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quinta-feira, 14 de abril de 2022

Introdução formativa ao anarquismo

Bandeira anarquista com legenda: “Comunismo Vencerá!”.

Apresentação


Este texto foi escrito para fins de formação e instrução sobre o anarquismo. A proposta é abordar em linhas gerais o movimento anarquista em seus fundamentos históricos e sociais. O objetivo não é esgotar as discussões sobre o assunto, apenas oferecer uma introdução ao estudo do anarquismo a partir de uma perspectiva libertária.

Nesta síntese sobre o anarquismo, utilizamos como critério de análise as condições reais da experiência histórica e social dos seres humanos. Nesse sentido, o anarquismo será compreendido como um movimento coletivo, construído por pessoas que vivem em determinadas condições e não como uma ideia inventada por indivíduos isolados de sua situação histórica.

Portanto, a presente exposição difere e também rejeita aquelas interpretações que são baseadas numa “história das ideias”. A divergência com relação a esses estudos consiste no fato de que o anarquismo precisa ser entendido como uma realidade social: algo almejado e praticado por seres humanos que fazem e são feitos pela sua história e socialidade.

Espera-se que esta contribuição possa ajudar a superar equívocos e noções falsas que são espalhadas sobre o anarquismo com o propósito ideológico de difamar esse movimento.

1. O que é anarquismo?


Provavelmente o leitor já deve ter ouvido falar em “anarquismo” ou em “anarquia” em algum lugar. Talvez tenha associado isso à bagunça e desordem social, uma vez que essas são noções do senso comum ao se referir aos “anarquistas”. Não obstante, se realizar uma breve pesquisa na web, talvez possa se deparar com algo diferente do que essa noção mais banal do senso comum. Por exemplo, se pesquisares por “significado de anarquismo” no Google, encontrará a seguinte definição extraída do Oxford Languages:

Teoria social e movimento político, presente na história ocidental do [século] XIX e da primeira metade do [século] XX, que sustenta a ideia de que a sociedade existe de forma independente e antagônica ao poder exercido pelo Estado, sendo este considerado dispensável e até mesmo nocivo ao estabelecimento de uma autêntica comunidade humana.

Embora essa definição se aproxime de alguns elementos presentes no movimento anarquista, ela ainda é insuficiente, pois o anarquismo não é apenas uma crítica ao Estado (não se reduz ao antiestatismo). É importante destacar também que o movimento anarquista tem uma existência geográfica que vai muito além da história ocidental, tendo incidência em todo o mundo. Além disso, continua existindo atualmente, ou seja: também é um fenômeno do século XXI.

Acontece que o inconveniente desses significados presentes em dicionários ou em resumos de páginas da web consiste precisamente no fato de que eles ignoram o que os anarquistas afirmaram e fizeram concretamente na história. Então as informações acabam sendo dispersas e não sistemáticas, pois não envolvem uma explicação suficientemente abrangente do movimento anarquista.

Levando isso em consideração, vamos partir de nosso posicionamento anarquista para apresentar uma definição que leve em consideração a produção teórica e prática dos militantes históricos de nosso movimento e tentaremos suprir uma parte dessa lacuna. Essa definição estará fundamentada em uma avaliação e apropriação crítica de nossa própria concepção sobre o anarquismo, uma vez que não lidamos com essa questão como algo puramente formal, mas sim como a realidade de nossa luta social existente em ato e da qual somos uma parte autoconsciente desse movimento.

1. 2. O anarquismo é uma forma de socialismo:


O anarquismo faz parte do socialismo e historicamente já teve os seguintes nomes: socialismo libertário, comunismo libertário, socialismo anarquista, comunismo anarquista, etc. Essas expressões podem parecer “estranhas” para alguém que está começando a estudar o movimento anarquista, mas elas foram e são realmente utilizadas por anarquistas ao redor do mundo.

Talvez o estranhamento dessas noções esteja associado a uma propaganda de deturpação promovida para distorcer os fundamentos socialistas do anarquismo, algo que ocorre recorrentemente na história. No entanto, qualquer estudo sério demonstra o caráter socialista do anarquismo [1]. O mesmo vale para o termo “libertário”, um neologismo cunhado pelo operário francês Joseph Déjacque (1821-1864) e utilizado em seu periódico [2] “Le Libertaire: Journal du Mouvement Social” (ativo entre 1858 e 1861).

Mas, para compreender o anarquismo, é necessário entender os fundamentos do próprio socialismo como um movimento real, ou seja: o socialismo como um processo emergente de condições sociais historicamente específicas. Portanto, vamos fazer uma explicação resumida das condições de emergência da luta socialista em geral e do anarquismo em particular.

Socialismo: é um movimento coletivo que surge historicamente a partir da revolta das classes exploradas e dominadas contra a exploração e a dominação. A luta dessas classes produz historicamente um interesse coletivo pela abolição da exploração e da dominação que é corporificado (ganha um corpus teórico-prático) em um programa emancipatório (que se traduz no socialismo).

As formas gerais de exploração e de dominação que emergem e se desenvolvem nas sociedades de classe são baseadas na distinção entre proprietários dos meios de produção econômica e despossuídos que são obrigados a trabalhar para esses proprietários (a exploração ocorre com a apropriação do sobreproduto do trabalho pelos proprietários). O socialismo expressa o desejo de libertação social dos explorados através do objetivo de abolição da propriedade privada, pois nesse processo se reestabeleceria o controle da produção econômica a todos, suprimindo as classes sociais.

Não obstante, é necessário distinguir entre o fato jurídico da propriedade privada do seu fundamento político-econômico. Compreendemos por propriedade privada um determinado modo de apropriação presente em formações sociais de classe onde existe uma classe dominante que controla os meios de produção (trata-se de um modo de apropriação privativo). Isso é diferente da propriedade em sentido jurídico que seria simplesmente a forma ideológica de justificação da apropriação privativa.

Portanto, para o socialismo se realizar, é necessário a abolição da apropriação privativa (da propriedade privada). Isso exige uma transformação revolucionária da sociedade.

Observação sobre o conceito de ideologia e a diferença entre justificação ideológica e movimento revolucionário: não consideramos que o anarquismo seja uma ideologia, pois compreendemos por ideologia um certo tipo de consciência dos interesses da dominação de classe vigente em uma determinada formação social. Nesse sentido, a ideologia não é um termo vago para qualquer “sistema de ideias e valores”, mas uma forma histórica de consciência social cuja gênese está associada com as relações de classe. Os processos ideológicos se manifestam através do conjunto dos valores, discursos, regras de conduta, saberes institucionais (como a administração), saberes científicos (quando os mesmos são reproduções de pressupostos ideológicos) e demais meios de subjetivação que consistem em regular a vida social no sentido da reprodução das relações de classe vigentes (não implica necessariamente uma concepção voluntária da parte da classe dominante, pois os processos ideológicos ocorrem espontaneamente como função de conservação da ordem social vigente). A característica peculiar da ideologia é “apresentar um interesse particular como geral” (MARX & ENGELS, 2007, p. 49), ou seja, questões particulares relacionadas ao domínio de um grupo social são apresentadas como uma generalidade para toda a sociedade. Isso também ocorre em função de uma sobreposição nas normas preexistentes, como descreve Kropotkin sobre a assimilação de costumes na forma de leis: “Os costumes (…) estão com habilidade misturados, no Código, às práticas impostas pelos dominadores, e aspiram ao mesmo respeito da multidão” (KROPOTKIN, 2009, p. 172). Nesse sentido, outro mecanismo sutil da ideologia é se confundir com os hábitos e o senso comum (formando um status quo). Além disso, justamente para “generalizar o particular”, será da natureza do discurso ideológico se apresentar como “a-ideológico”, como “puramente técnico” em certos casos, como “consenso científico” noutros, ou mesmo como idêntico à “moralidade” em si (dependendo da forma de assentimento que operar na sua reprodução).  Por outro lado, um movimento revolucionário é o fato social da existência de interesses antagônicos em uma formação social, assim como o desenvolvimento desse antagonismo sob a forma de uma luta de classes. Na medida em que o conflito social se agudiza, a sociedade se divide em uma posição revolucionária e uma posição reacionária que tendem a se anular mutuamente até que uma transformação radical mude essa situação histórica. Do lado da revolução social existe, como potenciais virtuais, o germe de formas sociais alternativas, portanto não se confundem com as justificativas ideológicas das formas atuais. É nesse sentido que o anarquismo não é ideológico, mas sim revolucionário.

Capitalismo e socialismo: A sociedade de classes contemporânea que se encontra o mundo inteiro atualmente é o capitalismo. Trata-se de um modo de produção baseado na exploração do trabalho daqueles que vendem sua força de trabalho para aqueles que a compram através do salário. Nesse modo de produção, os dominantes são os capitalistas (aqueles que personificam o capital) e os dominados são chamados de proletários, porque são obrigados pela sua condição social a vender sua capacidade de trabalhar (força de trabalho) para os capitalistas. Assim, a luta de classes da atualidade centra-se no antagonismo entre proletários e capitalistas, onde os primeiros são a classe revolucionária (portadores do socialismo) e os segundos a classe reacionária (defensores do capitalismo). Em suma, essas são as condições sociais reais da gênese do movimento socialista moderno.

Observação sobre o conceito de interesse de classe: Contra as objeções liberais a respeito da passividade e resignação dos dominados, afirmamos o seguinte: a ausência de ação coletiva de um grupo social indica justamente que esse grupo não age como grupo. A ideologia liberal costuma difundir a ideia de que se a maioria de um grupo social não se mobiliza, então qualquer ação de minorias ativas desse grupo não poderia expressar a vontade geral dessa coletividade (que seria indicada pela média), portanto não poderia se dizer que essa minoria age no interesse do grupo ao qual faz parte. No entanto, isso não faz o menor sentido do ponto de vista da compreensão das ações políticas. A defesa de um interesse geral de um determinado grupo social pode ocorrer por um conjunto extremamente minoritário de pessoas e, mesmo assim, não vai deixar de ser um interesse do grupo, precisamente porque o interesse expressa as necessidades coletivas do grupo independentemente das vontades particulares majoritárias estarem ou não mobilizadas para esse fim, pois o interesse tem uma natureza qualitativa e objetiva mais do que quantitativa e subjetiva (a maioria de um grupo pode almejar subjetivamente a própria ruína e nem por isso esse seria um interesse que expressa as necessidades coletivas reais do grupo).

Socialismo segundo o anarquismo: Um destacado militante anarquista que viveu no Brasil, Edgard Leuenroth (1881-1968), explica [3] que (1963, p. 64): “Socialismo, em sua legítima significação histórica, é a socialização da propriedade e dos meios de produção, isto é, a reversão dos bens sociais, à comunidade humana, para serem postos em proveito de todos, visto serem produto do esforço de todos”. Nesse sentido, o socialismo não é o mesmo do que “compartilhar a escova de dentes”, “deixar sua casa nas mãos do governo” e outras bobagens que usam para o difamar.

A socialização dos meios de produção significa que a organização da produção será responsabilidade de associações de produtores e consumidores sem a finalidade de lucrar, pois o lucro é baseado na exploração do trabalho alheio. O conjunto dos ramos da produção seriam administrados coletivamente pela comunidade humana em vez de serem bens exclusivos de patrões e burocratas, o processo econômico não ficaria mais a mercê das oscilações do mercado e do sistema de preços como ocorre atualmente. A socialização é o objetivo construtivo do socialismo, enquanto que a destruição da propriedade privada é o ponto de partida destrutivo.

As sociedades de classe também são estruturadas a partir da dominação política, pois a proteção da propriedade exige meios de coerção (violência) e processos de controle ideológico (hegemonia cultural). Nesse sentido, as classes dominantes constroem uma organização coletiva para exercer um poder estrutural sobre os dominados: o Estado. Além do ordenamento coercitivo e jurídico do Estado, as classes dominantes também buscam impedir uma consciência autônoma dos dominados, portanto constroem uma ideologia, isto é, a subordinação da consciência social às relações de classe vigentes. Geralmente a ideologia funciona como uma forma de “naturalizar” (considerar “normal”) as relações sociais históricas e particulares de uma determinada sociedade (por exemplo: pressupor que sempre existiu mercado, algo que é falso quando se estuda a história humana).

Nesse sentido, é necessário reconhecer a indissociabilidade da propriedade privada com o monopólio da violência (Estado) usado para defendê-la, pois só existe controle exclusivo sobre meios de produção quando essa apropriação está protegida pelo aparato coercitivo do Estado. Nesse sentido, a realização da socialização implica na destruição de ambas as instituições. No entanto, é nesse ponto que alguns socialistas vão discordar entre si.

A questão do Estado criou uma controvérsia no movimento socialista, pois muitos acreditam na “utilidade” de um aparato estatal para suprimir a propriedade privada. Certas concepções defendem que seria necessário que os dominados e explorados construíssem seu próprio Estado como meio de defesa dos seus interesses de classe, buscando usar esse meio para atingir o objetivo final do socialismo (o Estado definharia no processo dessa luta coletiva e deixaria de existir, pois deixaria de ser “útil” quando o objetivo fosse atingido). Aqueles que rejeitaram essa posição foram os responsáveis pela proposta anarquista de socialismo.

Portanto, o anarquismo é a defesa da “coerência lógica de suas finalidades com os meios empregados para realizá-las” (FRANCO, 1962, p. 60) [4], pois considera-se que o processo revolucionário de transformação social precisa ser organizado a partir de formas políticas e econômicas próprias da classe dominada e que estejam de acordo com os objetivos inerentes do socialismo, sem reproduzir os modelos legados pelos dominadores. A crítica anarquista considera que os “meios incoerentes com os fins” são um desvio oportunista no socialismo cuja consequência prática acaba sendo a reprodução da dominação sob outras formas. Tanto que o termo “libertário” ou a designação de “anti-autoritário” tem a ver com essa rejeição do autoritarismo para o desenvolvimento coerente do socialismo.

A organização do poder político para construir o socialismo, segundo os anarquistas, ocorre a partir da anarquia: que significa tanto a auto-organização dos explorados quanto uma determinada situação social onde as pessoas se relacionam sem estruturas verticais de poder e autoridade, “o funcionamento harmonioso de todas as autonomias, resolvendo-se na igualdade de todas as condições humanas” [5], como afirma o anarquista espanhol Ricardo Mella (1861-1925).

Contudo, os anarquistas não negam a necessidade de “minorias revolucionárias” responsáveis por defender ativamente o programa revolucionário, nem tampouco o papel de liderança dessas minorias. O que os anarquistas negam é a institucionalização de privilégios para essa vanguarda revolucionária, pois a função de realizar a direção revolucionária do movimento socialista é um compromisso com a causa emancipatória e não uma forma de tirar vantagem oportunista do movimento.

No socialismo também existem controvérsias a respeito da forma social de produção na qual se fundaria a “nova sociedade”. Em termos gerais, as sociedades humanas possuem relações sociais de produção que se reproduzem e/ou se alteram no curso da história. Existem diferentes modos de produção que correspondem a distintas formações sociais. O socialismo anarquista defende como produção social a construção do comunismo, embora tenham ocorrido algumas divergências com relação a essa questão (como o caso de alguns autodenominados “coletivistas”). Segundo Leuenroth (1963, p. 64): “Por comunismo, também de acordo com sua significação histórica, os anarquistas entendem o sistema de convivência social que, dentro do socialismo, se estrutura de acordo com o princípio – ‘de cada um segundo sua capacidade e a cada um segundo as suas necessidades’”. Em outras palavras: o comunismo seria um modo de produção onde as pessoas cooperam para realizar as necessidades uma das outras a partir das capacidades de que dispõem coletivamente.

O anarquismo é, portanto, fruto da união entre a luta pela socialização dos meios de produção com a luta por uma organização social libertária, isto é, onde cada um e todos tenham poder e influência sobre as decisões nos assuntos da comunidade humana.

Além disso, é importante destacar que o socialismo/comunismo/anarquismo não é um ideal abstrato com a qual se pretende moldar o mundo, mas sim um movimento real que surge de tendências sociais e históricas concretas nos seres humanos.

O anarquista russo Piotr Kropotkin (1842-1921), responsável por popularizar o termo “anarco-comunismo”, afirma nesse sentido que [6]:

Quanto ao método seguido pelo pensador anarquista, ele difere em grande parte do seguido pelos utópicos. (…) Ele estuda a sociedade e tenta descobrir suas tendências, passadas e presentes, suas necessidades crescentes, intelectuais e econômicas; e, em seu ideal, ele apenas aponta em que direção a evolução segue. (…) O ideal do anarquista é, portanto, um mero resumo do que ele considera ser a próxima fase da evolução. Não é mais uma questão de fé; é um assunto para discussão científica (1887, pp. 238-239).

O anarquismo, além de seus objetivos práticos, também possui uma teoria e um método revolucionário para realizar seu programa. Portanto, é como Luigi Fabbri (1877-1935), anarquista de origem italiana, escreveu certa vez [7]: “O que nos distingue, não só na teoria mas também na prática, dos outros partidos é que nós não somente temos um objetivo anarquista mas também um movimento anarquista, uma metodologia anarquista” (1921, p. 267).

E apesar de divergências entre as diferentes tendências no anarquismo, podemos destacar alguns métodos e princípios como: a ação direta, a organização autônoma dos explorados, o federalismo libertário (contestado em alguns casos), o sindicalismo revolucionário (rejeitado pelos críticos do sindicalismo, como os anarquistas insurrecionalistas), o internacionalismo proletário (a necessidade de articulação internacional das lutas), dentre outras práticas e métodos que serão discutidas mais adiante.

Em suma, como afirma o documento de proposta organizacional produzido em 1926 por militantes anarquistas exilados da Rússia (Dielo Truda, 2017, on-line) [8]:

A luta de classes, criada pela escravidão dos trabalhadores e suas aspirações por liberdade, gerou entre os oprimidos a ideia do anarquismo: a ideia da negação completa do sistema social de classes e de Estado, e de sua substituição por uma sociedade livre, sem Estado e de trabalhadores que administram a si mesmos.

Assim, o anarquismo não emergiu das reflexões abstratas de um cientista ou de um filósofo, mas da luta direta dos trabalhadores contra o capital, das suas necessidades e exigências, dos seus aspectos psicológicos, das suas aspirações à liberdade e à igualdade; de tudo aquilo que as massas trabalhadoras vivenciam nas melhores e heroicas épocas de suas vidas e lutas.

Os pensadores proeminentes do anarquismo – Bakunin, Kropotkin e outros – não criaram a ideia do anarquismo, mas, encontrando-a nas massas, ajudaram, pela força de seu pensamento e de seus conhecimentos, a precisá-la e a difundi-la

O anarquismo não é produto de criações ou de práticas individuais. (…)

O nascimento, o florescimento e a realização dos ideais anarquistas têm suas raízes na vida e na luta das massas trabalhadoras, e estão inseparavelmente ligados ao seu destino.

2. O que é anarquia?


Anarquia é auto-organização sem governo, simetria de poder.

Por muito tempo o senso comum e a mídia usaram a palavra “anarquia” como sinônimo de “desordem”, “bagunça”, uma situação caracterizada como uma “ausência de regras” (ou o desrespeito total delas). Assim, por tabela, o “anarquista” seria o indivíduo que se comporta de forma “antissocial” e o “anarquismo” seria uma situação caótica na sociedade. No entanto, essas noções são equivocadas, apesar de haver um motivo para serem difundidas assim. Antes de falar do sentido propriamente anarquista do termo, convém mencionar seu significado original.

Para fins de ilustração, pesquisamos em um dicionário e encontramos algo assim: anarquia [9] (do grego: αναρχία) é “1) falta ou ausência de chefia; 2) falta de autoridade, de direção; recusa de obedecer; 3) anarquia; 4) em Atenas, o ano sem arcontes; 5) falta de cargos” (MALHADAS et al., 2006, p. 66). O interessante dessa definição é a menção ao “arconte”: trata-se de um título dado aos membros de uma assembleia de nobres da Atenas durante a Grécia Antiga (o arcontado). O significado original da palavra pode ser resumido da seguinte forma: ausência ou recusa de governantes.

Se este já é o significado de anarquia para além do uso anarquista, então podemos presumir que as autoridades dissimulam que isso é sinônimo de “bagunça” justamente por se sentirem ameaçadas. Os governantes precisam dessa propaganda ideológica para fazer as pessoas acreditarem que não é possível organizar a vida social sem o uso de formas autoritárias de poder.

***


Agora que sabemos o significado gramatical de anarquia, vamos verificar alguns usos históricos antes de sua apropriação pelos anarquistas. Serão apresentadas duas situações onde a anarquia se tornou um importante instrumento de acusação política na história moderna.

No século XVII, a palavra “anarquia” foi usada na Inglaterra durante a guerra civil que culminou na chamada “revolução puritana” que estabeleceu o primeiro governo republicano da história. Trata-se de um processo complexo de luta de classes que resultou no estabelecimento de condições mais favoráveis ao desenvolvimento do capitalismo. O conflito entre o Parlamento (puritanos) e Carlos I (realistas) representava a luta da burguesia aliada à nobreza progressista contra a aristocracia decadente. A conquista do poder político para a burguesia não foi possível sem a mobilização dos pequenos produtores e camponeses. O desfecho da vitória do Parlamento trouxe consigo reivindicações que iriam além das ambições de classe dos burgueses. Os que buscaram continuar o processo revolucionário foram reprimidos. Nessa ocasião, usaram como propaganda ideológica a acusação de que os radicais queriam promover a “anarquia”.

Durante a guerra civil inglesa, o líder militar Oliver Cromwell (1599-1658) construiu o “New Model Army” em 1645 para lutar contra as tropas realistas. Nesse exército, os soldados passaram a ser promovidos com base na competência e não mais pelo nascimento em uma família de prestígio e entre os recrutas se encontravam, muitas vezes, pessoas de classes intermediárias ou mesmo camponeses pobres. Depois da derrota de Carlos I, uma ala do exército composta por pequenos produtores começou a promover uma série de reformas para além daquelas que estavam previstas pelos puritanos. Esse agrupamento ficou conhecido como “levellers” (niveladores). Dentre as reivindicações estava o sufrágio universal, defendido pelos levellers constitucionalistas mais radicais, enquanto que os puritanos desejavam apenas o voto censitário (restrito a grandes proprietários).

O leveller Thomas Rainsborough (1610-1648) declarava no Debate de Putney [10] em 1647: “Acho que está claro que todo homem que deve viver sob um governo deve primeiro, por seu próprio consentimento, colocar-se sob esse governo”. Ao que Cromwell respondia: “a consequência desta medida tende à anarquia, deve terminar na anarquia”. Nesse sentido, mesmo que anarquia não tivesse relação com o sufrágio universal, nem pudesse ser provocada por isso, a propaganda puritana utilizava o termo como sinônimo de “desordem”. A oposição dos levellers foi reprimida por Cromwell, que chegou a impor uma ditadura para impedir a proliferação de movimentos subversivos que questionassem a nova ordem estabelecida.

Também ocorreu uma associação das ideias “niveladoras” com o “comunismo”, principalmente a partir da defesa de uma certa forma de “comunismo agrário” da parte dos autodenominados “levellers autênticos”. Também conhecidos como “diggers” (escavadores), esse outro movimento ocorreu por volta de 1649, liderado por Gerrard Winstanley (1609-1676), que afirmava que: “A liberdade é o homem que girará o mundo de cabeça para baixo, por isso não espanta que tenha tantos inimigos… A autêntica liberdade reside na comunidade em espírito e na comunidade das riquezas terrenas” (1649, pp. 316-317 apud HILL, 1987, p. 117) [11]. Em abril de 1649, os diggers apossaram-se de algumas terras desocupadas na Colina de São Jorge em Surrey para estabelecer uma comuna rural. Ela foi dissolvida em agosto do mesmo ano pelas autoridades locais e as pessoas dispersadas. Um ano depois o clérigo e teólogo milenarista Nathanael Holmes (1599-1678) afirmou que seu coração tremia só de pensar “em uma paridade popular; uma anarquia niveladora” (1650, p. 32) [12].

No século XVII, a anarquia seria utilizada novamente em contexto de turbulência social, durante a Revolução Francesa. A acusação de “anarquista” servia como propaganda difamatória contra os grupos radicais que buscavam dar continuidade ao processo revolucionário. Curiosamente, dizia-se que era necessário uma outra revolução para impedir a anarquia. Jacques-Pierre Brissot (1754-1793), líder político do partido girondino (ala moderada da revolução francesa), afirmava que [13]: “Três revoluções eram necessárias para salvar a França: a primeira derrubou o despotismo; a segunda aniquilou a realeza; a terceira deve abater a anarquia” (BRISSOT, 1792 apud KROPOTKIN, 1935, p. 355). Brissot definia a anarquia principalmente como um ataque à propriedade (BRISSOT apud KROPOTKIN, 1935, p. 360), perpetrada por grupos que “odiavam proprietários”. Novamente: a anarquia fora associada à negação da propriedade e à “desordem social” e usada pelos representantes da nova classe dominante para classificar as alas mais radicais da revolução.

***


Somente no século XIX que a “anarquia” seria apropriada pelo movimento socialista, durante a emergência das organizações operárias na França. Para compreender essa gênese do sentido positivo de anarquia, é necessário recusar o mito de que existem “pais fundadores” no socialismo, pois como afirma Joseph Déjacque [14]: “O pensador que emite uma nova ideia, (…) apenas emite essa ideia (…) porque ele a desenhou da multidão no estado de elaboração (…). Ninguém pode afirmar ser o proprietário ou mesmo o produtor exclusivo de uma ideia” (1859). As condições sociais são a base real sobre a qual as pessoas formulam ideias, porque [15] “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência” (MARX, 2008, p. 47).

Costuma-se considerar, mesmo equivocadamente, que o francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) seria o “primeiro anarquista”, apenas por ele ter afirmado que era anarquista no seu escrito “O que é a propriedade?”, publicado pela primeira vez em 1840. Mas o próprio Proudhon recusará essa denominação mais tarde, além de usar o sentido negativo de anarquia tanto antes (em 1839) quanto depois em suas obras [16]. No entanto, Proudhon exerce influência em militantes históricos do anarquismo como Mikhail Bakunin (1814-1876) e suas ideias mesmas emergem de um contexto de associações operárias na frança que vale a pena mencionar.

Ao se perguntar “O que é propriedade?” [17], Proudhon respondeu que ela era um roubo, que o proprietário é um ladrão que priva os outros dos bens socialmente produzidos, pois “toda a proeminência social, atribuída ou, melhor dizendo, usurpada sob o pretexto de superioridade de talento e serviço, é iniquidade e usurpação” (PROUDHON, 1975, p. 14). Nesse mesmo escrito ele se afirmou anarquista, mas ele queria dizer simplesmente que a anarquia é a liberdade na medida em que “não admite o governo da vontade, mas só da autoridade da lei, isto é, da necessidade” (PROUDHON, 1975, p. 243) e o anarquista é aquele que almeja esse estado de coisas a partir da “ordem natural” da sociedade. Sua primeira definição positiva de anarquia lembra a do filósofo alemão Immanuel Kant [18] (1724-1804): “Lei e liberdade sem poder (anarquia)” (KANT, 2006, p. 331).

Proudhon não defendeu em nenhum momento a abolição do Estado, apesar do espírito socialista de seu texto. Nem sequer participou da insurreição de junho de 1848 na França, chegando a se opor aos operários insurrectos. Ele chegou a ser eleito para a Assembleia Constituinte, embora tenha se desiludido com a mesma posteriormente.

No contexto da obra de Proudhon, haviam “patentes semelhanças” entre sua “ideia associativa” e “o programa dos Mutualistas de Lyon”, pois “o ideal socialista que ele perseguia já estava sendo realizado, em certo grau, por aqueles trabalhadores” (VICENT, 1984, p. 164) [19]. Isso porque as ideias de Proudhon correspondiam ao seu contexto e condição: ele era um operário da tipografia e estava em contato com as questões que permeavam sua classe social. Entretanto, o caráter revolucionário do socialismo não foi assumido por Proudhon, como atesta sua participação no governo francês em 1848. Suas incoerências e contradições correspondem à situação do próprio proletariado que oscila entre a ideologia da classe dominante e a autoconsciência revolucionária para se emancipar. Em função dessas inconsistências, não se deveria considerar Proudhon como anarquista, embora fosse um socialista que defendia o mutualismo e o federalismo.

Embora Proudhon não fosse anarquista, haviam tendências comunistas na França desse período que o eram. A “primeira publicação comunista libertária” da história, segundo Max Nettlau (2008, pp. 100-101) [20], teria sido o jornal “L'Humanitaire, Organe de la Science Sociale”, publicado em Paris no ano de 1841. Segundo seus redatores, o objetivo deles era desenvolver um “plano de uma organização social onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida” (julho de 1841) [21]. Entre os responsáveis por L'Humanitaire se encontravam “artesãos, operários ou lojistas da velha Paris” (PARIS, 2014) [22]. Eles diziam se identificar com Sylvain Maréchal (1750-1803) em função de suas ideias “anti-políticas ou anarquistas”, mas rechaçavam deste último sua aversão à libertação social das mulheres. Eles ficariam conhecidos na França da época como “comunistas materialistas” e também influenciaram os operários na insurreição de 1848. Não obstante, a repressão dissolveu o grupo ainda em 1842, antes de desenvolverem o “plano” que apenas esboçaram. Apesar da conotação positiva dada ao termo anarquia, eles não deixaram uma definição precisa para o termo.

Somente trinta anos depois, no contexto da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1876) que o termo retorna ao vocabulário do movimento socialista. Marx e Engels, durante uma controvérsia com Bakunin, afirmaram que: “Todos os socialistas entendem por Anarquia isto: o objetivo do movimento proletário, uma vez alcançada a abolição das classes” (março de 1872) [23], ou seja: a anarquia seria apenas a forma de organização social do futuro (onde as funções governamentais desaparecem e dão lugar à administração direta), mas não era considerada um meio de luta. Bakunin respondia, em seu “Estatismo e Anarquia” [24] (1873), que a anarquia também era o meio para a construção da sociedade futura durante o processo revolucionário, a forma de uma “livre organização das massas operárias, de baixo para cima” (2003, p. 214). No entanto, seria necessário uma seção inteira para discutir a controvérsia por trás dessas afirmações, então vamos apenas ficar com as definições de “anarquia” aqui oferecidas.

Os socialistas libertários consolidaram a definição positiva de “anarquia” durante um congresso da federação do Jura em 1880, remanescente da Associação Internacional dos Trabalhadores. Nessa ocasião, em La Chaux-de-Fonds na Suíça, o comunicado “Anarchie et communisme” (“Anarquia e Comunismo”) de Carlo Cafiero (1846-1892) foi lido e aprovado pelos participantes. Este documento foi publicado em L'Avant-Garde e em Le Révolté, em Genebra, no mesmo ano. A síntese foi o anarco-comunismo, que se tornaria o programa majoritário do anarquismo. Esse documento define anarquia durante a luta revolucionária e depois da organização libertária da sociedade (e faz o mesmo com o comunismo) [25]:

Hoje, a anarquia é ataque, a guerra contra toda autoridade, contra todo poder, contra todo Estado. Na sociedade futura, a anarquia será a defesa, a prevenção contra o reestabelecimento de toda autoridade, de todo poder, de todo Estado (…).

O comunismo atualmente ainda é ataque; é a destruição da autoridade, mas é a tomada de posse, em nome de toda humanidade, de toda riqueza existente no mundo. Na sociedade futura, o comunismo será o gozo de toda riqueza existente por todos os homens e segundo o princípio: de cada um segundo suas faculdades, para cada um segundo suas necessidades.

Vale destacar que atualmente os anarquistas compreendem que não se trata de uma “rejeição do poder”, mas de sua distribuição simétrica entre as pessoas para que não haja poder de uns sobre os outros, mas de todos e por todos, sem subjugação.

3. A revolução social segundo o anarquismo (Bakunin, Malatesta e Makhno)


É importante destacar que essa abordagem formativa não tem a intenção de ser exaustiva e adentrar os pormenores de cada discussão realizada. Isso é enfatizado novamente nessa seção, pois a questão da revolução social é uma das mais fundamentais e mais complexas do anarquismo. Nesse sentido, não se pretende oferecer uma “solução final” aqui que deveria ser seguida dogmaticamente, mas sim apresentar um resumo do nosso legado, isto é, da contribuição histórica do anarquismo enquanto movimento de luta em prol da revolução social.

Para essa discussão, deve-se analisar as “orientações programáticas” e a teoria revolucionária que as constituem, assim como as realizações práticas e suas respectivas composições sociais. Convém enfatizar que não se trata aqui de fazer um “culto” às personalidades históricas, mas de extrair diretrizes que fundamentam a conduta revolucionária dos anarquistas.

3. 1. Mikhail Bakunin (1814-1876):



A luta revolucionária não é um palco para eufemismos, mas um processo sério e violento pelo qual necessariamente se deve passar para se conquistar a emancipação humana integral. Conforme Bakunin afirmou certa vez (1870):

As revoluções não são uma brincadeira de crianças, nem um debate acadêmico em que unicamente as vaidades se matam mutuamente, nem um torneio literário em que nada além de tinta é derramada. Revolução é guerra, e quem diz guerra diz destruição de homens e coisas. É, sem dúvida, uma pena para a humanidade que ainda não tenha inventado um meio de progresso mais pacífico, mas até o presente toda novidade na história não foi realizada senão depois de ter recebido o batismo do sangue. Por outro lado, a reação nada tem a censurar a revolução a esse respeito. A reação sempre derramou mais sangue do que a revolução. Como prova, há os massacres de Paris em junho de 1848 e em dezembro de 1851; como prova, estão aí as violentas repressões dos governos despóticos de outros países da mesma época e depois, para não falar das dezenas, das centenas de milhares de vítimas que custam as guerras, que são a consequência necessária e a febre periódica desse estado político e social que se chama reação [26].

Em “Estatismo e Anarquia”, Bakunin compreendia a “consciência do caráter universal da revolução social e da solidariedade do proletariado de todos os países” (BAKUNIN, 2003, p. 40), portanto “para o proletariado, quaisquer tropas, nacionais ou estrangeiras, são da mesma forma inimigas” (BAKUNIN, 2003, p. 41). “Assim, hoje, existe, para todos os países do mundo civilizado, um único problema universal, um único ideal: a emancipação total e definitiva do proletariado da exploração econômica e do jugo do Estado” (BAKUNIN, 2003, p. 73). E, “por natureza, esta revolução é internacional” (BAKUNIN, 2003, p. 74). Mas “os Estados não desmoronam por si mesmos; só a revolução social (…) em todos os países do mundo, é capaz de destruí-los” (BAKUNIN, 2003, p. 70). Portanto, torna-se necessário: “Organizar as forças populares para realizar esta revolução” (idem).

Embora Bakunin só tenha militado efetivamente como “socialista revolucionário” entre 1868 e 1872, suas concepções sobre militância revolucionárias podem ser encontradas de forma incipiente em seus escritos de antes (na fase das “organizações secretas”). Nesse sentido, em “Sociedade Internacional Secreta da Revolução – Programa provisório convencionado pelos irmãos fundadores” [27], ele apresenta a proposta de uma organização secreta criada em 1864 que indica sua concepção organizacional. Portanto, apesar dos apelos para a “organização de baixo para cima, da circunferência para o centro”, Bakunin também considerava que era necessário que “a organização revolucionária secreta chegue a um centro único, o qual ligará os esforços parciais dos revolucionários de todos os países a um Plano geral de ação e de movimento” (BAKUNIN, 2014, p. 141, grifos nossos).

A implicação disso é a seguinte: a teoria anarquista da revolução, por mais que esteja baseada nas forças imanentes da classe revolucionária, não rejeita uma direção revolucionária no sentido de uma centralização de minorias revolucionárias que defendem o programa geral da revolução de forma unitária e coesa.

Não obstante, Bakunin não derivava desta necessidade prática qualquer privilégio para os militantes da organização. Trata-se tão somente de uma união geral de militantes anarquistas, na medida em que precisam agir de forma coordenada através de uma estratégia em comum para atingirem seus objetivos.

Bakunin permanecia um crítico feroz de toda e qualquer ingerência impositiva sobre as massas proletárias. Por isso ele defendia, paralelamente a essa coordenação, a autonomia das organizações proletárias, pois deve-se evitar a todo custo o aparelhamento burocrático das organizações parciais do proletariado, para que elas permaneçam na anarquia (na “organização de baixo para cima, da circunferência para o centro”). É neste sentido que ele critica o “dirigismo impositivo” dos chamados “socialistas autoritários”.

A conciliação entre a proposta de organização autônoma “de baixo para cima” com a direção da revolução social impulsionada pela “organização secreta revolucionária” se expressa na concepção de uma “ditadura invisível” (que recebe esse nome não apenas pela defesa do caráter secreto da organização revolucionária, como também pela ausência de personificação pública). Tal proposta estará presente em sua “Carta a Albert Richard” [28] (12 de março de 1870):

E quando a hora da revolução tiver soado, teremos a liquidação do Estado e da sociedade burguesa, incluindo todas as relações jurídicas. A anarquia, quer dizer, a verdadeira, a franca revolução popular a anarquia jurídica e política, a organização econômica de baixo para cima e da periferia ao centro, o mundo triunfante dos trabalhadores.

E, para salvar a revolução, para conduzi-la a um bom fim, no meio mesmo desta anarquia, é necessária a ação de uma ditadura coletiva, invisível, não revestida de uma força qualquer, mas, sim, eficaz e possante, ação natural de todos os revolucionários socialistas, enérgicos e sinceros, disseminados sobre toda a superfície do país, mas unidos fortemente por um pensamento e por uma vontade comum (grifos nossos).

Bakunin explica melhor essa concepção na sua “Carta a Serguey Guennadevich Nechayev” [29] (2 de junho de 1870):

Com que autoridade, com que força vamos administrar a revolução popular? Mediante uma força invisível que não terá nenhum caráter público e que não se imporá a ninguém; mediante a ditadura coletiva de nossa organização que será tanto mais poderosa quanto ficar invisível (…).

Imagine, em meio desta anarquia popular, uma organização secreta que dispersa seus membros em grupos pequenos por toda a superfície (…), mas estão firmemente unidos, animados por uma mesma ideia e um mesmo objetivo (…). Tais grupos, que não buscam nada para eles próprios, nem proveitos, nem honras, nem autoridade, estarão capacitados para dirigir o movimento popular contra todos os ambiciosos, desunidos e opostos uns aos outros, e encaminhar-los para a realização tão integral como seja possível do ideal social e econômico, e para a organização da liberdade popular mais completa. É o que chamo a ditadura coletiva da organização secreta.

Esta ditadura não conhece nem ganância, nem vaidade, nem ambição, porque é impessoal, invisível e porque não fornece a ninguém daqueles que compõem os grupos, tampouco aos próprios grupos, nem proveitos, nem honras, nem reconhecimento oficial de um poder qualquer. (…)

A associação inteira forma um corpo, um todo sólido unido, dirigido pelo Comitê Central e leva uma guerra subterrânea permanente contra o Governo e contra as organizações que a combatem (grifos nossos).

Tal é, segundo nosso entendimento, a forma como Mikhail Bakunin resolveria o problema do caráter que deveria assumir a ditadura do proletariado (embora não tenha utilizado esse conceito de forma explícita). A invisibilidade dessa ditadura consiste no fato de que os dirigentes não adquirem nenhum privilégio diante das massas proletárias e não aplicam qualquer ingerência impositiva nas organizações parciais do proletariado. A tarefa desses militantes consistiria na coordenação das associações de luta da classe proletária mediante a influência de um plano geral encabeçado pelo Comitê Central. Em suma, se trata de uma concepção de partido revolucionária adaptada aos princípios libertários do anarquismo.

3. 2. Errico Malatesta (1853-1932):




Errico Malatesta dedicou 60 anos da sua vida à militância revolucionária, se tornando anarquista por influência da Comuna de Paris (1871). Atuou junto com Carlo Cafiero (1846-1892) na Federação Italiana da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), onde conheceu Mikhail Bakunin (1814-1876) que foi decisivo para sua formação anarquista. As concepções dele representam distintas formas de atuação presentes no anarquismo como um todo, portanto uma análise de seus posicionamentos também pode contribuir para pensar o movimento anarquista me conjunto.

Malatesta foi simultaneamente insurrencionalista, defensor da organização política do anarquismo e da distinção entre agrupamento parcial e geral do proletariado. Ele participou de tentativas insurrecionais dos anarquistas italianos do final do século XIX, contribuiu para organizar os anarquistas em partido e também foi crítico da absorção do anarquismo ao sindicalismo no contexto das suas discussões com os propositores da Carta de Amiens da CGT francesa.

Também foi defensor do abstencionismo libertário, do antimilitarismo, do derrotismo revolucionário e do anti-democratismo (mantinha uma forte coerência de princípios na sua militância). Além de ter sido partidário convicto do internacionalismo revolucionário, tendo defendido, no Congresso Anarquista de Londres de 1881, a criação de uma Internacional Anarquista.

No entanto, consideramos que Malatesta apresentou certos equívocos em determinados momentos e posições da sua militância. Destacamos os seguintes pontos: 1) a rejeição do “anarquismo científico” (caso do seu Ciência e reforma social, publicado em 1913) como expressão teórica revolucionária; 2) os desentendimentos relativamente à questão organizativa e da responsabilidade coletiva em sua controvérsia com Nestor Makhno (1888-1934).

Um dos momentos da sua militância reflete os limites de todo o “dualismo organizacional” imputado ao movimento anarquista, pois demonstra-se como a separação entre instâncias “econômicas” e “políticas” na organização proletariado tende a enfraquecer seu movimento de luta. Esse é o caso da situação revolucionária do Biênio Vermelho (1919-1920) na Itália.

Nesse período revolucionário houve a situação da criação de duas formas de agrupamento para organizar a luta do proletariado, mas a organização portadora do programa hesitou em exercer seu papel de direção revolucionária no momento em que era necessário coordenar as ações coletivas da classe para efetivar a ditadura invisível da qual falava Bakunin.

Malatesta ajudou a fundar a União Anarquista Italiana (UAI), organização responsável por unir as forças revolucionárias do proletariado italiano segundo o programa anarquista e também participou da União Sindical Italiana (USI), organização baseada nos princípios do sindicalismo revolucionário (que partia do princípio de neutralidade doutrinária dos sindicatos, isto é, a ideia de que as associações sindicais não deveriam ter uma proposta definida).

No entanto, em vez de contribuir para que a UAI desse objetivos programáticos explícitos para a a USI, Malatesta considerou mais adequado não “interferir” no sindicalismo revolucionário para “não confundir” a “doutrina social” do agrupamento anarquista específico (da UAI) com o agrupamento operário supostamente “sem doutrina oficial” (da USI). Trata-se do equívoco do “dualismo organizacional”. Neste caso, a difusão das forças pela falta de coesão e coordenação facilitou a derrota do processo revolucionário pelos reformistas.

A ausência de organizações de coordenação independente entre as distintas fábricas do ramo industrial fez que os trabalhadores dependessem dos burocratas dos sindicatos para obter informações sobre o que se passava em outras cidades. As burocracias sindicais da Confederazione Generale del Lavoro (CGL), dirigidas pelo Partido Socialista Italiano (PSI), usaram essa vantagem das informações centralizadas para isolar as fábricas e as cidades entre si. A confederação local de uniões sindicais não conseguiu proporcionar as condições necessárias para um movimento de ocupação de fábricas coordenado de forma coesa e unitária (dado que a CGL e PSI que mantinham controle sobre as instâncias de coordenação). Portanto, embora os anarquistas constituíssem uma grande maioria, se viram impedidos por uma minoria reformista.

Na prática, isso demonstra que não existe “ausência de doutrina” em nenhuma organização na luta de classes, pois os proletários sofrem influências de diferentes tendências ideológicas além do programa revolucionário do comunismo anarquista no antagonismo social. Malatesta poderia ter defendido uma posição de maior ruptura com o sindicalismo da CGL e contra sua direção pelo PSI, mas não deu esse passo adiante por confundir direção revolucionária com tentativa de vanguardismo/dirigismo (que são duas coisas diferentes: a direção é o sentido que damos a um movimento com determinados objetivos, o dirigismo é a cooptação do movimento em proveito de uma organização formal oportunista – que certamente não teria sido o caso da parte dos anarquistas).

Esses dilemas das lutas do Biênio Vermelho ocorreram antes da proposta da Plataforma (1926), portanto Malatesta ainda não tinha entrado em contato com a solução desse problema que teria sido proposta pelo Dielo Truda.

No entanto, Malatesta não percebeu, em sua controvérsia posterior com Makhno, que o princípio da responsabilidade coletiva e a orientação da União Geral proposta pela Plataforma eram justamente o que faltava para ter garantido a coesão e coordenação unitária na experiência revolucionária da qual tinha participado. Nesse sentido, parece realmente adequado concluir que Malatesta teve essa lacuna no conjunto das contribuições que legou ao movimento libertário.

O movimento anarquista acabou caindo em equívocos semelhantes durante a guerra civil espanhola. Isso ficará evidente na controvérsia ente Los Amigos de Durruti contra o colaboracionismo da CNT, onde Jaime Balius (1904-1980) tinha a posição mais adequada para enfrentar a reação (uma posição que lembra muito as contribuições de Makhno).

3. 3. Nestor Makhno (1888-1934):



Podemos verificar em Makhno o encontro de praticamente todas as tendências da anarquia que foram importantes para a construção do movimento libertário: de origem camponesa, lutou desde muito jovem na luta de classes, participando da greve do dia 22 de fevereiro de 1905 na fábrica Kerner quando era operário (com apenas 17 anos, enquanto trabalhava para conseguir uma renda extra para a família camponesa). Depois ele acabou se unindo à “União dos Livre Agricultores” em 1906, um grupo anarco-comunista que praticava assaltos ao estilo “Robin Hood” usando os espólios para distribuir entre os pobres e para financiar uma rebelião camponesa. Trata-se, nesse momento de sua vida, do terrorismo de inspiração narodinik, legado do insurrencionalismo no anarquismo.

No entanto, ele foi preso e condenado a prisão perpétua em 1910 (teria sido condenado à morte, não fosse a falsificação do documento de registro civil dele pelos pais que colocava ele como menor de idade). Na prisão conheceu Piotr Arshinov que lhe orientou na sua formação militante e proporcionou uma série de estudos no anarco-comunismo que renderam uma base intelectual mais sólida.

Em 1917 saía da prisão e se reuniria novamente com os anarco-comunistas dessa vez para construir um movimento revolucionário em prol da tomada das terras dos kulaks e dos grandes proprietários de terras para uma redistribuição destas para o uso direto das famílias camponesas (uma proposta mais avançada de integração das comunas agrícolas em coletividades tentou ser implementada, mas as circunstâncias da guerra civil unidas à uma baixa adesão camponesa não permitiu tal medida).

Durante a guerra civil russa, combateu a partir do Exército Insurgente Revolucionário da Ucrânia (conhecido como “exército negro”) o exército reacionário dos restauradores do czarismo (exército branco) e o exército nacionalista da Rada Central ucraniana (exército verde) sem se submeter ao exército pseudo-revolucionário dos bolcheviques (exército vermelho), que também foram obrigados a combater.

O exército negro formava uma coordenação e integração das forças anarquistas sob uma direção revolucionária do núcleo formado pelos anarco-comunistas liderados por Makhno, mas suas ações estavam submetidas ao Soviete Militar Revolucionário que era o órgão executivo do Congresso dos Sovietes dos Distritos do território controlado pelo proletariado revolucionário dos campos.

Portanto, a ditadura invisível da qual falava Bakunin foi posta em prática efetivamente: a influência dos anarco-comunistas ucranianos era suficiente para exercer a direção revolucionária sem uma ingerência impositiva através do aparelhamento do Soviete Militar Revolucionário.

O Exército Insurgente Revolucionário da Ucrânia estava armado com tachankas em carroças (uma invenção militar de Makhno), adaptada as conflitos sob a zona estepe-floresta ucraniana. Durante um tempo, conseguiram conquistar a cidade de Ekaterinoslav com uma estratégia furtiva de disfarçar sua cavalaria de tachankas com repolhos como se fossem comerciantes e pegaram de surpresa os nacionalistas. Nessa cidade, deixaram a melhor impressão na população comparativamente aos demais exércitos que passaram por lá durante guerra civil, demonstrando na prática que “a anarquia é a verdadeira ordem”.

No entanto, o exército negro acabou sendo derrotado por uma emboscada bolchevique que foi baseada numa confraternização de mentira após a vitória sob Wrangel (general dos brancos).

Durante seu exílio, na França, embora vivendo em péssimas condições, Makhno e companheiros fundaram o Grupo de Anarquistas Exilados da Rússia e redigiram o Dielo Truda, jornal de difusão das novas proposições organizativas que eles fizeram a partir da experiência revolucionária na Ucrânia. Assim surge a ideia de “Plataforma” que trouxe uma contribuição fundamental para a organização do movimento anarquista, embora ainda fosse portadora de alguns vícios federalistas e sindicalistas.

Uma das partes mais avançadas da proposta foi a ideia de “União Geral dos Anarquistas” que estabelecia os princípios de responsabilidade coletiva e unidade estratégico-teórico-prática do movimento. Outra questão de suma importância é a discussão sobre a “defesa da revolução”, onde Makhno propôs a organização de um “Estado Maior” (no sentido militar) anarquista para coordenar as tropas em uma “unidade de comando e operações” do exército revolucionário.

Em 1932 escreve uma critica ao movimento anarquista da Espanha que antecipou de forma visionária a traição da CNT durante a guerra civil espanhola [30]:

No que diz respeito aos anarquistas revolucionários, acredito que eles têm o que pensar aqui, se eles devem ser poupados no futuro [seja na Espanha ou em outro lugar] de uma repetição desses mesmos erros: encontrar-se nos postos avançados da revolução sem acesso aos recursos necessários para a defesa dos ganhos revolucionários das massas contra as violentas investidas de seus adversários burgueses e socialistas autoritários (“On the history of the spanish revolution of 1931: and the part played by the left- and right-wing socialists and the anarchists”, Probuzhdeniye Nº 30-31, janeiro-fevereiro de 1933, pp. 19-23).

4. Considerações finais:


Nossa introdução formativa sobre o anarquismo buscou tratar de uma série de questões que consideramos centrais para a luta libertária de outrora e de agora. Buscamos contribuir com uma perspectiva ampla sobre as proposições libertárias para o movimento revolucionário do comunismo. Para finalizar, gostaríamos de enfatizar novamente que essa introdução serve para fins formativos e que um trabalho mais amplo e mais profundo sobre o anarquismo ficará para outra ocasião. Não discutimos a experiência espanhola de 1936, pois seria necessário uma avaliação mais detalhada que poderia se desviar um pouco da proposta de introdução. De todo o modo, vamos dedicar uma publicação especial sobre essa questão no futuro.

Notas:


[1] – Veja-se, por exemplo: “Surgimento e breve perspectiva histórica do anarquismo” de Felipe Corrêa, disponível em: <https://ithanarquista.wordpress.com/2013/01/17/surgperspectlivro/>.

[2] – As publicações de “Le Libertaire” estão disponíveis de forma digital e podem ser encontradas no site do seguinte link: <http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/libertaire.htm>.

[3] – LEUENROTH, Edgard. O Anarquismo e as Demais Correntes Socialistas. In: LEUENROTH, Edgard (Org.). Anarquismo – Roteiro de libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1963.

[4] – FRANCO, Victor. A defesa da nova organização social. In: LEUENROTH, Edgard (Org.). Anarquismo – Roteiro de libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1963.

[5] – “Anarquia”, obra apresentada no II Concurso Socialista, realizado no Palácio de Belas Artes de Barcelona, em 11 de novembro de 1889. Extraído de “Forjando un mundo libre”, disponível em: <https://www.academia.edu/11446478/Forjando_un_mundo_libre_-_Ricardo_Mella_Cea>.

[6] – KROPOTKIN, Piotr. “The Scientific Basis of Anarchy”. The Nineteenth Century. 1887, XXI, February, pp. 238-52. Disponível em português em: <https://communismolibertario.blogspot.com/2020/01/as-bases-cientificas-da-anarquia-1887.html>.

[7] – FABBRI, Luigi. Dittatura e rivoluzione. Ancona: Libreria editrice internazionale G. Bitelli, 1921. Versão digitalizada disponível em: <https://www.liberliber.it/mediateca/libri/f/fabbri/dittatura_e_rivoluzione/pdf/fabbri_dittatura_e_rivoluzione.pdf>. Capítulo sobre O conceito anarquista de revolução disponível em português neste link.

[8] – A Plataforma organizacional da União Geral dos Anarquistas (Projeto) – Grupo de Anarquistas Russos no Estrangeiro, Dielo Trouda. Disponível em: <https://ithanarquista.wordpress.com/nestor-makhno-archive/nestor-makhno-archive-portugues/plataforma-organizacional-portugues/>. Acesso em: 7 dez. 2021.

[9] – MALHADAS, Daisi; DEZOTTI, Maria Celeste Consolin; NEVES, Maria Helena de Moura (Orgs.). Dicionário grego-português: DGP. Cotia, SP, Brasil: Ateliê Editorial, 2006.

[10] – Puritanism and Liberty, being the Army Debates (1647-9) | Online Library of Liberty. Disponível em: <https://oll.libertyfund.org/title/lindsay-puritanism-and-liberty-being-the-army-debates-1647-9>. Acesso em: 9 dez. 2021.

[11] – HILL, Christopher. O mundo de ponta-cabeça: ideias radicais durante a revolução inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

[12] – HOLMES, Nathaniel. A sermon, preached before the Right Honourable, Thomas Foote, Lord Maior, and the right worshipfull the aldermen, sheriffs, and severall companies of the City of London. London: Thomas Roycroft, 1650. Disponível em: <http://name.umdl.umich.edu/A86504.0001.001>. Acesso em: 9 dez. 2021.

[13] – KROPOTKIN, Piotr. A Grande Revolução (1789-1793). Rio de Janeiro: Athena, 1935.

[14] – Les Idées, in: Le Libertaire, Journal du mouvement social, Nº 18, 26 out 1859. Disponível em: <http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n18/lib02.htm>. Acesso em: 22 dez. 2021.

[15] – MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

[16] – Sobre essa questão, consultar: RUGAI. Ricardo Ramos. Proudhon anarquista? Estado, mercado e o pensamento econômico proudhoniano. UNIFESP/Campus Guarulhos, 2018. Disponível em: <https://www.encontro2018.sp.anpuh.org/resources/anais/8/1530840057_ARQUIVO_RUGAI _Ricardo_Proudhon.pdf.>. Acesso em: 09 dez. 2021.

[17] – PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é propriedade. Lisboa: Estampa, 1975.

[18] – KANT, Immanuel. Antropologia de um ponto de vista pragmático. São Paulo: Iluminuras, 2006.

[19] – VINCENT, K. Steven. Pierre-Joseph Proudhon and the rise of French republican socialism. New York: Oxford University Press, 1984. Para mais informações, consulte (em inglês), do mesmo autor: <https://www.ohio.edu/chastain/ip/proudhon.htm>.

[20] – NETTLAU, Max. História da anarquia: das origens ao anarco-comunismo. São Paulo: Hedra, 2008.

[21] – Esse trecho foi extraído de uma tradução parcial realizada pelo blog Humanaesfera, disponível em: <http://humanaesfera.blogspot.com/p/blog-page_29.html>.

[22] – PARIS, Jean-Michel. L’Humanitaire (1841): naissance d’une presse anarchiste? Paris: L’Harmattan, 2014. Com uma parte disponível em português nesse link.

[23] – MARX & ENGELS. As Pretensas Cisões na Internacional. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/marx/1872/cisoes/index.htm>. Acesso em: 22 dez. 2021.

[24] – BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário; Ícon, 2003.

[25] – CAFIERO, Carlo. Anarquia e Comunismo. 1880. Disponível em: <https://humanaesfera.home.blog/anarquia-e-comunismo-1880-carlo-cafiero/>. Acesso em: 23 dez. 2021.

[26] – BAKUNIN, Mikhail. Los osos de Berna y el oso de San Petersburgo (1870). Disponível em: <https://miguelbakunin.wordpress.com/2008/03/24/los-osos-de-berna-y-el-oso-de-san-petersburgo/>. Acesso em: 3 mar. 2022.

[27] – BAKUNIN, Mikhail. Sociedade Internacional Secreta da Revolução – Programa provisório convencionado pelos irmãos fundadores (1864). In: FERREIRA, Andrey Cordeiro; TONIATTI, Tadeu Bernardes de Souza. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014 (Volume I – Coleção Pensamento Insurgente).

[28] – BAKUNIN, Mikhail. Carta a Albert Richard. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/bakunin/1870/03/12.htm>. Acesso em: 14 abr. 2022.

[29] – BAKUNIN, Mikhail. Carta a Serguey Guennadevich Nechayev. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/bakunin/1870/06/02.pdf>. Acesso em: 14 abr. 2022.

[30] – MAKHNO, Nestor. On the History of the Spanish Revolution of 1931. Disponível em: <https://ithanarquista.wordpress.com/nestor-makhno-archive/nestor-makhno-archive-english/on-the-history-of-the-spanish-revolution-of-1931-nestor-makhno/>. Acesso em: 14 abr. 2022.

Referências adicionais:


KROPOTKIN, Peter. A Lei e a Autoridade. In: Palavras de um revoltado. São Paulo: Imaginário; Ícone, 2005.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O Movimento Makhnovista e a Questão Nacional na Ucrânia (1917-1921) – Aleksandr Shubin (1998)

Registro da passagem de Exército Insurgente Revolucionário da Ucrânia por Aleksandrovsk em 1919. É possível identificar em primeiro plano Petrov, Gorev, Makhno, Shchus e, em segundo plano, Simon Karetnik. Obtido de: link.

Aleksandr Shubin, historiador da Academia de Ciências da Rússia, analisa detalhadamente o movimento revolucionário e de base social predominantemente camponesa organizado pelo Exército Insurgente Revolucionário da Ucrânia (Революційна Повстанська Армія України), que se convencionou chamar de Movimento Makhnovista ou de Makhovischina (a partir de uma denominação pejorativa dos bolchiviques), em função da liderança de Nestor Makhno no processo. Trata-se de uma adaptação (na forma de artigo) da primeira parte do seu livro Experiência social anarquista: Ucrânia e Espanha (1917-1939), publicado originalmente em 1998 em russo (Анархистский социальный эксперимент. Украина и Испания. 1917-1939 гг). O autor apresenta as bases sociais e étnicas do movimento, o início e ascensão do anarquismo na região e as disputas internas referentes aos projetos políticos nacionalistas, bolcheviques e anarquistas, também aborda a questão do antissemitismo à partir das variadas forças que ocuparam o território ucraniano, as consequências do Tratado de Brest-Litovsk e outras questões relacionadas à guerra civil russa.

A tradução ao português foi disponibilizada pelo Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA), disponível em pdf neste link. A tradução do ITHA está baseada na tradução ao inglês disponível na obra: HIRSCH, Steven; VAN DER WALT, Lucien. Anarchism and Syndicalism in the Colonial and Postcolonial World, 1870-1940: The Praxis of National Liberation, Internationalism, and Social Revolution. [s.l.]: BRILL, 2010.

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Bases sociais e étnicas


O movimento Makhnovista de 1917-1921 representa a mais clara e a mais poderosa manifestação do anarquismo na Ucrânia [1]. Entretanto, é essencial levar em conta que este movimento representou um aspecto particular de apenas uma parte de uma Ucrânia profundamente heterogênea, que permanece até hoje marcadamente dividida entre o oeste (Galícia), a parte central do país (a área norte de Livoberezhna [2] a leste do rio Dnepr), o sul (incluindo a Criméia), a Pravoberezhna e a Bacia de Donets.

O território em que os Makhnovistas se estabeleceram inicialmente compreendia Priazove (a região próxima ao Mar de Azov), a parte inferior de Livoberezhna, e o leste da Bacia de Donets. Os Makhnovistas também operaram em Pravoberezhna, principalmente em Ekaterinoslav, assim como na região de Poltava e Chernigov. O movimento Makhnovista – a Makhnovischina ou “o movimento de Makhno” – como ficou conhecido posteriormente fazia menção ao anarquista Nestor Ivanovich Makhno (1888-1934), e tinha se enraizado nos arredores do vilarejo de Gulyai-Pole no Distrito Aleksandrov.

Localização de Gulyai-Pole segundo o Google Maps.


A história dessa área está associada a cossacos foras da lei, revoltas camponesas e a cultura nômade. Entretanto, no início do século XX, os cossacos de Zaporizhia [3] existiam apenas na memória. Novas pessoas com um novo estilo de vida passaram a habitar a região.

A historiografia marxista defende que essa era uma área kulak (isto é, dominada por ricos camponeses que empregavam força de trabalho alheia em suas propriedades), e essas fazendas de kulaks representavam cerca de 22% de toda a agricultura da região [4]. Mas essa posição só pode ser confirmada se se considerar como kulak, camponeses que tinham a sua disposição mais de 10,9 hectares de terra [5], uma visão que, mesmo na historiografia marxista, é considerada “exagerada” [6]. Grandes lavouras estatais e de camponeses ainda constituíam a base da agricultura na área. O kulakismo era concentrado primariamente nas fazendas alemãs – um fenômeno externo dentro do universo camponês local. A tentativa de destruição das comunas camponesas, ou obschinas, durante as reformas de Stolypin, encontrou grande resistência na província de Ekaterinoslav [7].

O território em que os Makhnovistas se desenvolveram era um dos mais voltados ao mercado em todo o império russo. No inicio do século XX, a Ucrânia era a região agrícola mais rica do império: contava com 40% de terras cultiváveis e em 1914 era responsável por cerca de 20% da produção mundial de trigo e 90% da exportação de trigo do império [8]. A proximidade dos portos e uma rede ferroviária bem desenvolvida estimularam o desenvolvimento do mercado de grãos.

Em 1913, por exemplo, a província de Ekaterinoslav produziu aproximadamente 1.780 toneladas de trigo [9]. Desse montante, 860 toneladas foram exportadas para fora da província [10]. Isso sem considerar o mercado intra-provincial, que também era bastante expressivo, uma vez que a província possuía inúmeros centros industriais que consumiam pão. Os camponeses permaneceram como a força mais ativa no mercado do pão de Ekaterinoslav: entre 1862 e 1914 os camponeses da região das estepes conseguiram comprar quase a metade das terras dos senhores feudais (pomeshchiki). Mas os proprietários de terra aumentavam os preço das terras implacavelmente [11]. Com o apoio do governo, buscaram manter uma relação de locação com os camponeses. Naturalmente, isso despertou a hostilidade destes contra qualquer tipo de propriedade privada de vastas quantidades de terra, tanto por parte da aristocracia rural quanto por parte dos kulaks. Ao mesmo tempo a forma de produção agrícola comunal dos camponeses facilitou o desenvolvimento de diversas formas de cooperativas agrícolas, apoiadas ativamente pelos zemstvos (governos locais com representação de classes) [12].

A orientação de mercado da agricultura das comunas agrícolas também contribuiu para o desenvolvimento, no que se tornaria o território Makhnovista, de uma maquinário agrícola e de uma indústria relacionada a ela. 24,4% do maquinário agrícola do país era produzido em Ekaterinoslav e Tavrischeskaya, enquanto apenas 10% era produzido em Moscou [13]. Uma proporção significativa da indústria em Ekaterinoslav estava dispersa pela província o que fez com que cidades pequenas e grandes vilarejos se tornassem verdadeiros complexos agroindustriais. Na futura capital Makhnovista, Gulyai-Pole, havia uma fundição de ferro e dois moinhos a vapor e no distrito rural de Gulyai-Pole (volost) havia 12 oficinas de azulejos e blocos [14].

Isso resultava não somente numa economia altamente comercializada, mas também uma relação de proximidade entre camponeses e a classe trabalhadora, dispersa por diversas áreas rurais. Muitos camponeses também se mudaram para os arredores de grandes centros industriais para se tornarem assalariados. Entretanto eles ainda poderiam retornar para os vilarejos em casos de crises na indústria. Os próprio vilarejos, nesses casos, estavam, em grande medida, protegidos das perdas da indústria, uma vez que muito da produção industrial ocorria localmente. Sob essas circunstâncias, as grandes cidades pareciam estranhas e pouco relevantes aos camponeses.

A ordem social predominante em Priazove não favoreceu o desenvolvimento do nacionalismo, que teve suas raízes nos economicamente isolados camponeses do norte da Ucrânia, e ganharam força na Guerra Civil. No que diz respeito a composição étnica, em 1917-1925, os ucranianos representavam entre 80-83% da população da Ucrânia. Ao mesmo tempo, a população de não-ucranianos predominava nas grandes cidades e na Bacia de Donets. A população do território Makhnovista era notavelmente miscigenada. Aqui, ucranianos (“pequenos russos”) e russos (“grandes russos”) viviam lado a lado e seus vilarejos eram intercalados por colonias alemãs, judias e gregas.

A língua franca da região era o russo, e uma quantidade significativa de ucranianos (incluindo Makhno) não falavam ucraniano. Além disso, a Livoberezhna não se beneficiou da circulação de dinheiro emprestado por banqueiros judeus, uma vez que a população judia nas colônias estava primariamente envolvida no comércio e na agricultura. Por essa razão, o antissemitismo também teve pouca disseminação nessa região, em comparação com Pravoberezhna.

O início e a ascensão do movimento anarquista


O movimento anarquista na Ucrânia, assim como na Rússia como um todo, teve origem no movimento narodnik ou “populista” das décadas de 1870 e 1880. No entanto, na década de 1880, a maior parte dos grupos narodniks se afastaram do regime ou foram massacrados pelo czarismo. O retorno do movimento anarquista no império russo começou em 1903. Na mesma época em que o primeiro grupo surgiu em Nezhin na província de Chernigov. Em 1904 os anarco-comunistas realizaram sua conferência Pan-Russa em Odessa.

Durante a Revolução de 1905-1907 houve um poderoso crescimento na atividade sociopolítica, inclusive no movimento anarquista. Seu epicentro na Ucrânia era Odessa e Ekaterinoslav, mas havia grupos ativos em Kiev, Zhitomir e Kamenets-Podolkoe. Os anarquistas contavam algumas centenas, sendo a maioria de jovens judeus.

Grupos anarquistas, particularmente anarco-comunistas, levaram a cabo trabalhos de agitação e recorreram a atos terroristas. Em Odessa, Ekaterinoslav e Kiev, os anarquistas participaram junto com outros grupos de esquerda na criação de destacamentos armados. A corrente sindicalista também começou a se desenvolver com o estabelecimento de um grupo anarcossindicalista em 1906 no sul da Rússia encabeçado por Yakov Novomirsky. Com a derrota da revolução se observou uma queda acentuada tanto no número de organizações quanto no número de seus militantes.

A revolução de 1905-1907 também afetou Gulyai-Pole. Em 22 de fevereiro de 1905, a fábrica Kerner entrou em greve [15]. Os trabalhadores exigiam melhores condições de trabalho e a abolição das penalidades e da hora extra. Entre os grevistas estava o jovem Nestor Makhno.

Em setembro de 1906 o grupo de camponeses terroristas anarco-comunistas (também conhecido como “União dos Livre Agricultores”) começou a atuar em Gulyai-Pole. O grupo liderado por Voldemar Antoni - ligado a anarquistas de Ekaterinoslav e aos irmãos Semenyut, Aleksandr e Prokopii. Havia múltiplas nacionalidades entre os membros do grupo.

Makhno localizou os terroristas mais rápido que a polícia, forçando-os a aceitá-lo em suas fileiras, e por volta de 14 de outubro já estava participando de uma expropriação. No final de 1906, foi preso por posse de armas, mas foi solto por ser menor de idade. Ao longo desse ano o grupo conduziu quatro expropriações sem derramamento de sangue. Jovens usando máscaras pretas (ou com a face coberta com lama) exigiam dinheiro “para os famintos” ou simplesmente exigindo dinheiro, apresentando-se enquanto anarquistas e desaparecendo em seguida. Seus ganhos chegaram a casa dos 1.000 rublos [16]. Em 27 de agosto de 1907, Makhno se envolveu em uma troca de tiros com a polícia. Pouco tempo depois foi identificado e preso. Mas seus amigos não o abandonaram. Sob a pressão do grupo terrorista, o camponês que identificou Makhno retirou seu testemunho.

Entretanto, em 1907, a gangue “Robin Hood” de Gulyai-Pole operava sob a vigilância da polícia. Os destemidos defensores da lei e da ordem não tinham pressa para prender jovens com armas, permitindo sua ação enquanto esperavam o aprofundamento do seu envolvimento com o crime a fim de criar um caso mais sólido contra eles, de acordo com o pesquisador soviético G. Novopolin, que estudou os documentos do julgamento [17].

O papel de Sherlock Holmes de desmascarar o grupo de Gulyai-Pole recaiu sobre um policial de Gulyai-Pole, Karachentsev. A fim de descobrir quem estava envolvido, o detetive provinciano utilizou a arma habitual dos russos – a espionagem. Agentes de Karachentsev se infiltraram no grupo, tomaram parte nos seus ataques e o informaram das atividades do grupo. A polícia expôs 14 membros do grupo de terroristas. Os terroristas identificaram um dos policiais – Kushnir – e o mataram. Mas Karachentsev já estava no rastro do grupo em decadência.

Após o assassinato em 28 de julho de 1908, o núcleo do grupo foi cercado em Gulyai-Pole, mas os anarquistas resistiram e conseguiram escapar. Depois disso o grupo finalmente se desintegrou e se dispersou; Antoni se exilou.

Em 26 de agosto, Makhno foi preso novamente. Em 31 de dezembro de 1908 tentou fugir, mas foi capturado. Em 5 de janeiro de 1910 Propokii Semenyut tentou libertar seus companheiros levandoos para Ekaterinoslav, mas falhou no intento (impedido por um agente infiltrado chamado Altgauzen). A última ação do grupo foi assassinar o policial Karachentsev em novembro de 1909.

Em 22 de março, Makhno, junto de seus companheiros foi condenado a morte por enforcamento “por participação em uma gangue perversa, criada com o propósito de realizar roubos; por dois ataques a casas e a tentativa de ataque de mesma natureza” [18]. A época, Makhno não havia participado de nenhum assassinato e, de acordo com as leis de tempos de paz, deveria ser condenado a trabalhos forçados. Mas uma “operação antiterrorista” nacional estava em curso, e a vida humana era barata.

Makhno esperou que a sentença fosse executada. Ele era jovem e cheio de energia e esperava ser enforcado. Ele não sabia que nesse meio tempo a burocracia ainda estava debatendo seu destino. O fator decisivo foi a falsificação de sua data de nascimento feita em algum momento por seus pais – ele ainda era considerado menor de idade. Isso fez com que as autoridades também levassem em conta o fato de que os seus crimes não tinham relação com assassinato. Por conseguinte, a pena de morte do caso de Makhno foi comutada por uma pena perpétua de trabalhos forçados.

A ascensão da Makhnovitchina


A revolução de fevereiro de 1917, que marcou o início da Grande Revolução Russa, ocasionou um novo ressurgimento do movimento anarquista na Ucrânia. O movimento reestabeleceu sua posição de 1905, porém a despeito do dramático quadro de luta política, a influência anarquista além dos limites do território Makhnovista era restrita. A Rada Central (“conselho”) – uma assembleia dos principais grupos políticos – se tornou a força mais influente na Ucrânia. Os principais partidos atuantes na Rada eram os social-democratas ucranianos e os Socialistas Revolucionários (SRs), que lutavam pela autonomia da Ucrânia em relação ao domínio do império Russo.

Em março de 1917, o antigo terrorista Makhno retornou da colonia penal para sua aldeia, Gulyai-Pole. Recebendo os louros de mártir e combatente do regime, Makhno se tornou uma figura de autoridade, um notável aldeão. Março de 1917 foi um período de euforia. Os revolucionários que saíram da prisão, voltaram do exílio ou da emigração tornaram-se incrivelmente populares. Poucos, porém, foram bem sucedidos em transformar esse entusiasmo inicial em um suporte massivo posterior. Para alcançar esse objetivo era necessário uma organização sólida. Makhno estava decidido quanto a isso.

Makhno reuniu seus antigos conhecidos e reviveu o grupo de anarco-comunistas. Como todos os anarquistas da época, o grupo era influenciado pelas ideias de Piotr Kropotkin, ainda que de maneira extremamente abstrata e simplificada. Até agosto de 1917, Makhno também cooperava com as autoridades distritais na preparação das eleições para zemstvos, inclusive na imposição de impostos, uma das grandes anátemas do anarquismo [19].

Em 28-29 de março, Makhno foi eleito para o comitê executivo da União dos Camponeses de volost, e tornou-se referência. Não havia nenhum outro revolucionário com sua autoridade na pequena cidade. A União dos Camponeses paralisou o Comitê Social – que apoiava o governo provisório – se apoderou de suas seções e, na realidade, tornou-se a maior instância de poder da região: o soviete de Gulyai-Pole ou conselho (anteriormente conhecido como União dos Camponeses até agosto de 1917). Delegados eram indicados aos soviets a partir de grupos relativamente compactos da população, o que facilitava o repasse aos eleitores [20]. Mas era o comitê executivo que se encarregada dos assuntos cotidianos, lidando com tudo que abrangesse o vilarejo, das questões de maior amplitude política até a recuperação de uma vaca perdida [21].

O sistema de poder anarco-comunista estava fundado em uma rede de organizações de massa que respaldavam as políticas de Makhno: sindicatos, conselhos de fábrica, conselhos de trabalhadores rurais e reuniões populares (skhody-sobraniya). Esse último consistia em uma espécie de referendo popular que possibilitava as lideranças anarquistas consultar a disposição popular. Reuniões populares também cumpriam o papel de cortes civis, resolvendo problemas entre cidadãos [22]. Makhno adorava falar nessas reuniões. Era um ótimo orador, misturando a linguagem comum com termos científicos que havia aprendido na prisão. Os habitantes de Gulyai-Pole, que não eram acostumados com a visita de outros oradores ouviam com prazer ao discurso em russo (em um dialeto sulista próximo ao Ucraniano).

Conversas posteriores entre a Rada Central e o governo provisório russo, definiram e confirmaram as fronteiras da Ucrânia independente por meio da “Instrução Provisional ao Secretariado Geral da Rada Central”, expedida pelo governo provisório em 17 de agosto de 1917. Nesse documento o território da Ucrânia era limitado as províncias de Kiev, Volyn, Poltava, Podolsk e Chernigov.

Até novembro de 1917 a província de Ekaterinoslav, a qual pertencia a aldeia de Gulyai-Pole não era considerada parte da nova Ucrânia. Makhno não reconheceu o direito do governo provisório de definir as fronteiras da Ucrânia, não por querer subordinar a província ao controle da Rada Central em Kiev, mas por, enquanto anarquista, recusar o poder do Estado, assim como a existência de fronteiras.

A principal tarefa definida pelo campesinato não era nacional, e sim social, especificamente, a redistribuição de terra. Após sua ascensão ao poder, os Makhnovistas confiscaram os registros de propriedade de terras e tomaram o inventário dos estados – em patente contraste em relação aos primeiros movimentos camponeses que queimavam os registros de propriedade das terras. Os camponeses queriam organizar a distribuição das terras que pertenciam aos kulaks e a aristocracia. Makhno colocou esta demanda em discussão no primeiro congresso dos sovietes distritais ocorrido em Gulyai-Pole. O programa agrário do movimento anarquista propunha a liquidação da propriedade de dos kulaks e dos senhores feudais sobre “terras e propriedades luxuosas que não poderiam ser mantidas com seu próprio trabalho” [23]. Os senhores feudais e kulaks poderiam manter o direito de cultivar terras, porém, somente por seu próprio esforço. Uma proposta mais avançada de unir os camponeses em comunas não foi bem sucedida.

Ainda em junho daquele ano, os camponeses pararam de pagar aluguéis, violando ordens dos oficiais governamentais. Porém, não conseguiram realizar imediatamente a reforma agrária. Primeiro foram atrasados por um agudo conflito com B.K. Mikhno, o comissário regional (uezdny) do governo provisório, e depois foram retidos pela colheita. A fim de evitar a suspensão do processo produtivo, os camponeses adiaram as principais reformas até a primavera: “nessa ocasião limitaram-se a não pagar os aluguéis aos proprietários de terras, colocando as terras sob a administração de comitês e designando guardas responsáveis pelas fazendas para vigiar a produção e os equipamentos até a primavera a fim de impedir que os proprietários de terras não pudessem vendê-los” [24].

Essa reforma por si só não tardou a gerar resultados: os camponeses não mais trabalhavam nas antigas terras dos proprietários por medo, mas sim com consciência, e fizeram a maior colheita da província [25]. E Makhno foi mais além. Em 25 de setembro, o congresso de organizações de sovietes e camponeses em Gulyai-Pole anunciou o confisco das terras da aristocracia e sua transferência a propriedade comunitária. Portanto, Makhno resolveu o “problema da terra” antes dos decretos do Congresso Pan-Russo dos Sovietes ou das leis da Assembleia Constituinte. O líder dos Socialistas Revolucionários, Viktor Chernov, havia feito praticamente as mesmas propostas, mas foi incapaz de convencer o governo provisório a concordar com sua abordagem, enquanto o soviete de Makhno foi bem sucedido em sua implementação.

Depois da Revolta de Kornilov, que despojou a autoridade do governo provisório no distrito aproveitando a incapacidade das autoridades centrais de combater ações contrarrevolucionárias, os Makhnovistas criaram seu próprio Comitê de Defesa da Revolução sob os auspícios das armas dos sovietes e das armas expropriadas dos kulaks usadas contra eles mesmos. O órgão deveria ser encarregado de defender o distrito de qualquer interferência externa. O Comitê convocou um congresso dos sovietes do distrito de Gulyai-Pole, que apoiaram as ações de Makhno. Dessa maneira Gulyai-Pole, se tornou a capital dos vilarejos da região.

A formação do Estado-Nação ucraniano


A criação de um centro de poder independente no distrito de Gulyai-Pole foi tratada com hostilidade pela administração oficial do distrito. O distrito de Gulyai-Pole vinha incomodando o comissário Mikhno há algum tempo. Os anarco-comunistas liquidaram o Comitê Social, e por conseguinte removeram o distrito da jurisdição das autoridades regionais. Mikhno ameaçou organizar uma expedição punitiva ao distrito, mas a Makhnovitchina estava armada e preparada para repelir qualquer ataque. Ao mesmo tempo, decidiram atacar o inimigo pela retaguarda: um grupo de agitação foi enviado para a região central de Aleksandrovsk para provocar manifestações contra Mikhno. Os trabalhadores apoiaram o povo de Gulyai-Pole entrando em greve, paralisando o trabalho daquele comissariado regional, forçando-os a não intervir no distrito anarquista.

Em setembro, Makhno encontrou uma adversária na disputa pelas “massas revolucionárias” em uma personagem ainda mais radical que ele. A destacada anarquista Mariya Girgorevna “Marusya” Nikiforovna chega a Gulyai-Pole. A época, com 32 anos, Marusya (como era chamada por seus companheiros) era ainda mais conhecida que o próprio Makhno. Ela havia tomado parte dos tempestuosos eventos ocorridos em Petrogrado e retornado a sua terra natal:

Em Aleksandrovsk e nos arredores de Ekaterinoslav ela começou a organizar trabalhadores anarquistas em destacamentos dos Guardas Negros [anarquistas]. Logo ela havia estruturado tais destacamentos em Odessa, Nikolaev, Kherson, Kamensk, Melitopol, Yuzovsk, Nikopol, Gorlovka… [26]

Se pelo menos metade dessas informações forem verdadeiras, Marusya era uma figura altamente influente. Sua Guarda Negra realizava ataques a industriais e unidades militares, reabastecendo sua munição e financiando organizações operárias. Com isso, a popularidade de Marusya cresceu.

Maria Nikiforova (Marusya). Imagem de: link.

Makhno que em mais de uma ocasião havia negociado com a burguesia (em seus próprios termos, é claro), e não mais organizava ataques, não aprovava os métodos de Nikiforova, que buscava incitar um confronto com as autoridades de Aleksandrovsk. Marusya ainda incitou alguns Makhnovistas a atacar uma unidade militar em Orekhov. A operação foi bem sucedida: o ataque destruiu uma subdivisão do regimento de Preobrazhenskii, matando seus oficiais e tomando suas armas. Makhno estava revoltado com a irresponsabilidade de Marusya. A época, Makhno buscava evitar confrontos abertos, restringindo-se a ameaças.

Marusya foi forçada a deixar Gulyai-Pole e se deslocar para Aleksandrovsk onde foi presa por partidários do governo provisório [27]. Os Makhnovistas e trabalhadores de Aleksandrovsk foram obrigados a resgatar a extremista, ameaçando realizar ataques e iniciar uma greve. Quando uma multidão de trabalhadores chegou aos portões da prisão, Marusya foi libertada. Os membros do soviete de Aleksandrovsk foram reeleitos, o comissário do governo amedrontado e os oficiais de Aleksandrovsk pararam de ameaçar Gulyai-Pole.

Em pouco tempo Makhno estabeleceu o poder dos sovietes em seu território, antes de Lênin, e em uma proposta mais avançada de construção de uma nova sociedade. As iniciativas de Makhno também superaram aquelas da Revolução de Outubro: controle operário, autogestão nos coletivos e organizações operárias, cooperação e tentativas de regulamentar a troca de produtos fora do mercado em colapso. O sistema soviético era visto pelos Makhnovistas não como uma força de governo hierárquica, um Estado, mas como o responsável por garantir a plenitude dos direitos das organizações operárias e camponesas.

Em 26 de outubro de 1917, no curso das sublevações em Petrogrado, foi declarado: “todo poder aos sovietes”. Por essa razão os Makhnovistas viram positivamente a Revolução de Outubro, e apoiaram as candidaturas de Bolcheviques e Socialistas Revolucionários nas eleições para a Assembleia Constituinte [28]. Entretanto, diferentemente dos Bolcheviques, Makhno chamava a atenção contra o centralismo econômico e político e os privilégios de alguns trabalhadores e funcionários do Estado.

Em Kiev, houve enfrentamentos entre Bolcheviques e apoiadores do Governo Provisório; como resultado, em 1º de novembro, o poder foi transferido para a Rada Central. No seu terceiro “Universal” (ou proclamação oficial) em 7 de novembro, a Rada confirmou que buscava garantir a autonomia da Ucrânia como parte de uma federação Russa [29]. O Universal também declarou que as províncias de Kiev, Chernigov, Volyn, Podolsk, Kharkov, Ekaterinoslav e Kherson, além de Materikovaya, que fazia parte da província de Tavrichesakaya (excluindo a Crimeia) faziam parte da Ucrânia. Assim, os territórios reclamados pela Rada tornaram-se maiores que anteriormente.

Makhno foi absorvido nessa nova realidade. Ele havia lutado amargamente pelo poder dos sovietes nessa região antes mesmo da Revolução de Outubro, e sentiu que agora não havia tempo a perder. A questão era saber sob qual esfera de influência o lado oeste do Dnepr ficaria: do poder dos sovietes, do governo ucraniano da Rada ou dos contrarrevolucionários “brancos”.

Makhno se envolveu na mediação entre o soviete de Ekaterinoslav e os cavaleiros amotinados de Georgiev, que contestaram o poder do soviete, e buscou por todos os meios possíveis evitar que a Rada Central ampliasse sua influência. Em Gulyai-Pole havia um grupo bem organizado de apoiadores do novo Estado Ucraniano, que realizava suas reuniões na cidade [30]. Makhno reuniu os camponeses da região no Congresso Regional dos Sovietes, que emitiu uma resolução declarando “Morte a Rada Central” [31]. Os nacionalistas ucranianos foram silenciados por um tempo.

Ao mesmo tempo, o distrito ficou sob a ameaça de um grupo ainda mais perigoso: muitos oficiais Cossacos voltaram do front. Se eles passassem para o Don naquele momento, as forças do General Alexey Maximovich Kaledin, líder dos Cossacos Brancos do Don ganharia um reforço militar significativo. Sob uma perspectiva de curto prazo, Makhno poderia simplesmente deixar os Cossacos atravessarem para o Don. Mas era necessário pensar a longo prazo, e no Congresso dos Sovietes foi convocada a formação de um destacamento para combater os Cossacos. Esse era um “batalhão livre” liderado pelos irmãos Makhno, com Savva como comandante e Nestor como organizador político.

Essa foi a primeira vez que Nestor Makhno se colocou como liderança militar. Sua futura reputação de liderança militar ainda não estava estabelecida quando as forças Makhnovistas chegaram na região da ponte Kichkasskii através do Dnepr. Em uma breve batalha em 8 de janeiro de 1918, os Makhnovistas, em aliança com Bolcheviques e Socialistas Revolucionários de esquerda renderam e desarmaram os Cossacos. De qualquer maneira, os Cossacos não estavam interessados em batalhar. O que eles mais queriam era chegar em casa e não importava muito se fariam isso com ou sem armas. Os desdobramentos dessa batalha complicaram a posição de Kaledin.

Ainda em 4 de dezembro, a Rússia Soviética declarou que estava pronta para reconhecer a independência da Ucrânia, mas não a autoridade da Rada Central, uma vez que esta não possuía a autoridade para representar o povo ucraniano. Quem possuía essa autoridade, afinal? Nas eleições para a Assembleia Constituinte, os partidos da Rada Central, a maioria deles socialista, conseguiu a expressiva maioria dos votos. Entretanto estavam excluídos um quarto dos eleitores – aqueles vivendo nas grandes cidades e na Livoberezhna do Dnepr. A Rada Central reivindicou uma larga faixa do território que se estende ao longo da Bacia do Donets e Kursk, onde seu poder nunca havia sido reconhecido.

Ao reivindicar os territórios do leste, a Rada Central também reivindicava a população da Livoberezhna, que era ainda mais indiferente à ideia nacionalista que os habitantes de Pravoberezhna. Entre 3 e 5 de dezembro, Bolcheviques e Socialistas Revolucionários de esquerda amargaram uma derrota no 1º Congresso dos Sovietes Ucranianos, e se retiraram do congresso. Culpando a Rada Central por não ter admitido alguns delegados do leste da Ucrânia, reuniram-se em Kharkov e proclamaram a República Soviética Ucraniana.

Em 8 de novembro, destacamentos russos e da Bacia de Donets (que congregavam tanto russos quanto ucranianos, mas que em janeiro haviam criado sua própria República Soviética em Donetsk e Krivorosh) vieram em seu auxílio. Agora que tinham a “sua” própria Ucrânia, os Bolcheviques também tinham que reconhecer que “seus” distritos orientais, com uma população mista, pertencia a Ucrânia. Colidindo com os sovietes ao longo de sua esfera de influencia, em 9 de janeiro de 1918, a Rada Central proclama a República Popular Ucraniana.

Hoje em dia, a guerra que opôs ucranianos nacionalistas e Bolcheviques é referida como “agressão russa”. Porém, habitantes da Ucrânia também marcharam nas colunas vermelhas, foram eles que se levantaram pelo poder dos sovietes. Muitos não se interessavam por um Estado-nação propriamente dito, mas por seu conteúdo – no que isso significaria para camponeses e operários. Ainda que a Rada Central tenha declarado o direito dos camponeses a terra, na prática retardaram a realização da reforma agrária.

Para Makhno – assim como para a maioria dos habitantes da Ucrânia Oriental, incluindo Kiev e Odessa – onde a maioria falava Russo – o governo nacionalista ucraniano não os representava. Para eles, a guerra contra a Rada Central, e as outras autoridades estabelecidas pelos nacionalistas ucranianos era uma guerra contra uma tentativa de romper o tecido social popular, povo que estava imerso na transformação socialista. A Rada Central mobilizou promessas nacionalistas românticas, apesar disso, o avanço das tropas soviéticas não provocou qualquer oposição popular.

Em 8 de fevereiro de 1918 as tropas soviéticas de Mikhail Muravev tomaram Kiev e a Rada Central se refugiou em Zhitomir.

Brest-Litovsk, ocupação alemã e a resistência anarquista


A essa altura o destino da Ucrânia estava sendo decidido não em Kiev, mas em Brest. Aqui, em 9 de dezembro de 1917, começaram as negociações de paz entre a Rússia e os poderes centrais: Alemanha, Austria-Hungria, Bulgária e o Império Otomano.

Em 18 de dezembro de 1917, chegava a delegação da Rada Central. Em 30 de dezembro, o representante Bolchevique Leon Trotsky reconhecia a autoridade da delegação contando que assim evitaria que transferissem sua lealdade para os alemães. Não obstante, num contexto de conflitos agudos, os representantes da Rada Central decidiram estabelecer um acordo separado com os poderes centrais. Isso definiria o destino da Ucrânia – inclusive daqueles territórios que eram totalmente contra a Rada Central.

Makhno não suspeitava que o destino do seu distrito agora era decidido na distante Brest. Em 9 de fevereiro de 1918, os representantes da Rada Central concluíram o acordo de paz sob o qual a Ucrânia se comprometia a fornecer provisões para a Alemanha que aliviariam a crise social naquele país, e convidavam as tropas alemãs ao território ucraniano para expulsar os apoiadores do poder Soviético. Os nacionalistas ucranianos adotaram uma tendência claramente pró-Alemanha, que foi mantida até a 2ª Guerra Mundial. Os representantes alemães não estavam, entretanto, prontos para entrar em acordo com a Rússia.

Eles exigiam que a Rússia, primeiramente renunciasse ao seu direito sobre a Polônia, o Cáucaso, os Países Bálticos e a Ucrânia. O seu destino seria decidido pela Alemanha e por seus aliados, fazendo com que a Rússia arcasse com a reparação e assim por diante. Os Bolcheviques não poderiam assinar tal acordo com os imperialistas alemães sem alterar os princípios que os levaram ao poder.

Em 10 de fevereiro de 1918, Trotsky se recusou a assinar o acordo de paz de capitulação, e unilateralmente anunciou o fim do estado de guerra, e a desmobilização do exército. Ele acreditava que os alemães, exauridos pela guerra, não seriam capazes de atacar. Entretanto, os alemães imediatamente levaram o front oriental para dentro do império Russo, incluindo a Ucrânia. Os remanescentes do desmoralizado exército antigo e os destacamentos do Exército Vermelho eram incapazes de impedir os alemães.

Em 3 de março de 1918, após disputas intestinas dentro do comitê central do partido, os Bolcheviques foram forçados a concluir o que Lênin descreveu como “obsceno” Tratado de Brest-Litovsky. Efetivamente cedendo a Ucrânia e outros territórios ao controle alemão (ou dos aliados Otomanos).

É difícil precisar a atitude de Makhno sobre o tratado. Em suas memórias ele reivindica ter dito: “Ao concluir esta aliança com os monarquistas, tanto a Rada Central quanto os Bolcheviques preparam a morte para a revolução e seus campeões – os trabalhadores revolucionários” [32].

Entretanto, sabemos que durante sua primeira aliança com os Bolcheviques (ver adiante) Makhno criticou a postura de culpá-los de conivência com os alemães [33]. Tampouco reprovou os líderes Bolcheviques pelo tratado de Brest-Litovsk durante suas discussões com eles em 1918. As incursões alemães fortaleceram notadamente os apoiadores da Rada Central no distrito anarquista. Esses apoiadores depositavam grandes esperanças nos alemães.

O líder nacionalista P. Semenyut, ameaçou abertamente os anarquistas com represálias físicas a partir da chegada dos alemães. Em resposta, os anarcossindicalistas, desconhecidos de Makhno (segundo ele), declararam o “terror revolucionário” sobre os nacionalistas e mataram Semenyut. Gulyai-Pole viu-se em meio a guerra civil. Ao se inteirar do ocorrido, Makhno direcionou todos os seus esforços para revogar a violência revolucionária e fechar um acordo com a oposição, a fim de evitar uma vingança sangrenta.

Uma comissão conjunta foi formada com os nacionalistas para parar os assassinatos [34]. Enquanto isso, os nacionalistas ucranianos continuaram sua propaganda no distrito, ao mesmo tempo em que preparavam um golpe em Gulyai-Pole. Começaram ameaçando a comunidade judaica, ameaçando a implementação de um pogrom com a chegada dos alemães. Após alguma hesitação, os líderes judeus decidiram ajudar seus inimigos declarados a fim de evitar tais represálias [35].

“Entre os judeus – comerciantes, hoteleiros, manufatureiros – um modo defensivo se instaurou novamente”, afirmou M. Goncharok:

Os abastados líderes da comunidade exigiram que o povo judeu dissolvesse sua companhia militar [por nacionalidade]. Voluntários de base, a maioria jovens de famílias pobres, recusaram prontamente, considerando uma traição em relação aos anarquistas e aos grupos de voluntários camponeses que os muniram com armamentos. Entretanto, as opiniões dentro da companhia estavam dividas [36].

Essa reconstrução social e psicológica é imprecisa. A suposta divisão não aconteceu – a companhia decidiu obedecer as ordens dos líderes da comunidade judaica. Enquanto isso, os alemães, repelindo destacamentos Socialistas Revolucionários, Bolcheviques e anarquistas, se aproximavam do Dnepr. Os Makhnovistas formaram um “batalhão livre” que se juntou ao front. Em janeiro, Makhno passou seu papel de comando para um marinheiro chamado Polonskii, permanecendo somente como liderança política. Preparando a defesa de Gulyai-Pole, Makhno dirigiu quartéis generais do Exército Vermelho para coordenar ações conjuntas com outros destacamentos.

Gulyai-Pole, enquanto isso, era defendida pela companhia judia sob o comando de Tranovskii. Na noite entre 15 e 16 de abril, a companhia iniciou um golpe em Gulyai-Pole em favor dos nacionalistas ucranianos e prenderam um grupo de anarco-comunistas. Ao mesmo tempo, um destacamento de nacionalistas lançou um ataque contra o “batalhão livre” e os desarmou [37].

Esses eventos pegaram Makhno de surpresa. Com um único golpe ele havia perdido sua força militar e sua base de apoio. É notável que Makhno não tenha culpado os judeus pelo que aconteceu. Na sua visão, rumores de uma “conspiração judia” na Ucrânia “provocaria indubitavelmente um pogrom e o massacre de judeus pobres e inocentes, constantemente perseguidos por todos na história da Rússia e da Ucrânia, desconhecendo a paz até então” [38].

Entendendo as razões das ações da comunidade judaica, Makhno retornou posteriormente ao distrito de Gulyai-Pole, se posicionou contrariamente a vingança contra os envolvidos no golpe, isto é, os judeus. Ele “convenceu os camponeses e operários que os trabalhadores judeus, mesmo aqueles que atuaram como soldados da companhia e participaram diretamente dessas atividades contrarrevolucionárias, iriam condenar por conta própria esse ato vergonhoso” [39]. De fato, em 1919, um batalhão judeu se formou nas fileiras Makhnovistas. Em 16 de abril de 1918, participantes de uma manifestação civil de Gulyai-Pole libertaram os anarquistas que foram presos pelos conspiradores. Mas era tarde para organizar a defesa da cidade: os alemães atravessaram o Dnepr e posteriormente chegaram a Gulyai-Pole. Em acordo com os nacionalistas decidiram punir qualquer anarquista que não conseguisse escapar

A vitória dos nacionalistas teve curta duração, e suas esperanças nas forças alemãs desvaneceram. Em abril de 1918, os alemães, junto com os capitalistas e latifundiários ucranianos, apoiaram um golpe contra a Rada e sua república, liderado pelo General Pavlo Skoropadsky, que formou o flexível e contrarrevolucionário Hetmanate, um regime ditatorial. Skoropadsky instituiu a requisição de grãos e a restauração da propriedade fundiária aos senhores feudais (pomeshchiki), provocando uma massiva reação popular. O segundo ciclo das atividades Makhnovistas começou a partir do papel decisivo desempenhado pelo movimento em oposição aos alemães, ao Hetmanate e às classes abastadas da Ucrânia.

A luta de libertação nacional, anarquismo e território makhnovista


Em 4 de julho de 1918, Makhno, com a ajuda dos Bolcheviques, retornou a seu distrito natal e reuniu um pequeno destacamento de partisans. Em 22 de setembro começam as operações militares contra os alemães. O destacamento de Makhno travou sua primeira batalha no vilarejo de Dibrivki (Bolshaya Mikhailovka) em 30 de setembro. Unindo-se ao pequeno destacamento de Shusya, que já havia combatido como partisans na região, Makhno e um grupo de três dezenas de homens conseguiram destruir as superiores forças alemãs.

A autoridade do novo destacamento cresceu na área, e o próprio Makhno passou a ser chamado pelo respeitoso apelido Batko (“paizinho”). A batalha de Dibrivki marcou o inicio de uma vingança destrutiva, bem como o começo de um ciclo de vitórias militares contra os alemães, os brancos e os nacionalistas. O que se seguiu foi que os alemães acumularam uma força considerável e realizaram uma execução exemplar em Dibrivki, que os partisans eram incapazes de evitar. Habitantes das fazendas alemãs da região tomaram parte na expedição punitiva. Como represália, os Makhnovistas destruíram as fazendas e mataram os participantes dos atos de punição e, como lembrou Alexey Chubenko: “Palheiro, palha e casa queimadas tão ferozmente que as ruas estavam claras como o dia. Os alemães, com o fim do tiroteio, correram de suas casas. Mas nossos homens atiraram em todos os homens prontamente” [40].

Após queimar as fazendas kulaks, os rebeldes, seguindo as ordens de Makhno, disseram as famílias que perderam suas casas: “Vão para onde os camponeses de Dibrivki, homens, mulheres e crianças foram, aqueles a quem seus pais, filhos e maridos mataram ou estupraram ou queimaram as cabanas” [41].

Ao mesmo tempo, após primeira explosão de terror. Makhno proferiu uma ordem para não tocar nos alemães que não oferecessem resistência, e quando seu comandante Petrenko destruiu uma fazenda kulak alemã pacífica, Makhno percebeu que os alemães haviam pago pelo que fizeram [42]. Enquanto Makhno incitava a luta pela liberdade diante de poderes estrangeiros, também enfatizava a natureza anti-latifundiária e anti-kulak de suas ações, incluindo a oposição a elite ucraniana e ao Estado nacionalista.

O exército popular deveria, por exemplo, aproveitar a oportunidade de adquirir suprimentos as expensas dos latifundiários e kulaks: “Eu pedi que o povo reunido em assembleia falasse abertamente onde os kulaks viviam, pessoas com ovelhas e gado, e assim conseguimos duas ou três ovelhas para utilizar no preparo de sopa para nossos soldados” [43]. A essa altura tribunais populares (obshchestvennye sudy) passaram a funcionar em reuniões camponesas, com autoridade para decidir o destino dos acusados. Em resposta aos protestos do anarco-comunista A. Marchenko contra essa prática, Makhno afirmou: “Deixe ele pôr o seu sentimentalismo no bolso” [44].

Via de regra, os Makhnovistas libertavam qualquer tropa alemã capturada. Mas, esporadicamente, executavam civis alemães considerados “espiões” [45] e, com uma maior frequência, os oficiais. A severidade dos insurgentes sobre os kulaks só aumentou sua autoridade aos olhos dos camponeses. Makhno começou a planejar suas ações com base nos numerosamente fortes regimentos voluntários de camponeses, que ele podia atrair para as operações maiores – com o núcleo do exército Makhnovista. Ele avisaria previamente o local de encontro. Curiosamente, o inimigo não sabia nada sobre isso.

Quando a revolução irrompe na Alemanha em novembro de 1918, o apoio do Hetmanate estava abalado. Os nacionalistas reagruparam-se no Diretório, retomaram Kiev em dezembro e derrubaram Skoropadsky, e em janeiro de 1919 reuniram a Republica Popular Ucraniana com a separada Republica Popular Ucraniana do Oeste. Enquanto isso, o grande distrito de Priazove passou para o controle Makhnovista.

Em 30 de dezembro de 1918, Batko chegou a ocupar brevemente Ekaterinoslav, uma das maiores cidades da Ucrânia, mas por conta de conflitos com aliados Bolcheviques não foi capaz de defender a cidade do avanço do exército do líder do Diretório, Symon Vasylyovych Petliura [46]. Durante esse período Makhno tomou medidas para transformar seu movimento de um destrutivo levante camponês para um movimento por revolução social que incorporasse todo o poder no território que controlasse. Mas ganhando controle sobre uma significativa parcela de território, Makhno conclui que era hora de adicionar instituições propriamente democráticas ao universo militar anarquista: nomeadamente, um Soviete Militar Revolucionário.

O trabalho de construção iniciado em 1917 foi retomado, um esforço consciente para criar uma sociedade autogerida e anarquista. Com esse propósito que o 1º Congresso dos Sovietes dos Distritos foi convocado em 13 de janeiro de 1919 (ao numerar o congresso de 1919 o fórum de 1917 foi ignorado). Assim como em 1917, os Makhnovistas reconheceram a máxima autoridade do congresso. Em 1919, ocorreram três desses congressos (em 23 de janeiro, de 8 a 12 de fevereiro e de 10 a 29 de abril). Suas resoluções foram adotadas após discussões acaloradas, de acordo com ideias anarquistas:

Em nossa luta insurgente, precisamos de uma família unida e fraterna de operários e camponeses para defender a terra, a verdade e a liberdade. O segundo congresso distrital dos soldados do front, convida vivamente seus camaradas camponeses e operários a assumir por seus próprios esforços a construção de uma nova e livre sociedade em sua localidade, sem decretos e ordens tirânicas e em oposição aos tiranos e opressores ao redor do mundo: uma sociedade sem latifundiários que mandem, com escravos que obedecem, sem ricos ou pobres [47].

As delegações do congresso discursaram incisivamente contra os “burocratas parasitas” que eram a fonte de “decretos tirânicos”. Os Makhnovistas, que também estavam engajados no trabalho educativo e cultural, representavam um importante órgão de poder, mas toda a sua atividade civil (e, formalmente falando, militar) estava sob o controle do órgão executivo do congresso (Soviete Militar Revolucionário) e inúmeras instituições educacionais foram criadas, em conjunto com a redistribuição das terras e criação de diversas cooperativas rurais. O comandante Bolchevique do front ucraniano, Vladimir Antonov-Ovseenkoo, que visitou o distrito em maio, reportou:

Estão se desenvolvendo comunas e escolas infantis – Gulyai-Pole é um dos centros mais cultos em Novorossiya – aqui existem três escolas secundárias. Sob os esforços de Makhno, dez hospitais para feridos foram abertos, uma oficina tem sido organizada para reparar ferramentas, peças e equipamentos de manufatura [48].

As crianças eram ensinadas a ler e passavam por treinamento militar, primeiramente na forma de jogos militares (que por vezes eram bem pesados). Mas o principal trabalho educativo era desenvolvido não com as crianças, mas com os adultos. O Conselho de Cultura e Propaganda, responsável pelo pelo esclarecimento e agitação entre a população, era apoiado por anarquistas e Socialistas Revolucionários de esquerda que foram para o distrito. Liberdade de agitação também era defendida para outros agrupamentos de esquerda, incluindo os Bolcheviques, ainda que os anarquistas fossem a ideologia preponderante no distrito.

Os conflitos de Makhno com determinados comandantes se intensificava. Quando o semi-independente comandante Fedor Shchus dirigiu represálias contra colonos alemães, Makhno respondeu prendendo-o e prometendo executá-lo se aquilo acontecesse novamente. Shchus, que só recentemente havia demonstrado independência em relação a Makhno, não era mais capaz de resistir ao Batko, cujo poder no distrito estava baseado não somente na força militar. “Shchus deu sua palavra que os assassinatos não se repetiriam e jurou lealdade a Makhno” [49], afirma Chubenko. Como resultado, Makhno conseguiu manter uma disciplina sólida entre seus oficiais. Um assistente do líder Bolchevique Lev Kamenev falava sobre o estilo de liderança de Makhno em uma reunião de oficiais em uma visita a Gulyai-Pole: “Ao menor barulho ele poderia ameaçar o transgressor: ‘Pra fora!’” [50]. A primeira organização político-social a levar e influenciar a política de Makhno foi a União dos Anarquistas, que surgiu de um grupo de anarco-comunistas aos quais uniram-se diversos grupos anarquistas. Muitos oficiais Makhnovistas e anarquistas que foram para o distrito se juntaram a União. Inclusive proeminentes ativistas Makhnovistas como Grigory Vasilevskii, Boris Veretelnikov, Alexey Marchenko, Petr Gavrilenko, Vasily Kurilenko, Viktor Belash, Trofim Vdovichenko e outros, eram anarquistas.

Makhno, entretanto, tinha uma posição cética quanto ao grupo anarquista NABAT (“Alarme”), também conhecida como Confederação das Organizações Anarquistas da Ucrânia. E isso incluía figuras de liderança como Vsevolod Mikhailovich Eikhenbaum (conhecido como “Volin”). A NABAT uniu recém-chegados como Volin a alguns anarquistas de cidades ucranianas (primariamente anarcossindicalistas) no outono de 1918, mas evidentemente este representava um dos vários grupos anarquistas. O grupo se queixava que a liderança do movimento Makhnovista não se justificava.

Makhno não se sujeitou as decisões da conferencia de abril de 1918 da NABAT em Elisavetgrav, que foram tomadas em sua ausência. É essencial distinguir a influência dos anarquistas locais no movimento da influência dos anarquistas recém-chegados da cidade na região, aos quais o movimento Makhnovista já mantinha uma posição cética desde 1918. Entretanto, mesmo aqui havia exceções relevantes. O exemplo mais óbvio era o camarada de Makhno da colonia penal, Piotr Arshinov (também conhecido como “Marin”). De acordo com Isaak Teper:

Marin era, em geral, o único anarquista [anarquista recém-chegado] que Makhno respeitava verdadeiramente e cujos conselhos eram acatados inquestionavelmente...era a única pessoa, como indiquei acima, a qual Makhno, em geral, se submetia em todos os sentidos da palavra [51].

Arshinov (que esteve preso com Makhno) se uniu a ele, e juntos foram determinantes para a formação da ideologia do movimento. Makhno definia sua posição como anarco-comunista “segundo a definição de Bakunin” [52]. Mais tarde, Makhno propôs a seguinte organização de Estado e sociedade: “Eu concebo tal estrutura somente sob a forma do soviete livre, na qual todo o país seria gerido pelas organizações sociais dos trabalhadores locais, completamente livres, independentes e autogestionárias” [53], em contraste com o centralismo do Estado Soviético.

No final de 1918, uma delegação de trabalhadores ferroviários visitou Makhno. De acordo com as memórias de Chubenko, os trabalhadores

[…] começaram perguntando o que deveriam fazer em termos de poder organizativo. Makhno respondeu que eles deveriam organizar um soviete que fosse completamente independente, isto é, um soviete livre, independente de todos os partidos. Mais tarde, pediram dinheiro, já que não tinham nada com o que pagar os trabalhadores que não recebiam salário há três semanas. Makhno, sem titubear, mandou enviar-lhes 20.000 rublos, e isso foi feito [54].

Em um discurso em 8 de fevereiro de 1919, Makhno anunciou a seguinte tarefa: “Construir uma genuína estrutura soviética em que os sovietes, escolhidos pelos trabalhadores, serão os subordinados do povo, executando as leis e decretos que os próprios trabalhadores escreverão no congresso dos trabalhadores de toda a Ucrânia” [55]. Assim, no que diz respeito a independência da Ucrânia, o congresso declarava em outubro de 1919:

Quando falamos em independência da Ucrânia, não falamos em independência nacional no sentido conferido por Petliura, mas a independência social de operários e camponeses. Nós declaramos que os trabalhadores ucranianos e de todos os povos tem o direito a autodeterminação, não como uma ‘nação independente’, mas como ‘trabalhadores independentes’ [56].

A aliança com os bolcheviques e a questão do antissemitismo


Dividindo suas respectivas esferas de influência com os nacionalistas ucranianos, os Makhnovistas contavam com uma ampla extensão territorial e forte apoio dos camponeses quando começaram a ser atacados pelos Brancos. No início de janeiro, os Makhnovistas já haviam absorvido em suas fileiras algumas centenas de insurgentes paramilitares de Priazove, e sofriam com a falta de munição e rifles. Após inúmeros dias de batalha contra os Brancos eles haviam usado toda a sua munição e os insurgentes foram obrigados a recuar para Gulyai-Pole. Eles não queriam entregar a sua “capital”. De 24 de janeiro a 4 de fevereiro, batalhas dramáticas foram travadas, com algumas vitórias.

A despeito de seus desacordos com os Bolcheviques, os Makhnovistas não tinham alternativa a não ser se aliar a eles nessas circunstâncias. O Exército Vermelho era a única fonte possível de armas e munição. Ainda no início de janeiro Makhno diz a Chubenko: “Talvez consigamos nos unir ao Exército Vermelho que, segundo rumores conquistou Belgorod e partiu para a ofensiva ao longo de todo o front ucraniano. Se você encontrá-los [Exército Vermelho] faça uma aliança militar” [57].

Makhno não deu autoridade a Chubenko para conduzir qualquer acordo político com os Vermelhos, entretanto, o emissário de Batko foi orientado a dizer: “estamos todos lutando pelo poder dos sovietes”. Após a conversa com Pavel Dybenko em 26 de janeiro de 1919, os Makhnovistas foram abastecidos com munição que os tornou aptos a partir para a ofensiva imediatamente em 4 de fevereiro. Em 17 de fevereiro, tendo tomado Orekhov e Pologi, a 3ª Brigada Makhnovista Primeira Divisão do Dnepr, sob o comando de Dybenko, ocupou Bakhmut.

Os rifles Bolcheviques possibilitaram aos Makhnovistas armar os reforços camponeses que estavam guardando os flancos. Como resultado, a 3ª Brigada da Primeira Divisão do Dnepr cresceu tão rapidamente que superou em números a Divisão original e o 2º Exército Ucraniano contra o qual a brigada havia lutado inicialmente. Enquanto em janeiro, Makhno possuía 400 soldados, no início de março contava com centenas, em meados de março com 5.000 e em abril, de 15 a 20.000 soldados.

Tendo mobilizado esses voluntários, as forças de Makhno lançaram sua ofensiva ao sul e a leste. Cobrindo um território de mais de 100 km em um mês e meio. Os Makhnovistas tomaram Berdyansk. O bastião ocidental Branco do Tenente-General Anton Ivanovich Denikin foi destruído. Ao mesmo tempo, outras unidades Makhnovistas moveram o front a uma distância similar a leste, entrando em Volnovakha. Os Makhnovistas interceptaram um trem especial dos Brancos, carregado com 1.467 toneladas de pão [58], e o enviou aos trabalhadores famintos de Moscou e Petrogrado. O Exército Insurgente Makhnovista foi chamado para defender a população e a estrutura social não apenas de ameaças externas, mas de ameaças internas no distrito.

Periódicas explosões de revolta eram, em geral, extremamente comuns nesse período da revolução: “Na cidade, roubos, bebedeiras e depravação começavam a penetram o exército”, declarou V. Ausssem, comandante de um grupo militar dentro do Exército Vermelho, após a ocupação de Kharkov [59]. E em outro episódio: “No final de abril, o regimento se encontrava na estação de Teterev, onde soldados do Exército Vermelho cometeram inúmeros excessos sem punição – roubando e batendo em passageiros sem piedade e matando inúmeros judeus”, [60] lembra Antonov-Ovseenko, descrevendo os abusos do 9º regimento do Exército Vermelho.

Durante o período revolucionário, um grande número de judeus civis foram mortos em pogroms por todo o antigo Império Russo, inclusive na Ucrânia. Havia alguns pogroms no território de Directorate (levando o anarquista ucraniano judeu Sholom Schwartzbard a assassinar Petliura por vingança em Paris em 1926). Aqui é apropriado mencionar um fragmento de uma conversa entre o Comissário do Povo Ucraniano, A. Zatoniskii e soldados do Exército Vermelho, a quem tentava convencer a não voltar-se para Kiev para, assim, ficar “de acordo com a Cheka e com a Comuna”: “Finalmente, um homem muito velho perguntou se ‘era verdade que Rakovskii era judeu, uma vez que ele havia dito que os Bolcheviques estavam no comando, mas agora os judeus estabeleceram o novo governo comunista de Rakovskii’. Eu o assegurei que o camarada Rakovskii é da mesma linhagem ortodoxa que os comunistas – eles são todos Bolcheviques” [61]. Nessa ocasião, seu argumento foi convincente. Mas sabemos que o Exército Vermelho participou de inúmeros pogroms contra os judeus [62].

O antissemitismo também era forte entre uma parcela significativa dos Brancos. De acordo com Chubenko, o Atamam Andrey Shkuro, na tentativa de levar Makhno para seu lado, escreveu para ele: “Afinal, você derrotou os comissários de qualquer maneira, e nós derrotamos os comissários, vocês derrotaram os judeus e nós derrotamos os judeus, então não temos motivo para brigar sobre isso” [63]. De fato, os apoiadores dos Brancos também escreveram sobre seu antissemitismo e os pogroms. “Nós não nos relacionamos com os marranos, da mesma maneira que eles não se relacionam com a ‘burguesia’. Eles gritam ‘Morte a burguesia’, e nós respondemos: ‘Matem os marranos’” [64]. (Os Ataman ucranianos eram líderes paramilitares que facilmente se deslocavam da bandeira nacionalista azul e amarela, para a bandeira vermelha ou negra e vice-versa).

Na medida em que as tropas revolucionárias se encontravam preocupadas com as sublevações de amotinados entre os soldados, que frequentemente apresentavam caráter antissemita, é possível explicar essa situação por meio da peculiar situação psicológica dos soldados em 1918-19. Eles asseguraram o poder para diversos partidos, e mantiveram-se encarregados de “impor a ordem” quando necessário. Esse poder engendrou um sentimento de que qualquer coisa era permitida, enquanto as infinitas interrupções das provisões e salários alimentou uma sensação de ingratidão das autoridades. E aqui, a situação de catástrofe social, marginalização e radicalismo trouxe a tona obscuros instintos antissemitas e fomentou o impulso por realizar pogrons.

Contrariando esse cenário, o território Makhnovista representava um modelo relativamente pacífico. O fato do exército Makhnovista ser composto por camponeses locais constituía um sério obstáculo para qualquer arruaça no seio do movimento. O território também era relativamente seguro em relação a pogroms contra judeus. Em geral, o antissemitismo era mais fraco em Priazove do que em Pravoberezhna. Mais do que isso, a mais remota manifestação de antissemitismo era severamente punida pelos Makhnovistas. Como mencionado anteriormente, um destacamento composto por judeus combateu nas tropas Makhnovistas.

Ainda que a maior parte dos integrantes das forças Makhnovistas fossem etnicamente ucranianos, o movimento incluía gregos, caucasianos e outros grupos, e convidava os trabalhadores cossacos a se unirem ao grupo. O único caso documentado de um pogrom Makhnovista – na colônia judia de Gorkaya na noite entre 11 e 12 de maio – culminou em uma minuciosa investigação e execução dos envolvidos. Um porta-voz na comissão de investigação em Mogil caracterizou o incidente como “um virulento e sangrento levante de pessoas perturbadas que haviam perdido a consciência” [65].

Depois desse, não houve mais casos de pogroms no território controlado pelos Makhnovistas, um ponto de consenso na literatura. No inicio de janeiro de 1919, Makhno em pessoa e seus oficiais tomaram parte em assassinatos brutais – ainda que se argumente que não tenha apresentado a natureza sistemática como visto em territórios controlados por outros regimes [66]. Mas depois disso, represálias como essa, contra a população, cessaram por um bom tempo. Os Makhnovistas continuaram matando prisioneiros, assim como todos os exércitos em guerra da região. Os Brancos enforcavam os Makhnovistas capturados e os Makhnovistas degolavam os Brancos capturados.

O ódio mútuo entre camponeses e aristocratas, fundamentado no abismo cultural, que remonta o período de Pedro, o grande, eclodiu na carnificina sangrenta da guerra civil. As forças políticas da Ucrânia e da Rússia. não podiam resolver este antigo conflito de qualquer outra maneira, e agora os participantes da tragédia eram obrigados a agir de acordo com a situação e noções herdadas de seus antepassados sobre a justiça da vingança.

Subsequentemente Makhno começou a sentir-se oprimido por esse lado da revolução, e escreveu sobre a dureza da guerra civil: “nessa batalha brutal, os aspectos morais que buscamos são inevitavelmente deformados e podem parecer distorcidos a qualquer um até que a certa altura do conflito nossas ações sejam reconhecidas por toda a população como sua luta e passe a ser travada diretamente por eles mesmos” [67]. Na primavera de 1919, a primeira aliança entre os Makhnovistas e o governo central Soviético começa a entrar em crise.

Os Makhnovistas defendiam sua posição de poder de sovietes livres, enquanto os Bolcheviques olhavam para seus companheiros de jornada camponeses com desconfiança. Os camponeses estavam desapontados: os comunistas se recusaram a ceder as extensas porções de terras de propriedade das refinarias de açúcar, transformando-as em fazendas estatais (sovkhozy). Depois, em 13 de abril, um sistema de requisições de alimentos foi imposto sobre o campesinato. Conflitos nacionais também ocorriam nos territórios sob controle Bolchevique: a nova burocracia comunista foi projetada em sua maior parte pela população urbana, a maioria sendo russos e judeus. Judeus eram particularmente ativos, considerando que no Império Russo haviam sido barrados de ocupar cargos no Estado.

A revolução abriu oportunidades de carreira incríveis que seriam inimagináveis no passado. Encontrando um número inesperadamente grande de judeus com capacidade de executar as decisões tomadas pelo governo comunista, os camponeses facilmente concluíram: “A comuna é o reino dos marranos”. Diversos levantes camponeses irromperam na primavera de 1919, não diretamente contra o poder dos sovietes enquanto tal, mas contra os Bolcheviques e, via de regra, com caráter antissemita.

Uma causa posterior da crescente desconfiança mútua entre comunistas e anarquistas foi criada pelo Ataman Nikifor Grigorev, que em 6 de maio desencadeou uma revolta em Pravoberezhna [68]. Em 4 de maio os homens de Grigorev (mais tarde parte do Exército Vermelho) lançaram pogroms contra judeus e comissários Bolcheviques. As lideranças imediatamente solicitaram que Grigorev colocasse um fim na situação. O Ataman se viu frente a uma decisão difícil: continuar cooperando com os Bolcheviques (aqueles que faziam parte do seu exército já haviam se voltado contra ele), ou manter a unidade no exército por meio de um levante contra os Bolcheviques (pelos quais também não possuía nenhuma simpatia). Após alguma hesitação, ele decidiu permanecer com seus soldados.

Na véspera do levante de Grigorev, um representante do Comitê Central do Partido Comunista, Ya. Gamarnik reportou que a situação de Grigorev era muito mais favorável que a de Makhno [69]. Em 8 de maio, Grigorev convocou, em um Universal, um levante e a criação de uma nova República Soviética na Ucrânia, através da reeleição de todos os sovietes com base no sistema de governo nacional, no qual os ucranianos teriam 80% das cadeiras, judeus 5% e outras nacionalidades 15% [70]. Mas isso era somente na teoria, pois na prática os grigorevistas mataram centenas de russos e judeus. 16.000 grigorevistas se dispersaram em diferentes direções, o que dissipou seus recursos, e também ampliou o escopo do levante quase até Pravoberezhna (Zeleny e outros Atamans já estavam em batalha no extremo norte desde abril).

Os rebeldes ocuparam Aleksandrya, Kremenchug, Cherkassy, Uman, Elisavetgrav e Ekaterinoslav, se aproximando, dessa maneira, com determinação do núcleo do território Makhnovista. Os Bolcheviques foram obrigados a empregar urgentemente suas forças contra o “front de Grigorev” em desenvolvimento. Os anarquistas, por sua vez, lutaram – em particular com o comboio blindado do Exército Vermelho comandado pelo marinheiro (anarquista) Anatoli Zhelesniakov – mesmo sendo cada vez mais críticos a política dos Bolcheviques. Ao mesmo tempo, entretanto, um grupo de soldados do Exército Vermelho que foram enviados para combater Grigorev começaram a discutir se não seria mais conveniente unir-se a ele. Entre 14 e 15 de maio, os Bolcheviques lançaram um contra-ataque de Kiev, Odessa e Poltava ameaçando as dispersas forças de Grigorev.

Na segunda metade de maio, todas as cidades tomadas por Grigorev foram retomadas. Podese concordar com o biógrafo de Grigorev, Viktor Savchenko, que “Grigorev provou não ter talento como oficial, faltando-lhe tanto a habilidade para planejar uma operação militar como para prever as consequências de suas ações, ficando, além disso, em um estado permanente de ódio antissemita” [71]. A principal ameaça oferecida pelo levante de Grigorev consistia no fato de muitos ucranianos dentro do Exército Vermelho terem passado para o seu lado. A essa altura, entretanto, o que os Bolcheviques mais temiam era a falta de controle sobre Makhno.

Kamenev claramente desconfiava de Makhno, a quem enviou um telegrama, em que insistia que naquele “momento decisivo” ele deveria “informar imediatamente a disposição de suas tropas e emitir uma posição contra Grigorev. Considerarei a falha em responder como uma declaração de guerra” [72]. A tentativa de Kamenev de aproveitar-se da situação extrema para forçar Makhno a depositar sua confiança incondicionalmente nas autoridades centrais não foi bem sucedida. Batko respondeu de maneira ambígua: “A honra e a dignidade de revolucionários nos obriga a permanecer fiéis a revolução e ao povo e o levante de Grigorev contra os Bolcheviques na batalha pelo poder não pode nos forçar a abandonar o front” contra os Brancos [73]. Em 12 de maio, ocorreu um congresso militar Makhnovista, reunindo comandantes e representantes de varias unidades e as lideranças políticas Makhnovistas, para decidir sua estratégia diante da situação com Grigorev. De acordo com V. Belash, Makhno apresentou a seguinte posição:

O governo Bolchevique da Ucrânia se autoproclamou guardião dos trabalhadores. Colocaram as mãos sobre todas as riquezas do país e a consideraram propriedade do governo. A burocracia do partido, colocando novamente em nossos pescoços os grilhões das classes dominantes, tiraniza o povo. Eles zombam dos camponeses, usurpam o poder dos trabalhadores e não dão trégua aos insurgentes. Os esforços dos Bolcheviques para nos humilhar e humilhar os homens de Grigorev, a tirania da Cheka [Comissão Extraordinária Pan-Russa dos Bolcheviques para Combater a Contrarrevolução e a Sabotagem] contra anarquistas e organizações socialistas revolucionárias, tudo indicava um retorno ao despotismo do passado [74].

(Os militares, de fato, mandaram uma mensagem a Kamenev argumentando sobre a emergência de uma ditadura do partido). Contudo, Grigorev tomou uma posição nacionalista que era estranha aos Makhnovistas, e o congresso decidiu “imediatamente pela resistência armada contra Grigorev” até surgirem novas informações e, enquanto isso, decidiu “manter relações amistosas com os Bolcheviques”. Esse encontro “na surdina” também decidiu expandir a 3ª Brigada Makhnovista para uma divisão e (com o consentimento de Makhno e Antonov-Ovseenko) começar negociações com o governo soviético com vistas a garantir a autonomia aos distritos de Mariupol, Berdyank, Melitopol, Aleksandrov, Pavlograd e Bakhmut. Em outras palavras, ao território Makhnovista e arredores [75].

Ao mesmo tempo, Makhno enviou seus emissários a região do motim de Grigorev a fim de esclarecer a situação e, se possível, subverter suas fileiras. Essa ação foi disfarçada como uma tentativa de formar uma aliança com Grigorev; os emissários foram presos como espiões pelos Bolcheviques, o que fez com que a última decisão estratégica dos Makhnovistas sobre Grigorev fosse adiada até o final de maio. Os emissários de Makhno foram libertados e puderam observar por si mesmos e reportar o resultado da ação dos ataques de Grigorev: os corpos das vitimas dos pogrons contra judeus. Ao mesmo tempo, Makhno lia o Universal de Grigorev, que o acusava de chauvinista. A seguir Makhno divulgou o texto “Quem é Grigorev”, onde atestava:

Irmãos! Certamente vocês devem ter ouvido nessas palavras o sombrio chamado para um pogrom contra os judeus! Certamente vocês sentiram as tentativas do Ataman Grigorev de separar a vívida conexão fraterna entre a revolução na Ucrânia e a revolução na Rússia. Nós estamos convencidos que a intuição saudável dos revolucionários dirá a eles [soldados que se uniram as tropas de Grigorev] que Grigorev os enganou e então eles passarão novamente para as fileiras da revolução [76].

Makhno continua, afirmando:

Nós temos afirmado que os motivos por trás da emergência de todo esse movimento de Grigorev se encontra não apenas em Grigorev...qualquer oposição ou protesto, na verdade qualquer iniciativa independente tem sido esmagada pelas comissões extraordinárias.... isso tem engendrado um descontentamento e protestos entre as massas e uma atitude hostil a ordem existente. Grigorev explorou isso em sua aventura... nós exigimos que o Partido Comunista responda pelo movimento de Grigorev [77].

A imprensa anarquista local era ainda mais categórica: “Não é segredo para ninguém”, escreveu Ya. Alyi na NABAT, “que todas as atividades do partido Bolchevique visam somente a manutenção do poder nas mãos do partido, recusando a todas as outras tendências a chance de propagar suas ideias” [78]. Os comissários “através de sua abordagem inábil e imperiosa colocou os insurgentes contra os Bolcheviques e deu um trunfo aos Centenas Negras” e “Foi a inabilidade e as políticas antirrevolucionárias dos Bolcheviques que garantiram essa oportunidade a Grigorev e seu grupo para explorar a insatisfação das massas e os levou a essas ações sombrias e traiçoeiras”. A posição de Makhno contra Grigorev não foi capaz de alterar a posição das lideranças Bolcheviques quanto aos anarquistas. A transformação de sua 3ª Brigada para uma divisão agravaria as desavenças entre as partes. O exército Makhnovista representava um corpo estranho dentro do Exército Vermelho, e não é de se surpreender que em fevereiro de 1919, Trotsky tenha exigido que os Makhnovistas se reorganizassem segundo o modelo de outras unidades Vermelhas. Makhno respondeu audaciosamente:

O autocrata Trotsky ordenou que dissolvêssemos o Exército Insurgente da Ucrânia, um exército criado pelos próprios camponeses. Para que ele entenda muito bem, enquanto os camponeses tiverem seu próprio exército, ele nunca será capaz de forçar os trabalhadores ucranianos a dançar conforme sua música. O Exército Insurgente, não desejando derramar sangue de nossos irmãos, e evitando conflitos com o Exército Vermelho, mas só se submetendo a vontade dos trabalhadores, continuará defendendo os interesses dos trabalhadores e só deporá armas se a ordem partir do livre Congresso dos Trabalhadores de toda a Ucrânia, através do qual os trabalhadores expressarão sua vontade [79].


Conflitos entre Makhnovistas e Bolcheviques se intensificam. Os congressos Makhnovistas criticavam as políticas Bolcheviques, enquanto os líderes comunistas exigiam o fim do movimento de independência. Suprimentos destinados aos Makhnovistas foram suspensos, colocando o front em risco. A propaganda Bolchevique anunciava a fraca disposição dos Makhnovistas para a batalha, ainda que mais tarde o comandante do exército Antonov-Ovseenko tenha escrito: “Muitas declarações que afirmam a fraqueza do lugar mais vulnerável - o distrito de Gulyai-Pole, Berdyansk - são falsas. Ao contrário, precisamente essa região se tornou a mais ativa em todo o front sul (de acordo com os relatórios de abril e maio). E isso não estava relacionado ao fato de sermos mais organizados ou melhor equipados em termos militares, mas sim porque as tropas aqui defendiam diretamente suas casas” [80].

A decisão de Makhno de transformar sua excessivamente ampla brigada em uma divisão foi considerada pelos Bolcheviques como falta de disciplina e seus comandantes do front sul finalmente decidiram destruir os Makhnovistas. Os Bolcheviques claramente superestimaram suas forças, ainda mais porque precisamente nesse momento as forças de Denikin iniciaram uma ofensiva [81]. Eles atacaram a junção entre os Makhnovistas e o Exército Vermelho no exato momento que os Bolcheviques atacaram a retaguarda dos Makhnovistas. Resistir a pressão em ambos os fronts era impossível.

Em 6 de junho de 1919, Makhno enviou um telegrama à liderança Bolchevique transigindo em sua posição na tentativa de solucionar o conflito, propondo que “um bom comandante militar, ambientado por Makhno na dinâmica local, poderia ser indicado por ele para assumir o comando da divisão” [82]. Em 9 de junho, telegrafou à Lênin, repetindo a oferta queixando-se que “o Governo Central considera toda insurgência incompatível com sua atividade governamental”, e dessa maneira abriu um caminho que iria “culminar, fatalmente, na criação de um front interno especial, que dividiria as massas trabalhadoras que acreditavam na revolução...um enorme e imperdoável crime contra os trabalhadores” [83].

Os Bolcheviques tentaram capturar Makhno, mas com um pequeno destacamento, ele conseguiu escapar de seus perseguidores. Depois a Cheka atirou em alguns membros do grupo de apoio do Batko, incluindo seu representante, chefe do grupo de Ozerov. Reconhecendo que era o fim para seu agrupamento, Makhno embarcou em uma guerra partisan na retaguarda dos Vermelhos, que haviam iniciado uma campanha militar contra os Makhnovistas na região.

Guerra partisan na retaguarda de vermelhos e brancos


Makhno parece ter tentado manter distância da retaguarda do Exército Vermelho para não prejudicar excessivamente sua defesa contra Denikin. De acordo com as memórias de Volin (que se juntou ao Exército Makhnovista e se tornou responsável pela comissão de educação e instrução do soviete), Makhno afirmava que “nosso principal inimigo, camaradas camponeses, é Denikin. Os comunistas, apesar de tudo, ainda são revolucionários”. Mas acrescentou: “Nós acertaremos as contas com eles depois” [84]. Entretanto, em 12 de junho Makhno dirigiu um ataque fracassado a Elizavetgrad, que estava ocupada pelo Exército Vermelho. No dia seguinte, os Makhnovistas encontraram os remanescentes dos destacamentos de Grigorev.

O primeiro encontro não deixou dúvidas quanto as intenções de Grigorev: “Quando Grigorev perguntou se tínhamos algum marrano e alguém respondeu que sim, ele logo declarou ‘então nós vamos espancá-los’”, relembra Chubenko [85]. Unidos na necessidade de combater as forças Bolcheviques e de Petliura, o Ataman não poderia concordar na questão dos Brancos: “Makhno afirmou que derrotaríamos Denikin. Grigorev foi contra… ele ainda não havia encontrado com Denikin e por isso não planejava lutar contra ele” [86]. Makhno respondeu com objeções de precaução, dando a entender que tinha desacordos pontuais com o Universal de Grigorev. As ações de Makhno foram explicadas em uma reunião com a equipe de apoio, discutindo sua estratégia em relação a Grigorev:

Makhno começou dizendo que, aconteça o que acontecer, temos que nos unir, mas, uma vez que não sabemos que tipo de pessoas ele tem, sempre poderemos executar Grigorev. Nós precisamos cooptar seu pessoal: eles são vítimas inocentes, e por isso temos que nos unir, aconteça o que acontecer [87].

Makhno conseguiu convencer sua equipe de apoio: a necessidade de mais pessoas era óbvia, e o prospecto de eventualmente liquidar Grigorev tranquilizou aqueles que se opuseram a qualquer compromisso com esse perpetrador de pogroms. Grigorev se tornou um comandante Makhnovista (Makhno, enquanto líder do soviete era, formalmente, seu superior) mas suas ações rapidamente mostraram que essa união iria prejudicar os Makhnovistas.

Em 27 de junho, em um encontro em que Grigorev estava rodeado por oficiais Makhnovistas, Chubenko (seguindo um plano acordado anteriormente) lançou uma acusação. “Primeiro, eu disse a ele que ele estava encorajando a burguesia: quando ele tomava o feno dos kulaks ele pagava por isso, mas quando quando ele pegava dos pobres e eles vinham a ele suplicando, quando isso se tornava sua última esperança, ele os escorraçava… Depois eu o lembrei de como ele havia fuzilado um Makhnovista que havia achincalhado e roubado uma cebola de um padre” [88].

Era típico de Grigorev executar alguém por ter insultado um padre, enquanto que para Makhno era típico executar alguém por assassinar judeus. Entretanto, a principal acusação era que Grigorev tinha se recusado a atacar os Brancos que haviam ocupado Pletenyi Tashlyk. O Ataman tentou argumentar, mas vendo onde aquilo chegaria sacou a sua arma, os Makhnovistas já se encontravam com armas em punho e Grigorev foi morto. Makhno estava realizando seu plano em relação a Grigorev e seus homens.

Eles foram desarmados e, após o trabalho de convencimento apropriado, incorporados ao destacamento Makhnovista. Com a sensação de dever cumprido, Makhno envia um telegrama aos quatro ventos: “A todo mundo, todo mundo, todo mundo. Cópia para o Kremlin, em Moscou. Nós matamos o conhecido Ataman Grigorev. Assinado: Makhno” [89]. Enquanto despachava esse telegrama ao Kremlin, Makhno também emitiu um posicionamento sobre o assassinato de Grigorev, em que dizia: “Esperamos que depois disso ninguém mais sancione pogroms contra os judeus... e que os trabalhadores tomem, honrosamente, posição [contra os inimigos], tais como Denikin… e contra os Bolcheviques, que estão introduzindo uma ditadura” [90]. Em 5 de agosto, Makhno emitiu uma posição afirmando que:

Todo revolucionário insurgente deve se lembrar que todas as pessoas da abastada classe burguesa independente se são russas, judias, ucranianas ou de qualquer outra nacionalidade são tanto suas inimigas pessoais como inimigas do povo. Aqueles que protegem a injusta ordem burguesa, isto é, comissários soviéticos, membros de destacamentos de extermínio, comissões extraordinárias que circulam nas cidades e vilarejos e torturam o povo trabalhador que não deseja se submeter a sua tirana ditadura.
Todo insurgente fica obrigado a prender representantes desses destacamentos de extermínio, comissões extraordinárias e outros órgãos de escravização e perseguição popular e enviá-los para o quartel-general do Exército e, em caso de resistência, atirar neles no local. Porque os culpados de usar a força contra trabalhadores pacíficos, independentemente de sua nacionalidade, sucumbirão a uma morte vergonhosa e indigna de um insurgente revolucionário [91].

Entretanto, superar o antissemitismo dos homens de Grigorev provou-se impossível e logo Makhno foi forçado a dispensar essas tropas extras. Ele tinha de encontrar outra maneira de reestabelecer suas tropas. Sob a pressão de Denikin, os Bolcheviques foram obrigados a recuar na Ucrânia. Mas os próprios soldados não queriam retroceder para a Rússia. Em 5 de agosto essas tropas que haviam sido deixadas sob o comando dos Bolcheviques retornaram aos Makhnovistas. O Batko estava novamente encarregado de um exército de centenas de pessoas. Ao final de setembro, a situação dos Makhnovistas se tornou crítica.

As forças superiores de Denikin perseguiram os Makhnovistas por toda a Ucrânia, empurrando-os para dentro do distrito de Uman onde as forças de Petliura eram mais fortes. A população local não apoiava os Makhnovistas, que eram desconhecidos na região. O progresso foi freado pela caravana de homens feridos. Nessas circunstâncias Makhno entrou em uma aliança temporária com Petliura, que também estava combatendo Denikin. Tendo transferido os feridos ao seu aparente aliado (posteriormente Petliura quebrou o acordo com Makhno, entregando-os aos Brancos), os Makhnovistas retornaram e atacaram as unidades do Exército Voluntários de Denikin que os estacam perseguindo.

O ataque repentino dos Makhnovistas em Peregonovka, em 26 e 27 de setembro foi devastador.92 Um dos regimentos inimigos foi capturado, dois totalmente destruídos. O Exército Makhnovista atacou pela retaguarda do exército de Denikin e marchou por toda a Ucrânia em três colunas com destino ao distrito de Gulyai-Pole. “Operações contra Makhno eram extremamente difíceis. A cavalaria de Makhno era particularmente efetiva, sendo, primeiro, incrivelmente imprevisível; frequentemente atacavam os flancos, poderiam aparecer na retaguarda e assim por diante”. Em geral “as ‘tropas’ Makhnovistas se diferiam das Bolcheviques por suas habilidade militar e coragem” [93], relembra o Coronel Dubego, responsável pela equipe da 4ª Divisão dos Brancos. O quartel-general de Denikin em Taganrog agora estava sob ameaça.

A infraestrutura do Exército voluntário foi destruída, o que prejudicou os esforços de Denikin para deslocar-se para norte, rumo a Moscou. Ele foi forçado a transferir as unidades do front do Ataman Shkuro para conter a rápida expansão da zona controlada pelos Makhnovistas. Recuperando-se desse primeiro impacto, o exército de Denikin reconquistou cidades costeiras e se dirigiu para Gulyai-Pole. Mas nesse momento, Makhno estava preparando uma inacreditável e ousada manobra. “25 de outubro em Ekaterinoslav era dia de mercado”, lembra um membro do Comitê de Ekaterinoslav do Partido Comunista:

Muitas carroças passavam pelas cidades vindas das estepes, carregadas com vegetais e especialmente com repolhos. Por volta das 16 h uma ensurdecedora batalha de metralhadoras irrompe na parte superior do mercado: descobriu-se que as metralhadoras estavam disfarçadas sob os repolhos, e os comerciantes de vegetais eram um destacamento avançado de Makhnovistas. Esse destacamento foi seguido por todo exército, que se revelou no meio das estepes, quando o exército de Denikin não estava esperando ser atacado [94].

Os homens de Denikin tentaram repelir o ataque, mas suas defesas estavam enfraquecidas. Em 11 de novembro, Ekaterinoslav passou para o controle Makhnovista pelo período um mês (até 19 de dezembro). Durante esse período 40.000 homens lutavam sob o comando de Makhno [95]. Na área liberada, a retomada do projeto anarquista de construção ainda não havia sido reiniciada. Congressos multipartidários de camponeses e operários passaram a ocorrer. Todas as empresas foram transferidas para as mãos dos trabalhadores que nelas trabalhavam.

Território controlado pelo Exército Revolucionário Insurgente da Ucrânia na época.

Camponeses produzindo alimentos, e trabalhadores que encontravam consumidores para seus produtos – padeiros, sapateiros, ferroviários e assim por diante – beneficiaram-se desse sistema de “mercado socialista”. Porém, operários empregados na indústria pesada estavam insatisfeitos com os Makhnovistas e apoiavam os Mencheviques. Os Makhnovistas estabeleceram um regime de benefícios para os necessitados, que distribuía sem burocracia dinheiro soviético para praticamente todos que quisessem. Usando moedas mais estáveis, obtidas em batalha, os Makhnovistas compraram armas e publicaram literatura e jornais anarquistas. Os habitantes de Ekaterinoslav avaliavam cada exército que havia passado pela cidade em termos do volume das pilhagens que ocorriam. No quadro geral da guerra civil, as medidas anti-pilhagem criadas por Makhno foram consideradas satisfatórias. De acordo com o testemunho de um habitante da cidade “as pilhagens constantes que ocorriam sob domínio do Exército Voluntário não aconteciam sob o comando dos Makhnovistas” e “As represálias que o próprio Makhno dirigiu pessoalmente contra a maioria dos ladrões pegos no mercado criaram uma grande impressão na população; ele imediatamente atirava neles com sua arma” [96]. Um problema mais sério era o serviço de contrainteligência Makhnovista, um órgão sem controle que permitia violências arbitrárias contra cidadãos pacíficos. Volin confirma:

[…] Uma série de pessoas vem constantemente queixar-se para mim, o que me forçou a intervir em casos de contrainteligência e a apelar a Makhno e ao serviço de contrainteligência. Mas a situação de guerra e as exigências de meu trabalho cultural e educacional me impediram de investigar mais aprofundadamente abusos por parte da contrainteligência [97].

A contrainteligência Makhnovista executou algumas dezenas de pessoas, muito menos que órgãos equivalente de Brancos e Vermelhos. Mas não há dúvida que entre os executados estavam não somente espiões Brancos, mas adversários políticos dos Makhnovistas, como o comandante comunista M.L. Polonskii, a quem o serviço acusou de fomentar uma conspiração contra Makhno. Makhno admitiu posteriormente: “No curso do trabalho de órgãos de contrainteligência do Exército Makhnovista erros foram cometidos algumas vezes, nos levando a sofrer espiritualmente, nos envergonhar e a pedir desculpas aos injustiçados” [98]. Em dezembro de 1919, o Exército Makhnovista foi acometido por uma epidemia de tifo.

Centenas de soldados, incluindo seus comandantes, estavam temporariamente inaptos para luta. Isso permitiu que os Brancos retomassem temporariamente Ekaterinoslav, mas logo depois o Exército Vermelho também invade a região onde os Makhnovistas atuavam. A despeito do fato das reais forças militares de Makhno estarem debilitadas (durante o surto de tifo no exército), os comandantes Bolcheviques continuavam temendo as forças anarquistas. Decidiram recorrer a um estratagema militar ardiloso, agindo como se execuções de Makhnovistas pelas mãos da Cheka não tivessem ocorrido, ordens para levar Makhno ao tribunal não tivessem sido proferidas e como se o “caso Polkonskii” não tivesse acontecido. Isto é, agindo como se a velha aliança ainda estivesse em vigor.

Os Bolcheviques mandaram Makhno deixar seu distrito (onde a população local apoiava os insurgentes), e se dirigir ao fronte polonês. Eles planejavam render os Makhnovistas no caminho. Em 9 de janeiro de 1920, sem esperar uma resposta de Makhno, o Comitê Revolucionário de toda Ucrânia (revkom) acusou-o extrajudicialmente. Em 14 de janeiro, a ordem de rendição foi emitida. Em 22 de janeiro, Makhno declarou sua disposição de “marchar de mãos dadas” com o Exército Vermelho, contanto que pudesse preservar sua independência. A essa altura quase duas divisões de Vermelhos estavam realizando operações militares contra os Makhnovistas, que contavam agora com poucos soldados em forma para o combate, após a epidemia. “Foi decidido conceder aos insurgentes um mês de licença”, lembra Belash, chefe do órgão de apoio Makhnovista, “um regimento soviético veio de Ekaterinoslav para Nikopol, ocuparam a cidade e começaram a render os Makhnovistas com tifo... Na própria cidade havia mais de 15.000 insurgentes com a doença. Nossos comandantes foram todos executados, não importando se estavam doentes ou saudáveis” [99]. Uma exaustiva guerra partisan começou contra os Vermelhos.

Os Makhnovistas atacaram os destacamentos menores e pessoas trabalhando no aparato Bolchevique e em depósitos, colocando um fim no sistema de requisição de alimentos e devolvendo aos camponeses os pão que os Bolcheviques haviam lhes tomado. Logo, o exército de Makhno contava com quase 20.000 soldados. Na área em que os Makhnovistas operavam, os Bolcheviques eram obrigados a se esconder, aparecendo somente acompanhados por grandes unidades militares.

A última aliança e o último conflito


Mas as ações de Makhno prejudicaram tanto a retaguarda do Exército Vermelho que contribuíram para vitórias do General do Exército Branco Pyotr Nikolayevich Wrangel. Makhno não queria ficar nas mão dos latifundiários e em 1 de outubro de 1920 estabeleceu uma nova aliança com os Bolcheviques. Seu exército e a região de Gulyai-Pole manteriam sua total autonomia e os anarquistas ucranianos teriam liberdade de agitação e seriam libertados das prisões Bolcheviques. Os Makhnovistas conseguiram desalojar o exército Wrangel do seu distrito rapidamente. A paz foi restaurada em GulyaiPole. Cerca de 100 anarquistas vieram ao distrito e se engajaram no trabalho de cultura e educação.

O melhor das tropas Makhnovistas (com 2400 sabres, 1900 baionetas, 450 metralhadoras e 32 revólveres) sob o comando de Semen Karetnikov (Makhno havia sido ferido na perna) continuavam o ataque contra Wrangel sob o comando geral dos Vermelhos. Ao mesmo tempo, o Exército Vermelho começou a mobilizar tropas adicionais, e os camponeses responderam positivamente a isso, considerando a aliança entre Makhnovistas e Bolcheviques.

Um exército de camponeses voluntários se formou para o ataque a Perekop, a cavalaria de Karetnikov e um destacamento de infantaria de Foma Kozhin participou do ataque em Sivash no qual quatro divisões Vermelhas também se envolveram. Com a vitória sobre os Brancos, novos desafios surgiram para Makhno e os anarquistas. Em 26 de novembro de 1920, sem declaração de guerra, os Bolcheviques lançaram um ataque contra eles. Na manhã desse mesmo dia Karetnikov e seu grupo de apoio foram convocados para uma reunião com o comandante Bolchevique do front sul, Mikhail Vasilyevich Frunze: quando chegaram foram emboscados e alvejados. Mas com as unidades de Karetnikov as coisas não eram tão simples: eles destruíram as unidades Vermelhas que os haviam cercado e com muitas baixas forçaram seu caminho de fuga para a Criméia.

A norte de Perekop o grupo entrou em combate com forças numericamente superiores do Exército Vermelho, restando após essa batalha apenas 700 soldados da cavalaria e 1500 baionetas. Em Gulyai-Pole havia mais com que se preocupar. Na tarde do dia 26 de novembro descobriu-se que grupos de apoio Makhnovistas haviam sido capturados em Kharkov (alguns dos integrantes desse grupo seriam executados em 1921). Na noite entre 25 e 26 de novembro cerca de 350 anarquistas também foram presos, incluindo Volin, Mrachnyi, e anarquistas instigadores de greves em Kharkov. Unidades da 42ª divisão e duas brigadas atacaram Gulyai-Pole por três lados.

Uma brigada de cavalaria atacou os Makhnovistas pela retaguarda. Após trocar tiros com as unidades do Exército Vermelho ao sul, os Makhnovistas deixaram Gulyai-Pole e foram para leste. Um brigada de cavalaria internacional Bolchevique entrou na cidade ao norte. As unidades que pressionavam pelo sul, sem suspeitar de nada atacaram a cavalaria que havia ocupado Gulyai-Pole. A intensa batalha iniciada entre os dois grupos de Vermelhos possibilitou a fuga dos Makhnovistas.

Em 7 de dezembro, Makhno se juntou ao destacamento de cavalaria de Machenko, que havia escapado para a Criméia. Mas a essa altura, Frunze enviava unidades de três exércitos (inclusive duas unidades de cavalaria) contra Makhno. Praticamente toda a força Vermelha do front sul partiu para cima dos anarquistas insurgentes, destruindo grupos menores no caminho que conseguiram reagrupar com Makhno. Um pequeno destacamento massacrado no caminho por unidades partisans que sobreviveram ao primeiro golpe.

Os Makhnovistas contavam ainda, em suas fileiras, com soldados de unidades do Exército Vermelho derrotadas por eles. Após inúmeras tentativas mal sucedidas de cercar os insurgentes, um grande número de tropas do Exército Vermelho os empurrou de volta ao distrito de Andreevka, na costa de Azov. Em 15 de dezembro o comando do Exército Vermelho reportou ao gabinete soviético (sovnarkom): “continuando nossa ofensiva pelo sul, oeste e norte em Andreevka, após a batalha nossas unidades dominaram os distritos periféricos da região; os Makhnovistas estão pressionados por todos os lados, reuniram-se no centro do povoado e continuam obstinadamente a manter a linha” [100].

Parecia que a epopeia Makhnovista havia chegado ao seu desfecho. No entanto, Frunze não contava com a característica única do Exército Makhnovista. Tendo explicado a missão, Makhno dispersou seu exército nas quatro direções, confiando plenamente que todos chegariam ao ponto de encontro na retaguarda do inimigo e lançariam o ataque. Antes de tudo, o Exército Makhnovista era altamente dinâmico: poderia mover-se quase que inteiramente a cavalo e com metralhadoras sobre carroças, alcançando uma velocidade de mais de 85 quilômetros por dia [101].

Invenção militar de Nestor Makhno: carroça tachanka. Imagem de: link.

Tudo isso ajudou os Makhnovistas escapar da armadilha preparada por Frunze em 16 de dezembro. “Àquela altura da batalha, pequenos grupos de Makhnovistas enganaram nossas unidades e surgiram a nordeste… os Makhnovistas se aproximaram da vila e abriram fogo erraticamente no escuro, porém conseguindo causar pânico entre as unidades do Exército Vermelho e forçando-os a dispersar” [102], relembra um oficial do Exército Vermelho. Agachados e suas carroças com metralhadoras, os Makhnovista apareceram em um ponto estratégico para atacar as unidades do Exército Vermelho que aparecessem, que nunca imaginaram que o inimigo entraria em seu perímetro. A inabilidade Bolchevique de derrotar militarmente os Makhnovistas os levou a intensificar o terror Vermelho. Em 5 de dezembro, as tropas do front sul deram a ordem de realizar amplas buscas, atirar em qualquer camponês que não entregasse suas armas e impor contribuições a vilarejos que ficassem nos arredores de lugares onde o Exército Vermelho foi atacado. Esta punição ao movimento Makhnovista afetou inclusive aqueles que subsequentemente entraram para o Partido Comunista. Foi assim que todo o comitê revolucionário local (revkom) em Pologi foi preso e muitos de seus membros executados sob a acusação de terem atuado com Makhno em 1918 (isto é, no período da guerra contra os alemães).

Para não colocar o povo de seu território em um perigo desnecessário, Makhno cruzou o Dnepr em dezembro e adentrou o interior de Pravoberezhna. Esse movimento enfraqueceu seriamente os Makhnovistas: eles não eram conhecidos nessa região, a área não era conhecida por eles e os camponeses locais simpatizavam com os homens de Petliura, com quem os Makhnovistas tinham boas relações [sic]. Ao mesmo tempo, unidades de três divisões de cavalaria do Exército Vermelho avançavam contra os Makhnovistas. Batalhas sangrentas ocorreram nos arredores do rio Gornyi Tikich.

Os Makhnovistas se moviam tão rapidamente que foram capazes de pegar o comandante de uma das divisões desprevenido; ele foi morto no local. Mas os Makhnovistas não conseguiriam resistir as investidas das força superiores do inimigo em um território estranho. Após passar por várias baixas no Gronyi Tikich, os Makhnovistas recuaram para o norte e atravessaram o Dnepr até Kanev. Posteriormente realizaram um ataque pelos distritos de Poltava e Chernigov, e avançaram para Belovodsk. Em meados de fevereiro de 1921, Makhno retornou a seu distrito natal. Ele estava obcecado com uma nova ideia: espalhar amplamente seu movimento, atraindo gradativamente mais e mais territórios e criando bases sólidas em toda parte.

Somente assim seria possível romper o cerco das forças do Exército Vermelho que cercavam seu exército móvel. Mas isso levou a dispersão das forças de Makhno. Em abril, Makhno contava com 13.000 soldados sob seu comando geral, mas em Maio só poderia contar com cerca de 2.000 homens, sob o comando de Kozhin e Kurilenko para realizar um ataque decisivo na região de Poltava. No final de junho e início de julho, a linha de frente das tropas Makhnovistas sofreram um duro ataque de Frunze em Sula. Nessa ocasião, cerca de 3.000 Makhnovistas se renderam voluntariamente ao Exército Vermelho.

O movimento estava se desfazendo diante dos olhos de Makhno. Após ser decretada a Nova Política Econômica (NEP), que retirava as ultrajantes imposições do Comunismo de Guerra, muitos camponeses não queriam mais lutar. Mas Makhno não tinha intenção de ser capturado. Com um pequeno destacamento de uma dezena de homens decidiu atravessar toda a Ucrânia e chegar a fronteira da Romênia. Diversas divisões de cavalaria tentaram rastrear esse destacamento, mas em 28 de agosto de 1921 eles alcançaram o objetivo atravessando o Dnestr para Bessarábia. Uma vez na Romênia, os Makhnovistas foram rendidos pelas autoridades. Nestor e sua esposa Galina Kuzmenko se estabeleceram em Budapeste.

Os Bolcheviques ordenaram que eles fossem entregues e, em abril de 1922, Makhno decidiu se mudar para a Polônia. Aqui, diplomatas soviéticos também tentaram extraditá-lo como um criminoso. Enquanto isso, Makhno não escondia suas posições, continuando a defender o poder dos sovietes livres e por questão de segurança, o governo polonês enviou esse grupo de anarquistas russos a um campo de refugiados. Os poloneses desconfiavam que Makhno estava tentando fomentar uma rebelião na Galícia Oriental em favor da Ucrânia Soviética.

O promotor do Tribunal de Varsóvia, evidentemente, não estava interessado em investigar em detalhes os desacordos entre revolucionários, e teve uma interpretação particular dos posicionamentos de Makhno em favor dos sovietes, da revolução, do comunismo e da livre autodeterminação dos ucranianos na Galícia Oriental. Em 23 de maio de 1922 acusações criminais foram apresentadas contra Makhno.

Em 25 de setembro de 1922, Makhno, sua esposa e dois dos seus camaradas, Ivan Khmara e Ya. Dorozenko, foram presos e mandados para a prisão em Varsóvia. Em 27 de Novembro, Makhno se submeteu a uma corte pela segunda vez em sua vida. Ele foi acusado de manter contato com a missão soviética em Varsóvia e de planejar um levante. Quando a absurdidade desta acusação se tornou óbvia, o promotor passou a argumentar que Makhno não era um refugiado político, mas um bandido. O risco da Polônia se utilizar dos prisioneiros para pequenas mudanças no jogo diplomático entregando-os aos Bolcheviques era constante.

As acusações criminais não foram comprovadas e em 30 de novembro Makhno foi absolvido. Ele se estabeleceu em Toruni, onde começou a publicar suas memórias e se preparar para novas batalhas. Ao mesmo tempo, Arshinov publicou a primeira História do Movimento Makhnovista em Berlim [103]. Com Makhno declarando publicamente sua intenção de travar confronto armado contra os Bolcheviques, o governo polonês o expulsou do país em 1924. A essa altura estava claro que qualquer tentativa, em um futuro próximo, de fomentar revoltas no território soviético estava fadada ao fracasso. Makhno atravessou a Alemanha até Paris, onde viveu o resto de seus dias.

Conclusões


Os anos finais de Makhno não foram tão intempestivos quanto seus anos iniciais, mas não teve nada da quieta saída de cena que marca a vida de muitos emigrados. Em Paris, Makhno se viu no centro das discussões políticas, e uma vez mais “montou em seu cavalo”. A anarquista francesa Ida Mett lembra que Makhno:

[…] era um grande artista, irreconhecivelmente transformado pela presença de um público. Em uma reunião pequena tinha dificuldades de se expressar, uma vez que sua tendência a discursar em voz alta parecia cômica e inapropriada em espaços de dimensões reduzidas. Mas assim que se encontrava em um grande auditório, surgia um brilhante, eloquente e confiante orador. Uma vez, eu estava em um debate público em Paris onde a questão do antissemitismo e do movimento Makhnovista estavam em pauta. Eu estava profundamente impressionada, naquela ocasião, com o poder transformador desses camponeses ucranianos [104].

Makhno se tornou, junto de Arshinov e outros, um dos autores da Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas [105]: que defendia que a luta anarquista deveria se fundamentar na firmeza da unidade teórica e organizativa e provocou debates acalorados nos círculos anarquistas internacionais em 1926-1931 [106]. Makhno gastou seu último ano no quarto de um apartamento no subúrbio parisiense de Vincennes. Ele estava acometido por uma forte tuberculose e estava muito debilitado por conta do ferimento em sua perna. Trabalhou como carpinteiro, contrarregra e operário e sua esposa ajudava trabalhando como lavadeira em uma pensão.

As vezes Makhno vagava pelas ruas. Organizações de esquerda realizavam encontros antifascistas que por vezes terminavam em confrontos. Dada a personalidade de Makhno, é bem provável que tenha tomado parte de alguns deles. Para um gravemente ferido portador de tuberculose, isso era mortalmente perigoso. Sua saúde se deteriorou até sua morte em 6 de julho de 1934. Galina e sua filha, Helena, foram, posteriormente, deportadas para Alemanha para cumprir trabalhos forçados, e Galina recebeu uma sentença ainda mais dura de trabalhos pesados a partir da ocupação soviética na Alemanha.

Makhno permaneceu na história como um rebelde e a personificação da natureza distinta da revolução e da guerra civil na Ucrânia. Ao mesmo tempo ele era um internacionalista e um espelho da revolução em toda a Rússia – não somente no cenário da Ucrânia – com o trágico confronto entre a agenda comunista e o espírito primordial do povo. Um homem que buscou sintetizar as lutas contra todo autoritarismo e dominação com uma revolução social classista por meio do projeto anarquista.

Notas:


[1] – Este artigo, preparado para este volume, foi traduzido do russo por Sally Laird, com o apoio do Instituto Internacional de História Social e da Unviversidade de Witwatersrand. Foi elaborado primariamente de fontes no idioma russo. O leitor buscando por literatura secundária em inglês e em alemão pode consultar: ADAMS, A.E. Bolsheviks in the Ukraine: the Second Campaign, 1918–1919. New Haven and London: Yale University Press, 1963; AVRICH, P. The Russian Anarchists. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1967; DAHLMANN, D. Land und Freiheit: Machnovščina und Zapatismo als Beispiele agrarrevolutionärer Bewegungen, Wiesbaden: Franz Steiner Verlag, 1986; MALET, M. Nestor Makhno in the Russian Civil War. London: Macmillan, 1982; PALIJ, M. The Anarchism of Nestor Makhno, 1918–1921: an aspect of the Ukrainian Revolution, Seattle: University of Washington Press, 1976; PETERS, V. Nestor Makhno: the life of an anarchist. Winnipeg: Echo Books, 1970; e SKIRDA, A. Nestor Makhno: anarchy’s Cossack: the struggle for free soviets in the Ukraine 1917–1921. Edinburgh, San Francisco: AK Press, [1982] 2003. Também pode interessar: HIMKA, J. “Young Radicals and Independent Statehood: the idea of a Ukrainian nation-state, 1890–1895”, Slavic Review, 4: 2, 1982, 219–235.

[2] – Livoberezhna (Left-Bank em inglês) é o nome de uma antiga região administrativa a leste do Rio Dnepr, na região norte da Ucrânia. Posteriormente, no século XVIII, em 1795, a região identificada como Pravoberezhna (Right-Bank em inglês), localizada a oeste do Rio Dnepr, foi incorporada ao território ucraniano, conferindo maior importância ao rio. Como a lógica de designação do nome da região na língua inglesa e a localização geográfica pode induzir a leitora ou o leitor a erro optamos por manter o original ucraniano para designar as regiões citadas no texto como Left-Bank e Right-Bank (N.T.).

[3] – Região histórica no centro da Ucrânia, que funcionou como uma semi-república cossaca relativamente independente entre os séculos XVI e XVIII. Corresponde atualmente as regiões administrativas de Dnipropetrovesk, a maior parte de Zaporizhia e Kirovohrad, e a partes das regiões de Kherson e Donetsk (N.T.).

[4] – KONDUFOR, I. (ed.) Istoriya Ukrainskoi SSR. Vol. 6, Kiev, Nauk: Dumka, 1983, p. 16.

[5] – Ou 10 dessiatinas segundo as medidas imperiais de antes de 1924. Cf. KUBANIN, M. Makhnovshchina. Leningrad: n.p., 1927, p. 19.

[6] – STRIZHAKOV, Y. Prodotryady v gody grazhdanskoi voiny i inostrannoi interventsii 1917–1921. Moscow: 1973, p. 225.

[7] – Cf. Kobytov, S. Kozlov, V.A. e Litvak, B.G. Russkoe krest’yanstvo. Etapy dukhovnogo osvobozhdeniya. Moscow: 1988, p. 74.

[8] – DARCH, C. M. The Makhnovischna, 1917–1921: ideology, nationalism, and peasant insurgency in early twentieth century Ukraine. Ph.D. diss. University of Bradford, 1994, p. 136, 138–139.

[9] – 109.806 pudi segundo as medidas imperiais de antes de 1924.

[10] – 52.757 pudi: Vsya Ekaterinoslavskaya guberniya. Ekaterinoslav: n.p., 1913, p. 3.

[11] – KUBANIN, M. Ukaz. soch. (“Selected Works”), p. 18–19.

[12] – Vsya…, p. 9–10.

[13] – KUBANIN, M. Ukaz. soch., p. 11.

[14] – Vsya…, p. 42.

[15] – Todas as datas até 14 de fevereiro de 1918 são apontadas de acordo com o calendário Juliano utilizado nessa época na Rússia.

[16] – MAKHNO, N. I. Vospominanija. Moscow: n.p., 1991, p. 132–133.

[17] – Ibidem, p. 134.

[18] – Apud, V.N. Volkovinskii, Makhno i ego krakh. Moscow: Vsesoiuznyi zaochnyi politekhnicheskii institut Moskva, 1991, p. 24.

[19] – MAKHNO, N.I. Krest’yanskoe dvizhenie na Ukraine (1918–1921). In: DANILOV, V.; SHANIN, T. (eds.). Dokumenty i materialy. Moscow: ROSSPEN, 2006, p. 38–39.

[20] – MAKHNO, N. I. Rossiiskaya revolyutsiya na Ukraine. Paris: n.p., 1929, 12–57.

[21] – DANILOV; SHANIN, 2006, p. 38.

[22] – MAKHNO, 2006, p. 37.

[23] – Ibidem, p. 77.

[24] – Ibidem, p. 77.

[25] – Narodne zhittya, 17 de setembro de 1917.

[26] – SAVCHENKO, V. Avantyuristy grazhdanskoi voiny. Kharkov/Moscow: Izd-vo Folio/ AST, 2000, p. 71.

[27] – BELASH, V. Makhnovschina. In: Letopis’ revolyutsii. No.3, 1928, 194–195

[28] – MAKHNO, N.I. Ukaz. soch. (“Selected Works”), p. 77.

[29] – A Rada lançou quatro edições do Universal entre 1917 e 1918, considerados os documentos fundantes da nacionalista República Popular Ucraniana.

[30] – VOLKOVINSKII, V.N. Ukaz. Soch. (“Selected Works”), p. 34.

[31] – MAKHNO, N.I. Op. cit., p. 110.

[32] – Ibidem, p. 155.

[33] – TEPER, I. Makhno: ot “edinogo anarkhizma” k stopam rumynskogo korolya, Khar’kov, 1924, p. 26.

[34] – MAKHNO. Op. cit., p. 182-191.

[35] – Ibidem, p. 148-149.

[36] – GONCHAROK, M. Vek voli. Russkii anarkhizm i evrei XIX–XX vv., Jerusalem: Mishmeret Shalom, 1996, p. 36.

[37] – MAKHNO. Op. cit., p. 206.

[38] – Ibidem, p. 149.

[39] – MAKHNO, N.I. Pod udarami kontrrevolyutsii. Paris: n.p., 1936, p. 11.

[40] – MAKHNO, 1991, p. 47.

[41] – MAKHNO, N.I. Ukrainskaya revolyutsiya. Paris, 1937, p. 112.

[42] – Ibidem, p. 112; Central State Archive of the Civil Organisations of Ukraine, D.153, L.27. Esse arquivo será citado a partir daqui como TsDAGOU.

[43] – MAKHNO, Ukaz. Soch., p. 74.

[44] – Ibidem, p. 106.

[45] – TsDAGOU, F. 5, O 1, D. 274, L. 12.

[46] – SHUBIN, A. Makhno i Makhnovskoe dvizhenie. Moscow: Izd-vo “MIK”, 1998, p.53–55.

[47] – Protokoly II s’ezda frontovnikov, povstancheskikh, rabochikh i krest’yanskhikh Sovetov, otdelov ipodotdelov, Gulyai-pole, 1919, 25.

[48] – TsDAGOU, F.5, О1., D.153, L.137–138.

[49] – TsDAGOU, F.5, О1., D.351, L.2.

[50] – “Ekspeditsiya L. V. Kameneva v 1919 g.: poezdka na Ukrainu”, Proletarskaya revolyutsiya, 1925, No. 6, p. 139.

[51] – TEPER, I. Ukaz. soch. (“Selected Works”), p. 32.

[52] – MAKHNO, 1936, p. 130.

[53] – Anarkhicheskii vestnik, Berlin, 1923, No.1, p. 28.

[54] – TsDAGOU, F.5, О1., D.153, L.29.

[55] – TsDAGOU, L. 115.

[56] – apud ARSHINOV, P. History of the Makhnovist Movement, 1918–1921. London: Freedom Press, [1923] 1987, p. 210.

[57] – VERSTYUNK, V. Kombrig Nestor Makhno: Iz istorii pervogo soiuza makhnovttssev s Sovetskoĭ vlastiu, Khark’kov: Nabat, 1990, p. 6.

[58] – Ou 90.000 pudi.

[59] – Antonov Ovseenko, V.A. Zapiski o Grazhdanskoi voine, Moscow-Leningrad, 1932, vol. 3, p. 191.

[60] – Idem, vol. 4, p. 268.

[61] – 59 Oktyabr’skaya revolyutsiya, 1–2 pyatiletie, Khar’kov, 1922, 520–521.

[62] – Cf. GONCHAROK, M. Ukaz. soch. (“Selected Works”), p. 53–54.

[63] – TsDAGOU, F.5, О1., D. 274, L.36.

[64] – V. Sul’gin, Dni. 1920 g., Moscow: Moskva Sovremennik, 1990, p. 291-298.

[65] – TsDAGOU, F.5, О1., D. 351, L.36.

[66] – TsDAGOU, D.274, L.12, 25–26.

[67] – MAKHNO, 1936, p. 87.

[68] – Grigorev foi, oficial russo, apoiador da Rada Central, do Hetmanate e do Diretório, além de aliado do Exército Vermelho em fevereiro de 1919.

[69] – VOLKOVINSKII. Ukaz. soch., p. 89–90.

[70] – SAVCHENKO, V. Ukaz. soch. (“Selected Works”), p. 113.

[71] – SAVCHENKO, Ukaz. soch. p. 119.

[72] – Arshinov, P. Ukaz. soch. (“Selected Works”), p. 107.

[73] – Ibidem, p. 109.

[74] – TsDAGOU, F.5, О1., D.274, L.21.

[75] – TsDAGOU D.351, L.31.

[76] – ARSHINOV. Op. cit., p. 113.

[77] – Ibidem, p. 114.

[78] – Nabat, No. 16, 26 de Maio 1919.

[79] – TsDAGOU, F.5, О1., D.153, L.116–117.

[80] – ANTONOV-OVSEENKO, op. cit., p. 331.

[81] – Cf. SHUBIN, A. Anarkhiya—mat’ poryadka. Nestor Makhno kak zerkalo Rossiiskoi revolyutsii. Moscow: Eksmo, 2005, p. 202–212.

[82] – TsDAGOU, F.5, О1., D. 351, L.77.

[83] – TsDAGOU, L.81.

[84] – TsDAGOU, D.330, L.14.

[85] – TsDAGOU, D.274, L.40.

[86] – TsDAGOU, L.41–42.

[87] – TsDAGOU, L.42–43.

[88] – TsDAGOU, L.46–47.

[89] – KUBANIN, Ukaz. soch., p. 83.

[90] – Apud GONCHAROK, Ukaz. soch., p. 59.

[91] – MAKHNO, 1991, p. 154-155.

[92] – Ibidem, p. 72-76.

[93] – Apud VOLKOVINSKII, Ukaz. soch., p. 133.

[94] – Pyataya godovshchina Oktyabr’skoi revolyutsii, Ekaterinoslav, 1933, p. 227.

[95] – KUBANIN, Ukaz. soch., p. 162.

[96] – Ibidem, p. 186.

[97] – TsDAGOU, F.5, О1, D.330, L.116.

[98] – MAKHNO, N.I. Makhnovshchina i ee byvshie soyuzniki bol’sheviki. Paris: n.p., 1929, p. 44–45.

[99] – MAKHNO, 1991, p. 99.

[100] – Russian State Archive of Social-Political History (RGASPI), F.5, О1, D.2475, L.10.

[101] – Ou 80 versts.

[102] – Sbornik trudov voenno-nauchnogo obshchestva pri Voennoi akademii. Moscow 1921, 219.

[103] – ARSHINOV, 1987.

[104] – MAKHNO, 1991, p. 129.

[105] – Uma nova edição deste documento, com nova tradução para o português acaba de ser publicada. Cf. DIELO TROUDA. Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas. 2017. Disponível em: link (N.T.).

[106] – Cf. SHUBIN, A. Anarkhistskii sotsial’nyi eksperiment. Ukraina i Ispaniya. 1917–1939, Moscow: Institut vseobshchei istorii RAN, 1998, p. 106–133.


Referências:


ARSHINOV, Piotr. History of the Makhnovist Movement, 1918–1921. London: Freedom Press, [1923], 1987.

DARCH, Colin M. The Makhnovischna, 1917–1921: ideology, nationalism, and peasant insurgency in early twentieth century Ukraine. Ph.D. diss., University of Bradford, 1994.

GONCHAROK, M. Vek voli. Russkii anarkhizm i evrei XIX–XX vv.. Ierusalim, Mishmeret Shalom, 1996.

KOBYTOV, P.S.; KOZLOV, V.A. and LITVAK, B.G. Russkoe krest’yanstvo. Etapy dukhovnogo osvobozhdeniya. Moscow: n.p., 1988.

KONDUFOR, Iu. Iu., (ed.). Istoriya Ukrainskoi SSR. Kiev, Nauk: Dumka, volume 6, 1983. 

MAKHNO, Nestor Ivanovich. Vospominanija. Moscow, 1991.

______. Krest’yanskoe dvizhenie na Ukraine (1918–1921). In: DANILOV, V.; SHANIN, T. (eds.). Dokumenty i materialy. Moscow: ROSSPEN, 2006.

SAVCHENKO V. Avantyuristy grazhdanskoi voiny. Kharkov: Izd-vo Folio, Moscow: AST, 2000.

SHUBIN, Aleksandr. Makhno i Makhnovskoe dvizhenie. Moscow, Izd-vo “MIK”, 1998.

______. Anarkhistskii sotsial’nyi eksperiment. Ukraina i Ispaniya. 1917–1939. Moscow: Institut vseobshchei istorii RAN, 1998.

______. Anarkhiya—mat’ poryadka. Nestor Makhno kak zerkalo Rossiiskoi revolyutsii. Moscow, Eksmo, 2005.

STRIZHAKOV, Yu. K. Prodotryady v gody grazhdanskoi voiny i inostrannoi interventsii 1917–1921 gg.. Moscow, 1973.

SUL’GIN, V. Dni. 1920 g.. Moscow: Moskva Sovremennik, 1990.

VERSTYUK, V. Kombrig Nestor Makhno: Iz istorii pervogo soiuza makhnovtt ssev s Sovetskoĭ vlastiu. Khark’kov: Nabat, 1990.

VOLKOVINSKII, V.N. Makhno i ego krakh. Moscow: Vsesoiuznyi zaochnyi politekhnicheskii institut Moskva, 1991.

Outras obras importantes:


ADAMS, A.E. Bolsheviks in the Ukraine: the Second Campaign, 1918–1919. New Haven and London: Yale University Press, 1963.

DAHLMANN, Dittmar. Land und Freiheit: Machnovščina und Zapatismo als Beispiele agrarrevolutionärer Bewegungen. Wiesbaden: Franz Steiner Verlag, 1986.

HIMKA, J.P. Young Radicals and Independent Statehood: the idea of a Ukrainian nation-state, 1890– 1895. Slavic Review, 41: 2, 1982, 219–235.

MALET, Michael. Nestor Makhno in the Russian Civil War. London: Macmillan, 1982.

PALIJ, Michael. The Anarchism of Nestor Makhno, 1918–1921: an aspect of the Ukrainian Revolution. Seattle: University of Washington Press, 1976.

PETERS, Victor. Nestor Makhno: the life of an anarchist. Winnipeg: Echo Books, 1970.

SKIRDA, Alexandre. Nestor Makhno: anarchy’s Cossack: the struggle for free soviets in the Ukraine 1917–1921. Edinburgh, San Francisco: AK Press, [1982] 2003.