terça-feira, 4 de maio de 2021

Bernhard Brosius – De Çayönü a Çatalhöyük: emergência e desenvolvimento de uma sociedade igualitária (2004)

Desenho representando a estrutura das edificações de Çatalhöyük (extraído de: link).

Traduzimos um importante texto sobre a história do “comunismo neolítico” na Anatólia, escrito por Bernhard Brosius e publicado no site: Ancient Communism: Utopia – legacy of a distant past. Este texto também foi publicado em uma forma ligeiramente modificada sob o título “Vergessene Welt” em Inprekorr, 400/401, 24-29, 2005 (link). Não obtivemos acesso à sua versão modificada, então nos baseamos integralmente na primeira versão, de 2004.

Gostaríamos de lembrar aqui a tradução que já fizemos dos textos do antigo “Nuevo Curso” e atualmente “Communia”, sobre o que eles chamam de “comunismo primitivo” e a história que “não nos contaram” acerca desse antigo modo de produção. Eis, respectivamente, os links da primeira e segunda parte: O comunismo primitivo não foi o que te contaram, As cidades do comunismo primitivo.

Também indicamos alguns vídeos sobre o assunto (em que é possível ativar a tradução automática de legendas pelo YouTube): La primera ciudad de la Historia: Çatalhöyük (2020); What we learned from 25 Years of Research at Catalhoyuk (2020). O primeiro é uma ótima introdução para qualquer público interessado no tema, o segundo é um resumo dos trabalhos da equipe de pesquisa liderada por Ian Hodder sobre o sítio arqueológico.

Curiosidade: adicionamos na capa do blog um símbolo que é, na verdade, um selo encontrado em Çatalhöyük. Durante o 7º e 6º milênio a.C., as pessoas usavam carimbos para decorar seus corpos com padrões geométricos coloridos. Desta forma, eles se adornavam antes de grandes ocasiões cerimoniais. Estas festas, com música, dança e fartura de comida, constituíram um elemento essencial para a coesão social. Assim, nos apropriamos desse selo como símbolo do comunismo neolítico.


Observação: as notas do texto estão indicadas e numeradas entre colchetes. Elas se encontram ao final do texto.

***


A descoberta da civilização inicial da Anatólia


Em 1958, enquanto explorava o sul da Anatólia, o arqueólogo britânico James Mellaart descobriu um monte que consiste em níveis de assentamento do período neolítico. Isso o fascinou, porque era o sítio arqueológico do neolítico mais extenso conhecido no Oriente Próximo. Uma vez que este monte está situado em uma bifurcação, é chamado de “monte na bifurcação”: Çatalhöyük (do turco “çatal” = “garfo”, “höyük” = “moledro”) (figura 1). Em 1961, Mellaart iniciou as escavações que duraram até 1965 (com uma pausa em 1964). Em 1993, as investigações foram retomadas. As novas escavações, sob a direção do arqueólogo britânico Ian Hodder, foram projetadas por 25 anos e estão entre os maiores projetos arqueológicos de nosso tempo (Balter, 1998: 1442/2).

O monte consiste em doze níveis de construção de uma cidade neolítica habitada desde 7300 a.C. até 6100 a.C., ou seja, 1200 anos sem interrupção [1]. De acordo com as estimativas atuais, cerca de 10.000 pessoas viviam juntas em Çatalhöyük (Hodder 1998: 8/1). O assentamento não foi destruído nem saqueado. Um grande número de achados bem preservados aguardava Mellaart e Hodder.

Embora Mellaart tenha sido o primeiro a descobrir uma cidade neolítica, ele não descobriu o mais antigo e “primeiro” desses assentamentos. Quanto mais os arqueólogos foram para o leste da Anatólia durante as décadas seguintes, mais velhos se tornaram os centros culturais que encontraram (figura 1). Ainda em 1990, Hallan Çemi foi descoberto como o (agora conhecido) assentamento mais antigo de pessoas permanentemente assentadas (Rosenberg 1999, Rosenberg e Redding 2000). Hallan Çemi foi fundado em 10.200 a.C.!

Figura 1: Mapa exibindo os centros das primeiras civilizações da Anatólia e as datas em que foram fundadas.

Agora vamos fazer uma pequena pausa aqui para examinar esses dados em ordem cronológica: por volta de 11.000 a.C., ainda havia paredes de cavernas sendo pintadas nos Pireneus, 800 anos antes da fundação de Hallan Çemi (Lorblanchet, 1997: 268). 800 anos após a fundação de Hallan Çemi, por volta de 9700 a.C., a Idade do Gelo terminou (Caspers et al., 1999: 93). Se Hallan Çemi, na Anatólia oriental, representa o início de uma época, Beycesultan, fundada em 4600 a.C., situada mais a oeste, representa o seu fim (Mellaart, 1998: 61). Por volta de 4000 a.C., as classes exploradoras começam a se estabelecer e em 3000 a.C. finalmente chegam ao poder. O desenvolvimento de armas de metal, um sistema de escrita e uma autoridade governante constituíram os mecanismos de opressão mais eficazes disponíveis para a emergente classe dominante exploradora. Beycesultan, semelhante a Troya, torna-se a capital de um renomado vice-reino dos hititas (Lloyd ,1974: 211). Aqui fazemos a conexão com a história.

As antigas civilizações da Anatólia abrangem espaço-temporalmente desde o final da Idade do Gelo (no leste), por um lado, até o início da história (no oeste), por outro. Os 6.000 anos intermediários compreendem exatamente a idade do Neolítico, ou seja, a última fase da Idade da Pedra, quando as pessoas ainda não produziam suas ferramentas de metal, mas já viviam uma vida estável e praticavam a agricultura e a pecuária.

O Neolítico começa com a “Revolução Neolítica”. Portanto, vamos também começar nossa jornada ao passado com a revolução neolítica em um local chamado Çayönü, bem no leste da Anatólia (figura 1), há 10.000 anos. No Leste da Anatólia, encontramos as raízes de Çatalhöyük (Voigt, 2000), a antiga civilização da Anatólia e o comunismo da Anatólia (Özdoğan, 1997).

A revolução social


O termo “Revolução Neolítica” foi cunhado em 1936 pelo arqueólogo marxista Vere Gordon Childe (Patterson, 2003: 44). O objetivo era descrever a transição da sociedade de coleta nômade para um modo de vida estabelecido no que tange à produção de alimentos. O termo é formado como uma analogia à “Revolução Industrial”, uma revolução apenas das forças produtivas (Grünert, 1982: 167-169). No entanto, há alguns anos tornou-se evidente que a revolução das forças produtivas acabou sendo uma verdadeira revolução social, uma transformação revolucionária de todas as condições sociais.

Em Çayönü, na Anatólia Oriental (figura 1), as várias fases da revolução neolítica podem ser claramente rastreadas ao longo da sucessão de níveis de construção. Embora nenhuma das inovações básicas, como construção de casas, agricultura e pecuária, tenham se originado na própria Çayönü, a ordem temporal em que as novas técnicas chegaram a Çayönü correspondem exatamente à ordem em que originalmente se desenvolveram, embora em outro local (Özdoğan, 1997: 12; 1999b: 226-227). As camadas mais baixas (8.800 – 8.500 a.C.) testemunham um modo de vida permanentemente estabelecido com base na caça e na coleta (Özdoğan, 1999a: 42-44); na camada acima (cerca de 8000 a.C.) as primeiras sementes (importadas) são encontradas (Özdoğan, 1994: 40/1); a próxima camada superior documenta a chegada do primeiro rebanho de ovelhas por volta de 7300 a.C. (Cambel e Braidwood, 1983: 164). Com a prática da pecuária, completam-se as três inovações básicas da primeira fase da revolução neolítica das forças produtivas [2].

Esse progresso técnico, no entanto, ocorre em uma sociedade destrutiva, patriarcal e hierárquica de enorme crueldade. Além das casas de habitação e os armazens, em cada um dos níveis de edificação de Çayönü acima mencionados existia um “edifício especial”, de forma retangular, medindo 8x12 m2, sem janelas, escavado numa encosta que delimitava o povoado a nascente (Schirmer, 1990: 378). Em frente a este templo (Özdoğan, 2002: 254), havia um espaço retangular de 1.500 m², flanqueado por monólitos de até 2 m de altura (Cambel e Braidwood, 1983: 162) – em suma, um complexo de monumentalidade intimidante.

Ao norte, este espaço era terminado por três grandes casas senhoriais com frentes, alinhamento e distância entre si idênticas. Essas casas ficavam em uma plataforma elevada sobre fundações maciças feitas de grandes blocos talhados e tinham paredes de pedra cuidadosamente construídas, uma varanda e escadas de pedra. Nessas três casas concentrava-se a riqueza da sociedade: grandes blocos de cristais, esculturas de pedra, conchas do Mar Mediterrâneo e do Mar Vermelho (!) (Özdoğan, 1994: 44), bem como armas importadas de alta qualidade.

Na parte oeste do assentamento, as casas tinham apenas metade do tamanho, eram de qualidade claramente inferior, sem quaisquer características adicionais e não foram construídas de acordo com uma planta padronizada. Apenas as poucas ferramentas necessárias para a vida diária foram encontradas lá.

Se a distribuição desigual de riqueza e poder já se torna evidente apenas ao olhar para a arquitetura e os tesouros descobertos, a existência de propriedade privada dos meios de produção pode ser comprovada diretamente por um achado extraordinário: Todos os recursos necessários para produzir ferramentas que tiveram que ser transportadas de locais distantes por meio de um sistema de comércio de longa distância – pederneira e obsidiana – foram encontrados exclusivamente nas casas situadas perto do templo. Lá eles foram armazenados em blocos de até 5 quilos. (Lembre-se de que as ferramentas acabadas não pesavam mais do que 4 gramas!). O que não foi encontrado, porém, foi esterco de pedras lascadas – nenhum vestígio de atividade produtiva. A situação nas favelas do oeste era exatamente o oposto. Aqui nenhum recurso foi encontrado, mas nas ruas havia restos de oficinas do lascamento de sílex e obsidiana. Ou seja, havia um pequeno grupo de pessoas que possuíam sem trabalhar e um grande grupo de pessoas que trabalhavam sem possuir – em outras palavras, haviam classes sociais. Esses fatos são apresentados de forma condensada por Mehmet e Aslı Özdoğan (1989: 72-74), bem como por Davis (1998), este último quase em uma forma de análise de classe.

É característico que a mais antiga de todas as sociedades de classes conhecidas se apresentem a nós como uma sociedade patriarcal (Hauptmann, 1991: 161/3; 2002: 266-267; Özdoğan, 1999b: 234/2) de destrutividade amarga: os templos sombrios cavados para a montanha como cavernas serviam para manter o poder em uma sociedade que era obviamente rigidamente organizada (Özdoğan, 1994: 43; 1999b: 231) por meio do terror aberto: sacrifícios humanos. Nos templos de todos os níveis de edifícios, enormes quantidades de sangue foram derramadas, que os escavadores recuperaram em espessas crostas em adagas, altares ou funis de drenagem projetados especificamente para esse fim (Schirmer, 1983: 466-467 e nota de rodapé 5; ver também 475; Schirmer, 1990: 382, 384; Hole, 2000: 200-201). A análise da hemoglobina do pigmento sanguíneo isolada revelou que geralmente era sangue humano (Loy e Wood, 1989; Wood 1998). Nas câmaras de um desses templos, havia os crânios de mais de 70 pessoas e partes de esqueletos de mais de 400 indivíduos diferentes (Özdoğan e Özdoğan, 1989: 71/2) “cuidadosamente empilhados até o teto” (Schirmer, 1990: 382). A situação nos outros assentamentos da Anatólia Oriental era comparável [3].

No entanto, enquanto em outras partes do globo o desenvolvimento desse tipo de sociedade de classes avançou (cf. paralelos com as civilizações centro-americanas), a história no sudeste da Anatólia deu uma guinada completamente diferente. Certo dia, há 9200 anos, as casas senhoriais do lado norte da grande praça de Çayönü foram incendiadas, e isso aconteceu tão rápido que os proprietários não conseguiram salvar nenhum de seus tesouros (Davis, 1998: 259/2, 260/2). O templo foi demolido e queimado, e até o chão foi rasgado (Schirmer, 1983: 467; 1990: 384), os pilares de pedra ao redor do espaço livre foram removidos e o mais alto deles foi quebrado (Özdoğan e Özdoğan, 1989: 74; Özdoğan, 1999a: fig. 41, fig. 42). O próprio local – anteriormente mantido e gerido meticulosamente limpo por mais de 1000 anos – foi convertido em um depósito de lixo municipal (Özdoğan e Özdoğan, 1989: 72/1; Özdoğan, 1997: 15). Após uma curta transição caótica, todas as casas foram demolidas. As favelas no oeste desapareceram para sempre, mas apenas a alguns passos do local onde as ruínas das casas senhoriais queimaram um novo Çayönü foi erguido. As novas casas eram comparáveis em tamanho às antigas mansões (Schirmer, 1988: 148-149), mas não havia mais casas ou barracos construídos com um padrão inferior (ver sequência de plantas em Özdoğan, 1999a: fig. 35, fig. 46, fig. 47). Em todas as casas, o trabalho foi feito em comum (Özdoğan, 1999a: 53/1) e todos os indícios de diferenças sociais foram apagados (Özdoğan, 1999a: fig. 47, fig. 50; ver também Schirmer, 1988: 148-149).

Depois que essas descobertas foram documentadas em 1989, o supervisor das escavações de Çayönü, Mehmet Özdoğan, poderia excluir a invasão de povos estrangeiros, guerras, pragas e desastres naturais e, em 1997, ele concluiu que a causa dessa mudança deve ter sido uma revolta social (Özdoğan, 1997: 13-17, 33; confirmado em Özdoğan, 1999b: 232/2; Özdoğan, 2000: 167 e nota de rodapé 7).

Não só os revolucionários daqueles tempos remotos conseguiram derrubar um regime de milhares de anos, sangrento e explorador – além disso, eles também conseguiram desenvolver sua própria sociedade alternativa, concebendo e realizando-a. A revolução social do ano 7200 a.C. é a hora do nascimento do comunismo neolítico. Surge uma sociedade igualitária e sem classes em que mulheres e homens são iguais, uma sociedade que rapidamente se espalha por toda a Anatólia e quase simultaneamente pelos Bálcãs e que perdurará por 3.000 anos [4].

Çatalhöyük


Daqui em diante, nos restringiremos ao estabelecimento de Çatalhöyük para analisar a sociedade sem classes – não que o tipo de sociedade de Çatalhöyük represente uma exceção [5], mas porque o contexto arqueológico o faz.

Como indicado acima, Çatalhöyük possui uma quantidade surpreendente de achados e edifícios notavelmente bem preservados (Düring, 2001: 1). A conservação de materiais perecíveis é especialmente notável, uma vez que nenhum local comparável de descoberta exibe tais materiais. Um incêndio na história da cidade fez com que o solo na camada inferior se tornasse estéril até pelo menos 1 m de profundidade e todos os materiais orgânicos se carbonizassem no processo (Mellaart, 1967: 210). Assim, produtos de matéria orgânica foram preservados na forma carbonizada e conhecemos os padrões de tecelagem dos tecidos (Burnham, 1965), roupas, artefatos de couro e peles, cestos de cana e esteiras (Mellaart, 1967: 79, 218-220), alimentos carbonizados (Mellaart, 1967: 22-23), bem como talheres de madeira, móveis de madeira, caixas com seu conteúdo, etc. (Mellaart, 1967: 210, 215; Burnham, 1965). Além disso, as pessoas em Çatalhöyük geralmente pintavam quadros em duas paredes de suas casas para documentar aspectos de suas vidas e experiências (Gimbutas, 1990). Enterravam os falecidos sob o chão de suas casas com sepulturas características para que, de certa forma, pudéssemos conhecer pessoalmente os habitantes do assentamento, inclusive seu destino, tanto quanto se pode ler nos esqueletos: idade de morte, sexo, número de nascimentos, doenças, acidentes etc., bem como informações estatísticas deduzidas desses dados, como mortalidade infantil, expectativa de vida, etc. (Angel, 1971; Hamilton, 1996: 242-262). Novos métodos permitem analisar microelementos nos dentes (Molleson e Andrews, 1996) e analisar o colágeno nos ossos (Richards et al., 2003) e, assim, fornecer informações sobre o que as pessoas comeram nos últimos anos antes de sua morte.

Em poucas palavras: sabemos mais sobre a Çatalhöyük pré-histórica do que sobre muitas civilizações históricas que estão mais próximas de nós no tempo.

Mas como sabemos que esta sociedade não tinha classes?

Geralmente, existem três critérios, mesmo quatro no caso de Çatalhöyük, que devem ser analisados em conjunto:

  1. Arquitetura: Nas sociedades de classes, a arquitetura projetada para viver e governar os membros da classe dominante difere consideravelmente da arquitetura projetada para viver e trabalhar os da classe explorada, não apenas em termos de quantidade (de espaço vital), mas também em termos de qualidade (da estrutura). Nunca foi difícil para um arqueólogo no Egito diferenciar entre o palácio de um faraó e a residência de uma família de camponeses.
  2. Bens fúnebres: Se é comum em uma sociedade enterrar bens fúnebres com o falecido, é possível deduzir diferentes classes sociais desses bens fúnebres quando diferem substancialmente em qualidade. O mesmo se aplica a:
  3. Equipamentos com bens de consumo: Em ambos os casos, deixe-me citar o exemplo do faraó e da família de camponeses novamente para fins ilustrativos. É importante, entretanto, que tanto no que diz respeito aos bens mortais quanto aos equipamentos com bens de consumo, as diferenças graduais não apresentam um critério para as diferentes classes sociais. Uma peça proeminente em uma sepultura normal, certas diferenças de qualidade entre bens de consumo ou objetos funerários que são um pouco mais ricos ou um pouco mais pobres são típicas das classes mais baixas e já podem ser detectadas em famílias rurais e proletárias do Egito Antigo (Childe, 1952: 61-62).

Arquitetura, objetos funerários e equipamentos com bens de consumo: todos estes estão excepcionalmente bem preservados em Çatalhöyük e lançam uma luz sobre a estrutura sem classes desta sociedade. Além disso, outro critério desempenha um papel:

Lawrence Angel, que analisou os esqueletos recuperados, também procurou o abrasão dos ossos e em todos os esqueletos dos trabalhadores encontrou indícios de trabalho físico duro (Angel, 1971: 90-92; sobre as novas descobertas confirmadas por Hodder, 2004: 39). Angel escreveu: “Estas são adaptações impressionantes, mas esperáveis em um povo tão ativo quanto os afrescos de Çatal Hüyük” (Angel, 1971: 92) e concluiu: “O preço pela criatividade e estabilidade relativa … foi um trabalho árduo da parte de todos” (Angel, 1971: 96). Em contraste, nas sociedades de classes, como é geralmente conhecido, os possuidores não trabalham, então os membros da classe dominante podem apresentar doenças de riqueza, mas nenhum abrasão dos ossos gerado pelo trabalho físico duro.

Sociedade sem classes


A chave para compreender a estrutura da sociedade de Çatalhöyük, no entanto, é sua arquitetura.

As casas em Çatalhöyük ficavam de parede a parede, sem nenhum espaço entre elas, embora cada casa tivesse suas próprias paredes e um telhado plano. A cidade se espalhava em terraços ao longo do monte (figura 2) e havia poucos pátios situados no meio dessa “estrutura em favo de mel” (Mellaart, 1967: 54-59).

Figura 2: Desenho da localização de Catal Höyük.

O acesso a essas casas só era possível por meio de coberturas cruzadas. Em cada telhado, havia uma escada que permitia às pessoas que moravam no interior do assentamento subir de telhado em telhado em direção à sua própria casa. Nas coberturas, havia uma abertura protegida por uma tampa. Aqui estava a escada que descia para dentro da casa (ver figura 3) (Mellaart, 1967: 56-58).

No meio da selva, os telhados de Çatalhöyük formaram uma paisagem artificial criada por homens (figura 2) que agora passou a ser considerada uma conquista cultural independente (Lewis-Williams, 2004: 32). Nesses telhados haviam contêineres de armazenamento, lareiras e oficinas (figura 3). Os telhados eram o espaço real de produção e comunicação e não tinham caráter privado (Düring, 2002: 11/2). Torna-se claro que a vida em Çatalhöyük deve ter sido regulada por uma abundância de acordos mútuos: não só era necessário que todos os alimentos fossem transportados pelos telhados – cada cueiro usado significava uma descida adicional de todos os telhados até o rio (figura 2). Material de construção para novos edifícios, bem como argila e água para o reboco anual das paredes internas das casas: tudo tinha de ser transportado pelas escadas e telhados de outras famílias (Mellaart, 1967: 49-50). Os achados de dois telhados desabados que caíram nas casas mostram que os telhados não eram infinitamente estáveis (Hodder, 1998: 8/2; 2003: 11/1). Catástrofes só poderiam ser evitadas por uma rede complexa de acordos vinculativos (Martin e Russell, 2000: 68), práticas que se tornaram rotineiras (Hodder, 1998: 9/1), cujos vestígios físicos hoje em dia devem aparecer como indicações de rituais (Hodder, 1998: 10/2; Lewis-Williams, 2004: 56).

Figura 3: Desenho da localização do bairro em Çatalhöyük.

A planta de todas as casas era retangular e na parede sul – onde a escada descia do telhado para a casa – ficava a ala da cozinha com forno e lareira. Nas paredes opostas, no norte e no leste, havia plataformas de tijolos onde as pessoas podiam sentar, comer e dormir (figura 4) (Mellaart, 1967: 56-60). Essas plataformas pertenciam a um adulto (possivelmente com um bebê) ou a duas crianças. Abaixo dessas plataformas, os mortos foram enterrados. As paredes acima foram embelezadas com pinturas ou relevos. A parte central quadrada entre a ala da cozinha e as plataformas era coberta por uma esteira entrançada e, semelhante aos telhados, servia como local de trabalho, como mostra o monturo encontrado (Martin e Russell, 2000: 61-62).

Na verdade, em Çatalhöyük havia apenas uma casa – em 1500 cópias. Além disso, o princípio de construção é mantido em todos os níveis de construção, de modo que por 1200 anos apenas este tipo de casa foi construída, como pode ser visto na figura 4. Tanto este material em questão, quanto a planta baixa, altura e layout da sala (Mellaart, 1967: 56-64) e até mesmo fornecimento de luz (Mellaart 1967: 68). O design de interiores, ou seja, a decoração das paredes e plataformas, variou apenas gradualmente (Hodder, 1996b: 362). Mesmo esse tipo de arquitetura não deixa espaço para diferenças sociais. Todas as casas eram iguais em qualidade. Arquitetura representacional, como templos ou palácios, estão completamente ausentes. Cada edifício estava habitado. A divisão entre atividades “sacras” e “profanas” não foi marcada pela construção de edifícios diferentes (Hodder, 1996a: 6, 1996b: 362), mas dentro de cada casa pela existência de uma área sacra (as plataformas abaixo das pinturas murais) e uma parte profana do edifício (área da cozinha e local de trabalho no centro) (Hodder, 1998: 9; Düring, 2001: 4/2). Assim, a existência de sacerdotes profissionais era desnecessária. (A partir dos resultados das escavações em Çayönü, pode-se deduzir que, dentro da estrutura da revolução social, os edifícios de culto e o sacerdócio foram geralmente abolidos,[Özdoğan, 1997: 16-17; Özdoğan 2002]). Em 2003, presumiu-se que apenas umas poucas estradas secundárias levavam ao centro. Desde uma suposta arquitetura representacional lá (Mellink e Filip, 1985: 19), Hodder iniciou escavações e encontrou … o depósito de lixo central. (“… há pouca evidência de espaços e edifícios públicos – mais uma vez o Çatalhöyük Neolítico parece consistir apenas de casas e montes” [Hodder, 2003: 10]).

Figura 4: Vista interna de uma casa típica em Çatalhöyü.

A natureza igualitária da sociedade do povo de Çatalhöyük é ainda reforçada pela única diferença entre o uso do espaço nas casas: o espaço vital. Corresponde ao tamanho da família de forma que cada adulto, ou duas crianças com menos de 15 anos, respectivamente, tenham à sua disposição 10 a 12 m2. O tamanho da família pode ser deduzido do número de plataformas (Mellaart, 1964: 93; Mellaart, 1967: 60, 67; Hodder e Matthews, 1998: 59-51 e fig. 6.3).

Uma vez que uma casa pode servir como um espaço de vida por cerca de 120 anos (Mellaart, 1967: 51), a pergunta que deve ser feita é: como as pessoas adaptaram seu espaço de vida ao número variável de habitantes? Uma resposta pode ser dada pela planta baixa (Mellaart, 1967: 56). Cada casa com três plataformas (correspondendo a cerca de 30 m²) incluía 1 a 2 pequenos quartos de cerca de 10 a 12 m² de área útil cada, conforme mostrado na figura 4. Essas salas serviam para manter suprimentos, mas, acima de tudo, para descartar esterco inorgânico, como fragmentos de cerâmica, sobras de lascas de pedra ou gesso, cinzas da lareira e do forno etc. (Martin e Russell, 2000: 62/2-63/1). Quando surgia a necessidade de mais espaço para morar, o monturo era trazido do cômodo para um canteiro de obras onde era necessário para o enchimento e para a produção de um piso nivelado para a fundação de uma nova casa (Martin e Russell, 2000: 66-68). O quarto esvaziado e limpo ficou então à disposição para mais espaço habitável (Düring, 2001: 5/2). Assim, fica claro por que, com as casas ampliadas, os pequenos quartos estão faltando nos planos (Mellaart, 1967: 59). Por outro lado, se apenas uma pessoa permanecesse na casa, o espaço vital era, na verdade, reduzido para 12 m² (Hodder e Matthews, 1998: 49-51 e fig. 6.3).

O interessante é, portanto, que o máximo de espaço vital possível não era usado desde o início, mas apenas quando surgia a necessidade – e quando ele diminuía, o espaço vital era reduzido novamente. Se todas as casas fossem igualmente grandes, teria dado a impressão de igualdade do lado de fora, mas, na verdade, as pessoas individuais teriam sido tratadas de forma muito desigual: um indivíduo em uma família grande teria menos espaço à sua disposição do que em uma pequena. O fato das casas estarem adaptadas às circunstâncias reais garantiu que cada pessoa tivesse sempre de 10 a 12 m2 para si. As “casas de viver” de Çatalhöyük (Balter, 1998: 1445; Hodder, 2002: 5/2) mostram que as necessidades das pessoas eram uma base socialmente obrigatória da produção. Esta evidência é confirmada e complementada pela análise de objetos de sepultamento e esqueletos.

Individualidade e relações de gênero


Os objetos de sepultamento encontrados nas sepulturas enfatizam não apenas a igualdade social, uma vez que diferem apenas marginalmente quanto à sua quantidade e caráter (Mellaart, 1967: 206), mas também confirmam as diferenças individuais entre as pessoas. Os objetos de sepultamento variam até mesmo dentro de um mesmo espaço de vida (Mellaart, 1963: 100f.) E, portanto, antes documentam diferenças entre indivíduos do que diferenças devido ao pertencimento a classes diferentes (Childe, 1952: 143-144).

Mellaart não conseguia imaginar que a riqueza social que descobriu pudesse ser generalizada e igualmente distribuída. Portanto, ele presumiu que a área que escavou era o bairro dos sacerdotes e, no resto da cidade, as circunstâncias deviam ser mais pobres. Essa era uma suposição que poderia ser rejeitada com bons argumentos, especialmente após os resultados dos exames de esqueleto terem sido publicados por Angel em 1971. Já em 1969, foi demonstrado que as descobertas coletivas eram mais fáceis de se conciliar com uma sociedade sem estratificação (Narr, 1969: 12/2; ver especialmente Grünert, 1982: 194; Hermann 1983: 65-68, e, com base nos resultados de Mellaart: Hummel, 1996: 269). As primeiras investigações de Hodder provaram que Çatalhöyük parecia em toda parte como na área escavada por Mellaart (Hodder, 1996b: 360/2-361/1; Balter, 1998: 1443/2; Hodder, 2003: 10). Isso significa que em Çatalhöyük estão ausentes as diferenças entre as pessoas que são tão marcantes em uma sociedade dividida em classes. Os arqueólogos, portanto, descrevem esta sociedade como igualitária (Balter, 1999: 891/3; Moore, 1998) ou discutem diferenças sutis entre uma sociedade igualitária e uma estratificada (para uma sociedade estratificada: Wason, 1994: 153-179, para uma sociedade intermediária: Hodder, 1996b: 366/2, para uma sociedade puramente igualitária: Hamilton, 1996: 262/2). Aqui, Naomi Hamilton encontra as palavras de resolução para desta discussão: “A diferença não precisa significar desigualdade estrutural. Classificação por idade, status alcançado, papéis sociais baseados em habilidade e conhecimento etc. não necessariamente contradizem um ethos igualitário”.

Os túmulos em Çatalhöyük já mostram que faltava uma divisão social do trabalho, pois os mortos eram enterrados com ferramentas para várias atividades de produção básica e em cada casa havia sementes (Connolly, 1999: 798/2). No entanto, também se percebe que as pessoas se especializaram parcialmente de acordo com suas aptidões em atividades qualificadas que ultrapassavam a produção básica, desde objetos de enterro como utensílios de pintura ou cobre (Mellaart, 1967: 209). Presumivelmente, ao produzir cerâmica, as pessoas em Çatalhöyük descobriram como fundir cobre metálico a partir de minério de cobre, conforme documentado pela escória preservada (Mellaart, 1967: 217-218).

Há uma diferença marcante para as sociedades de classes: os objetos funerários não eram produzidos explicitamente para enterros, mas sim bens que as pessoas usaram durante suas vidas e que lhes foram deixados na morte (Mellaart, 1967: 209). Isso também é válido para objetos que realmente estão no final do “espectro gradual”. Adagas de sílex perfeitamente trabalhadas, espelhos lixados de obsidiana que eram mais brilhantes do que espelhos de metal antigo (Mellaart, 1967: pl. XIV e XII), bem como ferramentas perfeitas feitas de obsidiana (Hamblin, 1975: 17), todos eles encontrados em túmulos: em conjunto documentam as diferentes preferências e habilidades das pessoas que foram capazes de produzi-los e o respeito de seus semelhantes, que deixaram esses objetos para eles em seus túmulos, em vez de retê-los para si mesmos. Peças como essas levaram Mellaart à suposição de que poderiam ter sido produzidas nessa perfeição apenas por especialistas plenos, principalmente porque ele não encontrou nenhum monturo resultante da produção (Mellaart, 1967: 211; Balter, 1998: 1443/2). Durante as novas escavações, foi dada especial atenção, portanto, aos vestígios microscópicos de monturo nos pisos de barro, e foram analisados os resíduos domésticos. Dessa forma, evidências podem ser fornecidas para o monturo resultante do trabalho com pedras. Isso significa que a fabricação sobre pedras não era tarefa de especialistas plenos, mas era realizada em todas as famílias, ou famílias associadas, no caso de processos de produção complexos que só eram possíveis coletivamente (Connolly, 1999: 798-799, ver também Balter, 1998: 1443/2 e Hodder, 1999: 6/1). Os objetos funerários encontrados em uma casa foram produzidos e usados naquela casa e foram enterrados com a pessoa que os fabricou e utilizou. Hodder chega à conclusão de que “não podemos argumentar pelo controle total da produção por uma elite” (Hodder, 1996b: 361/2).

Tal como as “casas de viver” que mudaram com os seus habitantes e foram adaptadas às mudanças das circunstâncias de vida, este apego das pessoas aos objetos da vida quotidiana transmite uma imagem integrada de estruturas orgânicas e coerências vitais.

Verdadeiramente excepcional e especialmente notável é o fato de que as mulheres também receberam ferramentas como objetos de enterro, assim como os homens (Mellaart, 1967: 209) [6]. Nas sociedades de classes posteriores, os homens (das “classes médias”) recebiam objetos funerários que permitiam conclusões sobre sua profissão, mas os túmulos das mulheres continham apenas joias: mulheres ricas recebiam joias ricas, joias pobres para mulheres pobres. O fato de essas mulheres trabalharem tão arduamente – senão ainda mais – do que os homens não se reflete nos objetos de enterro. As ferramentas nas sepulturas femininas do neolítico ilustram que as mulheres eram reconhecidas como iguais na produção de bens. Isso, por sua vez, apoia a suposição de que, nessa sociedade, o antagonismo entre produção e reprodução foi abolido. Existem pinturas murais em Çatalhöyük que complementam e confirmam essa suposição; mostram homens dançando com crianças (Mellaart, 1966: pl. LIV, LV, LIX, LXI), um motivo que não ocorre na sociedade de classes até o século 13 a.C. e também mais tarde apenas levou uma existência sombria. Além disso, em contraste com a declaração de Mellaart, não apenas as mulheres foram enterradas com crianças, mas também os homens (Hamilton, 1996: 253/1).

No entanto, não apenas as mulheres foram enterradas com ferramentas, como também os homens foram enterrados com joias, parcialmente com quantias consideráveis (Hamilton, 1996: 262) [7]. Naomi Hamilton, que na equipe de Hodder é responsável por trabalhar com os túmulos e, portanto, por analisar as relações de gênero, duvida que a definição de um gênero social separado do sexo biológico seja útil na discussão sobre Çatalhöyük. Ela considera o conceito de gênero vinculado aos nossos tempos e seus problemas e considera a possibilidade de que os humanos neolíticos não percebessem o homem e a mulher como sendo uma polaridade (Hamilton, 1996: 262). De fato, já em 1990 Hodder desenvolveu o pensamento de que a polaridade decisiva para a percepção neolítica pode ter sido de uma natureza diferente (Hodder, 1990). É interessante que considerações mais recentes conduzam a uma suposição análoga a respeito do Paleolítico (Heidefrau, 2004). A autora, Elke Heidefrau, escreve:

“Possivelmente, a discussão sobre gênero … principalmente revela algo sobre nossa própria cultura: uma cultura na qual parece imensamente importante saber o sexo de outra pessoa (veja a primeira pergunta feita após o nascimento de uma criança). Para nós, uma cultura em que este não seja o caso parece quase impensável; portanto, tais pensamentos poderiam nos abrir novos horizontes e, assim, enriquecer a discussão de gênero atual!” (Heidefrau, 2004: 148, traduzido do original).

Obviamente, naquela época os indivíduos reais estavam no centro, e quando gostavam de se enfeitar, suas joias não eram tiradas deles quando morriam – independente de seu sexo. E eram as pessoas que produziam, possuíam e usavam ferramentas e, portanto, também as mantinham em seus túmulos – novamente, independentemente de seu sexo.

Hodder dedicou uma publicação separada às relações de gênero, a fim de refutar as concepções mais antigas de um matriarcado em Çatalhöyük (Hodder, 2004). No artigo publicado na “Scientific American”, ele apresenta uma documentação impressionante da igualdade de gênero em Çatalhöyük: não houve diferenças significativas em relação à nutrição, altura corporal e estilo de vida entre homens e mulheres. Homens e mulheres desempenhavam tarefas muito semelhantes, como pode ser deduzido do abrasão de ossos. Ambos os sexos ficavam dentro e fora de casa por tanto tempo e eram igualmente ativos na cozinha quanto na produção de ferramentas. Não há indícios de uma divisão de trabalho relacionada ao gênero. Só da obra de arte se pode deduzir que fora de casa os homens caçavam enquanto as mulheres se dedicavam à agricultura (cf. Hodder, idem). As pinturas murais mostram, no entanto, mulheres junto com homens em representações de perseguição, conforme publicado nos relatórios de escavação de Mellaart (Mellaart, 1966: Pl LIIb, LVIb, LXIIb). E o sepultamento igual de homens e mulheres selou essa igualdade até na morte.

Solidariedade e cuidado


A igualdade em uma sociedade que cria espaço para desenvolver a individualidade leva à pergunta: “Como pessoas que são iguais e livres interagem umas com as outras?” As respostas podem ser encontradas em destinos individuais, deduzidas de relações entre descobertas, em instituições e valores estatísticos de exames de esqueletos.

O destino de um caçador, por exemplo, que foi fisgado por um auroque, levado para sua casa mortalmente ferido, foi cuidado com o sacrifício de sua família até morrer de inflamação isquiática severa e infecção óssea profunda (Angel, 1971: 91) mostra que a família poderia ser mantida mesmo se um membro importante da família estivesse ausente. “Uma menina que […] sofreu de uma fratura no fêmur que pode tê-la aleijado” e que morreu aos dezessete anos recebeu um enterro extraordinariamente elaborado (Mellaart, 1967: 207). Esta menina de dezessete anos, mas também o bebê prematuro (Mellaart, 1967: 83, 207) e sua mãe, que morreu junto com seu filho, foram tratados com ocre vermelho (Mellaart, 1967: 207), um simbolismo que deveria garantir o renascimento (Mellaart, 1963: 98, 1967: 149-150). O enterro de uma mãe que, com seu filho de 12 anos, foi atingido pela morte de um telhado que desabou, ainda hoje está afetando o coração, até mesmo na fotografia dos esqueletos (Balter, 1999: 891). Olhando para essas histórias sobre cuidados e tratamento dos enfermos, torna-se óbvia uma profunda empatia por aqueles tratados injustamente pelo destino.

Não são apenas os destinos individuais que apontam para o cuidado dos enfermos, mas também as instituições. Angel interpreta vários edifícios em Çatalhöyük como hospitais regulares (Angel, 1971: 88).

Comparando os dados estatísticos de Çatalhöyük com os de Elmalı Karataş (ambos de Angel, 1971: 78), uma cidade na mesma região que, no entanto, não foi colonizada no Neolítico, mas no início da Idade do Bronze, é impressionante que lá houve uma mortalidade infantil 30% maior do que em Çatalhöyük. Além disso, na cidade da Idade do Bronze ninguém atingiu uma idade superior a 55-60 anos, enquanto na cidade neolítica uma pequena parte da população atingiu a idade de 60-70 anos. Considerando o enorme progresso da revolução da Idade do Bronze com base em apenas um único exemplo, o arado que trouxe um progresso de produtividade de mais de 100% em comparação com a vara de escavação neolítica, tal declínio da qualidade de vida parece surpreendente. Porém, além da riqueza material (hoje denominado “produto interno bruto”), a qualidade de vida (mortalidade infantil, expectativa de vida, cuidados em caso de doença, garantia de alimentação básica, acesso à educação, igualdade de oportunidades) depende muito mais das condições sociais do que sobre eficiência econômica (Sen, 1993) [8].

E a transição da Idade da Pedra para a Idade do Bronze não implica apenas inúmeras conquistas técnicas, mas também o surgimento da sociedade de classes. A sociedade de classes significa patriarcado e exploração: as mulheres têm que trabalhar até pouco antes de dar à luz – e depois do parto novamente o mais rápido possível. Isso aumenta a mortalidade infantil e diminui a expectativa de vida das mulheres. A sociedade de classes também significa guerra, e isso diminui a expectativa de vida dos homens.

A esperança média de vida em Çatalhöyük era de 32 anos (Angel, 1971: 78, 80). Mesmo que estejamos horrorizados com esse número, temos que perceber que, para as classes exploradas, ele só foi alcançado novamente por volta de 1750 (Herrmann, 1983: 60; ver também Ehmer, 1990: 202). Isso significa que, trezentos anos atrás, o camponês escravo tinha menos expectativa de vida do que um camponês livre da Idade da Pedra!

Desta forma, os efeitos positivos do progresso técnico foram superados pelas consequências negativas da exploração e da opressão.

O que está faltando em Çatalhöyük?


Uma sociedade é caracterizada não apenas pelo que existe. O que está ausente pode ser igualmente revelador.

Por exemplo, faltam evidências de crimes contra a propriedade. O roubo como o crime não podem ser provados arqueologicamente, mas o roubo de túmulo como uma forma especial de roubo pode. O roubo de túmulos existe em todas as culturas em que os objetos têm um valor de troca (ou seja, em que o tempo necessário para produzi-los é medido), em que esses valores são distribuídos desigualmente na sociedade e grandes valores são entregues nas sepulturas dos mortos enquanto os vivos sofrem na miséria. Nenhuma sanção, nem mesmo os métodos de execução mais cruéis, maldições dos deuses, expectativa de horríveis agonias no mundo inferior jamais impediram as pessoas de saquear túmulos sob tais circunstâncias, razão pela qual o roubo de túmulos sempre esteve presente desde os primórdios das sociedades de classes. No entanto, em sociedades onde os bens não têm valor de troca, uma vez que são meramente objetos de uso diário que são produzidos e compartilhados de acordo com a necessidade, mas não trocados, nenhum motivo para roubo de túmulo se aplica. Consequentemente, em Çatalhöyük não há un exemplo de roubo de túmulo; Mellaart encontrou apenas sepulturas não violadas (Mellaart, 1989: 23/1). Assim como qualquer motivo para roubo de túmulo, não há motivo para roubo em geral (Engels, 1845: 542).

O mais impressionante, em comparação com a situação nas sociedades de classes (por exemplo, as de hoje), é o fato de que as representações de agressão estão completamente ausentes.

“O que se pode dizer, no entanto, é que de mais de uma centena de pinturas, não há nenhuma retratando uma cena de conflito ou luta, muito menos de guerra, maus-tratos ou tortura. Não há o sabor do que virá com a ascensão da civilização” (Mellaart, 1989: 22/2).

Da mesma forma, faltam representações do judiciário e da condenação [9]. Uma vez que as representações visuais de atos agressivos estão completamente ausentes, deve-se perguntar se isso deve ser atribuído ao fato de que atos de violência não foram tolerados na sociedade e, portanto, não foram retratados (um fato que seria notável por si mesmo) ou se a própria violência estava ausente na sociedade. A resposta é dada pelos esqueletos de Çatalhöyük.

Pois não há um único indivíduo que mostre indícios de uma morte violenta; nenhum achado de ossos aponta para a violência crua causada por outro indivíduo como causa de morte (mencionado explicitamente por Mellaart, 1967: 225), implicitamente confirmado por Angel (1971) e Hamilton (1996: 255/1)). Ninguém morreu porque outra pessoa o matou ou o feriu letalmente!

Além disso, está faltando formas de se lidar com as pessoas de modo destrutivo para propósitos de culto (religiosos). Ausências:

  • Sem trepanações de crânios (Mellaart, 1967: 225) – como no neolítico da Europa Central;
  • Nenhuma deformação de crânios (Angel, 1971: 94) – como com os povos da América Central ou no Egito Antigo;
  • Nenhuma mutilação ritual das mãos (Mellaart, 1967: 164) – como nas cavernas dos Pirineus na Idade do Gelo;
  • Sem perda de dentes durante os ritos de iniciação (Mellaart, 1967: 225; Angel, 1971: 97) – como com os aborígenes australianos;
  • Nenhum sacrifício de sangue. Isso significa que embora os animais fossem abatidos para consumo, não havia equipamento para a matança ritual (Mellaart, 1967: 77).

E não houve guerra!

Isso vale não apenas para Çatalhöyük (Mellaart, 1967: 69; Balter, 1999: 891/3; Düring, 2001: 2) até o último dia do acordo (Mellaart, 1967: 53), mas para 1500 anos na Anatólia (Grünert, 1982: 195; Herrmann, 1983: 73/1) e de 6500 a.C. até 4000 a.C. para a civilização inteira dos Bálcãs (Gimbutas, 1996: 331/1; Whittle, 1996: 93, 112), cuja paz definitiva já foi enfatizada por Childe (Childe, 1952: 165).

Tomados em conjunto, esses fatos parecem no presente a arqueologia de uma utopia No entanto, devemos entender que 10.000 pessoas sem poder central nunca poderiam ter vivido juntas em tal densidade por tanto tempo se não possuíssem métodos não violentos para resolver conflitos em primeiro lugar. Se o uso da força fizesse parte do repertório de estratégias de resolução de conflitos, assentamentos como Çatalhöyük não teriam sido capazes de sobreviver por tanto tempo – ninguém poderia ter evitado a dissolução do assentamento. Outro argumento a favor da ausência de violência, a princípio, é a já mencionada ausência total de destruição na área do culto: as pessoas desenvolveram imagens do além que eram tão pacíficas quanto elas próprias. “A organização de tantas pessoas sem grande autoridade central só foi possível por causa de um elaborado código social que regulava a vida cotidiana” (Hodder, 1998: 10).

“É difícil evitar a conclusão de que as pessoas de Çatal Hüyük não viam as coisas do nosso jeito; se concentravam na … continuidade da vida … e nas formas de alcançá-la. Parece que entenderam a importância de continuidade, que ‘a vida deve continuar’, uma verdade fundamental que tendemos a perder” (Mellaart, 1989: 11).

Sociedade comunista


É provável que as causas dessa tranquilidade, afinal, fossem de natureza socioeconômica, porque todos sabiam que só poderiam sobreviver juntos (“uma verdade fundamental que tendemos a ignorar”). É fundamental, no entanto, que as pessoas lidem umas com as outras de maneira afetuosa e pacífica, sabendo que dependem umas das outras. Foi somente pela cooperação que eles puderam sobreviver, e dia a dia eles experimentavam de novo que muitas pessoas coletivamente podiam realizar coisas que os indivíduos sozinhos não podiam: Çatalhöyük – ou, como é chamado hoje de uma forma mais geral: “The Neolithic Way of Life” (para a Anatólia: Özdoğan, 1997: 27; para a Europa: Whittle, 1996: 355).

Evitando atividades destrutivas e não tendo exploradores em suas costas que teriam tirado a maior parte dos frutos de seu trabalho, eles poderiam reduzir o tempo médio de trabalho necessário para satisfazer suas necessidades básicas para menos da metade de seu tempo produtivo, como Narr deduziu indiretamente (Narr, 1968/69: 419). Mais da metade de seu tempo permaneceu para satisfazer suas necessidades elaboradas como pode ser visto na produção surpreendente de bens de consumo (por exemplo, Mellaart, 1964: 84-92; Mellaart, 1967: 215, 218-220), na diversidade e qualidade da alimentação (Mellaart, 1967: 224; Helbaek, 1964; Richards et al., 2003), e na vida social. Isso é documentado pela arte cuja tarefa era ensinar as regras da vida social diária (Hodder, 1998: 10): pintura (Mellaart, 1989), música (Stockmann, 1985), danças e festas frequentes. De pinturas murais (por exemplo, Mellaart, 1962: Pl. XIV, XV, XVII, XVIII) e do fato surpreendente de que os ossos da coxa de quase metade dos adultos apresentavam uma alteração anatômica que pode ter se originado de dança excessiva (Angel, 1971: 92-94) deve-se deduzir que as pessoas festejavam com frequência. A escavação dos restos de tal festa também prova que eles não deixaram nada a desejar (Martin e Russell, 2000: 66).

Assim, festejar e dançar contribuiu consideravelmente para a estabilidade da sociedade e evitou a coleta de muito excedente.

Além disso, os vestígios daqueles dias longínquos podem transmitir uma ideia do que é possível, mesmo na idade da pedra, quando as relações sociais são humanas e o homem é livre.

Depois que a utopia socialista foi desacreditada por causa do estalinismo, a descoberta dessa sociedade adquire uma importância particular. Permite a coleta de dados empíricos e fornece um exemplo para as correspondências entre as relações comunistas de produção e a estrutura social – e isso em uma sociedade que durou não apenas 80, mas 3 mil anos.

O fato de um desenvolvimento como o descrito acima ter sido possível na Idade da Pedra mais uma vez confirma que não é o desenvolvimento técnico, mas a organização das relações sociais que é crucial para determinar a qualidade de vida e o caráter da sociedade.

E o que seria possível hoje – no estado atual de desenvolvimento técnico – se ao menos tivéssemos condições sociais razoáveis…

Notas:


[1] – Todas as especificações de tempo foram retiradas de (Thissen, 2002).

[2] – A segunda fase da revolução das forças produtivas compreendeu a domesticação de outros tipos de plantas e animais, bem como o desenvolvimento de novas tecnologias, como a produção de cerâmica e metais. No entanto, isso só aconteceu após a revolução social.

[3] – Para sacrifícios humanos, cf. por exemplo: Hauptmann, 1991; Hauptmann, 1991/92: 22; Zick, 1992; para o tipo de sociedade ver, especialmente: Özdoğan e Özdoğan, 1998; Rosenberg, 1999; Rosenberg e Redding, 2000; Hole, 2000.

[4] – Sobre as transformações sociais, ver os quatro artigos fundamentais de Özdoğan (1994, 1997, 2000 e 2002). Para uma revolução semelhante em outro local (Göbekli Tepe), consulte a seção final do artigo de Schmidt (2000: 41).

[5] – Sobre a Anatólia, cf. por exemplo, as referências na nota 4. Sobre a Europa, cf. por exemplo: Gimbutas, 1996: 323-349 e Whittle, 1996: 69-71, 90-96, 355 e 370-371.

[6] – Isso parece ter se mantido verdadeiro para as civilizações neolíticas em geral, mesmo para a cultura de cerâmica linear da Europa Central (linearbandkeramik) (Nordholz, 2004: 124). No entanto, essa inter-relação raramente parece ser observada.

[7] – O argumento inverso de Mellaart deriva do fato de que ele frequentemente determinava o sexo dos esqueletos de acordo com seus bens mortais (!). Foi somente após os exames anatômicos dos esqueletos de Angel, seis anos depois, que os verdadeiros fatos foram revelados (Hamilton, 1996: 245/2, 258/2).

[8] – Aqui você encontra mais referências a essas correlações importantes, deliberadamente suprimidas por economistas neoliberais.

[9] – É importante notar que as representações de lutas, guerras e execuções não constituem apenas um dos motivos principais da arte da última sociedade de classe, como também foram transmitidas da época anterior (Beltran, 1982: 44-45).

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sábado, 1 de maio de 2021

Boletim de “La Oveja Negra” – 1° de Maio: Memória e Perspectivas (2021)

Cabeçalho das publicações de “La Oveja Negra”.


Traduzimos o texto 1° de Maio: Memória e Perspectivas, dos camaradas do La Oveja Negra. Tomamos a liberdade de acrescentar algumas notas em diálogo com as proposições apresentadas.

***


Uma nova comemoração dos dias de maio de 1886 nos encontra para lembrar, compartilhar, comover, inspirar, debater, refletir e agitar.

Encontramo-nos em outro 1º de maio na luta anticapitalista pela qual há tantos anos foram executados cinco camaradas nas mãos do Estado e outros três condenados à prisão perpétua, mais tarde conhecidos como os “mártires de Chicago”.

A luta anticapitalista é tão necessária como antes para aqueles de nós que sofrem do Capital na própria carne: em cada dia de trabalho, seja dentro ou fora de onde vivemos, com ou sem salário, com ou sem horário fixo, cada vez que olhamos para o trabalho, quando sofremos com as deficiências, cada vez que interagimos com outros seres humanos mediados pelo dinheiro que tudo objetifica.

Durante séculos, o proletariado travou batalhas; no entanto, aqueles dias de maio em Chicago foram parte de uma luta em que proletários e proletárias se organizaram com uma perspectiva emancipatória. George Engel, tipógrafo e anarquista enforcado em 1887 expressou desta forma: “Eu não luto contra os capitalistas individualmente; eu luto contra o sistema que dá o privilégio. Meu desejo mais ardente é que os trabalhadores saibam quem são seus inimigos e quem são seus amigos”.

Os camaradas de Chicago e o movimento do qual faziam parte não lutaram simplesmente por oito horas. Quando se referiam a “oito horas de trabalho, oito horas de sono e oito horas de recreação”, não se referiam ao lazer que conhecemos hoje. Eles queriam recuperar esse tempo para agitação, aprendizado e comunhão com seus colegas.

Partimos desta data que nos convoca a propor um breve percurso pelas transformações da sociedade capitalista e a luta incessante para superá-la.

Desenvolvimento Industrial


No final do século XVIII, o Capital voltou-se definitivamente para a produção e transformou profundamente os processos de trabalho, reorganizando-os, tanto temporal como geograficamente. Na Inglaterra, toda a brutalidade dessa dinâmica social é evidente em seus primórdios. Os donos de fábricas tiveram pouco sucesso no recrutamento de mão de obra, pois muitas vezes eles tinham que viajar longas distâncias e privar os futuros proletários de seu sustento, amontoando-os nas casas que formariam os bairros da classe trabalhadora.

A constituição do exército industrial de reserva implicou, além da desapropriação, uma militarização de toda a vida social. O ludismo, “os destruidores de máquinas”, junto com os movimentos de resistência e as revoltas foram respostas à fome e à miséria que começaram a reinar.

Para deter os Luditas, o estado teve que modernizar sua polícia; logo a destruição das máquinas era punida com a morte, enquanto o sindicalismo emergente era tolerado. Leis foram aprovadas para regular o trabalho e algumas liberdades civis. Com essa oscilação entre violência e reforma, o progresso capitalista estabeleceu um método para redirecionar a raiva daqueles escravos modernos, cujos ataques eram dirigidos contra os instrumentos materiais de produção e não faziam distinção entre as próprias máquinas e o modo como eram usadas.

Posteriormente, as expressões majoritárias dos incipientes movimentos trabalhistas e socialistas passam a expressar grande fé na ciência e na maquinaria, ou, pelo menos, a afirmar sua suposta neutralidade.

As lutas contra o feroz avanço capitalista começaram a se reproduzir em todo o mundo, muitas delas com um claro conteúdo reformista dentro do capitalismo, outras com uma busca mais profunda pela subversão da ordem social.

Como resultado dessas lutas, surgiu a Primeira Internacional ou Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Foi a partir das lutas concretas que se desenvolveram, na prática massiva da classe e no quadro das relações de poder existentes em cada país, que se puderam refutar ou afirmar as influências das diferentes tendências e rupturas. Nesse sentido, a segunda metade do século XIX constitui um período de aprendizado e modificações da luta revolucionária.

Os proletários de diferentes países foram lançados para o trabalho e também para combater em uma trincheira em defesa da pátria. Nesta situação de guerras nacionais e competições inter-burguesas, eles decidiram tentar agir deixando de lado as fronteiras nacionais e se unindo para enfrentar a burguesia como uma classe internacional.

Os estatutos inaugurais da AIT oferecem-nos uma grande contribuição: “A emancipação dos trabalhadores será obra deles ou não será”. Isto é, para obter a vitória o proletariado necessita de uma ação comum massiva, ao mesmo tempo que produz uma teoria e uma metodologia revolucionária que o guie na luta. O grande objetivo: a abolição das classes.

Na mesma frase também podemos ler que a luta pela “emancipação da classe trabalhadora não é uma luta pelos privilégios e monopólios de classe, mas pelo estabelecimento de direitos e deveres iguais e pela abolição de todos os privilégios de classe”. Pela primeira vez, o proletariado procurou ter seu próprio projeto revolucionário fora da burguesia, mas ainda estava executando as concepções burguesas da política. Embora fosse o início de sua própria busca, foi pensado principalmente como uma continuidade da Revolução Francesa, que consideraram inacabada. A igualdade de direitos e deveres foi concebida como um avanço em direção ao fim da exploração e até mesmo como um objetivo revolucionário, como uma premissa para uma sociedade sem classes. O seu “assalto à Bastilha” consistia em derrotar uma classe concebida como parasitária, uma guerra de um lado contra o outro para administrar e gerir a mesma sociedade, apenas sob o signo dos trabalhadores.

No primeiro congresso em 1866, em Genebra, a AIT declarou que “a restrição da jornada de trabalho é uma condição, sem a qual todos os outros esforços de emancipação devem falhar ... Propomos 8 horas de trabalho como limite legal do trabalho dia”. Em outras palavras, demandas concretas imediatas foram levantadas com uma perspectiva revolucionária. Essa perspectiva é a que foi assumida por operários radicalizados em muitas partes do mundo, como é o caso do movimento do qual fizeram parte os mártires de Chicago [1].

Reestruturações


A redução da jornada de trabalho era fruto da luta de gerações de proletários, mas era também inevitável para o Capital que, a nível internacional e devido às suas próprias contradições internas, atacava as próprias bases da sua reprodução. A extensão ilimitada da jornada de trabalho estava atacando a reprodução e a sobrevivência da força de trabalho, da fonte da mais-valia. Ao mesmo tempo que a jornada de trabalho foi reduzida, o Capital se transformou, conseguindo expandir seus lucros com o auxílio da ciência, com a introdução de máquinas, reduzindo o tempo de produção de bens e intensificando a exploração do trabalho. No entanto, é preciso destacar que, ontem como hoje, enquanto em alguns países está modernizado, em outros continua a exigir saques e trabalho escravo.

No caso da Argentina, a lei que regulamentava as oito horas foi promulgada em 1929, já como legislação necessária à modernização capitalista e sua própria regulamentação. Este exemplo local mostra, junto com tantos outros na história e no mundo, que o que em um momento pode ser uma meta de luta, um ataque direto ao lucro, uma necessidade imediata e urgente que não pode ser adiada e até energiza poderosas expressões revolucionárias, em outro pode ser simplesmente um direito concedido para lubrificar a máquina capitalista.

Isso não significa um desprezo pelas lutas do passado, mas uma tentativa de compreendê-las, de colocar em tensão o que se considera uma conquista, sua relação com uma perspectiva de transformação ou reforma revolucionária no desenvolvimento capitalista.

Precisamente durante as três primeiras décadas do século 20, o proletariado argentino viveu uma intensa convulsão social. Sua máxima expressão se cristalizou na FORA, com seu sindicalismo anarquista e suas inúmeras iniciativas de propaganda e agitação social, cujo propósito revolucionário estava orientado para a realização do comunismo anárquico.

Nesse contexto, a resposta do Estado argentino às demandas sociais e lutas em curso, seja na cidade ou no campo, sempre foi a repressão, a prisão, o exílio ou a morte. Nenhuma melhoria na vida social foi obtida sem opor força contra força e, quando as energias proletárias se dispersaram, a conquista foi rapidamente perdida.

Talvez pelas características de organização geográfica e produtiva do país, bem como pela forte orientação anarquista de federalismo e autonomia do proletariado, o proletariado não realizou uma campanha homogênea em relação à jornada de trabalho, embora tenha havido inúmeras greves e lutas a esse respeito.

Da mão pesada da repressão consolidou-se um processo de forte integração do proletariado ao capitalismo. Isso implica toda uma série de transformações na vida social, no Estado e em suas leis, bem como nas organizações do proletariado e no conteúdo de suas lutas. Na Argentina, é justamente a partir da década de 1930 que o reformismo sindical e parlamentar que mais tarde deu origem ao peronismo que se fundou na derrota das expressões revolucionárias.

Quando falamos em integração, comumente se interpreta como um fenômeno ideológico ou relacionado à consciência, algo como uma cooptação, como um engano ou persuasão. Mas nos referimos às condições materiais de existência: o aprofundamento da integração da reprodução da classe proletária na reprodução do Capital, baseada fundamentalmente no desenvolvimento da indústria e seus elevados níveis de produtividade. Este processo claramente excede o local e sua expressão máxima é aquilo que se denomina de “idade dourada” do capitalismo, entre o final da segunda guerra mundial e os anos 70, com seu aumento nos níveis de produção e consumo, com seu “Estado de bem-estar”.

Os métodos de produção predominantes nesse período, aliados a uma série de medidas políticas implementadas em grande número de países, constituíram o que ficou conhecido como o modelo fordista-keynesiano. Como sempre, no capitalismo diferentes realidades e formas de produção coexistem entre diferentes regiões e mesmo dentro da mesma região; por isso, procuramos fazer uma breve análise dos seus aspectos determinantes, para nos aproximarmos da compreensão da dinâmica social e, portanto, da luta, geral em cada momento.

O aumento sustentado da taxa de lucro ao longo de várias décadas e o aumento (evidentemente não na mesma proporção) dos salários em muitos ramos da produção possibilitaram uma pacificação social onde os sindicatos desempenharam um papel importante. Esta situação que podemos entender como um “pacto de produtividade” entre o Capital e o trabalho reforçou o processo de integração do proletariado. No entanto, as barreiras colocadas pela própria valorização capitalista aparecem repetidamente. A aceleração de fenômenos como o aumento da composição orgânica do Capital e a tendência decrescente da taxa de lucro colocaram em crise o atual modelo de desenvolvimento, que começou a se reestruturar mais amplamente a partir da década de 1970. No quadro deste processo de esgotamento, desenvolveram-se importantes expressões de ruptura da classe proletária que conduziram a uma nova e intensa onda de lutas a nível internacional nas décadas dos anos 60 e 70.

A derrota do movimento revolucionário deu lugar à reestruturação capitalista da produção e administração da economia por meio de diferentes processos. Entre eles: uma introdução tecnológica renovada e fundamentalmente apoiada na “revolução da informação”, a aceleração da industrialização em diferentes regiões consideradas “atrasadas”, a reorganização dos processos de trabalho e sua legislação correspondente, ao mesmo tempo que a expansão dos mercados internacionais. Da mesma forma, a realocação de fábricas graças à introdução de zonas francas permitiu o acesso a mão de obra mais barata, menos controles trabalhistas, ambientais e fiscais, o que encorajou uma nova e mais eficiente divisão internacional do trabalho.

Tudo isso provocou uma transformação nas condições de trabalho, que deixou para trás muitas das concessões e conquistas típicas dos níveis de produtividade de décadas anteriores. Houve um aumento acentuado da precariedade do trabalho e, portanto, das condições de vida em geral. Foi estruturado através de diferentes estratégias, tais como maior flexibilidade de utilização da força de trabalho (flexibilidade do contrato de trabalho, mas também de horas, salários e funções); aumento do desemprego e estabilização de um grande exército de reserva que nunca seria incluído no trabalho assalariado; execução de processos de trabalho padronizados e simplificados, com a consequente desqualificação da força de trabalho; entrada no mercado de trabalho de um número cada vez maior de mulheres, o que expressa a necessidade de mais de um salário por família [2]; aumento do trabalho não registrado (que vai desde a implantação de bolsistas ou estagiários, até a clandestinidade de trabalhadores migrantes em oficinas têxteis); terceirização, subcontratação ou externalização de certas tarefas ou fases dos processos de produção que disseminam e reduzem as responsabilidades do empregador.

Essas transformações que o Capital encontrou para manter a exploração e a dominação, ou seja, sua própria reprodução, transformaram a reprodução do proletariado, rompendo aquela forte integração que descrevemos acima, dando lugar a transformações importantes na dinâmica de luta e no seu conteúdo.

Presente


Hoje podemos ter certeza de algo que os companheiros de 1886 não podiam ter tanta certeza. A luta das oito horas foi uma luta pela redução da jornada de trabalho em uma situação em que o capitalista ganhava mais fazendo seus empregados trabalharem mais. Os avanços tecnológicos e organizacionais tornaram possível produzir cada vez mais em menos horas. Ficamos indignados com a situação de quem trabalhou e ainda trabalha mais de oito horas hoje, mas não nos sensibiliza da mesma forma que alguém trabalha menos de oito horas em modalidades que destroem qualquer corpo humano.

Embora as categorias básicas do Capital permaneçam – valor, trabalho, salário, mercadoria, propriedade privada, Estado – muita água passou por baixo da ponte. As fábricas não são mais o centro da sociabilidade capitalista, a composição da classe proletária não é a mesma de antes, o padrão dólar-ouro [3] não existe mais e as culturas proletária e burguesa são praticamente indiferenciadas.

O fim dos “anos dourados” significou a transformação do proletariado em geral e uma crise do movimento operário em particular. A centralidade do trabalho na indústria e do lugar da fábrica foi posta em causa e implicou que o trabalhador industrial não era mais visto como o protagonista, muito menos como a vanguarda de sua classe. Isso fez com que toda a experiência acumulada com base nas condições de trabalho que possibilitaram a proliferação de grandes greves no ambiente de trabalho, práticas de sabotagem, quebra de máquinas ou ferramentas, organizações de grandes contingentes de homens e mulheres que compartilhavam o cotidiano ao trabalharem no mesmo espaço, às vezes, até a vida no mesmo bairro da classe trabalhadora não é reproduzível nas novas condições.

Obviamente, isso deu origem a novas formas: bloqueios de estradas para impedir a circulação de mercadorias quando milhares de desempregados não podem mais impedir a produção, por exemplo. Por outro lado, e por coincidência, a partir daquele momento, a indústria e o progresso capitalista deixaram mais do que nunca em evidência a devastação que supunham para o planeta e para os que o habitam. Cada vez mais movimentos começaram a se formar contra os efeitos nocivos da produção sobre a saúde e o ambiente. Mas a abordagem de novos problemas, ou melhor, a abordagem de problemas históricos como novidade não leva necessariamente à crítica e à luta anticapitalista. Embora as demandas saiam em massa da esfera do trabalho para questionar diferentes aspectos da reprodução social como um todo, na maioria dos casos se mantém uma perspectiva que parte dos níveis de integração de outrora.

Um retorno aos primórdios do movimento operário ou do estado de bem-estar não é desejável nem possível. As lutas do passado nos inspiram para o futuro, mas devemos nos livrar da nostalgia progressiva.

Hoje, o Capital continua a empobrecer nossas condições de vida. A difusão da informática a cada vez mais esferas do trabalho e da sociabilidade em sua totalidade aliada a medidas de isolamento, aprofundam a difícil situação que o proletariado tem que enfrentar em nosso dia a dia, e que devemos analisar na hora de nos organizarmos se queremos transformar realidade.

Como resistir, mesmo a mais ligeira sabotagem, quando todas as ferramentas são nossas e o local de trabalho é onde vivemos, quando os níveis de desemprego aumentam a cada dia, quando não podemos mais encontrar os nossos colegas de trabalho? Ou quando as horas do dia não parecem ter fronteiras entre o trabalho e o não trabalho, quando a repressão nas ruas é legitimada pelo discurso do “cuidar de nós mesmos”? Estas são algumas das perguntas que nos colocamos neste dia 1 de maio.

A reestruturação capitalista produz o declínio da identidade dos trabalhadores e a explosão de múltiplas identidades, algumas delas ligadas às novas formas de luta proletária.

As revoltas desencadeadas em diferentes partes do mundo nas últimas décadas, assim como os “novos movimentos sociais”, apesar do caráter interclasse e de cidadania que observamos em muitas ocasiões, deixam clara a persistência da luta de classes. Ao mesmo tempo, eles nos alertam sobre o caráter diverso que o proletariado tem e sempre teve. A centralidade da reprodução social nas lutas nos lembra que a revolução deve envolver muito mais do que a certeza de ter teto e comida. Deve atender, não só como ponto de chegada, mas também como ponto de partida, a chamada questão de gênero, raça, sexualidade, família, da natureza da qual fazemos parte.

Nas revoltas do nosso tempo, hoje atravessadas pela declaração mundial de uma pandemia, é muito claro que não há perspectiva de gerir o objeto dos protestos. Só os civilizadores progressistas propõem nacionalização, gestão operária, referendo, mudanças na administração capitalista. Mas não há um mesmo projeto que o proletariado e a burguesia devam defender, administrando-o de maneiras diferentes. Não se trata de uma guerra de um lado contra o outro para administrar e gerir esta sociedade, mas para lutar contra o Capital como sociedade, como relação social.

O capitalismo, devido às suas próprias contradições internas, não pode melhorar nossas condições de vida. Por outro lado, esse conflito social também tende a se sincronizar porque as medidas de austeridade em tempos de crise são globais, porque o aumento da exploração e a piora das condições de vida não são um problema nacional ou das políticas neoliberais. Nem a burguesia escolhe este cenário, nem nós, os proletários em luta, escolhemos o nosso. As forças cegas da economia trouxeram-nos aqui. Agora é importante saber o que fazemos, não para o futuro, mas o que já estamos fazendo!

Cada contexto produz diferentes condições para a revolução e gera contradições (materiais, não morais; sociais, não individuais). Isso pode nos dar indicações importantes sobre a sociedade capitalista e sua superação, mas a revolução dependerá, em última instância, do que possamos fazer como classe. A luta é inevitável e necessária, ela nos transforma e buscamos transformá-la em definitiva. Nossa preocupação é que a luta de classes seja capaz de produzir algo mais do que sua própria continuação.

Por isso confiamos que é tão importante não só participar, mas também compreender, estudar e debater o desenvolvimento das lutas do presente. Porque nas possibilidades e condições dessas lutas, nas suas críticas e rupturas, se delineia o horizonte revolucionário do presente.

Notas da tradução:


[1] – Consideramos de fundamental importância analisar os processos revolucionários que efetivamente ocorreram desde 1848, passando pela Comuna de Paris (1871) e o levante pela revolução social internacional desencadeada na primeira década do século XX. Não sabemos os motivos pelos quais os camaradas não mencionam essas questões cruciais, até porque é a derrota do processo revolucionário entre o período de 1917-1921 que constitui a reação que vai ser encarregada da reestruturação que eles descreveram logo em seguida. O caso que eles usaram para ilustrar é argentino e coincide em muitos aspectos com a exposição que fizemos da situação brasileira em: Notas sobre o partido social-democrata brasileiro.

[2] – Na realidade, as mulheres estiveram empregadas no trabalho assalariado desde o princípio e somente na chamada “reestruturação” que houve, em condições bem limitadas, uma tendência para alocá-las restritamente ao trabalho doméstico como parte da integração capitalista. Sobre as questões relativas à situação das mulheres proletárias, escrevemos algumas coisas em: Quanto custa a força de trabalho? Produção de mercadorias e reprodução de pessoas.

[3] – Vale destacar que: “o que parece à primeira vista ser um padrão dólar puro, se olharmos mais de perto tem que ser um padrão petro-dólar. O sistema monetário pós Bretton Woods pode ser caracterizado não como um padrão dólar, mas mais rigorosamente como um padrão petro-dólar” (PATNAIK, 2013). A razão disso é que a estabilidade do sistema monetário internacional precisa ser ditada pela potência que está na hegemonia imperialista em determinado momento da história. Contemporaneamente, essa “potência imperialista” é os EUA. O argumento de Patnaik reside na questão de que o funcionamento do dólar como moeda internacional está articulado com o controle do preço do petróleo, dado que a economia estadunidense depende da importação de petróleo para controlar a inflação, ou seja, garantir a estabilidade do preço da sua força de trabalho (salário). Veja-se: PATNAIK, Prabhat. O valor do dinheiro. O Comuneiro, nº 16, mar. 2013. Disponível em: link

sábado, 13 de março de 2021

Poder contestado: sociedades da Idade do Ferro contra o Estado? (2018) – Manuel Fernández-Götz

Reconstrução da cidade celta de Heuneburg (de 600 aC). Por: Kenny Arne Lang Antonsen.

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Traduzimos um texto do arqueólogo Manuel Fernández-Götz sobre as “sociedades da Idade do Ferro” da Europa. Consideramos que o autor trás contribuições muito pertinentes para uma compreensão mais ampla do movimento histórico (sem o reducionismo evolucionista e teleológico). Este texto é um capítulo da obra “Rebelião e desigualdade em arqueologia” (disponível em: link), que possui muitas discussões interessantes como essa. Nessa contribuição de Fernández-Götz, podemos verificar a disputa por projetos heterogêneos de modos de vida, onde a cooperação e a igualdade não aparecem apenas como “vestígios” das chamadas “sociedades de caça e coleta” como querem fazer crer certos ideólogos.

  • Referência: FERNANDEZ-GÖTZ, Manuel. (2018) Contested power: Iron age societies against the state? In: Hansen, S & Müller, J (Eds.). Rebellion and Inequality in Archaeology (11 ed., Vol. 308, pp. 271-287). Dr. Rudolf Habelt GmbH.

Observação: as notas estão ao final do texto e estão indicadas entre colchetes (antes das referências). Traduzimos o que conseguimos das figuras que foram anexadas nessa publicação. Recortamos o texto da obra da qual foi extraído em um pdf individual que pode ser encontrado nesse link.

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Epígrafe: “A realidade social é uma realidade contraditória. Isso decorre da concepção da estrutura social como uma unidade de opostos e das diferenças de interesses entre agentes individuais e grupos. A contradição e o conflito de interesses fornecem uma base inicial para uma compreensão da mudança, dominação e legitimação da ordem social” (Tilley, 1982, p. 37).

Resumo: Ao longo da antiga Eurásia, são vários os casos em que não é possível falar de uma evolução linear, contínua e gradual ao longo da proto-história de formas mais descentralizadas e igualitárias para outras mais centralizadas e hierárquicas. Embora em uma perspectiva de longo prazo possa ser observada uma tendência à crescente complexidade socioeconômica, este não foi um processo teleológico nem linear. Em vez disso, incluiu ciclos de regressão, crise, hierarquização reduzida e diminuição demográfica. Além disso, deve-se presumir que as mudanças nem sempre ocorreram de forma pacífica e que conflitos internos ou externos frequentemente estavam envolvidos. O objetivo desta contribuição é abordar o tema do conflito da Idade do Ferro, olhando para os ciclos de mudança de centralização e descentralização que ocorreram durante o primeiro milênio aC, e que estavam pelo menos parcialmente ligados a tensões dialéticas dentro e entre as comunidades.

Ascensão e queda do início da Idade do Ferro do Fürstensitze:


A gênese de grandes lugares centrais fortificados é um dos fenômenos mais importantes na pré-história europeia tardia (Fernández-Götz/Krausse, 2016; Fernández-Götz et al., 2014; Sievers/Schönfelder, 2012). Neste artigo, abordarei o tema do conflito e, em particular, das tensões internas, do ponto de vista dos processos de centralização e urbanização da Idade do Ferro. Um dos avanços mais importantes feitos pela pesquisa nas últimas décadas foi o reconhecimento de vários ciclos dinâmicos e mutantes de centralização e descentralização durante o primeiro milênio aC, de modo que um modelo de evolução unilinear não pode ser sustentado (Collis, 2014; Fernández-Götz, 2014a; Fernández-Götz, 2017; Krausse, 2008a; Salač, 2012). Esses processos de mudança estavam pelo menos parcialmente ligados a tensões dialéticas dentro e entre as comunidades.


Entre os séculos 7 e 5 aC, toda uma série de centros de poder, na maioria dos casos descritos com o termo alemão Fürstensitze (“sítios principescos”), se desenvolveram na região ao norte dos Alpes. Esses sítios, entre os quais se destacam Heuneburg, Mont Lassois, Bourges, Hohenasperg, Ipf, Glauberg ou Závist, se estendem por uma área da França Central no oeste até a Boêmia no leste (Krausse, 2008b; 2010) (Figura 1). Eles testemunham um processo de diferenciação e hierarquização no padrão de povoamento que foi ao mesmo tempo uma expressão e um catalisador para o aumento da desigualdade social (Brun/Chaume, 2013; Fernández-Götz/Krausse, 2013). Para citar apenas dois dos exemplos mais espetaculares, pesquisas recentes mostraram que todo o assentamento de Heuneburg (cidadela, cidade baixa e assentamento externo) abrangia uma área de 100 hectares durante a fase da parede de tijolos, com uma população estimada em cerca de 5.000 habitantes (Fernández-Götz, 2014b; Krausse/Fernández-Götz, 2012; Kurz, 2010), e no caso de Bourges, todo o complexo cobria várias centenas de hectares no século 5 aC (Augier et al., 2012; Milcent, 2007; 2014) (Figura 2). No que diz respeito às “tipologias sociais” que foram definidas por autores como Allen W. Johnson e Timothy Earle (2000), as comunidades que foram estabelecidas em torno de centros de poder como Heuneburg, Hohenasperg, Mont Lassois ou Bourges podem ser melhores colocado na transição de chefias complexas para os primeiros estados (Fernández-Götz/Krausse, 2013; Ralston, 2010).


Tradução das legendas da Figura 2 (na ordem da esquerda pra direita, de cima pra baixo):
– Acrópole/assentamento principesco;
– Assentamento com atividades artesanais;
– Área de depósito ritual;
– Vala defensiva;
– Caminho possível;
– Área com inumações ou necrópole;
– Assentamento;
– Assentamento com importações mediterrâneas;
– Poço de armazenamento;
– Achado extraviado;
– Inumação fora da necrópole;
– Enterro rico;
– Grande carrinho de mão;

Os assentamentos mencionados acima podem ter constituído os pontos focais de diferentes entidades que podem ter mantido relações do tipo proposto no modelo de interação de política de pares (Renfrew/Cherry, 1986), como também sugerido por sua distribuição espacial. Fortificações monumentais, arquitetura profana, sagrada e funerária, bairros artesanais e importações do Mediterrâneo, todos testemunham as múltiplas funções de tais locais. Seu significado fortificado e carregado de símbolos se manifesta nas defesas imponentes com margens, valas, muros e portões encontrados, por exemplo, no Heuneburg e no Monte Lassois. A identificação de cemitérios com sepulturas de elite nos arredores dos lugares centrais (por exemplo, Hohmichele, Giessübel-Talhau, Hochdorf, Kleinaspergle, SainteColombe ou Vix) sugere que eles assumiram funções políticas e administrativas. Além disso, tanto o santuário monumental descoberto em Závist quanto uma série de estruturas relacionadas ao culto aos ancestrais, como a garça e a procissão de 350 metros no Glauberg ou o recinto de Vix “Les Herbues” no Mont Lassois, são evidências de religiosos e aspectos de culto. Por fim, as funções artesanais e técnicas, bem como as econômicas e mercantis, se refletem na presença de oficinas de artesãos especializados ou mesmo de bairros inteiros deles, como em Bourges, e nas mercadorias importadas.


No entanto, essa primeira onda de centralização e urbanização foi seguida por uma fase de descentralização que pode ser vista como um exemplo clássico do caráter não linear da história (Diamond, 2011; Friedman, 1982; Friedman/Rowlands, 1977). Como em muitas outras partes da antiga Eurásia (ver, por exemplo, Müller, 2016), não é possível falar de uma evolução linear, contínua e gradual ao longo da pré-história tardia de formas mais descentralizadas e igualitárias para outras mais centralizadas e hierárquico, ou seja, “das aldeias às cidades” ou “dos chefes aos estados”. As razões para o fim aparentemente abrupto do Fürstensitze ainda precisam ser compreendidas. No entanto, se olharmos para o desenvolvimento desses lugares centrais entre a Borgonha e Württemberg como um todo, podemos pelo menos reconhecer um padrão. O Heuneburg foi abandonado em meados do século 5 aC, mais ou menos simultaneamente com centros de poder comparáveis, como Mont Lassois na Borgonha. Ao mesmo tempo, vários locais centrais tornaram-se mais significativos em uma área mais ao norte, por exemplo, Hohenasperg, Bad Dürkheim ou Glauberg. Esses centros de poder eram um pouco mais jovens, estavam localizados mais ao norte e puderam manter seu significado por mais tempo, ou seja, até o final do século V aC. Mas eles também foram abandonados o mais tardar no início do século IV AC (Krausse, 2008a). As causas desses deslocamentos estruturais e mudanças na paisagem do poder ainda não são claras, mas pode-se supor que as transformações nem sempre ocorreram de forma pacífica (Pauli, 1985). Por exemplo, no Mont Lassois, as cabeças das duas estátuas humanas localizadas na entrada do recinto de Vix “Les Herbues” foram quebradas, aparentemente no final do período de Hallstatt como resultado da violenta destruição do santuário (Chaume et al., 2012; Chaume/Reinhard, 2007) (Figura 3). Uma situação amplamente semelhante também pode ser vista em Glauberg, onde três das quatro esculturas de pedra antropomórficas foram destruídas intencionalmente (Baitinger/Pinsker, 2002) (Figura 4). Essa destruição consciente de imagens ancestrais, provavelmente retratando ancestrais heroizados ou heróis fundadores, tem sido interpretada por alguns autores como uma reação contra as elites, o que pode ser resumido com a expressão “société contre les princes” usada por Jean-Paul Demoule (1999a) Fenômenos semelhantes aparecem na mesma época em outras partes da Europa da Idade do Ferro. O sudeste da Península Ibérica é um bom exemplo, pois várias esculturas antropomórficas pertencentes à cultura ibérica foram intencionalmente mutiladas, provavelmente em resultado de profundas transformações sociais como no caso das imagens de Porcuna (Chapa Brunet, 1993; Chapa Brunet/Zofío Fernández, 2005).


Junto com a destruição intencional de estátuas de pedra, outro fenômeno interessante é observado. Vários centros de poder da Europa Central dos séculos 6 e 5 aC foram quase completamente queimados por incêndios. Embora explicações alternativas, como incêndios acidentais causados por raios, não possam ser descartadas, pelo menos alguns desses eventos devem estar relacionados à violência (de dentro ou de fora). Um dos melhores exemplos é o Heuneburg (Fernández-Götz, 2014b; Krausse et al., 2016; consulte também Müller Scheessel neste volume). Um hiato significativo na história deste importante assentamento começou depois de meados do século 6 aC, quando um incêndio devastador ocorreu. O fato de que após este evento traumático a fortificação de tijolos de barro foi substituída por uma construção de madeira e terra mais tradicional, o layout do interior do planalto do topo da colina foi radicalmente alterado e a maior parte do assentamento externo foi abandonado sugere que um conflito violento ocorrendo em cerca de 540/530 aC foi a causa mais provável (Figura 5). Possivelmente, isso assumiu a forma de um ataque por um inimigo externo ou conflito interno entre facções rivais. Como a parede de tijolos nunca foi reconstruída após o incêndio, pode-se sugerir que houve uma reação genuinamente iconoclasta contra a exótica técnica de construção de inspiração mediterrânea (Arnold, 2010). Em qualquer caso, o fato de que a reconstrução tanto da fortificação quanto das estruturas de assentamento foi realizada de acordo com um padrão completamente diferente é sugestivo de profundas mudanças ideológicas. Aproximadamente três gerações depois, no final do Período 1 por volta de 450 aC, o destino do Heuneburg foi selado por um incêndio catastrófico que destruiu quase completamente a fortificação e os edifícios dentro da acrópole (Gersbach, 1996). O fato de o nível de destruição estar relativamente cheio de achados milita contra a ideia de que o abandono do local foi planejado.


Independentemente das interpretações, logo após 400 aC quase todos os primeiros centros de poder chegaram ao fim (Krausse, 2010). É provável que esta mudança esteja relacionada com os processos sociais que estiveram envolvidos na migração de grupos “celtas” para a Itália e posteriormente para os Bálcãs, que são mencionados em fontes históricas. Os fatores responsáveis pelo declínio do Fürstensitze provavelmente operaram em vários níveis, de modo que as explicações monocausais são insuficientes. Entre as várias interpretações, há indícios de que um dos catalisadores foi a mudança climática: análises de núcleos da calota glacial da Groenlândia indicam que já na primeira metade do século V aC as temperaturas caíram em todo o hemisfério norte, seguido por um rápido declínio climático por volta de 400 AC (Maise, 1998; Sirocko, 2009). No nível da macro-perspectiva, as principais fases climáticas do primeiro milênio aC correspondem, de fato, às etapas mais importantes dos processos de centralização e descentralização que ocorreram ao norte dos Alpes. Os processos que levaram ao estabelecimento do Tardio Hallstatt Fürstensitze ou do Tardio La Tène oppida coincidem com fases climáticas favoráveis, enquanto as migrações “celtas” do século IV aC ocorreram durante uma fase mais fria (Brun/Ruby, 2008; Fernández-Götz, 2014a) (Figura 6). No entanto, se olharmos a situação em detalhes, numerosas nuances e exceções devem ser levadas em consideração. Por exemplo, os indicadores ambientais não explicam realmente por que alguns Fürstensitze, como o Heuneburg ou Mont Lassois, foram abandonados em meados do século V aC, enquanto outros, como Breisacher Münsterberg ou Hohenasperg, continuaram a funcionar por algumas décadas durante a segunda metade do mesmo século.


Migrações como reação às crescentes desigualdades?


Dois estudos de caso interessantes para a questão das mudanças culturais, climáticas e dos movimentos populacionais são a cultura Aisne-Marne do Champagne francês e a cultura Hunsrück-Eifel da área do Médio Reno-Mosela. Ambas as regiões testemunharam um processo de crescente hierarquização social durante o século V aC, o que levou à construção de alguns dos túmulos mais notáveis do início do período La Tène e, no caso da cultura Hunsrück-Eifel, de uma série de importantes centros fortificados no topo das colinas (ver resumo em Fernández-Götz, 2014a com leituras adicionais).

Com mais de 200 exemplos correspondentes ao período inicial de La Tène, Champagne tem a maior concentração de sepulturas de carruagem de todo o mundo “celta” (Demoule, 1999b; Diepeveen-Jansen, 2001), incluindo alguns sepultamentos notáveis como Somme-Tourbe “La Gorge Meillet”, Somme-Bionne, “L'Homme Mort” ou o túmulo “principesco” recém-descoberto em Lavau. No entanto, por volta de 400 aC ou logo depois disso, um acentuado declínio demográfico ocorreu em Champagne, o que sugere um êxodo maciço da população local. As exaustivas tabelas publicadas por Jean-Jacques Charpy (2009) não deixam dúvidas sobre o declínio da população: excluindo-se os casos duvidosos, são conhecidos 162 depósitos que foram usados durante a segunda metade do século V aC, contra apenas 36 que contêm evidências relativas as primeiras décadas do século 4 aC. Essas mudanças geralmente têm sido associadas às chamadas “migrações celtas” descritas nas fontes clássicas (Kaenel, 2007; Tomaschitz, 2002) e, acima de tudo, ao movimento das populações transalpinas para a Península Itálica (Schönfelder, 2010; Vitali, 2007). Como Thomas L. Evans (2004, p. 227) bem resumiu: “o despovoamento da região pode estar diretamente ligado às migrações Galli/Keltoi discutidas nas histórias clássicas. A associação temporal é clara, estilos de artefatos semelhantes aparecem na península italiana quase ao mesmo tempo […], e é óbvio que as populações descritas pelos relatos clássicos vieram de algum lugar. A associação entre os dois eventos pode não ser absoluta, mas a correlação entre os eventos cria uma hipótese razoável”. O deslocamento de uma parte considerável da população do Champagne para novas terras pareceria assim certo: raramente na proto-história encontramos uma correlação tão clara entre as migrações mencionadas nas fontes escritas e os dados arqueológicos. No entanto, deve ser mencionado que os territórios de Aisne-Marne nunca foram completamente “desertos”, e alguma continuidade pode ser vista ocasionalmente nos cemitérios de áreas específicas, como Beine-Suippes.


Passando para a região de Hunsrück-Eifel, o processo de hierarquização e centralização chegou ao fim no decorrer do século IV aC. Embora seja ainda muito difícil estabelecer uma cronologia precisa para o ponto de inflexão, o número total de sítios documentados pertencentes a La Tène B2 e La Tène C é certamente muito menor do que nas fases imediatamente anteriores, o que se reflete no abandono de numerosos cemitérios e do declínio dos grandes centros no topo das colinas (Fernández-Götz, 2014a; Krausse, 2006; Krausse/Nakoinz, 2000) (Figura 7). O declínio da ocupação é atestado não só pelo registro arqueológico, mas também pelos dados polínicos do Eifel Maare, que são de grande importância para a explicação do fenômeno. Para o período de Middle La Tène, os diagramas de pólen testemunham uma redução incontestável na intensidade da agricultura e um aumento do pólen arbóreo (Dörfler et al. 2000). No entanto, como no caso do Champagne, nunca houve um vácuo demográfico completo na área de Hunsrück-Eifel, mas apenas uma diminuição demográfica. Pesquisas recentes no Ulmener Maar sugerem o mesmo processo – apenas parte da população abandonou a região. Assim, embora a emigração de alguns dos habitantes deva ser reconhecida, é igualmente verdade que foi um êxodo parcial, não total. Isso é consistente com as informações disponíveis sobre as migrações durante a Idade do Ferro, uma vez que na maioria dos casos conhecidos por nós (e com algumas exceções, como o dos Helvécios) apenas uma parte das comunidades saiu, enquanto o resto permaneceu em seus territórios originais [1] (Kaenel, 2007; Kristiansen, 1998).

Em relação ao tema aqui discutido, deve-se destacar que o clima piorou por volta de 400 aC; isso estava ligado a uma redução da atividade solar e parece ter ocorrido de forma relativamente abrupta (Maise 1998; Pare et al. 2009; Sirocko 2009). A correlação desse fenômeno com os movimentos dos povos gauleses que saquearam Roma em 387 aC é tão clara que não pode ser coincidência. Claro, este quadro geral aparentemente claro torna-se mais complicado quando entramos em detalhes e tentamos analisar a situação em regiões específicas. Por exemplo, enquanto o declínio da população na região de Champagne no início do século 4 aC parece coincidir bastante com as mudanças climáticas, no caso da área de Hunsrück-Eifel a correlação entre mudança cultural e clima não parece ter sido tão direto. Na região do Médio Reno-Mosela, a redução demográfica ocorreu no decorrer do século IV aC, e não no início desse século. Assim, o agravamento do clima não pode ser usado como uma explicação monocausal. De qualquer forma, o clima frio teria um efeito mais pronunciado nas zonas altas dos maciços de Hunsrück e Eifel, em geral já menos aptas para a agricultura, o que se coaduna bastante com o declínio da população sugerido pelos indicadores arqueológicos para essas áreas (Fernández-Götz, 2014a; Hornung, 2008; Krausse, 2006).

Tendo feito essas qualificações, devemos dar mais um passo e olhar para a questão das migrações de uma perspectiva um pouco mais ampla que leva em consideração tanto os possíveis motivos desencadeantes específicos, quanto os fatores culturais e ideológicos de um tipo mais estrutural que explicam por que uma determinada comunidade reage de uma maneira e não de outra. Em uma boa proporção dos casos, a emigração foi apenas uma das várias opções possíveis (Anthony, 1990; Burmeister 2000; Prien, 2005). Na verdade, as respostas das sociedades às mudanças climáticas variaram consideravelmente, então não podemos falar sobre determinismo ambiental. Entre os motivos de natureza sócio-ideológica que podem ter induzido ou contribuído para as migrações, pelo menos em alguns casos específicos, gostaria de chamar a atenção, a título de hipótese complementar, para uma ideia já levantada por Demoule (2006): o possível papel dos movimentos populacionais como mecanismos reguladores das relações de poder, no sentido de que contribuiriam para a redução dos níveis de desigualdade social [2]. Tanto na região de Champagne quanto nas áreas de Hunsrück-Eifel, o declínio demográfico causado pelo êxodo de alguns de seus habitantes reverteu a tendência de maior hierarquização ocorrida no período anterior. A cisão de parte de um grupo é uma solução frequentemente utilizada para contrariar o excessivo entrincheiramento de poderes coercitivos, pelo que esta possibilidade não deve surpreender nos casos acima mencionados.

Como vários antropólogos e historiadores afirmaram, o desenvolvimento de formações de estado não é inexorável e não deve ser visto como o resultado “lógico”, “inevitável” muito menos “desejável” para o qual as sociedades inexoravelmente se movem (Mann, 1986; Scott, 2009; Testart, 2005) Ao contrário, ao longo da história, inúmeras comunidades em todo o mundo empregaram várias estratégias para contrariar o desenvolvimento das formas políticas estatais, o que se reflete bem na expressão “sociedades contra o Estado” usada pelo antropólogo francês Pierre Clastres (1989; para uma abordagem da Idade do Ferro na Europa, ver Demoule 1999a; González-García et al. 2011). A separação de parte de um grupo é um mecanismo frequentemente utilizado neste processo e, no caso de algumas sociedades da Idade do Ferro da Europa temperada, também poderia ter servido como uma reação às crescentes desigualdades sociais do Hallstatt tardio e os primeiros períodos de La Tène.


Em linha com os dados arqueológicos e literários disponíveis, parece que para as sociedades temperadas europeias da Idade do Ferro, ou uma parte considerável delas em algum momento de sua história, a migração atuou como um mecanismo regulador fundamental que proporcionou uma saída para tensões internas, pressões externas, etc. Seguindo Patrice Brun (1995), tradicionalmente as duas soluções mais frequentemente utilizadas para reduzir as tensões que ameaçavam o equilíbrio das comunidades foram, por um lado, a cisão de parte do grupo (exemplos históricos incluem o início da Colonização grega ou assentamento Viking da Groenlândia) e, por outro lado, o reforço do poder político por meio do estabelecimento de uma hierarquia. Tudo sugere que, em geral, as sociedades da Idade do Ferro favoreciam a primeira opção em relação à segunda. Para muitos grupos proto-históricos, a emigração deve ter sido uma opção sempre presente, sendo um componente integrante da vida social (Figura 8).

É verdade que levantar estas questões pode ser um exercício algo especulativo, mas, ao mesmo tempo, é de grande importância para tentar compreender melhor a pré-história tardia europeia, uma vez que está relacionada com questões que são essenciais do ponto de vista das grandes narrativas. Como afirmou Kristian Kristiansen (1998, p. 13): “Uma vez que as chamadas sociedades bárbaras persistiram por milênios em contato com sociedades ou estados mais estratificados, isso levanta uma série de questões quanto às causas de tal aparente estabilidade. Foi imposto pelo domínio dos centros como uma forma de subdesenvolvimento ou é a situação oposta – que as sociedades bárbaras ou tribais exibem uma resistência inerente à hierarquia, sendo a formação do Estado um desenvolvimento anormal?”.

Embora a realidade não tenha que ser preta ou branca e a resistência à hierarquia não deve ser confundida com “estabilidade”, a segunda opção parece ser mais plausível do que a primeira. As primeiras formações de estado já existiam antes do período final de La Tène – há ampla evidência de seu desenvolvimento, pelo menos embrionário, em Hallstatt-D/La Tène-A em torno de assentamentos como Heuneburg e Bourges (FernándezGötz/Krausse, 2013; Krausse et al., 2016; Ralston, 2010) – mas não conseguiram consolidar-se e foram seguidas de uma fase de descentralização com menor hierarquização social; curiosamente, essa tendência quase sempre esteve associada ao declínio demográfico. Isso indica que existiam correntes conflitantes dentro das sociedades, o que revela tensão entre tendências que favoreciam o aumento da desigualdade e outras que tendiam a limitá-la e enfatizar valores mais igualitários. Mais do que uma revolta de “massas camponesas oprimidas”, devemos ver isso como a formação de diferentes facções ou grupos de interesse, alguns liderados por membros da própria elite, que se baseariam em critérios diacronicamente e sincronicamente muito díspares e variáveis (idade grupos, laços de parentesco, líderes carismáticos que defendiam um retorno aos valores “tradicionais”, etc.). Do ponto de vista da arqueologia das identidades, essas dinâmicas estariam também ligadas a uma dialética entre processos que levaram ao estabelecimento de identidades mais individualizadas (membros da elite que se distanciam dos demais membros de sua comunidade) e correntes que tentaram manter identidades menos desigualitárias e, portanto, mais relacionais (Fernández-Götz, 2014a; Hernando, 2002; 2012).

Em termos gerais, podemos distinguir entre sociedades com “economias políticas” que desenvolvem desigualdades e hierarquias e outras em que predominam “economias morais” que enfatizam valores igualitários. Tanto as “economias políticas” quanto as “economias morais” devem ser entendidas em um sentido foucaultiano como “economias de poder”, isto é, conjuntos historicamente específicos de relações de poder (González-Ruibal, 2012). A principal diferença entre as economias política e moral é que a primeira fornece a base para a geração estrutural de desigualdades, enquanto a segunda adota mecanismos para impedir seu desenvolvimento. Se as economias políticas são baseadas em ligações entre a economia e o poder que permitem o desenvolvimento de diferenças sociais, incluindo práticas como relações com clientes, cobrança de tributos, adoração de ancestrais aristocráticos ou banquetes competitivos (Earle, 2002; Feinman/Nicholas, 2004), economias morais – sem necessariamente tendo que apoiar sistemas políticos radicalmente igualitários – colocam a ênfase em valores coletivos e isonomia, por exemplo, por meio de estratégias como a posse e exploração comunal da terra, ou assistência mútua e reciprocidade entre famílias (Clastres, 1989; Scott, 1977).


De uma perspectiva de longo prazo, podemos afirmar que não houve um desenvolvimento evolutivo contínuo em uma escala europeia de formas simples a mais complexas de assentamentos e organização sócio-política durante a Idade do Ferro, mas sim ciclos multifacetados, mutantes e dinâmicos de centralização e descentralização. A cronologia dos lugares centrais e dos túmulos suntuosos permite que se observe certo “decalage” no desenvolvimento dos processos de centralização e hierarquização, que se iniciaram primeiro no sul e centro da Itália, um pouco mais tarde no sul da França e, por volta de 600 aC, nas regiões imediatamente ao norte dos Alpes, da Borgonha a Württemberg. Esse fenômeno já havia atingido a área entre a Boêmia e o Champagne no século V aC (Figura 9). Mas, ao contrário do que costumava acontecer nas regiões mediterrâneas (Garcia, 2013), na Europa temperada as fases de centralização e de aumento da hierarquização social duraram pouco e foram seguidas por períodos de regressão em que estruturas mais descentralizadas e aparentemente menos desiguais ganharam ascendência. Assim, o nível de complexidade dos assentamentos urbanos e proto-urbanos, como Heuneburg, Mont Lassois e Bourges, não foi atingido novamente até que a oppida do período La Tène tardio apareceu vários séculos depois (Fernández-Götz et al., 2014).


Embora os contatos com o mundo mediterrâneo tenham obviamente exercido uma influência e não possam ser negados, também devem ser rejeitadas excessivas visões mediterrânicas-centradas, pois para compreender a mudança é necessário reconhecer o papel essencial da dinâmica interna das várias sociedades. Como foi mencionado acima, um dos aspectos mais interessantes decorrentes do uso de uma macroescala é a descoberta de que ao norte dos Alpes os estágios de centralização eram geralmente seguidos por outros de descentralização. Foi o que aconteceu na área de Fürstensitze e também um pouco mais tarde nas culturas Aisne-Marne e Hunsrück-Eifel (Figura 10). Neste último caso, pelo menos, a descentralização e a redução da hierarquização social andaram de mãos dadas com a emigração parcial da população, pelo que nos devemos interrogar se este fenômeno também ocorreu na área dos ‘locais principescos’ de Late Hallstatt. A resposta é que essa é uma possibilidade muito plausível, pelo menos em alguns casos, embora possam não ter sido necessariamente migrações de longa distância. Convém lembrar que conhecemos as migrações dos séculos IV e III aC e dos Cimbri e Teutões no final do século II aC, pois incidiram diretamente no mundo grego e romano, cujos escritores deixaram um registro escrito. Mas não sabemos, com certeza, se movimentos semelhantes de população também foram comuns durante os séculos anteriores ou em áreas para as quais não temos registros escritos.

A oppida da idade do ferro tardia como tecnologia de poder:


Na área imediatamente ao norte dos Alpes, uma nova tendência de centralização pode ser observada no final dos séculos III e II aC, levando ao surgimento das grandes aglomerações abertas e da oppida fortificada do período La Tène tardio (Collis, 2014; Fichtl, 2012; 2013) (Figura 11). Em termos gerais, os principais processos que teriam motivado esta nova tendência de centralização foram os seguintes: 1) A intensificação das atividades produtivas e comerciais; 2) Crescimento demográfico e ressurgimento da hierarquização social; 3) Um aumento na ‘densidade social’, ou seja, a frequência das comunicações e interações entre indivíduos e grupos; e 4) O estabelecimento em larga escala e/ou reforço da integração político-religiosa e estruturação do território. Evidentemente, nem todos esses elementos estiveram necessariamente presentes em todos os casos ou na mesma proporção. O leque de situações foi obviamente muito diverso, embora exista um denominador comum, que se destaca nas diferenças. Se adotarmos uma perspectiva foucaultiana (Foucault, 1980), a oppida representou uma nova tecnologia de poder, que possibilitou a articulação de uma ideologia mais hierárquica e centralizadora. Deste ponto de vista, e em consonância com o conceito de materialidade, o seu aparecimento também pode ser visto como uma forma de reforço da coesão social e do controlo político: os oppida são a expressão de sociedades mais desiguais e, ao mesmo tempo, contribuem para a construção dessas desigualdades (Brun, 2001; Fernández-Götz, 2014c). Em um nível mais geral, os processos de centralização pré-histórica tardia – dos Mega-sítios Trypillia da Europa Oriental do 4º milênio aC até Fürstensitze e oppida da Idade do Ferro – também podem ser interpretados como gatilhos de controle social (Müller, 2016) e, portanto, são diretamente relacionadas às relações de poder, crescentes desigualdades, tensões sociais e controle.


A estrutura interna da oppida final da Idade do Ferro geralmente indica planejamento prévio e uma manifestação dos princípios de ordem social que governam as comunidades. Na maioria dos casos, sua fundação foi uma resposta deliberada a uma decisão política, que deve ter sido iniciada pela aristocracia na Gália (Buchsenschutz/Ralston, 2012). Citando algumas palavras de Vladimir Salač (2012, 338) como minhas: “Uma vez que motivos econômicos não são necessariamente a razão primária para o surgimento de oppida, é mais provável que a mudança nos laços de poder e, portanto, as necessidades da elite ou de povos inteiros de manifestar seu poder, seja a causa. Eles também podem ser a manifestação de crescentes tensões sociais, conflitos entre elites, povos, etc.”.

Uma pergunta final que merece investigação se concentra nas condições que levaram ao surgimento de entidades estatais na Gália após o estágio de descentralização que caracterizou o período das “migrações celtas”. Embora nunca possa ter havido um único motivo e cada caso específico necessite de numerosas qualificações, de uma perspectiva macro pode-se arriscar que com a conquista de Cisalpina e posteriormente da Gália Transalpina por Roma foi mais difícil exportar conflitos internos usando a fórmula da fissão. Além disso, em algumas áreas provavelmente houve movimentos de “refluxo”, especialmente de mercenários, que voltaram não só trazendo novas experiências, mas também tensões sociais. Uma combinação de fatores – incluindo o crescimento demográfico progressivo, um aumento da demanda no mundo mediterrâneo e a introdução de novas técnicas que permitiram o aumento da produção agrícola e industrial – teria levado a um aumento da “densidade social” e a uma hierarquização crescente, o que já não podia ser reduzido tão facilmente recorrendo à migração como em épocas anteriores. O resultado foi o desenvolvimento de sociedades com tendências não igualitárias mais elevadas e a integração das comunidades em maior escala, um processo que, em alguns casos, levou à constituição dos primeiros estados (Brun, 2001; Brun/Ruby, 2008; FernándezGötz, 2014a).

Conclusão: conflito e resistência na idade do ferro europeia


Numa perspetiva de longo prazo, verifica-se uma tendência para o desenvolvimento de estruturas sociais mais hierarquizadas e centralizadas, mas este não foi um processo teleológico nem linear (Fernández-Götz, 2014a; Krausse, 2008a; Salač, 2012). Em vez disso, o cronograma discutido incluiu ciclos de regressão, crise, tempos de hierarquização reduzida e diminuição demográfica. Além disso, deve-se presumir que as mudanças nem sempre ocorreram de forma pacífica e que o conflito – interno ou externo – estava frequentemente envolvido. É claro que essas dinâmicas não afetaram necessariamente todas as sociedades da Idade do Ferro, nem o fizeram com a mesma intensidade em todas aquelas onde estavam presentes. Mas embora eles não expliquem, por si próprios, toda a extensão da “história da pré-história posterior”, eles constituem uma parte importante da história. Por esse motivo, independentemente de até que ponto os argumentos expostos acima possam precisar ser qualificados ao analisar os detalhes, vale a pena tirar algumas conclusões gerais:

  1. Os processos de hierarquização e centralização podem ser revertidos, quer por fatores externos, como as alterações climáticas (Maise, 1998), quer por causas internas de natureza sócio-ideológica (Clastres, 1989), ou, mais frequentemente, por uma combinação dos dois.
  2. O desenvolvimento de formas de organização estatal não constitui necessariamente o fim “desejável” ou “óbvio” para o qual as sociedades se desenvolvem (Clastres, 1989; Testart, 2005).
  3. As migrações – em suas múltiplas modalidades – desempenharam um papel importante nas mudanças culturais que ocorreram durante a Idade do Ferro na Europa temperada (Kristiansen, 1998; Tomaschitz, 2002).

Como observação final, podemos subscrever as seguintes reflexões de Kristiansen (1998, 417): “Temos que abandonar o mito liberal modernista de que a mudança e o progresso foram sempre realizados de forma pacífica e livre, e que o conflito, a ruptura e a migração não ocorreu na Pré-história”.

Notas:


[1] – Algo que já é visto no relato de Lívio (V, 33-35) sobre a chegada dos povos “celtas” na Itália: “[Bellovesus] Levando consigo o excedente populacional de suas tribos, os Bituriges, Arverni, Senones, Haedui, Ambarri, Carnutes e Aulerci […]”.

[2] – “À hipótese clássica das migrações causadas por uma crise econômica interna e pela atração das civilizações mediterrâneas, podemos tanto acrescentar, senão substituir, a hipótese de movimentos que tiveram o efeito de reduzir a pressão demográfica, para reduzir ainda mais desigualdade social nas áreas de partida. […] E pudemos ver nessas migrações um daqueles mecanismos que permitem lutar contra o desenvolvimento de desigualdades sociais muito fortes” (Demoule, 2006, 26).

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