econômicas, pois imaginam que esses eventos resultam de “interferências” no “bom funcionamento” da economia e da política. Mas tanto as condições de vida cada vez mais precárias quanto as crises são inerentes ao próprio capitalismo e resultam de suas contradições internas. É com base nessa perspectiva que buscamos traçar o fio histórico que conecta essas lutas e demonstrar o caráter de classes delas.
Muitos falaram de um “despertar” diante do “neoliberalismo” e em prol de outra forma de gerir o capitalismo, apenas reformando seu Estado. É contra essa narrativa que também nos posicionamos. Com efeito, como demonstrado por Robert Kurz [5], o neoliberalismo não passou de uma resposta política subjetiva para um problema objetivo do capitalismo, pois na medida em que os investimentos se tornavam cada vez menos financiáveis com os lucros correntes devido aos custos progressivamente superiores do uso do capital constante acumulado (máquinas, etc.), foi necessário uma expansão do sistema de crédito a todos os níveis (para empresas e Estados). Nesse sentido, a desregulamentação do mercado financeiro foi um imperativo histórico do sistema (não o resultado da manipulação voluntária de governos). Em seguida as dívidas se transformaram em bolhas (de ações e imobiliárias). Tudo isso culminou na crise de 2008, que marcou a ruptura da sustentabilidade dessa financeirização. Assim, a crise é o resultado imanente da “contradição em processo” da acumulação de capital e não um “erro” dos financistas, seus “juros exorbitantes” e especulações. Os empréstimos do FMI e as exigências de uma política fiscal de austeridade para controlar os défices públicos, o desemprego, o rebaixamento dos salários, a inflação, dentre outras coisas, são paliativos para assegurar a manutenção do capitalismo.
No cenário brasileiro, as consequências da crise de 2008 chegaram mais tarde do que em outros países devido ao superciclo de commodities que caracterizou o período de 2001 até 2014, acabando com a recessão da economia brasileira. É na esteira desses acontecimentos e na tentativa de recuperação da crise, para recompor as taxas de lucro pelo barateamento da força de trabalho, que podemos compreender os cortes realizados no governo de Dilma e subsequentes.
Como forma de mostrar seu compromisso com o chamado “Ajuste Fiscal”, Dilma colocou Joaquim Levy (representante do capital financeiro) a cargo do Ministério das Finanças em seu segundo mandato. É assim que, de modo a manter o crescimento da economia nacional e a possibilidade de pagamento da dívida externa, foram sendo demandadas uma série de cortes, como na Educação, que no ano de 2015 teve um corte de R$10,5 bilhões [6], e em auxílios [7].
Contudo, os desentendimentos do governo que provocaram a saída de Levy, que representava um “bastião de estabilidade” para o mercado financeiro e era considerado a causa da “manutenção do grau de investimento do Brasil” [8], ao final de 2015 foi considerado um alerta para frações da burguesia, em especial a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), um sinal de hesitação de Dilma em passar todas as reformas necessárias. Nesse sentido, o impeachment que se seguiu foi tão somente a continuidade desse processo, lá onde a Dilma havia se tornado apenas mais um obstáculo para o ajuste fiscal necessário ao sistema.
As reformas que foram os gatilhos imediatos das revoltas de 2018, 2019 e 2020 (como as mudanças em leis trabalhistas, na seguridade social, etc.) são medidas congruentes com as necessidades de recuperação e reprodução do capitalismo. Essas mudanças continuarão ocorrendo a despeito das falsas polarizações que a burguesia busca criar (“esquerda” x “direita”, “entreguistas” x “nacionalistas”, etc.), pois são as condições econômicas que as determinam (problema objetivo) e não as mudanças governamentais que apenas administram a situação (resposta subjetiva). O assalto às nossas vidas para manter a reprodução desse modo de produção será cada vez mais violento, assim como serão mais intensas as respostas que surgem da classe explorada cada vez que se insurge contra a espoliação capitalista.
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Não obstante, sem um meio próprio de articulação e difusão dessas lutas, o proletariado permanecerá à mercê de think tanks e outras agências de informações da burguesia (com seus jornalistas, “formadores de opinião”, etc.) que ocultam a razão estrutural dessas “explosões sociais” através das diversas ideologias mobilizadas para impedir a radicalização e a consciência de classe (por exemplo: as formas identitárias de distorcer a luta de classes em frações étnicas, de gênero, etc.). Neste sentido, podemos elencar algumas formas de apreensão burguesa dessas lutas [9]:
1. Ocultação: essa tática é a mais simples e não exige muita explicação, consiste simplesmente em silenciar notícias de uma revolta até ela cessar, geralmente se valendo de “polêmicas” e “escândalos” morais inflados pelo sensacionalismo para abafarem os tumultos sociais;
2. Ideologia economicista: outra forma de ideologia burguesa consiste na identificação dessas lutas como simples revoltas “economicistas”, sobrevalorizando os disparadores imediatos dos conflitos: o aumento da passagem, o preço da gasolina, etc., como se nós estivéssemos lutando “apenas por vinte centavos” e não contra todo um sistema que provoca a deterioração geral das nossas condições de vida (mesmo que, em um primeiro momento, nossa luta não seja autoconsciente de seus motivos reais, nos tornando suscetíveis ao controle ideológico burguês na ausência de uma direção revolucionária);
3. Ideologia da “crise institucional” (instabilidade): modo de classificação das lutas como meras situações de instabilidade social que correspondem a crises institucionais ou ao próprio regime político. Nesse caso, as revoltas são apreendidas e apresentadas como algo “atípico”, uma “anomalia” no “bom” funcionamento dessa ordem social putrefata. Assim, contra a noção de que os levantes proletários são uma “anomalia”, é preciso avançar no sentido de demonstrar que o ataque contra nossas necessidades mais básicas é imperativo às necessidades de acumulação do Capital e nossa insurgência diante disso surge de pequenos estopins que, tão logo acendam o pavio histórico que nos une como classe, tornam-se grandes explosões sociais;
4. Isolamento nacional: a mídia burguesa também realiza uma distorção, conscientemente ou não, que faz com que aquilo que ocorre “lá” pareça diferente do que ocorre “aqui”, como se as “economias nacionais” fossem independentes do “mercado internacional”, como se o capitalismo não fosse um sistema mundial integrado e a “coincidência” das lutas não tivessem origens comuns. Assim, fala-se, por exemplo, em “instabilidade política e econômica do Líbano” no lugar de enfatizar que essa situação deriva necessariamente das condições globais do capitalismo. É preciso entender que nossa luta em qualquer canto do mundo não “se torna” internacional, mas se assume, pois se nossa condição é mundial é lógico também que nossa luta local não é senão uma expressão imediata da oposição global contra a precarização de nossas condições de vida;
5. Polarização burguesa nacional: situação em que as lutas são taxadas como “revoltas da oposição”: uma oposição meramente política contra um líder em particular (quando essa figura pública se tornou excessivamente impopular), uma oposição entre políticas econômicas distintas que representam frações diferentes do capital, como os “neoliberais” contra os “desenvolvimentistas”, uma oposição entre moralidades distintas para diferentes setores da burguesia, como os “conservadores” e seus “valores tradicionais” (geralmente ruralistas) contra os “progressistas” e seus “valores liberais” (geralmente associados com grandes conglomerados urbanos), ou mesmo uma oposição entre regimes burgueses distintos como “militar” e “democrático de direito”. Essas polarizações burguesas buscam manter o proletariado separado de seus interesses de classe próprios e desorganizado de sua luta autônoma, enquadrando-o em frentes que representam os interesses de diferentes frações da burguesia de um país.
6. Polarização burguesa internacional: Essa distorção consiste em enquadrar as revoltas nos interesses de frações da burguesia de distintos campos geopolíticos. É aqui que podemos situar as práticas dos imperialistas e dos supostos “anti-imperialistas”, na medida em que polarizam as lutas proletárias em uma “geopolítica burguesa”, por exemplo: quando dizem que revoltas proletárias em países não alinhados ao “Ocidente” são simplesmente “guerras híbridas” [10] contra a “soberania nacional” desse ou daquele país ou, do ponto de vista “Ocidental”, que essas revoltas são “em prol da democracia”. Uma vez enquadrados nessa polarização, nossa classe é chamada a perecer em combate mútuo em prol dos interesses distintos de frações burguesas rivais.
Em suma, consideramos que essa é uma das armas centrais da contrarrevolução: negar qualquer conexão internacional entre as revoltas a partir de um conteúdo proletário e independente, negar qualquer capacidade de autonomia do proletariado e ainda torná-lo bucha de canhão de uma ou outra fração burguesa em seus conflitos imperialistas ou em conflitos de distintas frações capitalistas no interior de um mesmo Estado nacional.
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As primeiras ondas contestatórias que decorreram da crise de 2008 foram polarizadas em alternativas burguesas e derrotadas em função desse enquadramento (“democracia” x “ditadura”; “neoliberal” x “desenvolvimentismo”; “OTAN” x “soberania nacional”, etc.). E embora a simultaneidade das revoltas aumentem cada vez mais, nem por isso haverá uma mudança de caráter qualitativo. Ou seja, embora a simultaneidade internacional das revoltas aumente em quantidade, esta não se traduz numa conexão real entre elas, na medida em que não existem grandes demonstrações de internacionalismo ou solidariedade internacional efetiva, assim como não dispomos de uma direção revolucionária internacional.
Portanto, consideramos que a superação da mídia burguesa (como pretensão do “monopólio das true news”), é uma das condições necessárias, embora não a única, para que essa mudança qualitativa ocorra. A necessidade de superação da mídia burguesa como meio de divulgação de nossas lutas impõe:
1. A manutenção de contato entre as minorias revolucionárias ativas em diferentes regiões;
2. A criação de um meio de propaganda internacional que funcione através dessa articulação, realizando a tradução de materiais, balanço das diferentes lutas e práticas em conjunto internacionalmente.
Como mencionamos, a burguesia está plenamente consciente de certas tendências nesse sistema e está ciente das diversas armas que pode utilizar para combater e canalizar contestações que ameacem seu domínio. Não é à toa que John Authers, no portal Bloomberg, fornecedor de serviços de informação financeira, chegou a comentar, 4 dias após o estallido chileno, que um dos motivos do descontentamento social ter estourado no Chile foi que: “[O] Chile está em falta de um movimento populista, ou um líder político prudente. Tal figura poderia ter sido capaz de usar a raiva pública para seus próprios propósitos, mas também teria tido uma melhor chance de controlá-la. […] Ou seja, embora os populistas carismáticos da América Latina tendem, compreensivelmente, a fazer líderes ocidentais nervosos, o Chile mostra que eles podem exercer uma função vital” [11]. O que é Boric atualmente se não essa cartada da burguesia chilena de uma suposta renovação política? Boric é “contra tudo que está aí” à moda chilena, usado para canalizar as contestações reais para os meios institucionais, usando como recurso a mobilização do discurso antifascista.
É com base na necessidade de uma exposição proletária e revolucionária das nossas lutas que desenvolvemos essa publicação, com a tradução e difusão de um material legado por distintas minorias revolucionárias de nossa classe que se situam em diferentes expressões dessas revoltas. Nosso objetivo é manter viva a comunidade de lutas do proletariado e contribuir nos esforços já existentes de internacionalismo socialista [12].
[1] – O fundador e presidente do IEP é Steve Killelea, um empresário que busca fornecer dados sobre a “paz social” para organismos como o Banco Mundial e a ONU. Nesse sentido, esse instituto é um centro de pesquisas que atende às necessidades administrativas da burguesia. Utilizamos essa fonte tanto para ilustrar o aumento considerável de conflitos, quanto para demonstrar que a classe dominante tem recursos para monitorar a situação de estabilidade de seu domínio internacionalmente. Não obstante, o IEP não passa de uma agência de informações usada para preservar a ditadura do Capital, a democracia.
[2] – Institute for Economics & Peace. Global Peace Index 2021: Measuring Peace in a Complex World, Sydney, June 2021. Disponível em: <http://visionofhumanity.org/reports> acesso em: 31 out 2021.
[3] – Relembre quais foram os principais acontecimentos de 2019 no mundo. Disponível em: <https://domtotal.com/noticias/?id=1411848>. Acesso em: 21 out. 2022. & CHADE, Jamil. Protestos em 2019 encerraram década de transformações sociais. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2019/12/29/protestos-em-2019-encerraram-decada-de-turbulencias.htm>. Acesso em: 22 out. 2022.
[4] – Capitalismo está “sob séria ameaça”, alerta economista que previu crise global de 2008. BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-47609260>. Acesso em: 18 nov. 2021.
[5] – Robert Kurz – ENTREVISTA À REVISTA ON-LINE “TELEPOLIS” (18-19.07.2010). Disponível em: <http://www.obeco-online.org/rkurz372.htm>. Acesso em: 18 nov. 2021.
[6] – No ano do lema ‘Pátria Educadora’, MEC perde R$10,5bi, ou 10% do orçamento. Estadão. Disponível em: <https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,no-ano-do-lema-patria-educadora--mec-perde-r-10-5-bi--ou-10-do-orcamento,1817192>. Acesso em: 21 out. 2022.
[7] – Dilma sanciona lei que altera regras do seguro-desemprego com vetos. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2015/06/dilma-sanciona-lei-que-altera-regras-do-seguro-desemprego-com-vetos.html>. Acesso em: 21 out. 2022.
[8] – Ministro Joaquim Levy: “Não tenho a intenção de deixar o Governo”. El País. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/03/politica/1441303660_632275.html>. Acesso em: 21 out. 2022.
[9] – Não necessariamente são formas voluntárias de distorcer os eventos, mas simplesmente a consciência ideológica que manifesta os interesses de classe da burguesia espontaneamente.
[10] – Sobre o conceito de “guerra híbrida”, veja-se: MEDEIROS, Jonas. “Guerras Híbridas”, um panfleto pró-Putin e demofóbico. Passa Palavra. Disponível em: <https://passapalavra.info/2020/01/129676/>. Acesso em: 22 out. 2022.
[11] – Chile's Violence Has a Worrisome Message for the World. Bloomberg, Disponível em: <https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2019-10-22/chile-s-violent-protests-have-a-worrisome-message-for-the-world>. Acesso em: 24 dez. 2021.
[12] – Aqui podemos citar alguns exemplos: TŘÍDNÍ VÁLKA [Guerra de Classes], disponível em: <https://www.autistici.org/tridnivalka/>; Crimethinc, disponível em: <https://pt.crimethinc.com/>; Proletarios Internacionalistas, disponível em: <https://proletariosinternacionalistas.org/> e Panfletos Subversivos, disponível em: <https://panfletossubversivos.blogspot.com/>. Parte do material que traduzimos é proveniente desses sites inclusive.
Traduzimos essa publicação do site Proletarios Internacionalistas para contribuir nas discussões acerca de nossa atual situação histórica no modo de produção capitalista. As premissas desses camaradas se aproximam muito das nossas, uma vez que compartilham conosco um posicionamento internacionalista, tanto nas formulações práticas quanto nas discussões teóricas.
Como leitura complementar ao conceito de comunidade de luta utilizado no texto, sugerimos esse artigo de Harry Cleaver: Teses sobre a Crise Secular do Capitalismo: a Insuperabilidade dos Antagonismos de Classe. Apesar de desatualizado, o texto de Cleaver possui algumas premissas teóricas fundamentais para compreender a luta de classes como fato histórico mundial no capitalismo.
Fizemos algumas adaptações nessa tradução e optamos por ilustrar os fatos relatados, ao longo dessa versão do nosso blog, com prints de noticiários da mídia burguesa (chamamos a atenção para a nota 8 do texto, pois ela descreve a dinâmica desses noticiários) e de outras fontes (como, por exemplo, o CrimethInc).
As notas ao fim da publicação são originais e estão indicadas pelos colchetes numerados ao longo do texto.
Em nosso blog já havíamos discutido um pouco do que está sendo chamado por nossos camaradas de estado de alarme, portanto sugerimos como leituras complementares nossos dois textos sobre a conjuntura capitalista contemporânea:
Título do artigo (versão em pdf) dos Proletarios Internacionalistas, disponível em: link.
Desde que publicamos nosso texto anterior no final de março [1], o desenrolar dos acontecimentos apenas confirmou o que denunciamos ali: a guerra contra o coronavírus é uma guerra contra o proletariado mundial. A declaração de uma pandemia foi o bode expiatório, uma excelente oportunidade e uma forma de cobertura para se impor toda uma série de medidas brutais que a ditadura do lucro despoticamente exige. Trata-se de conectar todo tipo de medidas de austeridade ao proletariado, impondo jornadas de trabalho ainda mais intensas e extensas em troca de salários cada vez mais precários a uma fração da classe, facilitando as demissões de outra fração, exterminando as enormes faixas que sobram da população, garantindo sua implantação por meio do controle e do terror e detendo a onda de tumultos de 2019 para reiniciar com um novo ciclo de acumulação.
O isolamento que o capital tenta impor representa a negação do proletariado como classe revolucionária, a alienação de sua comunidade de luta, para destruir não só seu atual processo de associacionismo, mas seu poder futuro (que já se evidencia nas lutas atuais). Esse é o verdadeiro objetivo do Estado de alarme [2]: concretizar as necessidades intrínsecas da relação social capitalista.
Sugerimos esse artigo de Raúl Zibechi como leitura complementar para a caracterização do estado de alarme, disponível em: link.
Embora, a princípio, toda essa guerra tenha conseguido paralisar o proletariado, a verdade é que nossa classe logo entendeu na carne do que se tratava: as condições materiais ainda piores que sofreu em toda parte não foram devidas à “pandemia” [3], mas pelas necessidades de valorização do capital.
Os primeiros sinais de que o proletariado compreendeu esta realidade foram evidentes nas expressões de luta que saudávamos no nosso texto anterior. Os motins e revoltas nas prisões de muitos países, os protestos em Hubei, os saques e conflitos na Itália ou no Panamá, a propagação de atos de desobediência às medidas do Estado de alarme e confinamento… Eram as escaramuças que anunciaram que o proletariado se preparava para retomar a onda de lutas contra o capitalismo iniciada em 2019.
Imagem extraída de uma publicação do site CrimethInc, disponível em: link.
Dissemos também que as toneladas de capitais fictícios que mantiveram, com uma importância cada vez mais decisiva, os fluxos de capitais durante décadas, e que agora se injetam maciçamente na efetiva troca comercial, com uma criação massiva de signos de valor sem nenhum suporte nem limite, criariam uma desvalorização sem precedentes, uma destruição do capital com consequências imprevisíveis que levariam o proletariado ao limite. O Líbano, o primeiro país a ver uma revolta contra o estado de alarme espalhar-se por seu território, também foi o primeiro a ver sua moeda chegar ao fundo do poço. O Estado libanês, que havia declarado falência e considerado inadimplente sua dívida, viu como o impressionante aumento nos preços das mercadorias expressou uma redução drástica no valor que afirma representar a moeda (até dois terços). Os proletários que ainda tinham algumas contas miseráveis com as quais podiam cobrir parte de suas necessidades básicas (para a grande maioria nem isso) viram-nas evaporar.
Confinados em suas casas, com a proibição de todo tipo de reunião e com os soldados andando pelas ruas, a situação tornou-se dramática. A perspectiva era abaixar a cabeça e aceitar o funeral que estava sendo preparado para ele ou apostar na vida. Mas, uma vez mais, o proletariado aposta na vida indo às ruas em massa. Desde então, a chama da revolta ilumina mais uma vez as trevas deste mundo, espalhando-se por várias regiões, rompendo o confinamento, as proibições de reuniões e mobilizações, a repressão e todo o pacote de medidas do estado de emergência. No Iraque, Irã, Panamá, França, Colômbia, Venezuela, EUA, etc., a onda de lutas que começou em 2019 é retomada, questionando-se os planos de reestruturação da burguesia e propondo fortemente um outro “novo normal” distinto do que a burguesia mundial quer impor.
Do Líbano aos EUA…
A “noite dos molotovs” foi o primeiro revés grave que o capitalismo mundial sofreu em sua “guerra ao coronavírus”. Em meados de abril, as principais cidades do Líbano experimentaram protestos e confrontos que foram recebidos com a habitual brutalidade por parte dos militares. Em 26 de abril, baleou-se uma manifestação, assassinando-se o jovem Fawaz Fouad e ferindo trinta manifestantes. Naquela mesma noite, desencadeou-se uma resposta impressionante do proletariado, no que foi chamado de noite dos molotovs. Os soldados foram surpreendidos pelo colapso geral do estado de emergência e pela chuva de coquetéis molotov que substituíram as pedras. Desde então, bancos, soldados, delegacias e outras expressões do capital têm sofrido diariamente o calor dos molotovs, enquanto que das janelas, aos gritos e panelaços, se apoiam cada incêndio e manifestação de nossa classe.
Notícia publicada em Aventuras na História, disponível em: link.
Apesar de o governo ter tentado desviar a atenção, anunciando um plano de cinco fases para sair do confinamento, proclamando o sucesso sanitário [4], os proletários não pararam de intensificar a revolta, denunciando que a vida miserável sob o capital que é a verdadeira pandemia. O Estado não pode oferecer senão tiros, mortes, amputações, torturas e miséria, aos quais se responde com a extensão de capuzes e molotovs, organizando-se ao mesmo tempo desapropriações e redes de apoio à distribuição de alimentos e produtos básicos.
Mas se a primeira revolta contra o estado de alarme mundial ocorreu no Líbano, isso nada mais foi do que a cristalização naquele território da luta internacional do proletariado contra as condições de vida impostas pelo capital [5]. Embora nossa luta sempre tenha começado a partir dessa realidade [local], que independente de onde se desenvolva, faz parte da mesma luta global, pelas mesmas necessidades e contra o mesmo inimigo, é verdade que a burguesia estende todos os tipos de recursos e ideologias para isolar, setorizar, particularizar, nacionalizar e apresentar como diferentes as várias expressões de uma mesma luta, como se fossem expressões independentes, como se fossem estranhas umas às outras e de diferentes naturezas ou origens. Mas o desenvolvimento da catástrofe capitalista não cessou de homogeneizar de forma cada vez mais brutal as miseráveis condições de existência do proletariado, dificultando as manobras da burguesia.
Com a imposição do estado de alarme mundial, o capital deu mais um salto qualitativo nessa homogeneização. Em todos os lugares, as mesmas medidas, os mesmos sacrifícios, o mesmo ataque terrorista. A pandemia foi a cobertura adequada para tentar ocultar a generalização deste ataque capitalista contra o proletariado [6], a homogeneização brutal das nossas condições de vida a nível internacional.
Foi a luta do proletariado que desmascarou a burguesia mundial e reconheceu a pandemia como a capa para fazer a guerra contra ele, para impor as necessidades econômicas exigidas pelo capital sobre as necessidades humanas mais básicas. Os proletários em luta expressam abertamente que as mortes que o capital atribui ao COVID-19 são uma anedota ao lado do massacre diário na vida capitalista e que as condições implantadas com o estado de alarme apenas as pioraram. Se, como dizemos, no Líbano se cristalizou a primeira revolta desde a imposição do estado de alarme, sintetizando e ampliando os protestos, oposições e atentados que antes ocorriam de várias formas em todo o mundo (nas prisões, com as greves – também internacionais como as de Glovo ou Amazon –, com saques, manifestações…), sua cristalização em muitos outros lugares expressa o desenvolvimento da luta internacional de nossa classe.
Notícia publicada pelo G1 (site de notícias da Globo), disponível em: link.
Sem dúvida, o Iraque é outro lugar onde a luta assumiu níveis formidáveis. Lembremos que esta região tem sido um dos bastiões da luta nos últimos meses. Após um primeiro impasse causado pelo estado de alarme e algumas concessões do Estado (libertação de presos, investigação de abusos policiais…), os protestos recomeçaram no início de abril. Nessas datas, várias cidades da região começaram a desafiar o estado de alarme. Bagdá, Diwaniya, Bassora, Nassiruya e Kout foram algumas das cidades onde ocorreram fortes confrontos com a polícia. Logo os protestos se transformaram em revoltas por todo o território, chegando até o ponto em que haviam sido abandonadas [em 2019] antes da imposição do estado de emergência. A Praça Tahrir de Bagdá foi mais uma vez um dos centros de organização da luta na região. As tentativas de assalto à “Zona Verde” (local estratégico para a burguesia), as barricadas nos pontos de acesso à zona da ponte (al-Jumhuriyah), as pedras e os molotovs voando sobre as cabeças dos soldados e explodindo em bancos, residências dos burgueses, etc., voltou a preocupar a burguesia.
Sobreposição de imagens usando duas notícias: uma do G1, link e outra do Expresso, link.
Como lhe a preocupa que, na França, os protestos também se espalharam, especialmente nos subúrbios. Em Oise, Amiens, Yvelines, Elbeuf, Compiègne…, os proletários confrontam a polícia com barricadas, molotovs e foguetes. Em Mulhouse, a rua foi tomada depois que a tropa de choque feriu um adolescente de dezesseis anos. Como em Ile-de-France, onde a raiva explodiu porque um carro da polícia atropelou e matou um jovem de dezoito anos. Em outros lugares, como em Seine-St. Denis, se organizaram emboscadas contra os policiais e atacaram-se os símbolos do capital. Para tentar acalmar as coisas, o Estado francês decidiu retirar temporariamente a polícia dos subúrbios mais quentes.
Mas não apenas os subúrbios vivem jornadas de luta. Greves ocorrem em diversos setores e empresas (Amazon, Nancy, Deliveroo, lixões, trabalhadores da saúde…), algumas expropriações se repetem em Marselha e Lille, prisões e centros de detenção de migrantes sofrem protestos e motins, como Uzerche, em Rennes ou Correze, onde os prisioneiros destruíram e queimaram diferentes partes da prisão e escalaram o telhado.
Mesmo em Mayotte (departamento francês no Oceano Índico), onde os proletários recusam o isolamento e o confinamento e violam o toque de recolher, os policiais enviados para impor o confinamento são constantemente recebidos com barricadas e pedras. Na Bélgica, o Estado está violento nos subúrbios para conter a fúria do proletariado, especialmente após os tumultos pela morte de um jovem em um posto de controle da polícia.
Com a chegada da revolta nos Estados Unidos, a luta internacional ganhou novo vigor. O assassinato de George Floyd em 26 de maio pela polícia de Minneapolis foi a gota d'água. Como um vulcão em erupção, os proletários liberaram sua fúria contida e satisfizeram as necessidades que o capital lhes reprimia. Gritando “Eu não consigo respirar!” nossa classe ecoou as palavras de Floyd, enquanto expressava a impossibilidade de viver nas condições sociais impostas pelo capital. O que começou em Minneapolis logo se espalhou pelos Estados Unidos e além de suas fronteiras. Ataques à polícia, incêndio e assalto a várias esquadras, saques, destruição de bancos e outras entidades do capital… Símbolos e estátuas de personagens da classe dominante foram golpeados, como as estátuas de Churchill, Cristóvão Colombo, etc., destruídas ou decapitadas em várias cidades, não apenas nos Estados Unidos, mas em regiões como o Reino Unido ou a Bélgica. Nesta última, protestos e manifestações se espalharam por cidades como Bruxelas e Liège, deixando destruídos e decapitados monumentos históricos em homenagem ao rei Leopoldo II.
A revolta nos Estados Unidos adquiriu rapidamente tal magnitude que temos de recuar várias décadas para relembrar, naquele território, alguma afirmação semelhante do proletariado contra o capital. O estado teve que declarar toque de recolher em várias cidades e soldados da Guarda Nacional foram mobilizados para intervir. O número de feridos e mortos pela repressão continua aumentando, como em Atlanta, onde a polícia atirou em Rayshard Brooks pelas costas, mas os proletários, longe de recuar, respondem de forma decisiva a cada golpe do Estado.
Recorte que extraímos de uma publicação do site CrimethInc, disponível em: link.
… indo a todos os lugares
Hoje podemos dizer, apesar do fato de que em muitas regiões nossa classe ainda está atordoada e submetida a toda a paranoia de medo espalhada pelos vários aparatos do Estado, que as lutas que nós, proletários, estamos desenvolvendo de um lugar para outro estão retornando ao nível de confronto internacional que havia iniciado antes da imposição do estado de alarme mundial. O proletariado defende suas necessidades contra as do capital, opondo-se às suas medidas: enfrentando o estado de alarme, às suas medidas excepcionais, ao confinamento, aos “ajustes”, ao que a burguesia chama em algumas regiões de “novo normal” [7], etc.
Embora tenhamos desejado sublinhar alguns dos lugares onde a revolta do proletariado está sendo especialmente importante, de forma alguma queremos minimizar a forma como o proletariado está expressando a luta em outros lugares, tentando generalizar a revolta.
Por exemplo, na Venezuela ou na Colômbia, o proletariado expressa sua recusa em se sacrificar às necessidades do capital por meio da extensão de protestos, bloqueios de estradas e saques de mercados ou caminhões de alimentos, ataques a agências bancárias… No Panamá, barricadas e incêndios enfrentam o exército nas ruas. No Chile, os proletários gradualmente retomaram a luta que havia passado por um refluxo e que agora emerge por meio de distúrbios como os de Antofagasta ou Valparaíso. Na Itália, as expropriações foram reproduzidas a ponto de a polícia patrulhar os supermercados. Grupos organizados de proletários expropriam e reivindicam expropriações porque “o dinheiro para comprar acabou”. Greves também acontecem, como a recente em Whirlpool, em Nápoles. Bem como manifestações de solidariedade com os presos e contra as políticas carcerárias. Na Alemanha, protestos e manifestações contra as medidas implementadas vêm ocorrendo desde o final de março, assim como no Irã e grande parte do Oriente Médio. No Uruguai houve manifestações durante e contra o confinamento, como a grande manifestação em frente ao Palácio Legislativo, e todo tipo de resistência de vários bairros acompanhada de slogans “Eles não nos querem com saúde, nos querem escravos!”. Ou no México, onde acontecem os tumultos, depois da morte (mais uma) de Giovanni López, um jovem que um mês antes havia sido preso por não usar máscara e espancado até a morte pela polícia na cidade de Ixtlahuacán de los Membrillos. Os protestos começaram no dia 4 de junho em Jalisco e se espalharam pela capital e outras partes da região, incendiando patrulhas, delegacias, o Palácio do Governo de Guadalajara e outras manifestações na capital gritando “Ele não morreu, eles o mataram!”.
Assim poderíamos continuar, sublinhando como o proletariado procura afirmar as mesmas necessidades, os mesmos interesses, contra o mesmo inimigo, contra a mesma condição. A luta internacional do proletariado está assumindo vários níveis de cristalização e força, várias formas e lugares para se materializar. Nesta situação, e na perspectiva de consolidação e intensificação da guerra de classes, um dos aspectos fundamentais para o avanço do projeto comunista de abolição do capitalismo, do Estado, das classes sociais, do trabalho e do dinheiro, é a demolição as forças que impedem, desde o interior, o desenvolvimento da perspectiva revolucionária.
Estamos nos referindo às forças que, vestidas com falsos trajes de combate, nos desviam de nossos objetivos, conduzindo-nos por caminhos que perpetuam este mundo de morte, canalizando nossa potência. Essas forças se desenvolvem e se consolidam a partir de nossas próprias fragilidades, nos próprios limites que as lutas contêm. Criticar, denunciar e ultrapassar esses limites é condição imprescindível para a afirmação revolucionária. Este não é o lugar para aprofundar e desenvolver esses limites de modo completo que, por outro lado, vínhamos abordando para vários camaradas e minorias revolucionárias nos últimos anos, expressando-os em numerosos materiais, mas acreditamos ser necessário fazer uma breve referência a alguns dos que ostentam um papel de protagonismo na atualidade.
Alguns limites das lutas atuais
Se por um lado queremos divulgar a luta que os porta-vozes do capital tentam esconder por todos os meios [8], também queremos destacar algumas das fragilidades que esta contém. O objetivo não é outro senão fortalecer a direção revolucionária que contém nossa luta, defender a autonomia de classe em relação a todas as tentativas de enquadramento, divisão e frentismo. Só levando as lutas em curso às últimas consequências, derrubando todos os elementos de contenção, não só os mais evidentes, como a ação repressiva do Estado, mas os mais sibilinos e perigosos, como as ideologias que possibilitam o enquadramento e a neutralização burguesa, podemos avançar para a destruição do capitalismo.
A presença de ideologias fragmentadoras, que enfocam os problemas sociais como aspectos parciais que podem ser resolvidos independentemente da totalidade que os gera e os necessita, criando movimentos específicos para enfrentá-los, continua sendo um dos fardos do proletariado. Ao inclinar a luta para aspectos parciais, todas essas ideologias são um suporte para o capitalismo ao afastar a luta da raiz do problema. Anti-racismo, feminismo ou ambientalismo são algumas das ideologias fragmentadoras mais importantes. Todos eles movem a luta para questões interclassistas. No entanto, para muitos proletários, esses movimentos representam uma luta e um sentimento comum, seja contra o racismo, contra o sexismo ou contra a destruição do planeta. Porque partem de um problema concretamente existente, mas de forma isolada, sem entender que é o capital que organiza e gerencia essas questões. Embora o machismo, o racismo ou a destruição de uma floresta não sejam o objetivo [declarado] de nenhum burguês, são elementos inerentes à taxa de lucro e, portanto, necessários para o capital e para os burgueses como um todo [9].
A falta de demarcação de classe foi e é um problema para superar o atual estado de coisas e também para deixar para trás esses movimentos fragmentadores e reformistas que só veem no Capital, no máximo, um problema igual aos outros. Portanto, não é necessário somar a crítica anticapitalista a essas parcializações, não se trata de unir os separados, mas de perceber a dimensão total da sociedade capitalista em que vivemos.
Quando criticarmos esta ou aquela ideologia, haverá muitos camaradas que se sentirão atacados, que não entendem que o que estamos atacando é toda uma concepção alienante da luta. Em sua própria luta, o proletariado expressa suas próprias fraquezas por meio dessas questões ideológicas, interclassistas e imediatistas. Mas dessa mesma luta ele tira lições e diretrizes, das quais nossa crítica é apenas uma expressão. É o processo pelo qual o proletariado é delimitado de seu inimigo histórico e das ideologias que a própria vida capitalista afirma, é seu processo de constituição em classe.
Claro que a força dessas ideologias não se verifica no nível individual, mas no próprio movimento. Os proletários que lutam contra o capital são eles próprios movidos pelas suas próprias condições materiais e, na maioria dos casos, prisioneiros de várias ideologias. O decisivo na luta é se essas ideologias acabam dominando e canalizando o movimento ou são derrubadas em seu próprio desenvolvimento.
Nos Estados Unidos, temos sofrido essa ideologia fragmentadora na forma de anti-racismo, tentando liderar a luta em direção a uma questão racial. Mas qualquer questionamento do racismo que não ataca a base do capital só leva ao seu reforço, porque o racismo não pode ser combatido – nem podemos entender como ele funciona – se não partirmos de uma crítica profunda ao capital. O proletariado nos Estados Unidos abalou essa ideologia quando proletários de todas as raças saíram às ruas para questionar o capital, para impor suas necessidades, para dizer ao capital que não se pode respirar sob suas botas. No entanto, a força dessa ideologia ainda está presente.
Tentativas de repolarização burguesa
A burguesia sempre procura enquadrar a luta do proletariado em dois campos que só aspiram a objetivos burgueses e reformistas. Não serve apenas a esta ou aquela fração torcer a luta do proletariado em favor de seus interesses particulares, mas também ao capital em geral para neutralizar a luta revolucionária. O gancho por excelência sempre foi o falso dilema fascismo-antifascismo. A região espanhola dos anos trinta do século passado nos deu a lição mais clara dessa polarização quando o proletariado revolucionário, que questionava todas as formas adotadas pelo Estado, foi finalmente espartilhado nessa dicotomia complicada, e crivado entre (e por) ambos os lados. A chamada Segunda Guerra Mundial foi o corolário desse enquadramento, dinamizando o capital com o sacrifício da vida de milhões de proletários. Hoje, nos Estados Unidos, o Estado tenta mais uma vez canalizar a luta sob esses rótulos, definindo a “Antifa” como uma organização terrorista. Tenta enquadrar os manifestantes nesta velha polarização em trajes modernos, enquanto os criminaliza. Embora o nome “Antifa” não se refira a nenhuma organização formal específica e o antifascismo como movimento é atualmente uma expressão parcial e minoritária dos proletários em luta, não podemos deixar de apontar esta tentativa de enquadramento do Estado burguês.
Mas a polarização que se constitui com maior influência no horizonte, empurrada pela burguesia de todos os países, é a luta entre as frações do capital que estão se exacerbando, com a guerra comercial em segundo plano, principalmente entre o Estado estadunidense e China. Tenta-se enquadrar o proletariado em um dos campos burgueses: os estados chinês e russo se definem contra o poder dos financistas ocidentais; Os Estados ocidentais denunciam a China como o criador do coronavírus, etc.
Trata-se de fazer-nos acreditar, por um lado, que a produção material capitalista se realiza para as nossas necessidades e que deve ser defendida do parasitismo das finanças que a oprime, dos bancos, da elite, do 1%; de outro, tentam nos vender que a produção material de nossas necessidades precisa de dinheiro das finanças, que o dinheiro é uma ferramenta que pode ser usada para as necessidades humanas. Mas os dois lados são meras alternâncias burguesas. Ambas as frações (que, por outro lado, estão interconectadas) nada mais são do que duas expressões do capital, duas formas sob as quais o capital transita em sua existência.
Temos certeza de que o capital não é apenas o banco ou o dinheiro, Rockefeller ou Bill Gates, da mesma forma que não é apenas a fábrica, a empresa ou a mercadoria, o chefão ou o pequeno. Acreditando que algumas de suas expressões, por mais centrais que possam ser em certas situações ou por mais poder e pressão que possam exercer sobre outras, são a personificação exclusiva do capital, nos tira do terreno revolucionário ao considerar que o capitalismo seria suprimido simplesmente pela eliminação dos patrões, ou das “grandes famílias” ou mesmo de toda a atual elite financeira global. Claro, devemos enfrentá-los todos, mas seu poder social vem do Capital, que é uma relação social, ainda mais, um sujeito que domina e engloba toda a atividade humana e se materializa e personifica de múltiplas formas e níveis. Por isso, o comunismo é um movimento de transformação social, de supressão e superação das condições existentes.
Perspectiva e necessidade de estruturação internacional
Na situação atual que sofremos e que o capital nos preparou, e na que está por vir, um dos grandes limites que temos é a fragilidade para estruturar e centralizar o combate internacionalmente, organizando e estendendo as associações proletárias e, sobretudo, organizando o poder da revolução que tem que se opor e quebrar o poder do capital. Este aspecto central da luta proletária já supõe, agora mais do que nunca, nossa maior necessidade e sua afirmação contém a cristalização de nosso poder revolucionário.
O capital está se organizando, se estruturando, não apenas para obter o máximo de benefício extraindo até a última gota de fôlego de nossas vidas, mas também preparando os mecanismos legais, policiais, sociais, etc., para reprimir nossa raiva e nossas lutas. A ditadura democrática do capital se apresenta hoje com uma transparência extraordinária que mostra, mais uma vez, as críticas que nós revolucionários sempre fizemos e aprofundamos [10].
A única alternativa ao presente e ao futuro que a burguesia nos oferece é a resposta internacional e revolucionária que o proletariado tenta concretizar, mas que precisa se afirmar como força unitária organizada que se opõe ao poder burguês.
Apesar das diferenças existentes em nossa comunidade de luta, apesar da heterogeneidade existente em vários aspectos da luta, a base de nossas ações é a luta contra as condições impostas pelo capital, contra o estado de alarme, contra as necessidades de sua economia, de seus bancos, das suas empresas… É nesta área que as várias heterogeneidades podem e devem ser tratadas, discutidas, confrontadas. E é aí, no confronto com a ordem existente, onde o proletariado extrai sua unidade, onde a comunidade de luta tem o ecossistema a partir do qual se desenvolve e se fortalece. Existem muitas formas de expressar posições de classe, e também diferentes formas de perceber os momentos históricos e o nosso papel neles, mas, como sempre, o fundamental e do qual partimos para a organização é o que fazemos, é a prática que levamos adiante. Partimos da luta contra as condições a que nos submetem, contra as medidas do Estado repressor e sugador, partimos da negação, do confronto direto com o Capital.
Hoje podemos ver um exemplo claro de tudo isso na luta que o proletariado está cristalizando contra o estado de alarme mundial e as diferenças em torno da importância dada ao vírus entre as distintas expressões que lutam. Vemos expressões da nossa classe em luta que evidenciam os dados que o Estado nos dá e denunciam que é um aspecto central da catástrofe capitalista e do agravamento das nossas condições materiais – dando também muita relevância à origem do vírus –, mas isso não os leva a negar o verdadeiro objeto que determina o estado de alarme [11]. Vemos outras expressões que denunciam que tudo isso é um exagero do Estado [12] para impor uma nova volta do parafuso do capital, que o eixo deve ser colocado sobre as medidas que são protegidas após a declaração da pandemia e não sobre a própria pandemia. Mas para além das diferenças, o importante é que as posições se elevem da luta, das necessidades, da oposição ao capital, do confronto ao estado de alarme, ao confinamento e a todas as medidas do capital. Porque é necessário assumir que o estado de alarme (reclusão e outras medidas) é um estado de guerra contra o proletariado. Independentemente dessas diferenças, essas expressões entendem, mais ou menos claramente, que tudo o que os Estados reuniram é para as necessidades da valorização e deve ser combatido.
Portanto, nos encontramos juntos lutando na rua, conspirando, rompendo o confinamento, desobedecendo, discutindo, questionando as necessidades da economia e tentando impor as humanas. É neste terreno que o proletariado sempre organizou e desenvolveu a sua luta, mas também as polêmicas e discussões necessárias. Como estamos tentando fazer hoje, apesar das muitas dificuldades que existem. É neste terreno que o proletariado mais uma vez lança as bases para se afirmar como classe revolucionária a nível internacional. Sejamos coerentes com isso e vamos impulsionar em todos os níveis a estruturação internacional do proletariado para abolir este velho mundo.
LUTAS EM TODA PARTE… QUE ESSA SEJA A NOVA NORMALIDADE!
CONTRA O ESTADO DE ALARME, CONTRA O CONFINAMENTO, CONTRA A NOVA NORMALIDADE, CONTRA O CAPITAL E O ESTADO.
[2] – Sob o rótulo de estado de alarme, emergência, etc. referimo-nos, evidentemente, a todas as medidas implantadas pelo Estado: reclusão, demissões, reajustes, despejos, terror médico e científico, máscaras, vacinas, multas, prisões, tiroteios, desaparecimentos, prisões, injeções de capital…
[3] – Queremos especificar que o termo “pandemia” já é uma armadilha. Faz parte da linguagem científica e se baseia em assumir um aspecto biológico, como a existência de um vírus, como fator essencial de uma doença. A ciência, a partir de sua lógica de separação, vê o vírus como uma ameaça ao homem, aos animais e ao ambiente. Sua compreensão do mundo, que parte da racionalidade capitalista, não pode perceber o ecossistema como um todo orgânico, mas como seres isolados que agem por conta própria. Mas um vírus estudado em laboratório não tem nada a ver com o mesmo vírus nesta ou naquela cidade. Um vírus se desenvolvendo e coexistindo como uma parte equilibrada de uma sociedade nada tem a ver com o que aquele vírus faria em outro lugar, em outra sociedade… Sob a lupa científica, elementos muito mais decisivos que o vírus são borrados, como a maneira como os seres humanos vivem e interagem. Tendo isso em mente, em nossos materiais usamos o termo pandemia de forma intercambiável com ou sem aspas, com ou sem nuance. Não se trata de entrar no campo científico para discutir o uso correto dessa terminologia, questionando os critérios científicos usados para definir algo como uma pandemia, mas entender que o próprio termo é uma interpretação burguesa da realidade. Na história, essa terminologia tem sido usada para atribuir responsabilidade exclusiva a um vírus deste ou daquele mal que afligia a humanidade, escondendo os verdadeiros fatores decisivos.
[4] – O Estado libanês oficializou apenas 30 mortes associadas ao COVID-19, um fato que também deixa claro o quão insustentável é justificar todas as medidas de alarme terrorista em alguns lugares sob o pretexto da pandemia.
[5] – Lembremo-nos que o Líbano já foi um dos lugares onde a revolta proletária do outono de 2019 agiu com mais força. A revolta se opôs tanto ao Hezbollah, que veio para reprimir-lhes, quanto à canalização militar e religiosa que o proletariado da região vem sofrendo há décadas.
[6] – Existem estados, como as Filipinas, que dificilmente mantêm as aparências. Nesse Estado acaba de ser aprovada uma lei antiterrorista em que qualquer pessoa com uma simples suspeita, por parte de uma autoridade policial ou militar, de estar envolvida em atividades terroristas pode ser detida por dois meses sem mandado de prisão e pode ser monitorada por mais dois meses ao nível digital e telefônico, o que significa que qualquer dispositivo ligado à Internet, como um telefone, um computador, etc… serão inspecionados. A formulação jurídica é de tal magnitude que tudo o que os suspeitos fizerem pode ser considerado “ato terrorista” e estará sujeito aos meios e formas extrajudiciais do Estado.
[7] – Como se alguma vez tivéssemos abandonado a normalidade capitalista pela irrupção do estado de alarme, quando na realidade não vivemos mais do que uma reviravolta da ditadura da economia contra nossas vidas. Por sua vez, o “novo normal” representa o consequente desenvolvimento do estado de alarme que, longe de melhorar as condições materiais de vida, é o resultado direto de tudo o que a guerra contra o coronavírus está implicando. Em outras palavras, condições materiais de sobrevivência ainda piores para os proletários de todo o mundo. Tudo se apresenta como o lógico desenvolvimento capitalista da “velha normalidade” que almeja a ideologia do mal menor, apresentando-se como realidades para escolher o que nada mais é do que momentos da mesma existência miserável.
[8] – O encobrimento da nossa luta pela mídia não consiste apenas em tentar não mencionar esta ou aquela revolta, mas também consiste, principalmente quando essa revolta ou protesto não pode ser ignorado por sua repercussão, em distorcê-la, fragmentá-la, encobrir sua raiz comum.
[9] – A escravidão e o tráfico de escravos visam o lucro, mas o racismo é um elemento inerente à sua materialização. A destruição do planeta também não é um objetivo em si, mas a maximização do lucro só pode ser alcançada por esse meio. O sexismo também não é um objetivo em si, mas sim a forma como o capital consegue se reproduzir com eficácia. O fato de todas essas realidades se desenvolverem como aspectos da vida do capital obviamente implica que elas se materializem, se expandam e se expressem em todas as relações humanas de maneiras muito diferentes. O crucial é que a crítica não permaneça apenas em algumas dessas materializações, mas que alcance a fonte, a raiz, que seja radical.
[10] – A democracia não é uma forma política, é o modo de vida típico do mundo mercantil generalizado e sua essência é a ditadura do capital, independentemente de se cristalizar no plano político como governo militar, república, monarquia, etc. Recomendamos a leitura do livro “Contra a Democracia” de Miriam Qarmat.
[11] – Ou seja, fazem parte da verdadeira comunidade de luta que peleia contra o capital, contra o Estado, contra suas medidas. Queremos esclarecer este ponto porque nos opomos e denunciamos todos aqueles pseudo-revolucionários que não só reproduzem em seu ser o pânico que o Estado semeia, mas também colaboram com ele ou dão apoio crítico, difundindo o terror do Estado e favorecendo a repressão. Alegando comunismo ou anarquia, esses pseudo-revolucionários seguem à risca os ditames do Estado, defendem o confinamento e outras medidas de controle, olhando para os proletários que se recusam a se submeter, se posicionando contra quem se reúne para lutar, taxando de suspeitos aqueles que desobedecem ao Estado.
[12] – O que mostra nossa incapacidade de corroborar ou refutar essas perguntas e mostra como nossas vidas estão ficando fora de controle.