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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Introdução à terceira edição espanhola do livro “Apoio Mútuo” de Piotr Kropotkin (1989) – Angel J. Cappelletti

Kropotkin e Cappelletti.

Resumo: publicaremos aqui a tradução de Railton Sousa Guedes (publicada originalmente pelo Projeto Periferia) de uma introdução de Cappelletti à obra mais famosa de Piotr Kropotkin. Revisamos a tradução e ajustamos a ortografia do texto. A versão original da introdução pode ser encontrada nesse link.

***


Apoio Mútuo é a obra mais representativa da personalidade intelectual de Kropotkin. Nela se encontram expressos igualmente o homem de ciência e o pensador anarquista; o biólogo e o filósofo social; o historiador e o ideólogo. Trata-se de um ensaio enciclopédico, de um gênero cujos últimos cultores foram os positivistas e os evolucionistas. Abarca quase todos os ramos do saber humano, desde a zoologia à história social, desde a geografia à sociologia da arte, postas ao serviço de uma tese filosófica-científica que constitui, por sua vez, uma interpretação particular do evolucionismo darwiniano.

Pode-se dizer que a dita tese chega a ser o fundamento de toda sua filosofia social e política e de todas suas doutrinas e interpretações da realidade contemporânea. Como articulação entre esse fundamento e essas doutrinas está uma Ética de expansão vital.

Para compreender o sentido da tese básica de Apoio Mútuo é necessário partir do evolucionismo darwiniano ao qual adere Kropotkin, considerando-o a última palavra da ciência moderna.

Até o século XIX os naturalistas tinham quase por axioma a ideia da fixidez e imobilidade das espécies biológicas: Tot sunt species quot a principio creavit infinitum ens. Ainda no século XIX, o mais célebre dos cultores da história natural, o huguenote Cuvier, seguia imperturbável em seu fixismo. Mas já em 1809, Lamarck, em sua Filosofia Zoológica, defendia para grande escândalo da Igreja e da Academia, a tese de que as espécies zoológicas se transformam, em resposta a uma tendência imanente de sua natureza e adaptando-se ao meio circundante. Há em cada animal um impulso intrínseco (ou “esforço”) que o leva a novas adaptações e o provê de novos órgãos, que se agregam a seu fundo genético e se transmitem por herança. À ideia do impulso intrínseco e da formação de novos órgãos exigidos pelo meio ambiente se agrega a da transmissão hereditária. Tais ideias, às quais Cuvier se oporia três anos mais tarde em seu Discurso Sobre as Revoluções do Globo, da Teoria das Catástrofes Geológicas e das Sucessivas Criações [1], encontrou apoio indireto nos trabalhos do geólogo inglês, Lyell, que, em seu Princípios de Geologia demostrou a falsidade do catastrofismo de Cuvier, provando que as causas da alteração da superfície do planeta hoje não diferem das eras passadas [2].

Lamarck descende filosoficamente da filosofia da Ilustração, mas não descartou totalmente a teleologia. Para ele há na natureza dos seres vivos uma tendência continua a produzir organismos cada vez mais complexos [3]. Tal tendência atua em resposta às exigências do meio e não apenas cria novos caracteres somáticos como também os transmite por herança. Uma vontade inconsciente e genérica impulsiona, pois, a mudança segundo uma lei geral que determina a transição do simples para o complexo. Esta lei servirá de base à filosofia sintética de Spencer. Pese a importância da teoria de Lamarck na história da ciência e também da filosofia, ela estava limitada por inegáveis deficiências. Lamarck não aportou muitas provas a suas hipóteses; partiu de uma química pré-científica; não considerou a evolução senão enquanto processo linear. Darwin, por sua vez, se preocupou em acumular, sobretudo através de suas viagens ao redor do mundo, uma grande quantidade de observações zoológicas e botânicas; colocou-se em dia com a química iniciada por Lavoisier (embora tenha ignorado a genética fundada por Mendel) e teve da evolução um conceito mais amplo e complexo. Descartou toda classe de teleologismo e se baseou em supostos estritamente mecanicistas. Suas notas revelam que tinha consciência das aplicações materialistas de suas teorias biológicas. De fato, não apenas recebeu a influência de seu avô Erasmus Darwin e do geólogo Lyell, como também do economista Adam Smith, do demógrafo Malthus e do filósofo Comte [4]. Em 1859 publicou sua Origem das Espécies que lhe valeu prontamente o título de celebridade universal; doze anos mais tarde trouxe à luz Descendência do Homem [5]. Darwin aceita de Lamarck a ideia da adaptação ao meio, mas nega admitir a da força imanente que impulsiona a evolução. Rechaça, em consequência, toda possibilidade de mudanças repentinas e admite apenas uma série de câmbios graduais e acidentais. Formula, em substituição do princípio lamarckiano do impulso imanente, a lei da seleção natural [6]. Partindo de Malthus, observa que há uma reprodução excessiva dos viventes, que levaria por si mesma a que cada espécie encheria toda a terra. Se isso não sucede é porque uma grande parte dos indivíduos perecem. Dessa forma, a desaparição dos mesmos obedece a um processo de seleção. Dentro de cada espécie surgem inúmeras diferenças; só sobrevivem aqueles indivíduos cujos caracteres diferenciais os tornam mais aptos para adaptar-se ao meio. De tal maneira, a evolução aparece como um processo mecânico, que torna supérflua toda teleologia e toda ideia de uma direção e de uma meta. Esta lei básica da seleção natural e da sobrevivência do mais apto (que alguns filósofos contemporâneos, como Popper, consideram mera tautologia) partilha da ideia da luta pela vida (Struggle for Life) [7]. Esta se manifesta principalmente entre os indivíduos de uma mesma espécie, onde cada um luta pelo predomínio e pelo acesso à reprodução (seleção sexual).

Herbert Spencer, que antes de Darwin já havia esboçado o plano de um vasto sistema de filosofia sintética, estendeu a ideia da evolução, por um lado, à matéria inorgânica (Primeiros Princípios, 1862, II Parte,) e, por outro lado, à sociedade e à cultura (Princípios de Sociologia, 1876-1896). Para ele, a luta pela vida e sobrevivência do mais apto (expressão que usava desde 1852), representa não somente, o mecanismo pelo qual a vida se transforma e evolui mas também a única via de todo progresso humano [8]. Assenta assim as bases do que se chamará de darwinismo social, cujos dois filhos, o feroz capitalismo manchesteriano e o ignominioso racismo, foram talvez mais longe do que aquele pacífico burguês podia imaginar. Huxley, discípulo fiel de Darwin, publica, em fevereiro de 1888 na revista Nineteenth Century, um artigo que, como seu próprio título indica, é em sua totalidade um manifesto do darwinismo social: The Struggle for Life. A Programme [9]. Kropotkin fica comovido por este trabalho onde vê expostas ideias sociais, contra as quais sempre lutara, fundadas em teorias científicas tidas como a culminação do pensamento biológico contemporâneo. Reage contra ele e, a partir de 1890, se propõe refutá-lo em uma série de artigos que vão aparecendo também em The Nineteenth Century e que mais tarde amplia e complementa ao reuni-los em um único volume titulado: Apoio Mútuo, Fator da Evolução.

Um caminho para refutar Huxley e o darwinismo social seria seguir os passos de Russell Wallace, que põe o cérebro do homem à margem da evolução. Há que se levar em conta que este ilustre sábio, que formulou sua teoria da evolução das espécies quase ao mesmo tempo que Darwin, ao reservar um lugar à parte para a vida moral e intelectual do ser humano, sustentava que desde o momento em que este descobriu o fogo entrou no campo da cultura e deixou de ser afetado pela seleção natural [10]. Deste modo Wallace se desvencilhou, muito mais que Darwin ou Spencer, do prejuízo racial [11]. Mas Kropotkin, firme em seu materialismo, não podia seguir a Wallace, que não duvidava em postular a intervenção de Deus para explicar as características do cérebro e a superioridade moral e intelectual do homem.

Por outro lado, como socialista e anarquista, não podia de modo algum concordar com as conclusões de Huxley, nas quais via sem dúvida um cômodo fundamento para a economia do irrestrito “laissez faire” capitalista, para as teorias racistas de Gobineau (cujo Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas publicara já em 1855), para o malthusianismo, e para as elucubrações falsamente individualistas de Stirner e de Nietzsche.

Considera, pois, o manifesto huxleyano como uma interpretação unilateral e, portanto, falsa da teoria darwinista da “struggle for life” e se propõe demostrar que junto ao princípio da luta (de cuja vigência não duvida) deve-se levar em conta outro ainda mais importante para explicar a evolução dos animais e o progresso do homem. Este princípio é o da ajuda mútua entre os indivíduos de uma mesma espécie (e, às vezes, também entre os de espécies diferentes). O mesmo Darwin admitira este princípio. No prólogo à edição de 1920 do Apoio Mútuo, escrito poucos meses antes de sua morte, Kropotkin manifesta sua alegria pelo fato de que o próprio Spencer reconhecera a importância da “ajuda mútua e seu significado na luta pela existência”. Nem Darwin nem Spencer outorgaram nunca, sem embargo, a categoria que lhe dá Kropotkin ao pô-la ao mesmo nível (quando não acima) da luta pela vida como fator de evolução.

Traz um exame bastante minucioso da conduta de diferentes espécies animais, desde os escaravelhos coveiros, os caranguejos das Molucas, até os insetos sociais (formigas, abelhas, etc.), para o qual aproveita as investigações de Lubbock e Fabre; desde o falcão crespo do Brasil até o frailecico e o aguzanieves. Desde caninos, roedores, angulados e ruminantes até elefantes, javalis, morsas e cetáceos; depois de haver descrito particularmente os hábitos dos macacos que são, entre todos os animais “os mais próximos ao homem por sua constituição e por sua inteligência”, conclui que em todos os níveis da escala zoológica existe vida social e que, a medida que se ascende na dita escala, as colônias ou sociedades animais tornam-se cada vez mais conscientes, deixam de ter um mero alcance fisiológico e de fundamentar-se no instinto, para chegar a ser, ao cabo, racionais. Em vez de sustentar, como Huxley, que a sociedade humana nasceu de um pacto de não agressão, Kropotkin considera que ela existiu desde sempre e não foi criada por nenhum contrato, mas que foi anterior inclusive à existência dos indivíduos. O homem, para ele, não é o que é senão por sua sociabilidade, ou seja, pela forte tendência ao apoio mútuo e à convivência permanente. Se opõe assim ao contratualismo, tanto na versão pessimista de Hobbes (honro homini lupus), que fundamenta o absolutismo monárquico, como na versão otimista de Rousseau, sobre a qual se considera baseada a democracia liberal.

Para Kropotkin, como para Aristóteles, a sociedade é tão natural ao homem como a linguagem. Nada como o homem merece o apelido de “animal social” (zóon koinonikón).

Mas Aristóteles se opõe e não admite a equivalência que aquele estabelece entre “animal social” e “animal político” (zóon politikón). Segundo Kropotkin, a existência do homem depende sempre de uma coexistência. O homem existe para a sociedade tanto como a sociedade para o homem. É claro, por isso sua simpatia por Nietzsche não podia ser profunda.

Considera o nietzscheanismo, tão em moda em sua época como na nossa, “um dos individualismos espúrios”. Identifica-o em definitivo com o individualismo burguês, “que só pode existir sob a condição de oprimir às massas e do lacaismo, do servilismo e da tradição, da obliteração da individualidade dentro do próprio opressor, como no seio da massa oprimida” [12].

Como Guyau, o Nietzsche francês cuja moral sem obrigação nem sanção encontra-se tão próxima à ética anarquista, ele o censura por não haver compreendido que a expansão vital à qual aspira é antes de tudo uma luta pela justiça e pela liberdade do povo. Com maior força todavia se opõe ao solipsismo moral e ao egotismo transcendental de Stirner, que considera “simplesmente a volta dissimulada à atual educação do monopólio de uns poucos” e o direito ao desenvolvimento “para as minorias privilegiadas”.

Sem deixar de reconhecer, pois, que a ideia da luta pela vida, tal como proposta por Darwin e Wallace, resulta sumamente fecunda desde que torne possível abarcar uma grande quantidade de fatos sob um enunciado geral, insiste em que muitos darwinistas têm restringido aquela ideia a limites excessivamente estreitos e tendem a interpretar o mundo dos animais como um sangrento cenário de lutas ininterruptas entre seres sempre famintos e ávidos de sangue. Graças a eles a literatura moderna se empanturra com o grito “vae victis” (ai dos vencidos!), grito que consideram como a última palavra da ciência biológica. Elevaram a luta sem quartel à condição de princípio e lei da biologia e pretendem que a ela se subordine o ser humano.

Entretanto, Marx considerava que o evolucionismo darwiniano, baseado na luta pela vida, formava parte da revolução social [13] e, ao mesmo tempo, os economistas manchesterianos o tinham como excelente suporte científico para sua teoria da livre competição, na qual a luta de todos contra todos (a lei da selva) representa o único caminho para a prosperidade. Kropotkin coincide com Marx e Engels em que o darwinismo deu um golpe de misericórdia à teleologia. Quanto ao intento de aproveitar para os fins da revolução social a ideia darwinista da vida (interpretada como luta de classes) ele consigna relativa importância. Por outro lado, como Marx, ataca Malthus, cujo primeiro adversário de porte havia sido Godwin, o precursor de Proudhon e do anarquismo.

Mas a decidida oposição ao malthusianismo, que propicia a morte massiva dos pobres por sua inadaptação ao meio, e a luta contra Huxley, que não encontra outro fator de evolução fora da perene luta sangrenta, não significam que Kropotkin tenha aderido a uma visão idílica da vida animal e humana, ou se entregue, como muitas vezes se diz, a um otimismo desenfreado e ingênuo. Como naturalista e homem de ciência ele está longe dos róseos quadros galantes e festivos do rococó, e não compartilha simplesmente da ideia do bom selvagem de Rousseau. Pretende situar-se em um ponto intermediário entre este e Huxley. O erro de Rousseau consiste no fato de ter perdido completamente de vista a luta sustentada com unhas e dentes, e Huxley é culpado de um erro de caráter oposto; mas nem o otimismo de Rousseau nem o pessimismo de Huxley podem ser aceitos como uma interpretação desapaixonada e científica da natureza.

O ilustre biólogo Ashley Montagu escreve a este respeito: “É erro generalizado crer que Kropotkin se propôs demostrar que é a ajuda mútua e não a seleção natural ou a competência o principal ou único fator que atua no processo evolutivo”. Em um livro de genética publicado recentemente por uma grande autoridade na matéria, lemos: “Reconhecer a importância que tem a cooperação e a ajuda mútua na adaptação não contradiz de nenhuma maneira a teoria da seleção natural, conforme interpretaram Kropotkin e outros”. Os leitores de Apoio Mútuo prontamente perceberão até que ponto é injusto este comentário. Kropotkin não considera que a ajuda mútua contradiga a teoria da seleção natural. Seguidamente chama a atenção sobre o fato de que existe competição na luta pela vida (expressão que critica acertadamente com razões, sem dúvida, aceitáveis para a maior parte dos darwinistas modernos). Repetidamente destaca a importância da teoria da seleção natural, que destaca como a mais significativa do século XIX. O que aponta como inaceitável e contraditório é o extremismo representado por Huxley em seu ensaio “Struggle for Existence Manifesto”, e assim o demonstra ao qualificá-lo de “atroz” em suas Memorias [14]. Com efeito, em Memorias de um Revolucionário relata: “Quando Huxley, querendo lutar contra o socialismo, publicou em 1888 no Nineteenth Century, seu atroz artigo ‘A luta pela Existência é Apenas um Programa’, decidi apresentar de uma forma compreensível minhas objeções àquele modo de entender a referida luta, de que era a mesma entre os animais e os homens, com os materiais que acumulei durante seis anos” [15]. O propósito não teve uma calorosa acolhida entre os homens de ciência amigos, uma vez que a interpretação da “luta pela vida como sinônimo de ai dos vencidos!”, fora elevada ao nível de um imperativo da natureza, convertendo-se quase em um dogma.

Só duas pessoas apoiaram a rebeldia de Kropotkin contra o dogma e a “atroz” interpretação huxleyana: James Knowles, diretor da revista Nineteenth Century e H.W. Bates, conhecido autor de Um Naturalista no Rio Amazonas. Para os demais, a tese que pretendia defender, contra Huxley, havia sido anteriormente proposta pelo geólogo russo Kessler, se bem que este apenas havia aduzido alguma prova em favor da mesma. Élisée Reclus, com sua autoridade de sábio, dará sua aberta adesão à dita tese e defenderá os mesmos pontos de vista de Kropotkin [16].

A grande massa de dados zoológicos que reuniu, infere, pois, que embora certa a luta entre espécies diferentes e entre grupos de uma mesma espécie, em termos gerais deve-se dizer que a pacífica convivência e o apoio mútuo reinam dentro do grupo e da espécie, e, mais ainda, que aquelas espécies nas quais mais desenvolvida está a solidariedade e a ajuda recíproca entre os indivíduos têm maiores possibilidades de sobrevivência e evolução.

O princípio do apoio mútuo não constitui, portanto, para Kropotkin, um ideal ético nem tampouco uma mera anomalia que rompe as rígidas exigências da luta pela vida, mas um fato cientificamente comprovado como fator da evolução, paralelo e contrário ao outro fator, o famoso “struggle for life”. É claro que o princípio poderia interpretar-se como pura exigência moral do espírito humano, como imperativo categórico, como postulado ou fundamento da sociedade e da cultura. Mas nesse caso haveria que adotar uma posição idealista ou, pelo menos, renunciar ao materialismo mecanicista e, ao naturalismo antiteológico aceito por Kropotkin. Se tanto se esforça por demostrar que o apoio mútuo é um fator biológico, é porque só assim ficam igualmente satisfeitas e harmonizadas suas ideias filosóficas e suas ideias sociopolíticas em uma única “Weitanschaung”, acorde, além de tudo, com o espírito da época.

A concepção huxleyana da luta pela vida, aplicada à história e à sociedade humana, tem uma expressão antecipada em Hobbes, que apresenta o estado primitivo da humanidade como uma luta perpétua de todos contra todos. Esta teoria, que muitos darwinistas como Huxley aceitam complacentes, se funda, segundo Kropotkin, em pressupostos que a moderna etnologia desmente, pois imagina os homens primitivos unidos apenas em famílias nômades e temporais. Invoca, a este respeito, como Engels, o testemunho de Morgan e Bachofen. A família não aparece assim, desabrocha de sua forma primitiva e originária de convivência para um estagio bem mais avançado da evolução social. Segundo Kropotkin, a antropologia nos inclina a pensar que em suas origens o homem vivia em grandes grupos ou rebanhos, similares aos que constituem hoje muitos mamíferos superiores. Seguindo ao próprio Darwin, adverte que não foram monos solitários, como o orangotango e o gorila, os que originaram os primeiros hominídeos ou antropoides, mas, ao contrário, foram monos menos fortes porém mais sociáveis, como o chimpanzé. A informação antropológica e pré-histórica, disponibilizada pelo Museu Britânico, é abundante e está bem atualizada no momento.

Assim crê Kropotkin demostrar amplamente sua tese. O homem pré-histórico vivia em sociedade: as cavernas dos vales de Dordogne, por exemplo, foram habitadas durante o paleolítico e nelas foram encontrados numerosos instrumentos de sílica.

Durante o neolítico, segundo se infere dos restos palafíticos da Suíça, os homens viviam e laboravam em comum e, pelo que parece, em paz. Também estudos, valendo-se de relatos de viajantes e pesquisas etnográficas, as tribos primitivas que ainda habitam fora da Europa (bosquímanos, australianos, esquimós, hotentotes, papúes, etc.), em todas elas encontra-se abundantes provas de altruísmo e espírito comunitário entre os membros do clã e da tribo.

Adiantando-se de certa maneira a estudos etnográficos posteriores, intenta desmitologizar a antropofagia, o infanticídio e outras práticas semelhantes (que antropólogos e missionários da época, sem dúvida, utilizavam para justificar a opressão colonial). Ao contrário, ele destaca a abnegação dos indivíduos em prol da comunidade, o débil ou inexistente sentido da propriedade privada, a atitude mais pacífica que se possa supor, a falta de governo. Neste, ponto, Kropotkin é evidentemente um precursor da atual antropologia política de Clastres [17]. Embora considere inaceitável tanto a visão rousseauniana do homem primitivo enquanto modelo de inocência e de virtude, como a de Huxley e muitos antropólogos do século XIX, que o consideram uma besta sanguinária e feroz, crê que esta segunda visão é mais falsa e anticientífica que a primeira. Em sua luta pela vida – disse Kropotkin – o homem primitivo chegou a identificar sua própria luta com a da tribo, e sem tal identificação jamais a humanidade chegaria ao nível em que hoje se encontra. Se os povos “bárbaros” parecem caracterizar-se por sua incessante atividade bélica, isso se deve, em boa parte, segundo nosso autor, ao fato de que os cronistas e historiadores, os documentos e os poemas épicos, só consideram dignas de menção as façanhas guerreiras e passam quase sempre por alto pelas proezas do trabalho, da convivência e da paz.

Grande importância concede à comuna aldeã, instituição universal e célula de toda sociedade futura, que existiu em todos os povos e sobrevive ainda hoje em alguns. Em lugar de ver nela, como fazem não poucos historiadores, um resultado da servidão, compreende-a como organização previa e até contrária à mesma. Nela não só se garante a cada camponês os frutos da terra comum como também a defesa da vida e o solidário apoio em todas as necessidades da vida. Enuncia uma espécie de lei sociológica ao dizer que, quanto mais íntegra se conserva a obsessão comunal, tanto mais nobres e suaves são os costumes dos povos. De fato, as normas morais dos bárbaros eram bem elevadas e o direito penal relativamente humano frente a crueldade do direito romano ou bizantino.

As aldeias fortificadas, se converteram desde o começo da Era Medieval em cidades, que chegaram a ser politicamente análogas às da antiga Grécia. Seus habitantes, com uma unanimidade que hoje parece quase inexplicável, sacudiram pôr o jugo dos senhores e se rebelaram contra o domínio feudal. De tal modo, a cidade livre medieval, surgida da comuna bárbara (e não do município romano, como sustenta Savigny), chega a ser, para Kropotkin, a expressão talvez mais perfeita de uma sociedade humana, baseada no livre acordo e no apoio mútuo. Kropotkin sustenta, a partir daqui, uma interpretação da Idade Media que contrasta com a historiografia da Erudição e também, em grande parte, com a historiografia liberal, e marxista. Inclusive alguns escritores anarquistas, como Max Nettlau, a consideram excessivamente laudatória e idealizada [18]. Sem embargo, a dita interpretação supõe no Medievo um claro dualismo por um lado, o lado obscuro, representado pela estrutura vertical do feudalismo (cujo vértice ocupam o imperador e o papa); por outro, o lado claro e luminoso, encarnado na estrutura horizontal das ligas de cidades livres (praticamente alheias a toda autoridade política).

Grave erro de perspectiva seria equiparar esta reivindicação da idade Media, não, digamos, com a de pessoas como De Maistre ou Donoso Cortés, mas, inclusive, com a que propuseram Augusto Comte e alguns outros positivistas [19].

Para Kropotkin, a cidade livre medieval é como um precioso tear, cuja urdidura é constituída pelos fios dos grêmios e guildas. O mundo livre do Medievo é, por sua vez, um tear mais vasto (que cobre toda Europa, desde a Escócia até a Sicília e desde Portugal até a Noruega), formada por cidades livremente federadas e unidas entre si por pactos de solidariedade análogos aos que unem aos indivíduos em grêmios e guildas na cidade. Não lhe basta, sem embargo, explicar assim a estrutura do medievo libertário. Julga indispensável explicar também sua gênesis. E, ao fazê-lo, sublinha com força essencial a luta contra o feudalismo, de tal modo que, tal luta basta para dar razão ao nascimento de grêmios, guildas, cidades livres e ligas de cidades, a culminação da mesma explica seu apogeu, e a decadência posterior sua derrota e absorção pelo novo Estado absolutista da época moderna. As guildas satisfaziam as necessidades sociais mediante a cooperação, sem deixar de respeitar por isso as liberdades individuais. Os grêmios organizavam o trabalho também sobre a base da cooperação e com a finalidade de satisfazer as necessidades materiais, sem preocupar-se, fundamentalmente pelo lucro. As cidades, liberadas do jugo feudal estavam regidas na maioria dos casos por uma assembleia popular. Grêmios e guildas tinham, por sua vez, uma constituição mais igualitária do que se possa supor. A diferença entre o mestre e o aprendiz estava mais relacionada a diferença de idade do que a poder ou riqueza, e não existia o regime do salariato. Só na baixa Idade Media, quando as cidades livres começaram a decair por influência de uma monarquia em processo de unificação e de absolutização do poder, o cargo de mestre de um grêmio começou a ser hereditário e o trabalho dos artesãos começou a ser cedido a patrões particulares. Mesmo assim, o salário que percebiam era bem superior ao dos operários industriais do século XIX. Se realizava em melhores condições e em jornadas mais curtas (tanto que na Inglaterra não somavam mais de 48 horas por semana) [20]. Com esta sociedade de trabalhadores livres solidários se associava necessariamente, segundo Kropotkin, a arte grandiosa das catedrais, obra, comunitária para o desfrute da comunidade. A pintura não a executava um gênio solitário para ser depois guardada nos salões de um duque nem os poetas compunham seus versos para que fossem lidos na alcova preferida pelo rei. Pintura e poesia, arquitetura e música surgiam do povo e eram, por isso, muitas vezes, anônimas; sua finalidade era também o gozo coletivo e a elevação espiritual do povo. Nessa filosofia medieval Kropotkin vê um poderoso esforço “racionalista”, não desconectado do espírito das cidades livres. Isto, embora soe estranho para muitos, parece coerente com toda a argumentação anterior: Acaso a universidade, criação essencialmente medieval, não era em suas origens um grêmio (universitas magistrorum et scolarium), igual aos demais? [21].

A ressurreição do direito romano e a tendência a constituir Estados centralizados e unitários, regidos por monarcas absolutos, caracterizou o começo da época moderna. Isto pôs um fim não apenas ao feudalismo (com a domesticação dos aristocratas, transformados em cortesãos) mas também às cidades livres (convertidas em partes integrantes de um entalhe unitário). Cidadãos livres se converteram em leais súditos burgueses do rei. Nem por isso desaparece o impulso natural à ajuda mútua e mesmo à liberdade, que se manifesta na prédica comunista e libertaria de muitos hereges (husitas, anabatistas etc.). E embora seja verdade que a idade moderna comparte um crescimento maligno do Estado que como câncer devora as instituições sociais livres, e promove um individualismo doente (concomitante ou sequela do regime capitalista), aquele impulso não está morto. Se manifesta durante o século XIX, nos sindicatos operários, que prolongam o espírito dos grêmios e guiadas no contexto da luta operária contra a exploração capitalista. Na Inglaterra, por exemplo, onde Kropotkin vivia, a derrogação das leis contra tais sindicatos (Combinatioms Laws), em 1825, produziu uma proliferação de associações gremiais e federações que Owen, grande promotor do socialismo naquele país, logrou federar dentro da “Gran Unión Consolidada Nacional”. Apesar dos contínuos entraves impostos pelo governo da classe proprietária, os sindicatos (trade unions) seguiram crescendo na Inglaterra. O mesmo sucedeu na França e nos demais países europeus e americanos, se bem que às vezes as perseguições os obrigaram a uma atividade clandestina subterrânea. Kropotkin vê assim a luta operária dos sindicatos e no socialismo a mais significativa (embora não a única) manifestação de ajuda mútua e de solidariedade de seu tempo. O movimento operário se caracteriza, segundo ele, pela abnegação, pelo espírito de sacrifício e pelo heroísmo de seus militantes. Ao sustentar isso, sem dúvida não está exagerando em nada, em uma época em que os sindicatos estavam livres da burocratização e da mediação estatal que hoje os caracteriza em quase toda parte, mesmo quando a Internacional já havia sido dissolvida graças às maquinações burocratizantes de Karl Marx e seus amigos alemães. Alguns sociólogos burgueses, que se gabam de um “realismo” verdadeiramente irreal, se esquivam do “ingênuo otimismo” de Kropotkin e, em nome do evolucionismo darwiniano, pretendem negar-lhe sólidos fundamentos científicos.

Isso, não obstante seu desmedido esforço por encontrar uma base biológica para o comunismo libertário, não pode ser tido hoje como inteiramente desencaminhado. É verdade que, como disse o ilustre zoólogo Dobzhansky, foi pouco critico em algumas das provas que apresentou em apoio a suas opiniões. Mas de acordo com o mesmo autor, uma versão modernizada de sua tese, tal como a apresentada por Ashley Montagu, resulta bem mais compatível que contraditória com a moderna teoria da seleção natural. Para Dobzhansky, um dos autores da teoria sintética da evolução, elaborada entre 1936 e 1947 como fruto das observações experimentais sobre a variabilidade das populações e a teoria cromossômica da herança [22], a asseveração de que na natureza cada indivíduo não tem outra opção senão comer ou ser comido resulta tão infundada quanto a ideia de que nela tudo é doçura e paz. É importante destacar que os ecólogos atribuem cada vez maior importância às comunidades da mesma espécie e que a espécie não poderia sobreviver sem certo grau de cooperação e ajuda mútua [23]. Os trabalhos de C.H. Waddington, como Ciência e Ética, por exemplo, vão todavia mais além em sua aproximação das ideias de Kropotkin sobre o apoio mútuo. Um etólogo da escola de Lorenz Irenaeus, Eibl-Eibesfeldt, sem aderir por completo às conclusões do Apoio Mútuo, reconhece que, no que se refere ao altruísmo e à agressividade, elas estão mais próximas da verdade científica do que as de seus adversários. Para Eibl-Eibesfeld, os impulsos agressivos são compensados, no homem, por tendências arraigadas à ajuda mútua [24]. Apesar dos anos transcorridos, que não são poucos levando-se em conta a crescente aceleração dos descobrimentos da ciência, a obra com que Kropotkin intentou brindar uma base biológica ao comunismo libertário, não carece hoje de valor científico. Além de ser um magnífico expoente da sonhada aliança entre a ciência e a revolução, constitui uma interpretação equilibrada e basicamente aceitável da evolução biológica e social. O já mencionado Ashley Montagu escreve: “Hoje em dia Apoio Mútuo é a mais famosa das muitas obras escritas por Kropotkin; a rigor, já é um clássico. O ponto de vista que representa vem abrindo caminho lenta, mas firmemente, e seguramente logo passará a fazer parte do cânone aceito da biologia evolutiva” [25].

Notas


[1] – Cfr. H. Daudin, Cuvier et Lanzarck, París, 1926

[2] – Cfr. G. Colosi, La doctrina dell evolucione e le teorie evoluzionistiche, Florencia, 1945

[3] – S. J. Gould, Desde Darwin, Madrid, 1983, p. 80.

[4] – R. Grasa Hernández, El evolucionismo: de Darwin a la sociobiología, Madrid, 1986, p. 43.

[5] – Cfr. J. Rostand, Charles Darwin, París, 1948; P. Leonardi, Darwin Brescia, 1948; M.T. Ghiselin, The Triumph of the Darwinian Method Chicago, 1949.

[6] – Cfr. A. Pauli, Darwinisimusund Lamarckismus, Muninch, 1905.

[7] – Cfr. G. De Beer, Charles Darwin, Evolution by Natural Selection Londres, 1963.

[8] – Cfr. W.H. Hudson, Introditction to the Philosophy of Herbert Spencer Londres, 1909.

[9] – Cfr. W. Irvine, T. H. Huxley Londres, 1960.

[10] – R. Grasa Hernández, op. cit. p. 57.

[11] – Cfr. W.B. George, Biologist philosopher.- A Study of the Life and Writings of A. R. Wallace, Nueva York, 1964.

[12] – Felix García Moriyón Del socialismo utópico al anarquismo, Madrid, 1985, p. 59.

[13] – J. Hewetson, “Mutual Aid and Social Evolution”, Anarchy 55 p.258.

[14] – Ashley Montagu, Prólogo a El Apoyo Mutuo, Buenos Aires, 1970, PP. VII – VIII.

[15] – P. Kropotkin, Memorias de un revolucionario, Madrid, 1973 p. 419.

[16] – Cfr. E. Reclus, Correspondance París, 1911 – 1925.

[17] – Cfr. P. Clastres, La sociedad contra el Estado, Caracas, 1978.

[18] – Alvarez Junco, Introducción a Panfletos revolucionarios de Kropotkin, Madrid, 1977, p. 26.

[19] – D. Negro Pavón, Comte: Positivismo y revolución, Madrid, 1985, PP. 98 - 99.

[20] – Cfr. Thorold Rogers, Six Centuries of Wages.

[21] – E. Bréhier, La philosophie du Moyen Age, París, 1971, p. 226.

[22] – R. Grasa Hernández, op. cit. p.91.

[23] – T. Dobzhansky, Las bases biológicas de la libertad humana, Buenos Aires, 1957, p. 58.

[24] – G. Eibl-Eibesfeldt, Amor y odio. Historia de las pautas elementales del comportamiento, México, 1974, p. 8.

[25] – Ashley Montagu, op. cit. p. IX.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Levando Piotr Kropotkin a sério (2010) – Álvaro Girón

Traduzimos este artigo de Álvaro Girón sobre Piotr Kropotkin. Em nossa opinião, trata-se de uma ótima introdução e panorama da vida e obra do nosso camarada russo, embora tenha um foco específico nas controvérsias científicas. A versão original do artigo se encontra disponível em: link.

É importante destacar que o autor buscou situar em seu artigo as reflexões kropotkinianas sobre evolução, portanto trata-se de um recorte específico da obra de Kropotkin.

Incluímos ao longo do texto links para explicar algum termo (geralmente utilizamos artigos do Wikipédia) ou indicar uma obra (através da Library Genesis), imagens para ilustrar a discussão e notas adicionais de nossa tradução. Chamamos à atenção para o artigo de Stephen Jay Gould (mencionado no texto), pois o link que colocamos leva para uma versão traduzida do mesmo.

Informações sobre o autor: Álvaro Girón é cientista sênior da Institución Milá y Fontanals (CSIC), Barcelona.

O artigo traduzido foi publicado originalmente em: Mètode, nº 65, primavera de 2010.

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Imagem extraída do artigo (veja-se o link acima).

Mais de uma década atrás comecei a dar os primeiros passos no que viria a ser uma longa investigação sobre Piotr Kropotkin. Naquela época, recém-estabelecido na Inglaterra para uma estada de pós-doutorado, tendi a pensar que poucos estariam interessados em um teórico anarquista após décadas do colapso final do breve renascimento acrático pós-1968. Parecia que apenas permaneciam – no máximo – algumas brasas fumegantes, oportunamente esmagadas naqueles dias quando a ortodoxia thatcheriana – modernizada em convenientes trajes blairistas – reinava na Grã-Bretanha e além. Bem, logo percebi que, na ilha onde viveu durante mais de trinta anos de exílio – de 1886 a 1917 –, ele nunca foi esquecido completamente.

Agora, só porque Kropotkin não foi completamente esquecido, não significa necessariamente que ele foi levado a sério. As ambiguidades são especialmente perceptíveis quando falamos sobre seu pensamento evolucionário. Por um lado, tem sido elogiado por sua vigorosa resistência contra o – mal – chamado darwinismo social. Também é frequentemente referido como um dos precedentes mais claros para estudos de altruísmo entre animais. No entanto, a opinião geral tende a apresentar a visão kropotkiniana da natureza como algo que tinha mais a ver com suas disposições pessoais (supostamente benevolentes) ou seus ideais políticos do que com a análise desapaixonada que o cientista deveria ter. Na verdade, a ideia vem de longe. Já na resenha publicada na Nature em 1903 de sua obra capital, O apoio mútuo (1902), lia-se que Kropotkin atribuía “aos animais inferiores uma benevolência semelhante à sua” [1].

Uma das tentativas relativamente recentes de reabilitação científica do evolucionismo de Kropotkin veio – talvez não por acaso – nas mãos do falecido Stephen Jay Gould, em seu artigo “Kropotkin Was No Crackpot” (1997). Nele, Gould, fazendo uso generoso da contribuição de Daniel Todes (1989) sobre o darwinismo russo, desafiou a imagem do personagem idiossincrático que molda as bordas da economia natural com base em suas convicções políticas muito peculiares: Kropotkin não era um raro avis, se não que suas ideias estavam enraizadas em uma tradição peculiar do evolucionismo russo. Um darwinismo sem Malthus, que tendia a sublinhar o caráter capital da sociabilidade – quando não da solidariedade – na luta pela existência que os seres vivos sustentavam contra as dificuldades ambientais. O que Gould achou reconfortante foi o conhecimento de que, apesar das implicações políticas que o darwinismo havia adquirido na Rússia, não pouco dessa tradição anti-malthusiana se baseava em um sólido trabalho de campo nos vastos territórios despovoados do Império Russo. Isso contrastava com a experiência fundacional de alguém como Darwin, que nasceu e viveu em uma ilha superpovoada e desenvolveu parte de seus primeiros passos como cientista em ambientes tropicais. Em outras palavras, o substrato do darwinismo anti-malthusiano de Kropotkin repousa não apenas em ideais políticos aparentemente excêntricos, mas, acima de tudo, em uma tradição científica respeitável, solidamente ancorada no conhecimento empírico de um ambiente natural peculiar.

Por mais bem-intencionada que seja a abordagem de Gould, entretanto, alguém ousaria discordar em duas questões fundamentais. A primeira é que a contribuição de Kropotkin não pode e não deve ser entendida como uma espécie de intrusão de um darwinismo peculiar, mas respeitável – o russo – em um ambiente científico e social totalmente estranho. Ao contrário, na Europa Ocidental havia um público mais do que preparado para aceitar que a sociabilidade teve muito a ver com a evolução, especialmente no caso dos animais. Como o próprio Kropotkin reconheceu publicamente, o terreno havia sido convenientemente preparado pelas contribuições de personagens hoje esquecidos como Alfred Espinàs, Jean-Louis de Lanessan ou Ludwig Büchner. Além disso, foi o próprio Darwin quem em A origem do homem se referiu ao papel-chave dos instintos sociais na gênese do sentido moral. Nem Kropotkin nem sua ciência foram periféricos nos debates pós-darwinianos sobre ética e evolução.

A segunda discrepância talvez seja mais heterodoxa. O ponto de vista de Gould, mais do que implicitamente, é baseado na convicção de que as ideias políticas infalivelmente contaminam o trabalho científico: podemos levar Kropotkin a sério porque seu darwinismo peculiar não é exclusivamente informado por seu anarquismo, senão que deve muito mais para sua experiência no ambiente hostil da Sibéria. Alguns de nós, ao contrário, pensam que há boas razões para duvidar do fato de que ciência e cultura podem ser clinicamente separadas (o que inclui o que chamamos de política). Hoje admitimos que a gênese da teoria de Darwin – ou melhor, das teorias –, junto com os muito respeitáveis tentilhões e cracas, teve algo a ver com a economia política de Malthus, a dissidência religiosa, sua militância antiescravidão ou a dinâmica expansiva do Império Britânico. Não separamos uns (a natureza), tidos como fontes legítimas de conhecimento, de outros (a cultura), apresentados como poluentes perigosos: todos são constitutivos do conhecimento. Da mesma forma, não me deixe fazer a mesma separação quando falo de Kropotkin. Se quisermos entender seu pensamento, é melhor tratar do viajante, do anarquista, do geógrafo, do respeitável homem da ciência, ou seja, do homem completo.

O explorador, o revolucionário, o venerável sábio


Três retratos de Piotr Kropotkin. Da esquerda para a direita: em 1861 com uniforme de pajem, no início de 1900 durante a maturidade e, por fim, já velho e provavelmente durante seu retorno à Rússia.

Kropotkin nasceu em 1842 em uma família pertencente à mais antiga aristocracia de Moscou. Aos quinze anos, ingressou no corpo de pajens de São Petersburgo, onde, além de receber treinamento militar, teve acesso a uma requintada educação técnica e científica. Estudante brilhante, foi promovido a pajem da câmara do czar no mesmo ano. De tendências políticas liberais, ele logo se desiludiu com o caráter reacionário do ambiente do palácio em São Petersburgo. Em 1862 ingressou no regimento cossaco na Sibéria (lá permaneceu até 1867), onde esperava poder colaborar de forma mais efetiva na reforma do país. Após um período de trabalho árduo em tarefas administrativas, Kropotkin voltou suas energias para a exploração científica. A experiência siberiana marcou sua vida para sempre. Foi, em primeiro lugar, a pedra de toque sobre a qual ele construiu grande parte de sua importante contribuição ao domínio da geografia física. Além disso, o contato com um ambiente aparentemente despovoado – como o da Sibéria – foi fundamental na articulação posterior de sua interpretação anti-malthusiana do darwinismo. E ainda mais crucial naquele momento, determinou sua perda de fé na máquina do estado quando se tratava de resolver os problemas reais do povo [2].

“Feira em Murom” (Ярмарка в Муроме), pintada entre 1910 e 1912 pelo artista Ivan Semyonovich Kulikov (Иван Семёнович Куликов). Kulikov nasceu numa família de camponeses que morou Murom e sua pintura expressa bem a obshchina.

No entanto, o verdadeiro elemento catalisador do ponto de vista político – como para muitos jovens de sua geração – foi a Comuna de Paris (1871). Depois de rejeitar o cargo de secretário da Sociedade Geográfica Imperial, ele fez uma viagem para a Suíça: lá ele tomou decididamente o lado do socialismo anarquista. Retornando de sua curta estada na Suíça, juntou-se ao famoso círculo populista de Tchaikovsky, até ser preso em 1874. Ele escapou das prisões russas dois anos depois para se exilar na Grã-Bretanha. Embora ele ganhasse a vida com atividades respeitáveis como contribuições para a Nature, The Times ou a Encyclopedia Britannica, sua nova vida como agitador anarquista estava longe de terminar. Nos anos seguintes, vivendo entre a Grã-Bretanha, França e Suíça, Kropotkin tornou-se um extraordinário propagandista revolucionário, tendo sua contribuição fundamental tanto para a difusão do comunismo libertário quanto para a criação de uma imprensa libertária de grande espírito teórico.

Esta atividade foi interrompida abruptamente. No final de 1882, ele foi preso em Lyon. Infelizmente para as autoridades gaulesas, o julgamento que se seguiu à sua prisão tornou-se uma plataforma formidável para a propaganda libertária [3]. Além disso, consolida-se o mito romântico do príncipe que renuncia aos privilégios de classe para abraçar a causa dos despossuídos, a ponto de gerar uma onda de simpatia pela figura de Kropotkin do outro lado do Canal do Mancha. Os anos na prisão tiveram efeitos duradouros. É na prisão de Clairvaux onde lê a obra do zoólogo russo Karl Fiodorovic Kessler sobre a ajuda mútua na evolução, decisiva, como ele mesmo confessa, na formalização de suas ideias a esse respeito. Por outro lado, sua saúde, já debilitada pela permanência nas prisões russas, piora a ponto de temer por sua vida. Em janeiro de 1886 ele foi libertado da prisão, embora tenha ficado doente para o resto da vida.

Após a libertação, se exilou na Inglaterra. Ele estabeleceu sua residência nos subúrbios de Londres, encerrando grande parte de sua atividade clandestina. No entanto, ele iniciou uma atividade teórica de enorme profundidade. Em todo caso, sua vida suburbana não era absolutamente anônima. A aura romântica do aristocrata que renuncia à sua classe social, aliada à sua grande reputação de viajante e geógrafo, abriu portas e públicos nada comuns para um anarquista. Kropotkin não apenas divulgou suas ideias nos órgãos de imprensa libertários, como também escreveu regularmente em revistas de grande repercussão no meio intelectual, como The Nineteenth Century, a mais aclamada das monthly reviews, por cuja seção científica se tornou responsável. Também participou das atividades da Royal Geographical Society, tornando-se membro da British Association for the Advancement of Science. Os longos anos que ele residiu na Inglaterra até seu retorno à Rússia em 1917 foram anos de moderada respeitabilidade vitoriana, embora ele tenha mantido um forte compromisso com a causa anárquica. Foi, sem dúvida, o período mais fecundo do ponto de vista intelectual, inclusive para o evolucionismo.

Kropotkin contra Thomas Huxley, e além: “O apoio mútuo”

Representação do apoio mútuo na bandeira rúbio negra do anarco-comunismo.

Na verdade, Kropotkin começou a se interessar pelo darwinismo desde muito cedo. Sua correspondência reflete que de certa forma ele estava colocando a teoria darwiniana à prova da natureza siberiana no início da década de 1860. Suas opiniões sobre isso, entretanto, só foram publicadas após o exílio na Europa Ocidental. Isso ocorreu em 1882 em um obituário de Darwin publicado pela imprensa libertária francesa. O artigo é, de fato, uma crítica ao uso burguês do darwinismo e contém alguns argumentos que reaparecerão mais tarde: as espécies sociáveis são as mais prósperas; a solidariedade é o fator chave para a sobrevivência da espécie em sua agonizante luta coletiva contra as forças hostis da natureza. O texto também reflete sua dívida para com a opinião dos zoólogos russos sobre o assunto.

Em 1887, em dois artigos publicados na The Nineteenth Century e em um contexto de grande tensão social na Grã-Bretanha, Kropotkin declarou que o anarquismo e a filosofia da evolução tinham os mesmos métodos [4]. No entanto, introduziu uma nuance importante. Criticando Herbert Spencer, ele afirmou que as leis populacionais malthusianas eram falsas e que nada acrescentavam à teoria da evolução. Paralelamente, Thomas Henry Huxley, defensor de longa data de Darwin, estava elaborando seu próprio roteiro político-científico em uma direção muito diferente. Em 1888, na própria The Nineteenth Century, Huxley começou a traçar um retrato da natureza como um conjunto de processos amorais e brutais, absolutamente incapaz de fornecer qualquer tipo de critério sobre o qual basear a moralidade. É a resposta de Huxley tanto à ética evolucionária de Spencer quanto ao seu ultraliberalismo político. Agora, embora sua posição seja congruente com um novo liberalismo reformista que considerava necessário um certo nível de intervenção estatal, Huxley enfatizou com igual força que a presença permanente do espectro malthusiano e a persistência de instintos agressivos primordiais impunham limites severos aos projetos de reforma radical e revolucionária. Tudo isso levou Kropotkin a responder em uma série de artigos publicados na mesma revista entre os anos de 1890 e 1896, e que finalmente foram reunidos em um volume intitulado Mutual Aid: a factor of evolution, publicado em 1902.

Pois bem, o objetivo de O apoio mútuo não era simplesmente [responder a] Huxley. Kropotkin começou a criticar o que ele via como uma escola inteira que usava a luta pela existência como seu slogan. O livro tornou-se um ataque aos discípulos de Darwin que, em sua opinião, viam apenas os aspectos mais brutais na natureza. O príncipe anarquista reconheceu que a luta pela existência – no sentido de uma competição real por comida e espaço – existia no mundo vivo, mas não era fácil de acontecer. Era muito raro que se chegasse ao umbral malthusiano de combate efetivo entre indivíduos por comida. Em contraste, Kropotkin destacou o papel predominante do que, segundo ele, Darwin chamou de “luta metafórica pela existência” [5], ou seja, a luta coletiva que as espécies travam contra as condições ambientais hostis e contra outras espécies. Estava claro para ele que a melhor arma nesse tipo de luta era a sociabilidade. Os mais aptos são os animais que adquirem hábitos de apoio mútuo.

Por outro lado, para Kropotkin, a luta entre indivíduos da mesma espécie não pode produzir nenhum tipo de progresso evolutivo, mas sim o contrário. Definir limites para a competição malthusiana por meio da ajuda mútua é a chave para a evolução progressiva. A sociabilidade – apoio mútuo – não apenas limita a luta, mas é condição necessária para o desenvolvimento das faculdades mais elevadas, como inteligência e moralidade. Isso o levou a outra conclusão correlativa. Kropotkin, ao contrário de Huxley, pensava que a moralidade era fundada na natureza, não havia processo ético para se opor a uma suposta natureza amoral. Longe de ser um desenvolvimento tardio, fruto da civilização, nosso senso moral estava profundamente ancorado em nosso passado biológico: são milhões de anos de evolução que falam em nós.

Da ética ao neolamarckismo

Marie Goldsmith, autora que influenciou a “virada lamarckista” em Piotr Kropotkin.

Não é surpreendente, então, que Kropotkin tenha tentado desenvolver as consequências éticas do ponto de vista adotado em seu Mutual Aid. No período entre 1890 e 1914, começou a parecer-lhe uma necessidade urgente. A crescente influência da filosofia de Nietzsche – conspícua mesmo nas fileiras libertárias – bem como o rearmamento patente do catolicismo no final do século XIX apareciam como novas ameaças. No ano de 1904, ele publicou dois artigos em The Nineteenth Century com o objetivo não apenas de conjurar os perigos, como de servir de base para o que ele desejava ser uma obra acabada sobre moral baseada na filosofia evolucionária. Uma nova ética – que, em suas próprias palavras, viria a cortar a grama sob os pés do cristianismo – na qual a marca inspiradora de A origem do homem de Darwin é explicitada. No entanto, Kropotkin logo encontrou um obstáculo em sua tradicional besta negra: Thomas Malthus. De acordo com o anarquista russo, os biólogos relutavam em reconhecer o apoio mútuo como a principal característica da vida animal porque advertiam que estava em franca contradição com a luta feroz pela vida entre os indivíduos, que necessariamente se segue das limitações malthusianas de espaço e comida. Este era o verdadeiro fundamento – segundo eles – da teoria da evolução darwiniana. Mesmo quando lembrados de que Darwin em A origem do homem havia enfatizado o papel fundamental da sociabilidade e dos sentimentos de simpatia na preservação das espécies [6], esses mesmos naturalistas foram incapazes de conciliar essa afirmação com o peso indubitável de que o próprio Darwin e Alfred Russel Wallace haviam atribuído à luta interindividual em sua teoria da seleção natural. Kropotkin assumiu a existência dessa contradição. O malthusianismo e o domínio da solidariedade na economia da natureza eram mutuamente excludentes.

Kropotkin tentou contornar o obstáculo postulando uma síntese entre darwinismo e lamarckismo em uma série de artigos publicados na The Nineteenth Century ao longo da década de 1910 [7]. Uma síntese em que a seleção natural seria, em grande parte, fagocitada pela ação direta do ambiente sobre os organismos, uma influência ambiental que seria transmitida aos descendentes por meio da herança dos caracteres adquiridos. Para tanto, tentou provar, fundamentalmente, que a seleção natural das variações produzidas ao acaso ou acidentalmente não poderia explicar a evolução progressiva, enquanto que a ação direta do meio transmitida hereditariamente o fazia. Para isso, era fundamental demonstrar que a herança dos caracteres adquiridos não somente não era uma impossibilidade teórica, mas que começava a gozar de certa base experimental. Na verdade, sua tentativa de reabilitação de Lamarck o levou a estudar em profundidade não apenas as obras dos neolamarckianos modernos, mas também as teorias hereditárias rígidas opostas, principalmente a de August Weismann.

Talvez para alguns, esse apoio tardio às teses neolamarckianas ilustre melhor do que nada até que ponto Kropotkin é apenas mais um caso de como as preocupações extra-científicas levam algumas mentes privilegiadas a cometer erros graves. Esta é uma forma de ver as coisas não apenas de modo simplista, como está basicamente errada: é um anacronismo. O anarquismo de Kropotkin não o levou a apoiar ideias estranhas, mas a defender abordagens amplamente compartilhadas por uma parte importante da comunidade de biólogos da época em que viveu. Não apenas a crítica às teorias de Weismann fora generalizada na França e na própria Alemanha, era o próprio mendelismo – ao qual Kropotkin não atribuiu importância especial – que não foi credível para explicar o fenômeno global da hereditariedade. Algo semelhante pode ser dito de sua teoria do apoio mútuo. Antropomorfismo? Certamente não maior do que o do próprio Darwin. Na verdade, a ideia de ingenuidade em Kropotkin não deixa de ser uma ilusão retrospectiva. Uma ilusão alimentada pelo fato de que, tanto na ciência quanto na política, ele se alinhou do lado que acabou sendo o perdedor. É possível que em uma época menos sectária, tanto na ciência quanto na política, abordemos sua figura de outra forma. Nesse ínterim, se você quiser entender alguma coisa sobre os debates pós-darwinianos nas últimas décadas do século XIX e no início do século XX, é hora de levar Kropotkin a sério.

Notas:


[1] – “[…] he attributes to the lower animals a benevolence similar to his own”. F.W.H., 1903. “Mutual Aid”. Nature, LXVII: 196-197.

[2] – [Nota da tradução]: Em “Memórias de um Revolucionário” (que foi publicado originalmente em 1899 e não 1892 como diz no texto), há um capítulo em que Kropotkin narra sua carreira militar na Sibéria. Ele fala sobre como ele acumulou desilusões com relação à possibilidade de tentar reformar a vida social através de meios governamentais (e ele ainda não era anarquista). Durante suas viagens na Sibéria que Kropotkin vai se aproximar da vida concreta das massas e reconhecer o quanto as autoridades são os verdadeiros entraves para a fecundidade e prosperidade dos povos. É como se ele descobrisse na prática as premissas da anarquia antes de entrar em contato com a teoria. Infelizmente não publicaram novas versões traduzidas dessa obra, mas deixaremos aqui o link para o texto em inglês: Memoirs of a Revolutionist.

[3] – A esse respeito: “The Lyon Trial”, Freedom Anarchist Fortnightly, 44(2): 4-5; “The Trial of Socialists”, The Times, 9, 10, 12 e 20 de janeiro de 1883.

[4] – [Nota da tradução]: Os artigos a que se refere o autor são The Scientific Basis of Anarchy The Coming Anarchy. O primeiro artigo foi traduzido por nós já e se encontra disponível neste link. De todo o modo, ambos os artigos foram publicados conjuntamente como partes do seu: Anarco-comunismo: seus fundamentos e princípios.

[5] – [Nota da tradução]: “Devo estabelecer que uso o termo luta pela existência em sentido amplo e metafórico, que inclui a dependência de um ser em relação a outro e, ainda mais importante, que inclui não só a vida do indivíduo, mas o sucesso em deixar descendentes. Podemos dizer que, em tempos de escassez, dois animais caninos realmente lutam um contra o outro para que um deles possa conseguir alimentos e sobreviver. Mas dizemos que uma planta na orla de um deserto luta para sobreviver contra a seca, embora fosse mais correto dizer que ela busca a umidade. Em relação a uma planta que produz anualmente milhares de sementes, das quais em média apenas uma chega à maturidade, pode-se dizer com mais propriedade que ela luta contra as plantas do mesmo tipo e de outros tipos que já cobrem o solo. O visgo depende da macieira e de algumas outras árvores, mas somente em um sentido muito forçado poderíamos dizer que ele luta contra essas árvores, pois, caso muitos parasitas semelhantes cresçam na mesma árvore, esta irá definhar e morrer. Mas, de forma mais apropriada, podemos dizer que várias mudas de visgo que crescem juntas no mesmo galho lutam umas contra as outras. Uma vez que a dispersão do visgo é realizada por pássaros, sua ocorrência depende das aves; e podemos dizer metaforicamente que ele luta contra as outras plantas frutíferas para que os pássaros comam e dispersem as suas sementes e não as de outras plantas. Nesses vários sentidos, que vão de um a outro, eu uso, por conveniência, a expressão ‘luta pela existência’ como um termo geral” (DARWIN, 2018, pp. 82-83, grifos nossos). Referência: DARWIN, Charles. A origem das espécies. Tradução de Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2018.

[6] – [Nota da tradução]: “A julgar pelos costumes dos selvagens e da maioria dos quadrúmanos, os homens primitivos e também os seus antepassados semelhantes aos símios muito provavelmente viveram em sociedade. Nos animais fortemente sociáveis, a seleção natural muitas vezes age sobre o indivíduo por meio da conservação de mudanças que são benéficas para a comunidade. Uma comunidade que inclui um largo número de indivíduos bem dotados cresce em número e sai vitoriosa sobre aquelas menos favorecidas, embora muitas vezes cada membro individualmente não se avantaje absolutamente sobre os outros da sua própria comunidade. Insetos sociais têm adquirido desta maneira notáveis estruturas que são de pequena ou nenhuma utilidade para o indivíduo, como o dispositivo que recolhe o pólen ou o ferrão das abelhas trabalhadoras ou as grandes maxilas das formigas-soldado. No que concerne aos animais sociais superiores, não me consta que alguma estrutura tenha sido modificada unicamente em benefício da comunidade, embora algumas sejam de utilidade secundária para ela. Por exemplo, os chifres dos ruminantes e os grandes dentes caninos dos babuínos parecem ter sido adquiridos pelos machos como armas para as discórdias sexuais, mas são usados como defesa das manadas ou do grupo. No que diz respeito a certas faculdades mentais, conforme veremos no quinto capítulo, o caso é completamente diferente; com efeito, estas faculdades foram conquistadas principalmente ou quase exclusivamente em benefício da comunidade e ao mesmo tempo os indivíduos auferiram com elas vantagem indireta” (DARWIN, 1974, p. 80, grifos nossos). Referência: DARWIN, Charles. A origem do homem e a seleção sexual. Tradução de Attilio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca. São Paulo: HEMUS, 1974.

[7] – [Nota da tradução]: Esses artigos foram reunidos e publicados recentemente num livro apenas disponível em espanhol: La selección natural y el apoyo mutuo.

Referências:


GOULD, S. J., 1997. “Kropotkin Was No Crackpot”. Natural History, 106: 12-21.

TODES, D. P., 1989. Darwin without Malthus: The Struggle for Existence in Russian Evolutionary Thought. Oxford University Press: Oxford, 123-142.

sábado, 11 de julho de 2020

Trabalho cerebral e trabalho braçal (1890) – Piotr Kropotkin

Encounter (1944) de Maurits Cornelis Escher (1898 – 1972).



Originalmente publicado como artigo em março de 1890 na revista The Nineteenth Century (pp. 456-475), “Brain Work and Manual Work” será incluído como penúltimo capítulo de “Fields, Factories, and Workshops” (1899). A tradução que disponibilizaremos nessa publicação foi extraída de: KROPOTKIN, Pedro. Trabalho cerebral e braçal. In: MORIYÓN, Félix García (Org.). Educação libertária. Tradução de José Claudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.


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Nos tempos antigos, os homens de ciência, em particular aqueles que mais fizeram em favor da filosofia natural, não desprezaram o trabalho braçal; Newton aprendeu na juventude a arte de manejar as ferramentas, exercitando a imaginação na construção de aparelhos bastante engenhosos e quando começou suas pesquisas em ótica estava em condições de poder polir as lentes de seus instrumentos e fazer sozinho o grande telescópio, que, na época era uma obra meritória; Leibniz era aficionado a inventar mecanismos: os moinhos de vento e as carroças que andavam sem cavalos preocupavam sua imaginação, tanto quanto as especulações matemáticas e filosóficas; Lineu tornou-se botânico, ao mesmo tempo que ajudava diariamente o seu pai, que era jardineiro; em suma, para nossos gênios, as artes mecânicas não foram obstáculo para as pesquisas abstratas, podendo-se dizer que, antes, as favoreceram. Por outro lado, se os trabalhadores de outros tempos tiveram poucas oportunidades para dominar a ciência, muitos pelo menos, tiveram as suas inteligências estimuladas pela própria variedade de trabalhos realizados naquelas oficinas em que ainda não havia penetrado a especialização, tendo muitos deles a vantagem de estarem familiarmente ligados a homens de ciência. Watt e Rennie eram amigos do professor Robinson; Brindley, o peão caminheiro, apesar de ganhar 1,50 francos por dia, tinha ligações com pessoas cultas, o que lhe permitiu desenvolver capacidades notáveis no campo da engenharia; outros passaram a juventude em lojas e oficinas, tornando-se mais tarde um Smeaton ou um Stephenson.

Nós mudamos tudo isso; sob o pretexto da divisão do trabalho, separamos violentamente o trabalho intelectual do braçal. A massa trabalhadora não recebe mais educação científica do que seus avós, e, ademais, se vê privada da pouca educação que poderia adquirir nas pequenas oficinas, enquanto que seus filhos, homens e mulheres, condenados a viverem na mina ou na fábrica desde a idade de treze anos, esquecem logo o pouco que aprenderam na escola. Os homens de ciência, por sua parte, desprezam o trabalho braçal. Quem poderia fazer um telescópio ou outro instrumento menos complicado? Muitos não são capazes nem mesmo de desenhar um aparelho científico, somente dão uma vaga ideia ao construtor, e deixam a este o cuidado de inventar o aparelho de que necessitam. E mais ainda, elevam o desprezo pelo trabalho braçal à altura de uma teoria: “O homem de ciência – dizem – deve descobrir as leis da natureza, o engenheiro deve aplicá-las e o operário deve executar em madeira ou aço, em ferro ou pedra, os desenhos e formas traçadas por aquele, devendo trabalhar com máquinas inventadas para o seu uso, mas não inventadas por ele. Não importa que ele não as entenda nem possa melhorá-las; o homem de ciência e o engenheiro cientista cuidarão do progresso da ciência e da indústria”.

A isto pode-se objetar que, não obstante, há uma classe de homens que não pertence a nenhuma das três categorias indicadas: na juventude foram trabalhadores braçais, e alguns continuam sendo ainda; mas, devido a algum acontecimento feliz, conseguiram adquirir certo conhecimento científico, e deste modo combinar a ciência com a arte mecânica. É verdade que existem tais pessoas, e não é falta de sorte existir um núcleo de homens que tenha escapado da tão ponderada especialização do trabalho, sendo exatamente a eles que a indústria deve os seus principais e mais recentes inventos. Mas, pelo menos na velha Europa, eles são exceção, o anormal, os soldados que, afastando-se das filas, assaltam a barreira levantada, com tanto interesse, entre as classes. E são tão poucos, comparados com as crescentes necessidades da indústria – e também da ciência –, como demonstrarei a seguir, que em todo o mundo as pessoas lamentam a sua escassez.

Que significa esse fruto que vem ao mesmo tempo da Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos e Rússia, pedindo a educação técnica, se não o desagrado geral pela divisão anual em cientistas, engenheiros e trabalhadores? Escutem os que conhecem a indústria e vocês verão que a base de suas queixas é esta: “O operário cujo trabalho é especializado pela divisão permanente da faina, perde todo o interesse intelectual por ela, o que ocorre principalmente na grande indústria, assim como na sua capacidade inventiva. - O operário antigamente inventava muito; os trabalhadores braçais, e não os homens de ciência ou os engenheiros, foram os que descobriram ou aperfeiçoaram os primeiros motores e todo esse mundo de maquinaria que transformou a indústria nos últimos cem anos; mas desde que introduziu a fábrica de grandes proporções, o operário, deprimido pela monotonia do trabalho deixou de inventar. Que pode inventar o tecelão que trabalha com quatro teares e não sabe nada sobre os seus complicados movimentos, nem qual foi a progressão do mecanismo para chegar ao estado atual? Que pode aprender um homem condenado por toda a vida a ligar os extremos de dois fios com a maior rapidez e não sabe nada mais do que dar um nó?

No princípio da indústria moderna, três gerações de operários inventaram, mas agora deixaram de fazê-lo. E quanto aos avanços introduzidos pelos engenheiros, educados especialmente para idealizar máquinas, ou lhes falta o gênio ou são pouco práticos. Faltam a seus inventos essas pequenas coisas, das quais uma vez falou sir Frederich Bramwell, em Bath; esses detalhes que só se aprendem na oficina e que permitiram a Murdoch e aos trabalhadores de Soho fazer uma máquina completa do engenho de Watt. Somente quem conhece a máquina, não só no desenhoe no papel, mas em pleno funcionamento, é que poderá melhorá-la. Não há dúvida de que Smeaton e Newcomen eram grandes engenheiros, e no entanto, em suas máquinas, um menino tinha que abrir a válvula do vapor a cada batida do pistom, e foi um desses meninos que idealizou a ligação da válvula com o resto da máquina para que ele abrisse automaticamente, e ele pudesse ir brincar com os companheiros. Mas na maquinaria moderna não há espaço para descobertas deste tipo. A educação científica em alta escala se tomou necessária para a realização de novos avanços, e esta é negada aos trabalhadores, de modo que não há meio de sair do atoleiro, a menos que não se integrem a educação cientificamente mecânica, a menos que a fusão dos conhecimentos venha substituir a atual divisão”.

Este é o verdadeiro significado do atual movimento em favor da educação técnica; mas em vez de apresentar à consideração pública as causas, talvez inconscientes do descontentamento atual, em vez de elevar a discussão e dar à questão toda a amplitude que ela merece, os porta-estandartes do movimento a mantêm dentro dos limites mais reduzidos. Alguns deles lançam mão de uma linguagem com pretensões patrióticas e na verdade ridícula, falando em deixar fora de combate toda indústria estrangeira, enquanto que os outros não veem na educação técnica mais que o meio de melhorar um pouco a máquina humana da fábrica, permitindo que alguns operários ascendam a uma classe superior.

Semelhante ideal pode satisfazer a tais pessoas, mas não àqueles que não perdem de vista os interesses integrados da ciência e da indústria, e consideram ambas como um meio de elevar a humanidade a mais alto nível. Nós, portanto, defendemos que, no interesse das duas, assim como da sociedade em geral, todo ser humano, sem diferenças de origem, deveria receber uma educação que lhe permitisse, seja homem ou mulher, ligar o verdadeiro conhecimento científico a outro, igualmente profundo, da arte mecânica. Reconhecemos sem reservas a necessidade da especialização dos conhecimentos, mas afirmando que esta deve vir depois da educação geral, que deve compreender tanto a ciência quanto o trabalho braçal. À divisão da sociedade em trabalhadores intelectuais e braçais, nós opomos a integração de ambos os tipos de atividades; e em vez de “educação técnica”, que impõe a manutenção da atual divisão dos dois tipos de trabalho referidos, proclamamos a educação integral ou completa, o que significa o desaparecimento dessa distinção tão perniciosa. Expressando mais claramente, a aspiração da escola sob este sistema deveria ser a seguinte: dar uma educação tal, que ao deixar as salas de aula com a idade de dezoito ou vinte anos, os jovens de ambos os sexos estariam dotados de um cabedal de conhecimentos científicos que lhes permitisse trabalhar com proveito para a ciência, e que ao mesmo tempo tivessem um conhecimento geral das bases do ensino técnico e a habilidade necessária em qualquer indústria especial, para poder ocupar o seu posto dignamente no grande mundo da produção manual da riqueza. Sei que muitos acharão esta aspiração demasiado ampla ou impossível de alcançar, mas acredito que se tiverem a paciência de ler as páginas seguintes, verão que, para ela, não necessitamos mais do que se pode obter com facilidade, ou melhor dizendo, do que se obteve; e o que se pôde fazer em pequena escala, poderia ser feito em outra maior, se não fossem as causas econômicas e sociais que impedem que se leve a cabo uma reforma de importância em nossa sociedade, tão miseravelmente organizada.

A experiência foi feita na Escola Técnica de Moscou, durante vinte anos consecutivos, com centenas de crianças, e, segundo o testemunho dos mais competentes jurados de Bruxelas, Filadélfia, Viena e Paris, a tentativa deu resultado satisfatório. A escola de Moscou admite jovens de até quinze anos, e não exige deles, a esta idade, mais do que um conhecimento geral de geometria e álgebra junto com um conhecimento comum da língua do país, e recebe também alunos mais jovens das classes preparatórias. A escola é dividida em duas seções, a mecânica e a química; mas como eu, pessoalmente, conheço melhor a primeira, e, como é também a mais importante com referência à questão de que estamos tratando, limitarei minhas observações à educação dada na seção mecânica.

Depois de cinco ou seis anos de escola, o estudante a deixa com um profundo conhecimento de matemática superior, física, mecânica e ciências afins; é, na verdade, tão completo o conhecimento, que não deixa nada a desejar ao que se adquire nos melhores cursos de matemática das mais eminentes Universidades europeias. Quando eu estudava na Universidade de São Petersburgo, pude comparar a instrução dos estudantes da Escola Técnica de Moscou com a nossa e vi os cursos de geometria superior que alguns deles haviam recompilado para os colegas. Admirei a facilidade com que aplicavam o cálculo integral aos problemas dinâmicos, chegando à conclusão de que enquanto nós, estudantes da Universidade, mal sabíamos nos servir das mãos, os alunos da Escola Técnica fabricavam com as suas, e sem a ajuda de operários profissionais, lindas máquinas de vapor, desde a pesada caldeira até o último parafuso, maquinaria agrícola e aparelhos científicos, tudo para a indústria, recebendo os primeiros prêmios pelo trabalho manual nas Exposições Internacionais. Eram hábeis artesãos educados cientificamente – trabalhadores com educação universitária –, altamente apreciados até pelos fabricantes russos, que tanto desconfiam da ciência.

Pois bem, o método adotado para obter tão excelente resultado foi o seguinte. No tocante à ciência, decorar era pouco conveniente, mas a pesquisa independente era estimulada por todos os meios possíveis: ensinava-se a ciência ao lado de suas aplicações e o que se aprendia na sala de aula se aplicava na oficina, dando-se muita atenção às mais elevadas abstrações da geometria, como meio de desenvolver a inteligência e o amor à pesquisa. Quanto ao ensino da arte mecânica, o sistema adotado era bem diferente daquele que fracassou na Universidade de Cornell, e bem diferente também dos usados na maioria das escolas técnicas. Não se mandava o estudante a uma oficina para aprender um determinado ofício e ganhar com ele a vida o mais rápido possível, mas sim praticar um ensino conforme o plano elaborado pelo fundador da escola, M. Dellavros, e que agora é aplicado também em Chicago e Boston, do mesmo modo sistemático que se usa para ensinar o trabalho de laboratório nas universidades.

O desenho, como é natural, era considerado como o primeiro passo na educação técnica. Depois se levava o aluno à oficina de carpintaria, ou melhor, laboratório, onde se lhe ensinava por completo o ofício, não se poupando nenhum esforço para alcançar tal resultado, pois ele era considerado, e com razão, a verdadeira base de toda a indústria. Mais tarde era encaminhado à oficina do torneiro, onde aprendia a construir em madeira os modelos das coisas que teria de fazer em metal nas oficinas seguintes. Depois seguia a fundição, onde se lhe ensinava a fundir as partes das máquinas que preparara na madeira. E só depois de ter passado pelos três primeiros estágios é que era admitido nas oficinas de ferreiro e maquinaria. Este é o sistema que os leitores encontrarão detalhadamente descrito numa obra de Mr. Ch. H. Ham. Quanto à perfeição do trabalho mecânico dos estudantes, não vejo nada melhor do que referir-me às memórias dos jurados nas mencionadas exposições.

Na América se introduziu o mesmo sistema quanto à parte técnica, primeiro, na Escola de Artes e Ofícios de Chicago, e mais tarde na de Boston que, conforme me garantiram, é a mais perfeita de todas. Neste país, ou melhor, na Escócia, encontrei o sistema aplicado com muito bom êxito, durante alguns anos, sob a direção do doutor Olgivie, no colégio de Gordon, em Aberdeen, numa escala mais limitada. Dá-se ao aluno, ao mesmo tempo, uma profunda educação científica e uma boa prática de oficina. Mas não num ofício específico, como infelizmente ocorre com frequência. Passa pela oficina de carpintaria, de fundição e de maquinaria, e em cada uma delas aprende os fundamentos dos três ofícios, a ponto de equipar a escola com uma boa quantidade de coisas úteis. Ademais, segundo o que pude observar nas aulas de geografia e física, assim como também no laboratório de química, o sistema “da mão ao cérebro”, e vice-versa, encontra-se totalmente em ação, sendo coroado de êxito. Os meninos trabalham com os instrumentos físicos, e estudam geografia no campo, com instrumento na mão, do mesmo modo que na aula. Como velho geógrafo, alguns trabalhos topográficos encheram me o coração de alegria. É evidente que o departamento industrial do colégio de Gordon não é uma mera cópia de nenhuma escola estrangeira, pelo contrário, não posso deixar de acreditar que, se Aberdeen deu um grande passo para a integração entre a ciência e o ofício, foi como consequência natural do que se vinha praticando, em pequena escala, nas escolas da referida cidade.

A Escola Técnica de Moscou não é, entretanto, uma escola ideal. Não dá aos jovens a educação humanitária. Mas, não obstante, devemos reconhecer que essa experiência, sem falar de centenas de outras parciais, demonstrou de modo incontestável a possibilidade de integrar uma elevada educação científica com o que é necessário para se chegar a ser um hábil artesão. Ela provou que o melhor meio de produzir artesãos verdadeiramente hábeis era tomar a coisa pela base, abrangendo o problema da instrução em toda a sua extensão, em vez de dar alguns conhecimentos num determinado ofício e instruir um pouco em algum tipo especial de ciência. E isto fez ver também o que se pode obter sem apertar muito os alunos, se se tiver sempre o cuidado de aplicar uma economia racional ao tempo dedicado ao trabalho, e se a teoria caminhar sempre ao lado da prática. Considerados sob este ponto de vista, os resultados de Moscou não oferecem nada de extraordinário e poderiam mesmo ser melhores se estes métodos fossem aplicados desde os primeiros anos da educação. A perda de tempo é o traço mais característico do nosso sistema atual. Ensina-se uma quantidade de coisas inúteis e de tal modo que gastamos muito mais tempo do que o necessário para aprender. O nosso atual sistema de ensino tem origem numa época em que o que se exigia de uma pessoa bem instruída era mais limitado, e isto não se modificou, apesar do considerável aumento de conhecimentos que o estudante deve ter, desde que a ciência ultrapassou os seus antigos limites. Daí o aumento de pressão nas escolas, assim como também a urgente necessidade de modificar, tanto o texto como o sistema, de acordo com as novas necessidades e os exemplos que aqui e ali nos dão as diferentes escolas e diferentes professores.

Não há dúvida de que os anos da infância não deveriam ser empregados tão inutilmente como acontece hoje. Os professores alemães demonstraram até que ponto os brinquedos infantis servem de instrumento para dar conhecimentos concretos em geometria e matemática. Os meninos que fizeram os quadros do teorema de Pitágoras com pedaços de cartolina colorida não o verão, quando chegar a hora de estudar geometria, como um instrumento de tortura idealizado pelo professor para martirizá-los, e muito menos ainda, se o aplicarem da maneira como fazem os carpinteiros. Problemas complicados de aritmética, que dão tanto trabalho na infância, são resolvidos facilmente por crianças de sete ou oito anos, se forem apresentados sob forma atrativa e interessante. E se o Kindergarten, do qual os professores alemães fazem frequentemente uma espécie de barraca em que cada movimento da criança é regulado de antemão, se transformou numa pequena prisão para os meninos, a ideia que precedeu à sua fundação é, no entanto, válida. Em suma, é quase impossível imaginar, sem haver experimentado, quantos conhecimentos úteis, hábitos de classificação e gosto pelas ciências naturais podem ser inculcados na mente da criança. E se uma série de cursos concêntricos, adaptados às várias fases do desenvolvimento do ser humano, fossem utilizados na educação, os primeiros conhecimentos em todas as ciências, excetuando a sociologia, poderiam ser ensinados antes dos dez ou doze anos, de modo que dessem uma ideia do universo, da terra e seus habitantes e dos principais fenômenos físicos, químicos, sociológicos e botânicos, deixando a descoberta das suas leis para um outro tipo de estudos mais profundos e específicos. Por outro lado, sabemos como as crianças gostam de fazer elas mesmas os seus brinquedos e com que prazer imitam o trabalho dos adultos, quando os veem ocupados na oficina ou na obra. Mas os pais estupidamente bloqueiam essa paixão ou não sabem como utilizá-la. A maior parte deles deprecia o trabalho braçal e prefere mandar os filhos estudarem história romana ou o método de Franklin para fazerem dinheiro, em vez de vê-los dedicar-se a um trabalho que é próprio das “classes inferiores”. Assim, os pais fazem todo o possível para aumentar as dificuldades dos estudos posteriores.

Depois vêm os anos de colégio e de novo se torna a perder o tempo de modo incrível. Tomemos, por exemplo, a matemática, que todos deveriam saber porque é a base de toda educação posterior, e que tão poucos aprendem em nossas escolas. Infelizmente se perde muito tempo em geometria usando um sistema que consiste em confiar tudo à memória. Na maioria dos casos, a criança lê várias vezes a demonstração de um teorema até que sua memória retém a série de raciocínios. Por esta razão, nove entre dez meninos, dois anos depois de deixarem a escola, não conseguirão reproduzir a demonstração de um teorema elementar, a não ser que se tenham dedicado à matemática. Esquecerão quais as linhas auxiliares que devem traçar, uma vez que nunca aprenderam a descobrir a demonstração por si mesmos. Não é, pois, de se admirar que mais adiante eles encontrem tantas dificuldades em aplicar a geometria à física, que progridam tão penosamente e que sejam tão poucos os que dominem os altos estudos matemáticos. E, no entanto, há outro método que facilita o avanço em geral, com muito mais rapidez, e com o qual aquele que uma vez aprendeu geometria jamais o esquecerá. Este sistema se apresenta como um problema cuja solução não é dada de antemão e, portanto, o aluno terá que buscá-la por si mesmo. Deste modo, se se fizerem antes alguns exercícios com régua e compasso, não haverá nem uma criança entre vinte ou trinta que não consiga traçar um ângulo que seja igual a outro lado e demonstrar que são iguais, através somente de algumas indicações do professor. E se os problemas posteriores se apresentarem numa sucessão sistemática (há excelentes livros de texto dedicados a tal propósito), e se o professor não apressar os alunos, fazendo-os avançar mais rapidamente do que podem, eles passarão de um problema a outro com surpreendente facilidade. O professor só terá de fazer com que o aluno resolva o primeiro problema e deste modo adquira confiança em seu modo de raciocinar.

Além disso, cada verdade geométrica deve ser gravada na inteligência em sua forma concreta. Tão logo os alunos resolvam alguns problemas no papel, devem fazer o mesmo no espaço dedicado ao recreio, com pause corda, e depois aplicar estes conhecimentos na oficina. Somente então as linhas geométricas adquirirão um significado concreto na mente das crianças, só então verão que o professor não está brincando quando diz que resolvam os problemas com régua e compasso, sem necessidade de apelar para outros meios, só então saberão geometria. “Dos olhos e da mão ao cérebro”, este é o verdadeiro princípio de economia de tempo no ensino. Recordo, como se fosse hoje, como aprendi rapidamente a geometria sob um aspecto novo e como isto facilitou todos os estudos posteriores. Tratava-se de fabricar um balão mongolfier e eu observei que os ângulos da parte superior de cada uma das tiras de papel com que se havia de compor o balão devia, cada uma, cobrir menos da quinta parte de um ângulo reto. Recordo ainda como as raias e tangentes deixaram de ser meros signos cabalísticos, desde o momento em que nos permitiram calcular a altura de um pau no perfil da obra de uma fortaleza, e como se tornava simples a geometria aplicada ao espaço, quando começamos a fazer em pequena escala um baluarte com torneiras e barbetas, ocupação que, como era de se esperar, foi logo proibida por causa do estado em que ficavam nossas roupas. “Vocês parecem operários”, diziam nossos professores, reprovando-nos. Porém isto, e o consequente desenvolvimento do uso da geometria, era para nós uma verdadeira satisfação.

Ao obrigar nossos filhos a estudarem coisas reais, a partir de meras representações gráficas, em vez de procurar que eles as façam por si mesmos, estamos causando uma perda de tempo preciosa. Cansamos inutilmente a sua imaginação. Acostumamo-los ao pior sistema de aprendizagem, matamos em flor a independência do pensamento, e poucas vezes conseguimos dar um verdadeiro conhecimento sobre aquilo que nos propomos ensinar. O caráter superficial, a repetição como papagaio e a prostração e inércia do entendimento são o resultado deste nosso método de educação. Não lhes ensinamos o modo de aprender. E até os próprios princípios da ciência lhe são transmitidos por meio de um sistema bastante abstrato, enchendo-se a cabeça das pobres criaturas somente com regras.

A ideia de unidade, que é arbitrária e pode mudar segundo o nosso modo de medir (o fósforo, a caixa de fósforos, a dúzia de caixa de fósforos ou a grosa, o metro, o centímetro, o quilômetro e assim por diante), não se imprimiu na mente e, por isso, quando os meninos chegam às frações decimais se veem impossibilitados de compreendê-las, enquanto que na França, onde o sistema é coisa corrente, tanto nas medidas quanto nas moedas, até mesmo aqueles operários que só tiveram instrução elementar, são familiarizados com os decimais. Para representar vinte e cinco centavos escrevem “zero vinte e cinco”, e a maioria dos meus leitores deve, sem dúvida, lembrar de como esse mesmo zero no início de uma série de números nos confundia na infância. Procuramos também, por nossa parte, tornar a álgebra incompreensível, e nossos filhos levam um ano inteiro para aprender não a álgebra, mas um simples sistema de abreviaturas que se poderia estudar facilmente se fosse ensinado junto com a aritmética.

O tempo que se perde na física é deplorável. Enquanto os jovens entendem com muita facilidade os princípios da química e suas fórmulas, desde o momento em que começam a fazer experiências com vasos e tubos, a maioria encontra muita dificuldade na parte mecânica da física, devido, em primeiro lugar, ao fato de não saberem geometria, e especialmente porque só lhes dão máquinas complicadas, em vez de induzi-las a fazer simples aparelhos para ilustrar os fenômenos que estão estudando. Em vez de aprender as leis das forças com instrumentos pouco complicados, que um menino de quinze anos poderia facilmente fazer, os alunos estudam por meio de desenhos, de forma puramente abstrata. Em vez de construírem sozinhos uma máquina Atwood com o cabo de uma vassoura e a roda de um relógio velho, ou comprovarem as leis da queda dos corpos fazendo deslizar uma chave por uma corda em diagonal, mostra-se a eles um aparelho complicado, ocorrendo às vezes que o próprio professor não sabe como explicar-lhes os princípios em que o aparelho se fundamenta, o que o obriga algumas vezes a incorrer em erros, e assim acontece com todas as coisas, do princípio ao fim, com poucas exceções.

Se a perda de tempo é um traço característico de nossos métodos para ensinar a ciência, será também para ensinar uma arte. Sabemos como se perde tempo, quando um rapaz aprende numa oficina, e a mesma observação se pode fazer, até certo ponto, sobre os colégios técnicos que procuram ensinar, desde o início, um determinado ofício, em vez de recorrer aos mais amplos e seguros métodos de ensino sistemático. Assim como há nas ciências algumas noções e sistemas que servem de preparação para o estudo de todas, há também aquelas que servem de fundamento para o estudo específico de qualquer ofício. Reuleaux demonstrou num interessante livro, a Theoretische Kinematik, que contém, digamos assim, uma filosofia de toda espécie de maquinaria. Cada máquina, por mais complicada que seja, pode-se reduzir a um número limitado de elementos – pranchas, cilindros, discos, cones, etc. –, assim como as poucas ferramentas – cinzéis, serras, pilões, martelos, etc. – e, por mais complicados que sejam os seus movimentos, podem-se decompor num reduzido número de modificações da ação, tais como, transformação do movimento circular em retilíneo, e outras pelo estilo, com certo número de elos intermediários. Assim também cada ofício pode-se decompor numa grande quantidade de elementos. Em cada um há que se saber fazer uma prancha com superfícies paralelas, um cilindro, um disco, um quadro e um buraco redondo; como manejar um número limitado de ferramentas, não sendo elas mais do que meras modificações de uma dúzia de tipos; e como se transformam os movimentos. Este é o fundamento de toda a arte mecânica. De modo que o conhecimento da fabricação em madeira desses elementos primordiais, o conhecimento do manejo das principais ferramentas de carpinteiro deveria ser a verdadeira base de todo o conhecimento da arte mecânica.

Além disso, ninguém pode ser bom estudante de ciências se não tiver conhecimentos de meios adequados de pesquisa científica, se não tiver aprendido a observar, a descrever com exatidão, a descobrir as mútuas relações entre fatos aparentemente independentes, a levantar hipóteses e prová-las, a raciocinar sobre a causa e o efeito, e assim por diante.

E ninguém poderá ser um bom artesão, se não estiver familiarizado com um bom método de arte mecânica. É necessário que cada um se acostume a conceber o objeto do seu pensamento numa forma concreta, desenhá-lo ou modelá-lo, evitar o descuido das ferramentas, os maus hábitos de trabalho, dar a tudo um bom toque de efeito final, sentir prazer na contemplação do belo e desprezar o feio. Seja arte mecânica, ciências ou belas artes, a principal aspiração do ensino não deve ser a de fazer do principiante um especialista, mas ensinar-lhe os elementos fundamentais e os bons hábitos de trabalho. E sobretudo dar-lhe essa aspiração geral que mais tarde o levará a pôr em tudo o que realizar o amor à verdade, a ver com prazer tudo o que é bonito, tanto na forma quanto no fundo, a sentir necessidade de ser útil aos demais seres humanos e conseguir que o seu coração bata em uníssono com todos os semelhantes.

Quanto a evitar a monotonia do trabalho, que decorreria do fato de o discípulo só fazer cilindros e discos e não máquinas completas ou outros objetos inúteis, há uma infinidade de meios para impedir que isto aconteça, e um deles, usado em Moscou, é digno de menção. Não é dar trabalho somente como mero exercício, mas utilizar tudo o que o aluno faz desde o primeiro momento. Vocês não se lembram do prazer que sentiam na juventude ao ver que o trabalho que faziam era aproveitado, ainda que só em parte, em qualquer coisa útil? Pois isso se pratica em Moscou: cada peça que o aluno constrói é utilizada como parte de alguma máquina em qualquer das outras oficinas. Quando o estudante entra numa oficina de maquinaria e se põe a fazer um bloco quadrangular de ferro com superfícies paralelas e perpendiculares, este trabalho não deixa de ser interessante para ele, porque sabe que, uma vez concluído e depois de haver provado os seus ângulos e superfícies e corrigido os seus defeitos, não será jogado fora, mas sim passado a outro aluno mais adiantado que irá arrematá-lo, pintá-lo e o enviará à loja do colégio como peso para segurar papéis, recebendo deste modo o ensino sistemático um caráter bastante atrativo.

É evidente que a rapidez no trabalho é um fator importante na produção; de modo que há motivo para perguntar se com este sistema se obteria a necessária velocidade. Respondemos que há dois tipos de rapidez: a que vi numa fábrica de fitas em Nottingham, onde homens adultos, com mão se cabeças trêmulas, trabalhavam de maneira intensa, ligando os restos de fios que sobram nas bobinas, não sendo possível seguir com os olhos a rapidez dos seus movimentos. Mas o próprio fato de se necessitar de um trabalho tão violento é a maior condenação do sistema da grande indústria. O que resta do ser humano atrás destes corpos tão trêmulos? Quais serão as consequências disto? Para que tal desgaste da força humana, quando ela poderia produzir dez vezes o valor do resto do fio que se pretende aproveitar? Este tipo de rapidez só se justifica em função da economia resultante do trabalho escravo na fábrica. Por este motivo não devemos esperar que nenhum colégio aspire a semelhante rapidez no trabalho. Mas existe também a rapidez que representa uma economia de tempo dos operários habilidosos, a que se obtém por meio da educação que apregoamos.

Por mais simples que seja o trabalho, o operário instruído o realizará melhor e mais rápido do que o que carece de instrução. Observe-se, por exemplo, como faz um bom operário para cortar qualquer coisa; suponhamos que se trate de um pedaço de cartolina; é fácil comparar os seus movimentos com os de alguém não adestrado. Este toma a cartolina, pega o instrumento de corte sem olhá-lo, traça uma linha de qualquer jeito e começa a cortar; estará cansado no meio do trabalho, e quando terminar vai ver que o que fez não tem valor algum. E aquele, ao contrário, começará examinando o material que vai utilizar, ajeitando-o se for necessário, traçará a linha com exatidão, segurará ao mesmo tempo a cartolina e a régua, pegará com habilidade o instrumento de corte, cortará facilmente, apresentando assim um trabalho bem feito. Este é o tipo de rapidez que economiza tempo. Assim deve ser com o trabalho humano, e o melhor meio de obtê-la é através da melhor instrução possível. Os grandes mestres pintavam com uma rapidez surpreendente, mas isto era resultante do grande desenvolvimento de sua inteligência e imaginação, de uma delicada concepção do belo e de uma fina percepção das cores. E este é o tipo de trabalho rápido que faz falta à humanidade.

Muito mais poderíamos acrescentar com relação aos deveres da escola, mas me limitarei somente a dizer mais algumas palavras a respeito da conveniência de estabelecer o sistema de educação ligeiramente esboçado nas páginas precedentes. Inútil seria dizer que não se deve alimentar a esperança de que haja em educação e em algum dos pontos tratados nas páginas anteriores alguma reforma verdadeiramente importante, enquanto as nações civilizadas permanecerem sob o atual, estreito e egoísta, sistema de consumo e produção. Tudo o que podemos esperar, enquanto durarem as atuais condições, é tentar, aqui e ali, de maneira microscópica, fazer alguma melhoria em escala limitada; tentativas que, por necessidade, se encontrarão muito abaixo dos resultados desejados, por causa da impossibilidade de informar em pequena escala, quando é tão estreita a conexão existente entre as múltiplas funções de uma nação civilizada. Mas a energia do gênio construtivo da sociedade depende, principalmente, da profundidade de suas concepções a respeito do que se deveria fazer e de que modo; e a necessidade de reconstruir o ensino é uma daquelas que está mais ao alcance de todos e é das mais adequadas para inspirar à sociedade esses ideais, sem os quais o estancamento e até mesmo a decadência são inevitáveis. Suponhamos, pois, que uma comunidade – uma cidade ou um território com pelo menos: alguns milhões de habitantes – desse o tipo de instrução que resenhamos, a todos os seus filhos, sem distinção de origem (e somos bastante ricos para permitir-nos esse luxo), sem pedir-lhes nada em troca, senão o que darão quando se tornarem produtores da riqueza; suponhamos que se tenha dado tal educação e analisemos as suas prováveis consequências.

Não insistirei no aumento de riqueza resultante de se ter um jovem exército de produtores bem instruídos e bem capacitados; nem tampouco nos benefícios sociais provenientes de se eliminar as atuais distinções entre os trabalhadores intelectuais e braçais; e de se chegar assim à concordância harmoniosa de interesses, tão necessária nestes tempos de lutas sociais. Nada direi sobre o complemento de vida de que todos desfrutariam, desde o momento em que pudessem gozar do uso das suas faculdades mentais e corporais e nem das vantagens que resultariam de se elevar o trabalho mecânico ao posto de honra que de direito lhe corresponde na sociedade, em vez de ser, como acontece hoje, um sinal de inferioridade. Não insistirei também na necessidade de desaparecer a miséria e a degradação presentes, com seu cortejo de vícios, crimes, prisões e toda sorte de indignidades, que são suas naturais consequências. Enfim, não tocarei agora na grande questão social sobre que tanto se escreveu e tanto falta ainda para escrever: somente me proponho chamar a atenção nestas páginas sobre os benefícios que a própria ciência lograria com a mudança.

Não faltará naturalmente quem diga que rebaixar os homens de ciência à categoria de trabalhadores braçais representaria a decadência daquela e do gênio; mas, os que assim consideram, é provável que hão de convir em que o contrário é precisamente o que deveria acontecer, isto é, um progresso tal nas ciências e nas artes e tão grande avanço na indústria, que mal poderíamos imaginar, podendo compará-lo com a época do Renascimento. Praticou-se uma vulgaridade, falando com ênfase dos progressos da ciência neste século; e, no entanto, é evidente que se se comparar com os séculos passados há muito de que se orgulhar. Mas se considerarmos que a maior parte dos problemas que o nosso século resolveu já haviam sido propostos e suas soluções previstas há cem anos, teremos que admitir que o avanço não foi tão rápido assim como era de se esperar, e que sem dúvida nenhuma há algo que o dificulta.

A teoria mecânica do calor foi perfeitamente prevista no século passado por Rumford e Humphrey Davy, e mesmo na Rússia ela foi preconizada por Somonoraff. E, no entanto, foi preciso mais de meio século para que a teoria reaparecesse na ciência. Lamark, e mesmo Lineu, Geoffroy Saint-Hilaire, Erasmo, Darwin e muitos outros tinham perfeito conhecimento da variabilidade das espécies; eles abriram o caminho que leva à constituição da biologia dentro dos princípios da diferenciação. Mas neste caso, também foi preciso meio século para que a questão da variabilidade das espécies voltasse à ordem do dia, e todos sabemos de que modo as ideias de Darwin se divulgaram e se impuseram à juventude universitária, em geral, através de pessoas que pertenciam ao magistério, e isto que nas mãos de Darwin a teoria da evolução era limitada, devido à excessiva importância dada a um só fator da evolução.

Há muito tempo a astronomia está precisando fazer uma revisão nas hipóteses de Kant e Laplace, mas ainda não apareceu nenhuma teoria que seja aceita em geral. A geologia fez sem fez, sem dúvida, maravilhosos progressos na reconstituição dos conhecimentos paleontológicos, mas a geologia dinâmica, ao contrário, caminha com uma lentidão espantosa, enquanto que todo avanço posterior na grande questão relacionada com as leis da distribuição dos organismos vivos na superfície da terra fica paralisada pela falta de conhecimentos a respeito da extensão do período glaciário durante a era quaternária. Por último, cm cada ramo da ciência, impõe-se uma revisão das teorias correntes, assim como uma nova e ampla generalização, e se a primeira requer a inspiração do gênio que impulsionou a Galileu e Newton, ela reclama também um aumento no número dos cientistas. Quando os fatos contrários às teorias correntes se tornam numerosos, estas têm que ser revistas (vimos isto no caso de Darwin), e para tanto são necessários muitos cientistas.

Imensas regiões da terra estão ainda por explorar; o estudo da distribuição geográfica dos animais e das plantas se depara a cada passo com sérias dificuldades. Os exploradores atravessam os continentes sem saber nem mesmo como determinar a latitude e nem como manejar um barômetro. A fisiologia, tanto das plantas como dos animais, a psicofisiologia e as faculdades psicológicas do homem e dos animais são outros tantos ramos do saber humano que reclamam mais antecedentes para fortalecer as suas bases. A história continua sendo uma fable convennue [fábula acordada], principalmente pela falta de novas ideias, e também porque necessita de operários que pensem de um modo científico para reconstituir a vida dos séculos passados, do mesmo modo que Harold, Rogers ou Agostinho Kierry fizeram com relação a uma determinada época. Em suma, não há nenhuma ciência que não sofra no seu desenvolvimento por falta de gente que possua uma concepção filosófica do universo, disposta a aplicar sua capacidade de pesquisa num determinado campo, por mais limitado que seja, e que disponha do tempo necessário para se ocupar da especulação científica.

Numa comunidade como a que imaginamos haveria milhares de trabalhadores sempre dispostos a atender ao primeiro chamado. Darwin levou cerca de trinta anos reunindo e analisando fatos para a elaboração da teoria da origem das espécies. Mas se tivesse vivido numa sociedade como a que imaginamos, a um só chamado solicitando o concurso dos demais para dados e explorações parciais, teria encontrado milhares de pessoas para responder a seu chamado. Uma multidão de sociedades teria surgido para discutir e resolver cada um dos problemas parciais englobados na teoria, e em menos de dez anos teria chegado à comprovação dos fatos. Todos esses fatores da evolução que só agora é que começam a ser objeto de atenção, teriam aparecido logo em toda a sua magnitude. A rapidez do progresso científico se teria multiplicado muitas vezes. E se um indivíduo isolado não reunisse em si tantos títulos reconhecidos pela posteridade, como acontece hoje em dia, a massa anônima teria feito o trabalho com mais velocidade e com mais probabilidade de avanços posteriores do que uma pessoa só em toda a sua vida. O Dicionário de Murray é um exemplo deste tipo de trabalho do qual depende o futuro.

Além disso há outro aspecto da ciência moderna que fala com mais veemência ainda a favor da mudança que propomos. Enquanto a indústria, desde fins do século passado e durante a primeira parte do presente, vem criando em tal escala, que se pode bem dizer que transformou a própria face da terra, à ciência vem perdendo a sua capacidade criativa. Os cientistas deixaram de criar ou o fazem em escala muito pequena. Não é estranho que a máquina a vapor, mesmo em seus princípios fundamentais, a locomotiva, o navio a vapor, o telefone, o fonógrafo, o tear mecânico, a fotografia em preto e branco e colorida, e milhares de outras coisas menos importantes não tenham sido inventadas por cientistas profissionais, embora nenhum deles visse inconveniente algum em ligar o seu nome a qualquer uma dessas invenções?

Homens que mal haviam recebido instrução na escola e que só haviam recolhido as migalhas do saber da mesa do rico, tendo que se valer dos meios mais primitivos para fazer os seus ensaios – o tabelião Smeeton, o instrumentalista Watt, o construtor de carroças Stephenson, o aprendiz de prataria Fulton, o construtor de moinhos Rennie, o pedreiro Telford, e centenas de outros de quem nem mesmo os nomes se conhecem – foram, como com razão diz Smiles, “os verdadeiros autores da civilização moderna”. Enquanto que os cientistas profissionais, providos de todos os meios de adquirir conhecimentos e de experimentar, representam uma parte insignificante dos instrumentos, máquinas e primeiros motores que mostraram à humanidade o modo de utilizar e manejar as forças da natureza [1]. O fato é significativo e, no entretanto, a explicação é bem simples: aqueles homens – os Watts e os Stephenson – sabiam algo que os sábios ignoram, sabiam valer-se das próprias mãos; o meio em que viviam estimulava as faculdades criativas, conheciam as máquinas, seus fundamentos e ação, haviam respirado a atmosfera da oficina e da obra.

Os homens de ciência vão dizer com certeza: nós descobrimos as leis da natureza; que outros as apliquem; trata-se de uma simples distribuição de tarefas. Mas esta resposta não se baseia na verdade. O que acontece é justamente o contrário, pois, em noventa e nove por cento dos casos, a invenção mecânica vem antes do descobrimento da lei científica. A teoria dinâmica do calor não apareceu antes da máquina a vapor, mas sim depois. Quando milhões de máquinas já transformavam o calor em movimento, diante dos olhos de centenas de professores, por meio século ou mais; quando milhões de trens, controlados por poderosos freios, desprendiam calor e lançavam inúmeras faíscas nos trilhos ao aproximar-se das estações; quando em todo q mundo civilizado os pesados martelos e as perfuradoras passavam intenso calor às massas de ferro sobre as quais agiam, somente então foi que um doutor, Mayer, se aventurou a anunciar a teoria mecânica do calor com todas as suas implicações, e, no entanto, os cientistas por pouco não o empobreceram, apegando-se obstinadamente ao misterioso fluido calórico, qualificando o livro de Joule sobre a equivalência mecânica do calor de “pouco científico”.

Quando as máquinas demonstravam a impossibilidade de utilizar todo o calor emitido por uma determinada quantidade de combustível queimado é que apareceu a lei de Cláusio. E quando em todo o mundo a indústria já transformava o movimento em calor, som, luz e eletricidade, e vice-versa, foi que apareceu a teoria de Grave sobre a “correlação das forças físicas”. Não foi a teoria da eletricidade que nos deu o telégrafo. Quando este foi inventado não conhecíamos a respeito dela mais do que dois ou três fatos apresentados sem muita exatidão em nossos livros. Sua teoria não está ainda formulada, aguarda um Newton, apesar dos brilhantes esforços destes últimos anos. Ainda estava nos seus princípios o conhecimento empírico das leis nas correntes elétricas, quando alguns homens de valor estenderam um telégrafo no fundo do Oceano Atlântico, apesar das críticas das autoridades científicas. O nome de “ciência aplicada” pode induzir a erro, porque na maior parte dos casos o invento, longe de ser uma aplicação da ciência, faz, pelo contrário, com que se produzam novos ramos. As pontes americanas não foram uma aplicação da teoria da elasticidade, foram anteriores a ela e tudo o que se pode dizer em favor da ciência é que neste ramo específico a teoria e a prática se desenvolviam paralelamente, ajudando-se com reciprocidade. Não foi a teoria dos explosivos que levou à descoberta da pólvora. Esta era usada já há séculos, quando a ação dos gases num canhão foi submetida a uma análise científica. E assim sucessivamente: o grande processo da metalurgia, as fundições e as propriedades que estas adquirem pela adição de uma pequena quantidade de algum metal ou metaloide; o recente impulso que tomou a luz elétrica, e mesmo as previsões referentes às mudanças do tempo, que com razão mereceram o qualificativo de “anticientificismo””, quando foram inauguradas pelo velho marinheiro Fitzroy, tudo isto se poderia mencionar como exemplo para o que foi exposto. Não por isso se há de negar que, em algumas ocasiões, a descoberta ou a invenção não foi mais do que a simples aplicação do princípio científico, como, por exemplo, o descobrimento do planeta Netuno. Mas, na maioria dos casos, é exatamente o contrário o que ocorreu. Esta aptidão corresponde muito mais ao domínio da arte do que ao da ciência, como demonstrou Helmholtz numa de suas conferências populares. E só depois de se ter realizado o invento é que a ciência lhe vem dar a sua interpretação. É evidente que cada invento se aproveita dos conhecimentos acumulados previamente e das formas de sua manifestação. Mas em geral ele se sobrepõe ao que se sabe, dá um salto no desconhecido e, deste modo, abre uma nova série de fatos que a pesquisa oferece. Este caráter da inventiva, que consiste em dar um passo além dos conhecimentos existentes, em vez de limitar-se a aplicar uma lei, a assimilá-la, quando se refere ao processo da inteligência, ao descobrimento. Por conseguinte, as pessoas que têm dificuldade para inventar, têm também para descobrir.

Na maioria dos casos, o inventor, apesar de ser influenciado pela situação geral da ciência num determinado momento, põe-se a trabalhar com os poucos fatos comprovados que se encontram à sua disposição. Os dados científicos levados em conta para a invenção da máquina a vapor, do telefone e do fonógrafo, foram notadamente elementares. De modo que podemos afirmar que o que sabemos atualmente já é suficiente para resolvermos qualquer dos grandes problemas que apareçam: motores primários que dispensam o vapor, a acumulação da energia, a transmissão de força ou a máquina voadora. Se estes problemas não se resolveram ainda, é somente por causa da falta de gênio inventivo, de escassez de homens ilustrados, e do atual divórcio entre a ciência e a arte. De um lado, temos homens dotados de capacidade inventiva, mas que carecem tanto dos necessários conhecimentos científicos, como dos meios de entregar-se por muitos anos à experimentação. E de outro, pessoas com conhecimentos e facilidades para a experimentação, mas desprovidas de gênio inventivo, devido à educação e ao meio em que vivem, sem mencionar o sistema de patentes que separa e dispersa os esforços dos inventores, em vez de aproximá-los e uni-los.

A chama do gênio que caracterizou os operários nos primeiros tempos da indústria moderna brilhou pela ausência entre nossos cientistas profissionais, e estes não poderão recuperá-la enquanto estiverem afastados do mundo, vivendo na poeira das bibliotecas. E enquanto também não resolverem trabalhar ao lado dos operários, no calor da forja, nas máquinas das fábricas, e no torno da oficina mecânica, mesmo sendo marinheiros no mar e pescadores nas costas, lenhadores nos bosques e agricultores nos campos. Demonstrando que a arte grega e medieval eram filhas da arte antiga e que se alimentavam mutuamente, nossos professores de arte nos disseram repetidas vezes que não devemos esperar uma ressurreição da arte antiga enquanto a arte mecânica for o que é hoje. E o mesmo se pode dizer com relação à ciência; a sua separação prejudica os dois. E a respeito das grandes inspirações que infelizmente foram tão relegadas em grande parte das discussões sobre artes – acontecendo o mesmo com relação à ciência – só poderemos tê-las quando a humanidade, rompendo os seus atuais laços, der um novo passo em direção aos mais elevados princípios da sociologia, acabando de vez com o atual dualismo entre o sentido moral e filosofia.

É evidente, entretanto, que todas as pessoas não podem usufruir ao mesmo tempo de ocupações puramente científicas, pois a variedade de inclinações é tal que muitos estarão melhor nas ciências, outros nas artes, e outros também nos inúmeros ramos da produção de riqueza. Mas qualquer que seja a ocupação de cada um, o serviço que pode prestar dentro do que escolheu será tanto maior quanto maior for o seu conhecimento científico. Seja ele homem da ciência ou artista, físico ou cirurgião, químico ou sociólogo, historiador ou poeta, ganhará muito se empregar parte do seu tempo na oficina ou na granja, se estiver em contato com a humanidade no seu trabalho diário e se tiver a satisfação de saber que ele também, sem fazer uso de nenhum tipo de privilégio, desempenha sua função com qualquer outro produtor de riqueza. Que grande conhecimento da humanidade teriam o historiador e o sociólogo, se aquele o obtivesse não só através dos livros ou de alguns de seus representantes, mas através do conjunto, da vida, do trabalho e das suas relações diárias. A Medicina cuidaria muito mais da higiene do que a Farmácia, se os jovens doutores fossem, ao mesmo tempo, enfermeiros, e se estes, por sua vez, recebessem a mesma instrução que a dos médicos! Quão mais poderia apreciar o poeta a beleza da Natureza e quão mais conheceria o coração humano, se visse sair o sol com os trabalhadores no campo, sendo ele também um agricultor; se lutasse contra a tempestade com os marinheiros, a bordo de algum navio; se conhecesse a poesia do trabalho e do descanso, da tristeza e da alegria, da luta e da vitória!

A chamada divisão do trabalho é filha de um sistema que condena as massas a trabalhar o dia inteiro, a vida inteira numa mesma e monótona tarefa. Mas se levarmos em conta a limitação do número dos verdadeiros produtores da riqueza em nossa sociedade atual e como se dilapida esse trabalho, haveremos de reconhecer que Franklin tinha razão ao dizer que cinco horas de trabalho diário bastariam, em geral, para proporcionar a cada indivíduo, numa nação civilizada, as comodidades de que agora só uns poucos podem usufruir, contanto que todos tomassem parte na produção. Mas de lá para cá alguma coisa avançou, mesmo no ramo mais atrasado da produção, como mostramos nas páginas anteriores. Mesmo nele a produtividade do trabalho pode aumentar imensamente, tornando-se fácil e atrativo.

Mais da metade da jornada de trabalho ficaria assim livre para que cada qual se dedicasse ao estudo das ciências e das artes ou a qualquer ocupação de sua preferência. E o trabalho no seu campo seria tão mais proveitoso quanto mais produtivo fosse o trabalho realizado no resto do dia, se a dedicação à ciência ou à arte fosse produto da inclinação natural e não questão de conveniência e interesses. Ademais, uma comunidade organizada sob o princípio de que todos sejam trabalhadores, seria bastante rica para convir em que todos os seus membros, homens ou mulheres, a uma certa idade, dos quarenta em diante por exemplo, fossem liberados da obrigação moral de tomar parte direta na execução do trabalhado braçal, podendo assim se dedicar completamente ao que mais lhe agradasse no terreno da ciência, da arte ou qualquer outro. E os avanços de todo gênero e em todos os sentidos surgiriam seguramente de tal sistema. Numa semelhante comunidade, não se conheceria a miséria em meio à abundância nem o dualismo da consciência que envenena a nossa existência e afoga todo nobre esforço, podendo-se livremente empreender o voo em direção às mais altas regiões do progresso, compatíveis com a natureza humana.


Notas:


[1] – A química é, em grande parte, uma exceção a esta regra. Será porque talvez o químico seja, sob certo aspecto, um trabalhador braçal? Aliás, nos últimos dez anos, presenciamos uma verdadeira ressurreição nas invenções científicas, principalmente na física, isto é, num ramo em que o mecânico e o homem da ciência estão frequentemente juntos.