sábado, 29 de outubro de 2022

Chamado à luta antirracista do proletariado contra a Rede de Farmácias São João

Ação direta realizada em resposta ao racismo capitalista praticado por seguranças da loja São João em Porto Alegre (RS).

No dia 22 de outubro de 2022, uma situação de racismo ocorreu em uma loja da rede de farmácias São João na Zona Leste de Porto Alegre (mais especificamente: na Avenida Bento Gonçalves, no bairro Paternon). O caso acabou sendo registrado por uma pessoa que gravou um vídeo que passou a circular pela internet (veja abaixo o vídeo). Neste vídeo podemos observar uma agressão contra uma mulher negra no estabelecimento da farmácia. Ela estava intercedendo contra os abusos dos seguranças que mantinham três jovens (também negros) presos no local sob falsa suspeita de furto.


Os três adolescentes negros estavam sendo acusados de furto de preservativos pelos funcionários da loja e, mesmo após não encontrarem nada com os meninos durante a revista, os seguranças da farmácia não os deixaram sair. É nesse momento que a cliente que grava o vídeo intervém em defesa deles, bem como mulher que é agredida com uma rasteira por um dos seguranças e tem sua perna quebrada (para mais informações, veja-se essa notícia da RDC TV: link).

Apesar do registro audiovisual, a Rede de Farmácias São João se manifestou em nota alegando que as agressões são justificáveis devido a uma tentativa de furto (uma falsificação total do ocorrido para encobertar o racismo praticado no estabelecimento).

Essa prática de distorção e falsificação dos fatos é recorrente e conhecemos bem ela. Por exemplo: quando a polícia militar busca justificar um salvo conduto das suas carnificinas (que incluem matanças, torturas, etc.), geralmente alegam-se coisas do tipo “havia suspeita de furto”, “havia suspeita de posse de arma”, etc. Em certos casos, a polícia costuma pegar a mochila dos chamados “elementos suspeitos” para colocar alguma arma que trazem consigo para criminalizar, afirmando que “o jovem tinha posse de arma ilegal”. Quanto mais o público é levado a acreditar nessas mentiras, mais facilmente se perpetuam os massacres e discriminações de todo o tipo. Portanto, podemos legitimamente levantar a seguinte hipótese: será que a narrativa do suposto “furto de preservativo” não tinha esse mesmo objetivo? O que teriam feito com aqueles adolescentes se ninguém tivessem feito nada? Lembremos do caso do Carrefour (situação que descrevemos em detalhes em nossas publicações, por isso sugerimos abrir o link que anexamos)… Em suma, há de se reconhecer a coragem dessas mulheres, negras e proletárias, que enfrentaram os abusos do sistema sem recuar!

De acordo com o advogado que está representando os três adolescentes, as famílias dos garotos foram até o DECA (Departamento Estadual da Criança e do Adolescente) para registrar boletim de ocorrência, mas foram informados de que deveriam voltar outro dia porque a delegacia estava cheia (uma forma de constrangê-los a sequer recorrerem diante da discriminação evidente). Enquanto isso, os funcionários da farmácia, mesmo sem prova alguma, registraram uma ocorrência no local e no mesmo dia! Um absurdo que só deixa escancarado a brutalidade do sistema contra pessoas negras e proletárias (bem como a parcialidade da justiça burguesa)!

Perante essas iniquidades do sistema capitalista, somente uma revolta incendiária é capaz de fazer o devido justiçamento diante de tantas vidas proletárias brutalizadas. É com esse espírito que também saudamos a ação direta exemplar realizada na noite daquele mesmo dia, conforme podemos observar abaixo na publicação do Twitter que incorporamos em nossa publicação:


Somente a ação direta, a iniciativa combativa e autônoma da classe proletária, pode lutar efetivamente contra as opressões e discriminações historicamente endógenas ao capitalismo. O Estado não passa da organização política do poder dominante da classe capitalista e sempre vai intervir a favor das empresas, em suma: da propriedade privada. Os boicotes também não são ferramentas próprias da luta proletária, pois são meros instrumentos da concorrência fazer pressão nos preços e ainda favorecer tantas outras empresas que igualmente partilham da mesma conduta sistêmica da economia mercantil.

É nesse sentido que será fundamental o ato marcado às 16 horas do dia 29 de outubro, em frente ao mesmo estabelecimento da São João (Av. Bento Gonçalves, nº 2255), onde estaremos nos colocando na luta diretamente.

Divulgação do “Ato Antirracista” contra a Rede de Farmácias São João.

Antes de enunciarmos nosso posicionamento, convém relembrar outro caso dessa mesma rede de farmácias onde poderemos compreender melhor como as empresas conseguem se safar de serem responsabilizadas por suas discriminações usando inclusive um “discurso antidiscriminatório”.

Antecedentes discriminatórios da Rede de Farmácias São João


Em outubro de 2021, a mesma Rede de Farmácias São João tinha se envolvido em outro caso de discriminação. Nessa ocasião, teria vazado um áudio de uma ex-funcionária que estava no cargo de gestão no Litoral Norte, onde orientava para que os recrutadores observassem as características físicas dos candidatos aos empregos. Ela afirmou em seu áudio:

“Vocês sabem que feio e bonito é o mesmo preço, né gente? (…) Vamos cuidar muito nas nossas contratações. Pessoas muito tatuadas VOCÊS SABEM QUE A EMPRESA NÃO GOSTA (…). Pessoas muito gordas, vocês sabem que… Então assim, cuidem as aparências. (…) Se pegar alguém, né, com todo respeito, ‘veado’ e tudo mais, tem que ser uma pessoa alinhada, que não vire a mão, não desmunheque (…)”.

 


Nessa ocasião, a empresa também tentou acobertar o caso e chegou a classificar o fato registrado como “fakenews”. No entanto, o evidente flagrante do áudio acabou obrigando a rede de farmácias a abrir uma sindicância administrativa interna para apuração dos fatos. Após concluir a investigação, a empresa repentinamente mudou de postura e supostamente “repudiou o comportamento” da então gestora, afirmando ser favorável à “diversidade e à inclusão”. Isso não passou, evidentemente, de uma falsificação descarada, pois a própria gestora afirma “vocês sabem que a empresa não gosta”, o que indica que a discriminação é uma política intrínseca à empresa.

O advogado da rede disse que a mulher “foi desligada por justa causa, porque a ação que ela praticou foi um ‘ato isolado’ que não condiz com a política da empresa”. Em outras palavras: para limpar a imagem da empresa e isentar sua prática discriminatória inerente, a Rede de Farmácias São João usou como bode expiatório sua ex-funcionária.

Sabemos que casos de discriminação nesses estabelecimentos não são nem de longe “atos isolados”, mas a regra fundamental das políticas discriminatórias e mesmo racistas que estão disseminadas nessas empresas e que são congruentes com a reprodução do modo de produção capitalista, na medida em que as opressões e todo tipo de preconceito são funcionais para a fragmentação do proletariado, dividindo-o em segmentos mais precarizados ou mesmo descartáveis (população tornada supérflua que vira alvo de eliminação, direta ou indiretamente). Também é funcional para os capitalistas colocar os proletários lutando entre si, em concorrência mercantil, em vez de lutar pela superação do modo de produção capitalista (daí as políticas afirmativas de viés identitário).

Em uma palestra realizada em abril, em Nova Prata, o presidente da Rede de Farmácias São João, Pedro Henrique Kappaum Brair, afirmou que: “O universo conspira a favor daqueles que buscam, às vezes incansavelmente, atingir suas conquistas e ter sucesso” (veja-se: link). Ao que parece, para ter “ter sucesso” é necessário “conspirar com o Universo” da seguinte forma: promovendo discriminação, reproduzindo racismo e outas práticas infames que são “incansavelmente” praticadas para “atingir conquistas”.

Posicionamento na para a manifestação contra a Rede de Farmácias São João


Perante essas práticas recorrentes no capitalismo, é evidente que nosso posicionamento não seria outro senão em prol da emancipação integral do proletariado em uma revolução social. Mas esse programa revolucionário geral exige um compromisso militante com os disparadores imediatos da revolta proletária contra o sistema. Nesse sentido, cada luta particular deve ser pensada visando cumprir os princípios da ação direta que constroem o poder e a organização autônoma do proletariado (sobre nossa discussão estratégica, veja-se: link).

Recentemente identificamos uma polarização burguesa que busca enquadrar a luta do proletariado numa frente popular antifascista (interclassista, mas dirigida por uma fração burguesa), personificada na candidatura presidencial de Lulalckmin (veja-se a esse respeito a seção “Contra a farsa eleitoral: o antifascismo constrói as bases da vitória reacionária”, do texto disponível em: link). Na ocasião do protesto do dia 18 contra os cortes no ensino superior, nossa avaliação (não publicada no blog) foi a seguinte: as manifestações foram cooptadas para fazer campanha eleitoral, colocando de lado a questão de um enfrentamento direto aos cortes (além do mais, houveram situações de desmobilização de qualquer ação subversiva para “não atrapalhar o processo eleitoral”, conforme identificamos nas falas da frente que liderou essa cooptação).

Nesse sentido, ainda coloca-se a necessidade de ruptura com a socialdemocracia para efetivar uma direção autônoma da luta proletária, em prol de seus próprios interesses, sem reforçar ainda mais uma das frações burguesas (em especial a socialdemocracia) que não vai hesitar em apontar as armas contra as massas trabalhadoras depois de eleita (basta lembrar o que tanto o governo Lula, quanto o governo Alckmin, cada um em suas instâncias, fizeram contra as lutas proletárias e a favor dos interesses capitalistas). Portanto, reiteramos um de nossos posicionamentos na seguinte palavra de ordem: Abaixo à farsa eleitoral! Ação direta contra o Capital!

No que diz respeito ao contexto mais específico da luta antirracista contra a Rede de Farmácias São João, consideramos necessário uma medida efetiva contra a empresa. Portanto, nosso posicionamento nessa luta em particular é o seguinte: Abaixo o racismo capitalista! Pelo fechamento da São João da Bento Gonçalves!

Acreditamos que o fechamento da loja seria apenas uma vitória parcial, mas ainda sim uma vitória e sinal de conquista de autonomia perante as forças burguesas da atual situação histórica brasileira. Esse objetivo pode ser conquistado mobilizando a fúria e a revolta incendiária do proletariado até suas últimas consequências no ato do dia 29.

Caso tenhamos êxito, estaremos impondo uma ação exemplar significativa nas vésperas do espetáculo eleitoral da burguesia! Por isso: Avante bárbaros proletários! Não temos nada a perder senão nossas correntes!

domingo, 16 de outubro de 2022

Análise crítica da situação de enfrentamento ao corte de verbas do Ensino Superior no Brasil


Libelo escrito por membros da Internacional Situacionista & estudantes da cidade de Estrasburgo no ano de 1966 (1ª edição). Título original: De la misere en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens d’ y remédier. Versão em português disponível em: link.

Proposta: Nessa publicação apresentaremos uma avaliação crítica da situação de enfrentamento aos cortes de verbas destinadas ao Ensino Superior. Em nossa perspectiva, o que está realmente em disputa não são “questões estudantis”, nem o “futuro da educação e da ciência do Brasil”, dentre outras fantasias ideológicas que apenas representam os interesses de diferentes frações burguesas nos quadros da reprodução social do capitalismo brasileiro. Buscamos romper com todas essas impressões para demonstrar que mesmo essa medida imediata de “corte de verbas” pode ser compreendida e explicada pela teoria revolucionária e combatida pela prática independente da luta autônoma proletária.

Observação: As notas estão ao final do texto e são sinalizadas por colchetes em negrito ([…]).


Introdução:


Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, um novo decreto do governo Jair Bolsonaro buscava contingenciar recursos das instituições de ensino públicas do Brasil. O bloqueio ocasionado pelo decreto 11.216/2022, publicado em 30 de setembro, afetava sobretudo as instituições de ensino superior federais que, juntas, perderiam R$ 328 milhões (ao longo do ano, o acumulado é de R$ 763 milhões retirados do orçamento das universidades).

Depois da péssima repercussão da medida, o governo federal reverteu o bloqueio. A informação do recuo do governo foi divulgada pelo ministro da Educação, Victor Godoy, em suas redes sociais.

No entanto, mesmo com esse recuo, o governo federal apenas mudou seu alvo para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Uma publicação do dia 6 de outubro no Diário Oficial da União (DOU) mostra que o governo federal bloqueou R$616 milhões do orçamento da pasta destinados a atividades de pesquisa nas Universidades Públicas.

No esteira desses acontecimentos, a UNE (União Nacional dos Estudantes), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e outras organizações institucionais convocaram uma mobilização nacional para o dia 18 de outubro. Em nota, a direção da CNTE afirmou que:

Não podemos tolerar e nem admitir mais tantos ataques à educação de nosso povo. O movimento estudantil, por meio da UNE e ANPG, convocou uma imediata manifestação nas ruas brasileiras no próximo dia 18 de outubro. Essa data foi imediatamente acolhida e, desde o dia de ontem, quando ocorreu uma reunião da Direção Executiva da CNTE, os educadores e as educadoras brasileiros/as se somarão à essa luta. Todos às ruas do país no próximo dia 18 de outubro! Em defesa do maior patrimônio que um país pode dar a seu povo, lutemos juntos/as por uma educação pública, gratuita, laica e socialmente referenciada! (Brasília, 07 de outubro de 2022, Direção Executiva da CNTE).

Como nos posicionamos, enquanto comunistas libertários, diante dessa situação de corte de verbas? Para responder essa questão, é necessário levar em consideração a situação atual da luta de classes brasileira, relativamente à polarização interburguesa da farsa eleitoral e o modo como o “movimento estudantil” tem transformado essa mobilização em uma mera campanha eleitoral passiva diante dos ataques.

1. Questões preliminares sobre o chamado “movimento estudantil”:


A ideologia burguesa [1] insiste em dissolver as posições de classe sob formas “neutras” que apagam as origens sociais das pessoas. Assim, não importa se o “jovem” ou a “estudante” tenha que vender sua força de trabalho para se sustentar ou contribuir com a renda de sua família, não importa se este ou aquele “discente” esteja desempregado ou mesmo quando só pode se manter com ajuda de seus familiares assalariados. Toda a vez que se tomam indistintamente as pessoas por classificações “neutras” como “jovem”, “estudante”, etc., ocorre um apagamento das condições de classe.

Não estamos dizendo, contudo, que “não existem estudantes” ou que “não existe juventude”, mas que essas classificações (uma relacionada aos níveis de escolaridade e a outra a faixa etária) não dizem respeito senão à administração e reprodução social do capitalismo, seja em termos jurídicos (“Estatuto da Juventude”, por exemplo), seja em termos empregatícios (“Diploma” como certificado de aptidão laboral num ramo restrito do mercado de trabalho – embora não seja certo que haja emprego para todos os “formados”).

Mesmo o mais vulgar senso comum parece ter noção disso intuitivamente quando ouvimos frases como “estude para conseguir um emprego decente”, embora isso também não passe de outra forma de “seduzir” ideologicamente membros do proletariado com a ilusão de que podem “escolher sua própria profissão” ao se “dedicarem aos estudos” (a cenoura que mantém muitos resignados ao sobre-esforço enquanto sonham com um futuro ilusório).

Não obstante, os efeitos ideológicos mais nocivos surgem quando as necessidades práticas que levam o proletariado a se revoltar são cooptadas para o chamado “movimento estudantil”, quando começam a agir politicamente como “estudantes” (como vinculados a uma instituição de ensino específica da sociedade burguesa) no lugar de cometerem a subversão de agirem autonomamente a partir de seus interesses de classe.

A experiência histórica da luta de classes nos legou o seguinte aprendizado: as lutas estudantis servem para impedir uma parte considerável do proletariado (geralmente os “jovens”) de lutar em prol da libertação de sua condição de classe e colocar a outra parte do proletariado (que está fora das instituições de ensino) contra esses “estudantes”, difamando-os como “jovens vagabundos” [2].

No entanto, podem nos objetar que existem “interesses específicos” dos “estudantes” que justificam um “movimento específico”, porém é precisamente esse isolamento em especificidades funcionais ao sistema que marca o caráter ideológico desse “movimento” (cuja premissa oculta é: “o estudante deve se interessar e defender coisas de estudantes sem contestar a sociedade em que vive”). O mesmo vale para aquilo que os teóricos liberais chamam de “grupos de pressão” da “sociedade civil organizada”: são meras formas de enquadrar aos conformes jurídicos burgueses (como “cidadãos”), toda e qualquer luta que possa emergir contra as precárias condições de vida no capitalismo.

Mas isso não acaba por tornar toda e qualquer mobilização impossível, dado que “lutar contra o corte de verbas” se torna “apenas mais um momento de reprodução da sociedade capitalista”? Essa é uma falsa conclusão que parte de falsas premissas. Em outras ocasiões, tratando de outras questões particulares, demonstramos como um disparador imediato de revolta poderia ser conectado com as questões gerais da luta de classes [3]. Portanto, a questão é saber como fazer a mediação da tentativa de corte de verbas para financiamento do Ensino Superior com a luta de classes em seu conjunto.

2. Os cortes de verbas no Ensino Superior como continuidade da política dos setores exportadores da classe dominante brasileira:


Para compreender os interesses por trás da tentativa de corte de verbas, mesmo que o governo já tenha recuado diante da ameaça de revolta, é necessário compreender essa medida no quadro do projeto político-econômico de classe ao qual se situa.

Em primeiro lugar, é necessário pensar a organização social do ensino em sua forma historicamente específica atual (ou seja, no modo de produção capitalista). Nesse sentido, não vamos defender um “modelo ideal de ensino”, porque é necessário compreender como é o ensino que existe efetivamente, qual a posição social das instituições de ensino nesse modo de produção e qual o verdadeiro motivo nos cortes de verbas.

Vamos recorrer a um dos economistas e ideólogos mais importantes no que diz respeito à consciência do papel do ensino no capitalismo: Theodore W. Schultz (1902-1998), que foi professor do departamento de economia da Universidade de Chicago, participando da fundação da disciplina de Economia da Educação em meados de 1950. Ele também é considerado o principal formulador da teoria do capital humano. Tanto a disciplina de economia da educação quanto a ideia de capital humano surgiram da preocupação em explicar os ganhos de produtividade gerados pelo “fator humano” na produção. Assim emergiu a concepção de que o trabalho humano, quando qualificado por meio do ensino, se tornava um importante meio para a ampliação da produtividade econômica, e, portanto, das taxas de lucro do capital.

Segundo Schultz (1971, pp. 42-43), os cinco fatores mais importantes do capital humano são:

(1) recursos relativos à saúde e serviços, concebidos de maneira ampla de modo a incluir todos os gastos que afetam a expectativa de vida, o vigor e a capacidade de resistência, e o vigor e a vitalidade de um povo; (2) treinamento realizado no local do emprego, incluindo-se os aprendizados às velhas maneiras organizadas pelas firmas; (3) educação formalmente organizada nos níveis elementar, secundário e de maior elevação; (4) programas de estudos para os adultos que não se acham organizados em firmas, incluindo-se os programas de extensão, notadamente no campo da agricultura; e (5) migração de indivíduos e de famílias, para adaptar-se às condições flutuantes de oportunidades de empregos.

Não obstante, o que o ganhador do Nobel de Economia não leva em consideração é que esse “fator humano” do capital não é um “investimento do trabalhador sobre si mesmo e seus filhos” como ele sugere. O capital humano é parte do capital variável na composição orgânica de capital (capital constante + capital variável) e cujos rendimentos são explorados pelo capitalista (que é quem se beneficia do “papel das capacidades adquiridas dos agentes humanos como uma fonte importante dos ganhos de produtividade”) [4].

Portanto, os investimentos em ensino decorrem da reprodução ampliada do capital em sua composição orgânica, derivando do processo de acumulação como um todo. No entanto, como viemos argumentando em nossos textos sobre a dominação do agronegócio e dos extrativistas no que diz respeito à determinação exportadora do eixo dinâmico da economia brasileira [5], tanto a qualificação da força de trabalho quanto a própria superpopulação relativa (o chamado “exército industrial de reserva”) se tornaram supérfluos e estão sendo destruídos.

O excedente populacional proletário tem sido destruído pela gestão da pandemia, conforme argumentamos em “As vicissitudes da luta de classes brasileira na pandemia capitalista”, assim como também se destroem as condições de qualificação da força de trabalho ao se sabotar as instituições de ensino, ambas formas de desvalorização da força de trabalho, como modo de reduzir os custos de empregabilidade (rebaixamento salarial, etc.) e ampliar a exploração bruta da força de trabalho.

Nesse sentindo, o disparador imediato da atual revolta contra os cortes de verba ao Ensino Superior é o processo generalizado de desvalorização da força de trabalho. Esse ponto de partida está sendo distorcido pelo conjunto de interesses burgueses que buscam tirar proveito da disposição para a mobilização: 1) para reforçar a confiança nas instituições de ensino da burguesia com apelos ao “futuro da educação e da ciência do Brasil”; 2) para enquadrar as forças de luta nos quadros da polarização interburguesa do processo eleitoral em curso (a disputa para a presidência entre Lulalckmin e Bolsonaro).

O campo realmente autônomo da luta proletária revolucionária está além e aquém da polarização eleitoral burguesa entre o projeto neoliberal progressista de Lulalckmin e o projeto neoliberal reacionário de  Bolsonaro.

2. 1. A luta contra os cortes de verbas segundo a concepção da autonomia proletária:


Qual a tarefa dos militantes revolucionários para enfrentar a política que caracterizamos na seção anterior? Compreendemos que temos uma tarefa positiva na luta contra a desvalorização da força de trabalho na medida em que agrava as condições de exploração e embrutecimento de nossa classe proletária.

No entanto, devemos lutar pela unidade de classe do proletariado diante desse ataque, denunciando essa política de corte de verbas nas pesquisas em ciência e tecnologia como mais uma medida que busca brutalizar e precarizar a força de trabalho, para uma exploração cada vez mais intensa do proletariado.

Diante desse quadro, defendemos as seguintes medidas imediatas: Contra o desemprego, o arrocho salarial e os cortes em Ciência e Tecnologia! Revogação imediata do Teto de Gastos (Emenda Constitucional n.º 95)!

Embora os cortes que financiam o Ensino Superior e as pesquisas (que são majoritariamente realizadas por Universidades Públicas no Brasil) tenham iniciado muito antes do Teto de Gastos, exigir a revogação da Emenda 95 eleva o nível de mobilização e alcance do movimento ao núcleo jurídico ao qual os governos estão se reportando atualmente ao administrarem o orçamento público.

No entanto, o movimento estudantil está desmobilizando a revolta, conduzindo as massas a lutar pela eleição de Lula, em prol da frente eleitoral antifascista. Isso fica perceptível numa nota da Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC) sobre a tentativa de ocupação da reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC) que foi frustrada pela UNE.

No dia 07 de outubro ocorreu uma plenária de mobilização contra os cortes de verba pelo Centro Acadêmico Frei Tito de Alencar (CAFTA), do curso de História da UFC. Durante a plenária, houve a proposição de ato na reitoria, assim como propostas de ocupação (lembrando que a UFC tem um reitor interventor, diretamente colocado por Bolsonaro). No entanto, a UNE buscou conduzir o ato para a avenida da universidade, pois almejavam evitar a todo o custo o conflito aberto com a reitoria.

Durante o percurso do ato, os estudantes se deparam com os portões da reitoria fechados, então a base dos estudantes revoltada com a situação derruba os portões, assumindo a direção do ato a despeito da UNE buscar desmobilizar os estudantes.

Entretanto, mesmo com os coros em prol da ocupação, as dirigências da UNE insistiram em suas manobras e começaram a afirmar que solicitariam a vinda do interventor para dialogar com os estudantes. A RECC denunciou dessa forma essa atitude:

Frente a isto, a UNE deixa muito claro seu posicionamento: precisamos garantir a eleição de Lula, ainda que isto custe podar a legítima revolta dos estudantes contra Bolsonaro. Ainda que Bolsonaro pise nas nossas cabeças, não é do interesse da UNE radicalizar a luta nesse período próximo ao segundo turno. Seu interesse está em criar comitês eleitorais e realizar passeatas de rua ao invés de ocupações, promovam ainda mais seu candidato (sic).

Em resumo: a UNE conseguiu desmobilizar os estudantes nessa ocasião, com a promessa de diálogo, boicote da ocupação e desvio do ato para a avenida da universidade na esquina com a rua 13 de maio.

Isso demonstra como a socialdemocracia (a partir de órgãos de controle como a UNE) tem feito de tudo para impedir a generalização da revolta proletária, para cooptar todas as energias para a farsa eleitoral burguesa. Isso nos coloca diante da segunda necessidade perante a atual mobilização.

3. Contra a farsa eleitoral: o antifascismo constrói as bases da vitória reacionária


O título dessa seção não é uma provocação, mas um ensinamento legado pela experiência histórica da luta de classes. As frentes antifascistas historicamente tem conduzido o proletariado à derrotas e ao abandono de sua autonomia de classe na medida em que o enquadram em oposições interburguesas como: “democracia” contra “ditadura”, “Estado democrático de direito” contra “Estado policial de ajuste”, “civis” contra “militares”, “regime constitucional” contra “regime ditatorial”, etc…

A experiência dos anos 30 até a segundo guerra mundial nos demonstra que todas as frentes populares antifascistas serviam apenas para: 1) transformar os proletários em bucha de canhão da guerra interimperialista; 2) impedir toda e qualquer independência de classe e ações autônomas do proletariado. Além disso, nas situações onde a frente popular enfrentou as forças fascistas, a frente geralmente é derrotada (como no caso da vitória de Franco na Espanha).

A direção das frentes populares antifascistas é realizada pelo partido socialdemocrata hegemônico da situação histórica. Mas antes mesmo de um movimento reacionário se formar, é a socialdemocracia que reforça as instituições que serão usadas contra o proletariado (como o caso dos governos petistas terem inaugurado o uso de medidas como a Garantia da Lei e da Ordem ou aprovado a Lei Antiterrorismo).

A primeira tarefa da socialdemocracia, conforme já demonstramos noutras ocasiões, é enquadrar o proletariado nos quadros da reprodução reformista do capitalismo: seja institucionalmente através de reformas progressistas (identitarismo, assistencialismo, etc.), seja através do aumento da produtividade da força de trabalho para ampliar a exploração de mais-valia relativa através de políticas desenvolvimentistas, ou simplesmente favorecendo a conciliação de classes através do controle sindical sobre a classe trabalhadora.

Para aplicar essas políticas (na parte ou no todo), será necessário combater a autonomia proletária, portanto “é a socialdemocracia que desarma, ideológica e materialmente o proletariado, e reprime militarmente suas insurreições” (Askö #9, 08/1998).

A frente antifascista nada mais é do que a segunda tarefa histórica da socialdemocracia: capturar toda a revolta do proletariado e usá-la para defender a democracia, os direitos, as instituições, isto é, um suposto “capitalismo mais humano” (e esse “humanismo capitalista” não hesitará em atirar contra proletários, em encarcerar e torturar aqueles que não seguirem a agenda da frente popular).

Tudo isso está registrado em nossa memória histórica da luta de classes. Nesse sentido, indicamos a tradução que nossos camaradas da editora Amanajé fizeram para contribuir nesse debate: 1936: Como a “Frente Popular” na França e na Espanha mobilizou a classe trabalhadora para a guerra (2006).

Em nossa avaliação, o bolsonarismo é um movimento reacionário com pretensões de exercício aberto e deliberado do terrorismo de classe contra o proletariado, mas isso significa justamente a necessidade imediata de romper com as frentes antifascistas de toda a natureza. Isso porque:

 

Os partidos reacionários representam a radicalização da ditadura burguesa quando o “pacto democrático” entra num processo de “crise orgânica” (quando se fala em “instabilidade das instituições”), tornando necessário uma reforma ainda mais autoritária para reforçar a dominação de classe (recuperar a “estabilidade política” do regime). Para isso é necessário: 1) que o movimento reacionário tenha uma base de massas e uma mobilização permanente dessas bases em uma postura bélica e beligerante frente a inimigos públicos que personificam os ressentimentos dos setores mais conservadores da sociedade (em conspiração constante contra o chamado “progressismo”); 2) processo de consolidação desse bloco de poder da ala reacionária da burguesia com o “fechamento do regime” (no pior dos casos, quando a pretensão do uso reacionário da violência se funde com as instituições oficiais do Estado que legitimam essa violência) ou senão através de operações de violência paralelas aos órgãos oficiais da democracia (através de milícias, “gabinetes ocultos”, “narcopolítica”, etc.); 3) processo de concentração de poder para exercício do terror aberto (caso do “fechamento do regime”) ou através da terceirização desse poder (caso da cobertura institucional via aparelhamento governamental dos abusos de milícias, jagunços de fazendeiros, etc.); 4) difusão ideológica do anticomunismo em estado paranoico (caso em que toda adversidade é projetada sobre a figura do inimigo público nº 1 da burguesia: o comunismo) e reforço do discurso de unidade e lealdade nacional e 5)  a parte mais importante e decisiva de todo o processo: a colaboração passiva dos socialdemocratas que possuem a tarefa de manter o proletariado organizado em frentes populares inofensivas até que não sejam mais necessários e possam ser também eliminados.

No caso brasileiro, o partido socialdemocrata hegemônico que está dirigindo as frentes antifascistas é o Partido dos Trabalhadores (PT). Sua tarefa histórica tem sido cumprida com êxito: o “Fora Bolsonaro” de 2021 (ano passado) conseguiu reverter a revolta proletária contra o massacre pandêmico em uma antecipação de campanha eleitoral em prol do PT e da eleição de Lula (veja-se parte desse processo em nosso texto: “As vicissitudes da luta de classes brasileira na pandemia capitalista”).

Vimos que o resultado do primeiro turno confirmou uma ascensão generalizada dos reacionários no Senado e na Câmara dos Deputados. No entanto, a campanha socialdemocrata conseguiu transformar o Lulalckimin em favorito para as eleições presidenciais. O segundo turno é a continuidade da cooptação eleitoral da disputa entre as facções burguesas brasileiras. Nesse sentido, o “Fora Bolsonaro” ainda representa a capitulação do proletariado para a socialdemocracia e, pior ainda, os “votos críticos” ou a campanha eleitoral aberta (acriticamente) para Lulalckimin representam um retrocesso ainda maior!

Em outras palavras: diante de um aumento considerável das forças reacionárias, a socialdemocracia ampliou ainda mais o controle da revolta proletária, fazendo a classe desertar de sua luta autônoma e enquadrando-a no eleitoralismo burguês mais tacanho possível (beirando ao puro moralismo individualista de que clicar uns botões numa urna é “fazer sua parte”).

Por outro lado, é fundamental para o movimento reacionário se colocar supostamente “contra” as instituições (por exemplo: “contra o TSE”), pois é uma reação para solucionar a própria crise política através da conservação autoritária dessas mesmas instituições. Aqui temos uma complementaridade, uma necessidade recíproca do reformismo diante do reacionarismo: de um lado a socialdemocracia impede a subversão proletária para dar mais tempo aos reacionários (além de aumentar a confiança na legitimidade do regime burguês, o que significa, para o proletariado, permanecer desarmado enquanto confia sua segurança ao Estado), de outro lado os reacionários assentam ainda mais os discursos de ódio anticomunista nas suas bases e tentam garantir mais condições de exercício da violência.

4. Compromisso das minorias revolucionárias: em prol da autonomia proletária!


Diante desse quadro, qual a tarefa dos militantes revolucionários? A resposta não poderia ser mais evidente: promover a ruptura total com essa polarização interburguesa, em prol da reconstrução dos meios de luta e objetivos específicos do proletariado na luta de classes. Esse objetivo específico do movimento comunista libertário pode ser sintetizado pelo seguinte lemas Abaixo à farsa eleitoral! Ação direta contra o Capital!

Compreendemos que é necessário sabotar tanto o reformismo socialdemocrata quanto o reacionarismo conservador, denunciando a cumplicidade desses dois lados da mesma moeda (pois ambos buscam conservar o capitalismo, seja reformando, seja com uma reação conservadora). Qualquer objeção de que esse posicionamento radical “faz o jogo da direita” não passa de uma falsificação histórica e uma manipulação para impedir a autonomia revolucionária do proletariado.

É por isso que não podemos ser tolerantes e passivos com o avanço de qualquer um dos lados dessa oposição, pois os reacionários são uma ameaça a nossa subversão por serem ativamente anti-anarquistas e anticomunistas, enquanto que os reformistas estão a todo custo impedindo a única via de combate efetivo que poderia enfrentar a reação, pois impedem a auto-organização e direção revolucionária do proletariado (e também entregam os revolucionários para a polícia, disseminam conspiração de que existem “infiltrados” no movimento agindo como “provocadores”, dentre outras falsificações para criminalizar os militantes autônomos).

Por isso também discordamos da passividade resignada dos especifistas que defendem manter compromissos com a mesma frente antifascista que acorrenta o proletariado, como declararam nesse texto publicado na Jacobin:

estamos e estaremos, sem sectarismo, ao lado de outras companheiras e companheiros que – independentemente de sua posição política frente às urnas – constroem esses movimentos populares no dia a dia, para além das eleições. Essa será a maior contribuição à derrota do bolsonarismo: uma forte unidade de luta popular por direitos e contra os setores reacionários (O anarquismo frente ao fascismo e ao debate eleitoral).

Ao mesmo tempo em que criticam acertadamente os pseudo-anarquistas que declararam voto em Lula na mesma revista [6] (veja-se: Anarquistas em defesa do voto em Lula), eles dizem defender “uma forte unidade de luta popular por direitos e contra os setores reacionários”, o que, na prática, é o mesmo do que fortalecer a frente popular (apesar e aquém das urnas). Nossa unidade não deve ser “popular” (outro termo a-classista), mas sim uma unidade de classe do proletariado, em prol da luta autônoma e revolucionária pelo comunismo.

O bolsonarismo só pode ser derrotado se o proletariado rompe a unidade antifascista e constrói sua própria política independente de classe, a partir de seus próprios objetivos e meios autônomos de luta. O bolsonarismo só será derrotado por um movimento que já não mira apenas num governo particular da sociedade burguesa, mas luta diretamente pela organização do proletariado a partir de seus próprios interesses com objetivos revolucionários de longo prazo.

Notas:


[1] – Observação sobre o conceito de ideologia: compreendemos por ideologia a consciência dos interesses que são congruentes com a reprodução social de uma determinada sociedade de classes. Nesse sentido, não compreendemos pela noção de ideologia qualquer “sistema de ideias e valores” como, por exemplo, o antropólogo Louis Dumont: “Chamo de ideologia o conjunto de ideias e valores em uma sociedade” (2000, p. 19). Em nossa perspectiva, as ideologias são formas históricas de consciência social que estão diretamente associadas com as relações de classe. Os processos ideológicos se manifestam em qualquer forma de ação e intelecção: na moralidade (sistema dos valores e costumes), no saber (qualquer forma de conhecimento), nas crenças (fé, superstição), etc. No entanto, é necessário enfatizar que a ideologia não implica necessariamente uma concepção voluntarista da classe dominante, onde as instituições sociais são deliberadamente “manipuladas” pelos dominantes (essa seria uma forma maniqueísta de compreender as coisas). Os processos ideológicos ocorrem espontaneamente na ausência de crítica revolucionária, pois correspondem a uma consciência conservadora da ordem social vigente, enquanto fetichização dessa ordem. A característica peculiar da ideologia é “apresentar um interesse particular como geral” (MARX & ENGELS, 2007, p. 49), ou seja, questões particulares relacionadas ao domínio de um grupo social são apresentadas como uma generalidade para toda a sociedade (ou, dito de outra forma: na medida em que uma sociedade de classes é uma sociedade baseada na dominação de uns sobre outros, toda consciência que supõe a continuidade inexorável dessa situação é, na prática, uma apologia). Outro mecanismo sutil da ideologia é sua aparição imediata na forma de hábitos e do senso comum (formando um status quo). Além disso, justamente para “generalizar o particular”, será da natureza do discurso ideológico se apresentar como “a-ideológico”, como “puramente técnico” em certos casos, como “consenso científico” noutros, ou mesmo como idêntico à “moralidade” em si (como dever ético “puramente formal”).

[2] – No momento não é nosso objetivo aprofundar essa discussão, mas noutra ocasião vamos abordar essa questão em mais detalhes e com exemplos.

[3] – É necessário relembrar uma importante tese revolucionária já expressa no “Manifesto do Partido Comunista” (1848) que está dividida em duas premissas fundamentais: 1) “Os comunistas não constituem, em face dos outros partidos operários, nenhum partido particular” (MARX & ENGELS, 1998, p. 20) e 2) “Eles não possuem interesses separados dos interesses do conjunto do proletariado” (idem). Os revolucionários defendem, portanto: a formação de uma organização geral da luta proletária que leve em consideração os “interesses do conjunto do proletariado”, portanto as chamadas “especificidades” e “necessidades particulares” são apenas as pontas do iceberg geral da luta de classes, cuja função das minorias revolucionárias é fazer a conexão da totalidade da luta com seus disparadores imediatos.

[4] – Essa questão mesma já havia sido abordada por Marx nas discussões relativas à necessidade de qualificação da força de trabalho no chamado trabalho complexo relativamente ao avanço técnico-científico, mas preferimos mostrar a consciência fetichizada dos economistas como exemplo de que estão parcialmente conscientes disso quando não estão falando da necessidade de “formação cidadã”. Na verdade, a face socialdemocrata do ensino é a “formação cidadã” (ideologia do integralismo democrático), enquanto que a face liberal é a “pura qualificação da força de trabalho” (ideologia da concorrência mútua entre vendedores de força de trabalho).

[5] – Sugerimos a leitura da seção 5 (“A social-democracia brasileira contemporânea”) de nosso texto: “Notas sobre o partido social-democrata brasileiro” (28 de agosto de 2020). Também sugerimos os textos em que abordamos questões específicas relacionadas a processos de privatização e lutas por terra que também tangenciam a mesma discussão: “Crítica da privatização da CEEE-D e sua venda para o Grupo Equatorial”, “Considerações sobre a mobilização nacional dos povos indígenas contra o Marco Temporal” e “Considerações sobre a luta contra a privatização da Corsan e do DMAE”.

[6] – Uma crítica mais contundente foi publicada por nossos camaradas da Amanajé: Notas acerca da farsa eleitoral: anarquistas votam em Lula?.


Referências:


DUMONT, Louis. Homo aequalis: gênese e plenitude da ideologia econômica. Bauru: EDUSC, 2000.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. Disponível em: link.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Estudos avançados, São Paulo, v. 12, n. 34, p. 7-46, dez. 1998. Disponível em: link.

SCHULTZ, Theodore W. O Capital Humano. Rio de Janeiro: Zahar, 1971. Disponível em: link.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Cidades antes do Estado nos primórdios da Eurásia (2015) – David Wengrow

Ilustração de como provavelmente era a disposição das casas num assentamento da cultura cucuteni-tripiliana. Imagem extraída de: link.

Traduzimos o texto de uma conferência do arqueólogo David Wengrow que propõe uma comparação entre a formação social urbana mesopotâmica e a tripiliana como formas divergentes de transformação na complexidade social.


Introdução [1]


Dos muitos livros e artigos de Jack Goody, talvez um dos menos conhecidos seja sua curta contribuição para uma conferência histórica The Evolution of Social Systems, publicada em 1977 (GOODY, 1977a). Este artigo vem naquela seção do livro dedicada a questões de “demografia, comércio e tecnologia”, e tem como título: “Population and Polity in the Voltaic Region”. Caracteristicamente, Goody iniciou sua discussão desse tema em um quadro muito mais amplo, perguntando: “Qual é a natureza da relação entre estados e população, entre a centralização da política e a densidade dos habitantes?”.

Em African Political Systems, Meyer Fortes e Evans-Pritchard (1940, p. 7) aceitaram a proposição básica de que provavelmente há “um limite para o tamanho da população que pode se manter unida sem algum tipo de governo centralizado”. Eles continuaram, no entanto, a distinguir entre tamanho e densidade da população – números brutos em comparação com a distribuição física das pessoas dentro de uma dada macrorregião. Quando o foco muda do tamanho para a densidade, eles sugeriram, uma comparação das sociedades pré-coloniais na África central e austral revelou uma relação inversa entre demografia e centralização política. Instituições permanentes de governo, burocracias especializadas e judiciários, bem como diferenças acentuadas de posição e riqueza, foram de fato mais fortemente desenvolvidas em áreas com baixas densidades demográficas, como as políticas Zulu e Bemba, enquanto os assentamentos agrícolas mais populosos – como os Tallensi no norte de Gana – muitas vezes não tinham essas características.

Na década de 1960, essas descobertas anteriores estavam sendo rejeitadas pelos teóricos do desenvolvimento e pela emergente escola de ecologia cultural, mais intimamente associada ao trabalho de Marvin Harris em Columbia. Um ataque direto foi lançado por R. F. Stevenson em seu Population and Political Systems in Tropical Africa (1965), que argumentou que os padrões observados por Evans-Pritchard e Fortes eram pouco mais do que uma anomalia temporária; o resultado histórico das incursões militares e comerciais (principalmente britânicas) no continente africano durante o final do século XIX e início do século XX. Em The Rise of Anthropological Theory, Harris usou a “brilhante defesa da hipótese de formação do estado de densidade populacional” de Stevenson para exemplificar a falência metodológica do estrutural-funcionalismo britânico, reafirmando o fato aparentemente óbvio de que – quando visto a longo prazo – as sociedades em todos os continentes exibem “uma correspondência estreita entre os sistemas estatais e a alta densidade populacional” (1969, p. 537), e a África não é exceção.

Desafiando tendências acadêmicas, o ensaio de Goody de 1977 montou um contra-ataque. Foi baseado – não nas virtudes da comparação sincrônica – mas na “inocência virginal” de seus colegas norte-americanos em questões da história africana. Ele começou citando uma série de relatos de viajantes do final do século XIX que substanciam os argumentos de African Political Systems com observações em primeira mão, por exemplo, sobre o caráter anárquico dos Tallensi e sua independência do reino vizinho Mamprusi. Mas ele também destacou uma lacuna mais básica da hipótese da formação do estado por densidade populacional: seu fracasso em considerar o ambiente tecnológico diferente da formação do estado africano e eurasiano, e seu impacto na relação entre o tamanho da população e o regime político.

Goody apontou como as invenções que fomentaram o crescimento demográfico na Eurásia desde a Idade do Bronze – o arado, a roda e a irrigação – dificilmente penetraram ao sul do Saara nos tempos pré-coloniais; um ponto desenvolvido em dois livros anteriores: Technology, Tradition and the State in Africa (1971) e Production and Reproduction (1976). Os níveis populacionais na África Subsaariana, portanto, permaneceram relativamente baixos e, embora a terra cultivável fosse abundante, sua produtividade era limitada pelo modo predominante de agricultura itinerante. O interior imediato dos estados de savana não eram sistemas de campo ricamente cultivados, como nas grandes civilizações dos vales dos rios da Eurásia. Em vez disso, eram áreas de vastas áreas selvagens: fronteiras escassamente povoadas, idealmente adequadas para a inculcação de valores marciais e para a predação com cavalos e armas importados.

No limite da fronteira, os povos sem Estado frequentemente se agrupavam em grandes assentamentos agrícolas. Estes ofereciam refúgio da escravidão, bem como acesso às terras férteis. Agregações de grupos de descendência não relacionados representavam um desafio para os sistemas estabelecidos de organização política. A fronteira era, portanto, um locus de inovação política. Em áreas como Grassfields em Camarões, isso resultou no surgimento de novas chefaturas ou reinos, que por sua vez produziram novas zonas de fronteira, e assim por diante, em uma espécie de “efeito dominó”. Mas, em outros casos, “tribos sem governantes” conseguiram atingir um grau considerável de centralização demográfica sem introduzir estruturas de governo semelhantes a um estado em suas próprias questões. O resultado, em áreas como o norte de Gana, foi um cenário político de “grandes tribos” e “pequenos reinos”.

Embora ecoado no trabalho de outros africanistas, como Robin Horton (1971) e Igor Kopytoff (1987), o ensaio de Goody sobre população e política foi negligenciado em estudos mais gerais de crescimento de assentamentos de longo prazo (FLETCHER, 1995). E a busca por relações sistêmicas entre ecologia, escala e desigualdade social em cidades pré-industriais continuou, recebendo novo suporte teórico de campos como estudos de gestão e psicologia evolucionista. Uma proposta recente é que as formas urbanas primitivas em zonas tropicais ou semitropicais tendiam a ser do tipo extenso e de baixa densidade – como exemplificado pelos primeiros assentamentos em grande escala na Amazônia, nas planícies maias, no Meso-Níger e no sul Ásia Oriental (FLETCHER, 2009). Estes devem ser contrastados com o urbanismo comprimido de alta densidade, que se acredita ter emergido tipicamente em regiões semiáridas – por exemplo, ao longo do Nilo, Tigre-Eufrates, Indo e Huang He.

É discutível se esse amplo contraste na forma urbana pode ser sustentado em bases puramente ecológicas – as zonas mais áridas não ficam sem seus subúrbios ajardinados (KEMP, 2012). Mais obviamente problemático é a tentativa de encontrar alinhamentos amplos entre tipos de ecologia, urbanização e estrutura política. Um estudo comparativo recente argumenta que as cidades pré-modernas nos semitrópicos foram “pré-adaptadas” a sistemas heterárquicos de governo, enquanto as das regiões semiáridas foram contrastantemente predispostas a estados estratificados (SCARBOROUGH; LUCERO, 2010). Mas não há nenhuma evidência clara de estratificação social rígida nas cidades da Idade do Bronze no Vale do Indo ou, de fato, durante o primeiro meio milênio ou mais de urbanismo mesopotâmico; enquanto os trópicos, em contraste, produziram tanto o Império Khmer quanto a realeza maia clássica.

Meu objetivo nesta palestra é sugerir que alguns aspectos da contra-argumentação de Goody – bem como seus escritos posteriores sobre alfabetização, urbanização e burocracia – valem a pena serem revisitados, em parte como uma alternativa a esta nova onda de teorização uniformitarista sobre população e estrutura política. Vou desenvolver o argumento de Goody em duas direções, sugerindo que:

  • a) não há conexão lógica ou necessária entre a densidade populacional e a emergência de administração centralizada ou estruturas políticas; e
  • b) que os centros populacionais podem desenvolver-se e sustentar-se por longos períodos de tempo por meio de modos de integração inteiramente diferentes – e mais igualitários –, mesmo sem o estímulo de intervenções predatórias por estados vizinhos.

Mas também irei me afastar de Goody e de estudos mais recentes, argumentando na segunda parte da minha palestra que o aparecimento precoce de “cidades sem Estado” difere tanto da África Subsaariana quanto das zonas semitropicais de maneira mais geral. Em vez disso, vou sugerir que as cidades organizadas “de baixo para cima” e em princípios relativamente igualitários podem ser encontradas na própria base da civilização urbana da Eurásia em si.

Farei isso reinterpretando o que o próprio Goody considerou o processo central da pré-história humana posterior: a Revolução Urbana do quarto milênio a.C. Mais especificamente, argumentarei que este processo não deve mais ser definido em torno de uma única área central da Mesopotâmia, mas como um processo com dois focos primários: um nessa última região e outro na zona de estepe-floresta ao norte do Mar Negro, onde hoje são a Ucrânia e a Moldávia. Há cerca de 6.000 anos, essas duas regiões testemunharam o crescimento independente de assentamentos da ordem de centenas de hectares, o que implica uma organização social em uma escala sem precedentes na história da humanidade. Mas esses desenvolvimentos paralelos nunca receberam o mesmo status na história de longo prazo das sociedades eurasianas.

A emergência de cidades na Mesopotâmia há muito é visto como um marco na evolução social – o “surgimento de uma sociedade complexa” – associado ao desenvolvimento do comércio, da alfabetização e do estado. Por razões mencionadas mais tarde, suas contrapartidas ucranianas muitas vezes não têm o status urbano, sendo relegados – por implicação – ao status de remanso evolucionário. Argumentarei aqui que a exclusão deste último dos esquemas convencionais de evolução social mascara a verdadeira diversidade da forma urbana no início da Idade do Bronze da Eurásia. Essa diversidade pode ser melhor compreendida por meio de uma comparação direta dos dois casos, focalizando divergências específicas nas estratégias de organização social em larga escala. Esta Goody Lecture tentará estabelecer as bases para tal comparação.

A Desconexão Original entre Burocracia e Escala


Antes de abordar esses temas comparativos mais amplos, é importante considerar, com um pouco mais de detalhes, o próprio entendimento de Jack Goody da Revolução Urbana como um “pacote civilizacional” distinto. Em seus muitos escritos, Goody voltou repetidamente à Mesopotâmia – e às origens da vida urbana por lá – como um ponto de viragem na história das civilizações do Velho Mundo. Sua própria compreensão desse processo é tomada mais ou menos indiscriminadamente dos escritos do historiador da pré-história Vere Gordon Childe do início a meados do século 20 (por exemplo, CHILDE, 1936). Mas Goody vê o trabalho de Childe pelas lentes de um etnógrafo e um africanista, preocupado com os problemas de desenvolvimento e desigualdade no mundo moderno. Indiscutivelmente, é essa combinação particular de perspectiva antropológica e arqueológica que dá unidade e dinamismo ao corpo principal de sua obra ao longo das décadas.

Como observei, Goody ficou impressionado com a quantidade de aspectos da Revolução Urbana – parte do tecido das sociedades eurasianas por cerca de seis milênios – permaneceram estranhos à África subsaariana até tempos bem recentes. A ausência de inovações como o arado e a roda não deve ser entendida em um sentido tecnológico estrito, entretanto. As tecnologias importam, para Goody, por causa de suas “adesões” sociais: termo que ele tirou de Edward B. Tylor para descrever as conexões entre os sistemas sociais e tecnológicos. Essas conexões sempre implicam em restrições e também em possibilidades. Daí a ausência ou recusa de uma dada tecnologia, como a agricultura mecanizada, foi importante tanto pelo que ela possibilitou em termos de desenvolvimento social africano, quanto pelo que é excluído.

Os sistemas tecnológicos têm propriedades de transmissão que diferem de uma inovação para outra e não podem ser equiparados de forma simples à mudança institucional. Adotar a roda é um tipo de processo diferente de adotar um sistema de escrita, que também é diferente de adotar sistemas bilaterais de herança de propriedade ou formas de alta culinária. Como Goody repetidamente mostrou, relações consistentes existiram entre esses vários tipos de processos e são importantes para a compreensão do desenvolvimento das civilizações do Velho Mundo. Mas eles também são complexos e indiretos. Por essa razão, as civilizações são sempre coisas complicadas e interessantes, melhor compreendidas em termos históricos e teóricos.

Em outro lugar, Goody estendeu esses insights de tecnologias do mundo material para tecnologias do intelecto. Em The Domestication of the Savage Mind (1977b), ele reconsiderou a distinção entre as culturas oral e letrada à luz dos primeiros sistemas de escrita conhecidos, e também seu próprio trabalho de campo sobre a alfabetização na África Ocidental contemporânea. A escrita cuneiforme do início da Mesopotâmia, como ele reconheceu, não foi inicialmente projetada para representar a fala natural (e veja: HOUSTON, 2004). Ele atendia aos requisitos mais limitados das corporações urbanas – primeiros templos e depois palácios – quebrando o fluxo de bens e serviços agrários em bits padrão de informação que podiam ser quantificados, armazenados, ordenados em hierarquias e, de outra forma, manipulados de maneira burocrática.

Mas a administração letrada também teve suas “adesões”. Como um domínio ordenado de conhecimento, chegou a hora de abranger tudo, desde receitas culinárias e feitiços mágicos até histórias nativas sobre as origens da vida urbana. A escrita também se tornou o meio de sua própria reinvenção, como no conto mítico de Enmerkar e o Senhor de Aratta, que deturpa a gênese da escrita como enraizada na comunicação oral, em um cenário mais amplo de rivalidade aristocrática e a busca por matérias-primas distantes (em oposição aos sistemas de contabilidade interna das corporações urbanas). A alfabetização tornou-se assim uma característica definidora das elites urbanas e um instrumento principal para sua socialização em instituições e hábitos de pensamento particulares.

O ponto que desejo enfatizar aqui é que, para Goody, não havia nenhuma conexão universal ou de direito entre a vida urbana, a soberania do Estado e a burocracia. Em vez disso, são partes de um “pacote” distinto de desenvolvimentos que se aglutinaram sob um conjunto particular de circunstâncias históricas. Isso aconteceu primeiro nas partes densamente povoadas do Velho Mundo, onde a domesticação neolítica de plantas e animais foi complementada pela agricultura mecanizada, e onde a autoridade vinculava-se à propriedade privada da terra e à manutenção de uma classe administrativa em tempo integral. Não havia nenhuma relação causal necessária entre essas várias coisas, mas sim uma série de “adesões” que, uma vez estabelecidas, se tornaram altamente transmissíveis dentro de um contexto mais amplo da Eurásia.

O caso de Goody poderia, de fato, ser reforçado por uma perspectiva de tempo ainda mais profunda, levando em consideração as raízes pré-históricas da administração especializada no Oriente Médio. Um dos aspectos mais intrigantes desse processo é o seu início nas aldeias do Neolítico Tardio, começando por volta de 6000 a.C. Os arqueólogos debatem os detalhes desse processo, mas concordam que – alguns milênios antes da invenção da escrita – as primeiras comunidades agrícolas em todo o Oriente Médio já compartilhavam um sistema comum de contabilidade, gestão de propriedades e armazenamento de informações (OATES, 1996). Evidências de tais sistemas são encontradas em uma área muito grande, do Eufrates sírio (AKKERMANS; VERHOEVEN, 1995) às terras altas do oeste do Irã (ALIZADEH, 2006), na forma de selos de produtos e fichas numéricas que às vezes eram reunidas em arquivos centrais. Portanto, na origem, a administração especializada é um fenômeno da aldeia, não um fenômeno urbano (veja também: WENGROW, 1998).

Isso apresenta alguns problemas óbvios para a recente teorização sobre o tamanho do grupo em campos como a psicologia evolutiva (DUNBAR et al., 2010; JOHNSON, 1982; FEINMAN, 2010). Costuma-se argumentar, por exemplo, que grupos humanos de até 150 indivíduos – ou seja, aproximadamente do tamanho de uma aldeia neolítica – não deveriam ter necessidade de sistemas administrativos para controlar as transações. A cognição social humana deveria ser adequada para manter a coesão do grupo por meio de interação face a face, pressão moral e remissão natural de dívidas e obrigações. A existência de administração em escala de aldeia na pré-história profunda lança dúvidas sobre toda a ideia de burocracia como uma resposta funcional ao “estresse escalar”. Não menos problemático, para os mesmos tipos de modelos, é o fenômeno dos assentamentos que são inegavelmente urbanos em escala, mas carecem das características esperadas como hierarquias administrativas ou elites gerenciais. É para alguns exemplos disso que me volto agora.

O Fenômeno dos “Megassítios” ucranianos


Na década de 1970, os arqueólogos ucranianos começaram uma série de pesquisas intensivas a aproximadamente 120 km ao sul de Kiev, nas terras férteis entre os rios Bug Meridional e Dnieper. Usando uma combinação inovadora de fotografia aérea e prospecção geomagnética, eles descobriram planos de assentamentos pré-históricos que, desde então, passaram a ser chamados de “megassítios”. Dezenas de tais locais, cada um cobrindo uma área de mais de 100 hectares, já foram documentados na Ucrânia e na vizinha Moldávia, onde datam entre 4.000 e 3.200 a.C. Algumas, como Maidanetske e Dobrovody, atingiram tamanhos de cerca de 250 hectares, comparáveis às maiores cidades mesopotâmicas da época. Enquanto que Talianky – o mais gigantesco de todos os sítios ucranianos – pensa-se ter se estendido por cerca de 400 hectares (VIDEIKO, 1996; MENOTTI; KORVIN-PIOTROVSKIY, 2012).

As populações desses megassítios são estimadas em muitos milhares. Cidades e vilas menores – algumas abrangendo pouco mais do que algumas fazendas – as cercavam, geralmente formando padrões de assentamento em camadas. Os megassítios propriamente ditos encontram-se com um alcance surpreendentemente fácil um do outro, a uma distância de 10 a 15 km em pastagens abertas. Se ocupados contemporaneamente, eles teriam, portanto, retirado recursos de um interior comum. Sua fundação representa o culminar de um longo processo, que viu o movimento das comunidades agrícolas neolíticas do baixo Danúbio, através dos altos desfiladeiros dos Cárpatos, para os ricos solos da zona de estepe-floresta ao norte do Mar Negro (ANTHONY, 2007). Lá, eles continuaram a basear sua subsistência no cultivo de cereais e pastoreio, seguindo padrões de alocação de recursos estabelecidos ao longo de séculos de experiência compartilhada.

A mudança na fronteira desta economia agrícola mista é arqueologicamente rastreável por meio de um repertório associado – e notavelmente estável – de formas domésticas e produtos artesanais domésticos: a Cultura Cucuteni/Tripiliana. Foi nas terras de loess [2] negras do interflúvio Bug-Dnieper que essas comunidades se aglutinaram em assentamentos de tamanho enorme (Figura 1). Cada um desses assentamentos abrangia mais de mil moradias e seus jardins anexos, formando anéis concêntricos divididos por ruas e valas. Muitas centenas de moradias foram escavadas. A grande maioria foi construída em escala e layout semelhantes, o que permanece constante em locais grandes e pequenos. Estruturas maiores do que a média foram ocasionalmente encontradas, mas nenhuma distinção clara pode ser feita entre edifícios monumentais e residenciais (CHAPMAN, 2010).

Figura 1: Levantamento geofísico do megassítio pré-histórico em Nebelivka, Ucrânia. (Cortesia do Professor John Chapman e dos Serviços Arqueológicos da Universidade de Durham).

Os grandes espaços abertos no coração dos megassítios são, em sua maioria, desprovidos de sepulturas ou vestígios arquitetônicos. Seus planos elípticos dão uma primeira impressão de rígida uniformidade na disposição dos terrenos domésticos: uma espécie de circuito fechado de interação social, cada unidade doméstica formando um elo confiável na cadeia. Mas pesquisas de campo recentes indicam um grau surpreendente de flexibilidade e desvio desse esquema ideal. As famílias poderiam optar por se agrupar em casas geminadas ou poderiam se encontrar relativamente isoladas. Os aglomerados variavam em tamanho, desde habitações individuais até grupos de mais de vinte, e às vezes eram separados por valas ou fossos. Ocasionalmente, um determinado grupo corporativo tentou violar as restrições do padrão geral de assentamento – interrompendo o circuito, por assim dizer – estabelecendo um aglomerado não linear ou deixando espaços abertos onde poderia reunir recursos para construir uma “casa grande” (CHAPMAN et al., 2014). Mas as tendências centralizadoras foram silenciadas e nunca produziram uma distinção clara entre as esferas privada e pública, ou entre moradia e templo.

Cidades igualitárias?


Os megassítios ucranianos foram, em sua época, os maiores assentamentos contíguos do mundo, rivalizados apenas pelas cidades da planície de inundação da Mesopotâmia. Ainda assim, desde sua descoberta, o status urbano desses locais tem sido questionado e muitas vezes negado explicitamente pelos arqueólogos. Philip Kohl (2002) rejeita o termo “cidades” ou mesmo “formações proto-urbanas”, referindo-se a elas simplesmente como “locais gigantes” ou “assentamentos gigantescos”; outros os caracterizaram como “vilarejos que cresceram em excesso”; a razão é que nenhum dos “megassítios” tenha ainda produzido evidências convincentes de “especialização” ou “diferenciação social interna”. Bairros de elite e grandes enterros não são encontrados em lugar algum. Faltam instalações de armazenamento central, assim como evidências de administração especializada ou outros sistemas de registro.

Algo deve ser dito neste momento sobre alocação de recursos. Sem dúvida, o abastecimento de populações tão imensas e seus rebanhos teria transformado a paisagem da zona da floresta-estepe. A agricultura provavelmente era auxiliada por arados, extensas terras de pastagem eram necessárias, assim como o desmatamento da floresta para combustível e construção. O sal chegava a granel das nascentes dos Cárpatos orientais ou da costa do Mar Negro (CHAPMAN; GAYDARSKA, 2003). Algumas toneladas de pederneira para fabricação de ferramentas eram obtidas anualmente no vale do Dniestre. Uma indústria intensiva de vasos fora sustentada (ELLIS, 1984). E o cobre foi trazido de fontes nos Bálcãs (MANZURA, 2005). Os desafios logísticos eram assustadores. Mas, claramente, eles tiveram um sucesso considerável por mais de meio milênio, antes que o sistema de assentamento de megassítios finalmente entrasse em colapso e suas populações se fragmentassem em comunidades menores e mais móveis, semelhantes às da estepe adjacente.

Como David Graeber me lembra, o gerenciamento de recursos em grande escala de “baixo para cima” – isto é, baseado em associações voluntárias que operam por consenso – está dentro da capacidade de sociedades densamente povoadas. Um excelente exemplo é fornecido no relato de Stephen Lansing (1991) sobre os sistemas tradicionais de cultivo de arroz em Bali. A alocação de recursos era normalmente gerenciada lá por meio de uma rede de “templos da água”, fora da jurisdição do estado. Quando surgiam problemas, delegados eram eleitos para representar os interesses de alguns milhares de agricultores nas reuniões dos templos, depois das quais eles retornavam aos seus papéis normais na sociedade. Alguns arqueólogos duvidam que as comunidades de Tripolye possam ter administrado seus assuntos com princípios semelhantes sem ceder o controle a alguma autoridade central permanente. John Chapman (2010, p. 86), por exemplo, escreve:

No que diz respeito aos megassítios Tripolye, é impossível falar em assentamentos de 250 ou 450 hectares sem invocar as desigualdades sociais extremas que parecem ser necessárias para controlar de forma eficaz as comunicações e logística de tais centros. É igualmente difícil aceitar que tais desigualdades não tenham se materializado por meio da especialização artesanal e/ou ritual.

No entanto, nada na cultura material sobrevivente ou na organização espacial do megassítio aponta nessa direção. Parece necessário, então, retornar aos primeiros princípios.

Cidades antes do Estado: construindo uma comparação


Em um estudo influente, Roland Fletcher (1995, p. 198) cita os megassítios tripilianos como a única exceção conhecida a uma lei universal de crescimento dos assentamentos humanos. Com base em uma amostra global de cidades pré-industriais, ele argumenta que há um limite de 100 hectares acima do qual assentamentos densos e permanentemente habitados podem se expandir, contanto que eles primeiro passem por certas mudanças organizacionais e/ou tecnológicas básicas. Como na análise de Chapman, as expectativas são definidas por teorias normativas de tamanho de grupo ideal e “estresse escalar”, que se originam fora da arqueologia em campos como psicologia evolutiva e estudos de gerência. Eles incluem o estabelecimento de uma complexa divisão interna do trabalho dentro dos assentamentos e sistemas dedicados de armazenamento de informações para auxiliar no gerenciamento de recursos em escala urbana.

Nenhuma das expectativas é atendida no caso ucraniano, e Fletcher (1995, p. 198) é franco sobre as implicações mais amplas:

Até termos mais informações, os sítios continuam sendo um enigma fascinante. Dado que a maioria dos grandes locais compactos “não urbanos” anteriormente conhecidos, como Poverty Point, não excedem muito 100 ha e são o equivalente em escala de T’ang Ch’ang-an em cerca de 90-100 km2, a descoberta desses locais tardios de Tripolye é equivalente a encontrar vários novos assentamentos urbanos não industriais, que talvez sejam compactos e duas a quatro vezes maiores do que Ch’ang-an! Claramente, isso não seria considerado uma questão trivial no estudo de comunidades urbanas agrárias.

Ele sugere ainda que, ao classificar os megassítios de Tripolye como “vilarejos que cresceram em excesso”, em vez de experimentos autoconscientes na vida urbana, os arqueólogos têm sistematicamente evitado uma grande ameaça às teorias estabelecidas de evolução social. Mas os megassítios são realmente essas “graves anomalias” como parecem à primeira vista?

Uma comparação sustentada entre os megassítios tripilianos e os assentamentos urbanos contemporâneos na Mesopotâmia nunca foi realizada. Vários comentaristas apontam para contrastes em seus respectivos níveis de centralização econômica e política. Mas estes são facilmente descobertos. Considere, por exemplo, a suposição de que os megassítios tripilianos não poderiam ter conduzido seus interiores agrários sem hierarquias administrativas permanentes e estruturas sistemáticas de coerção para impor decisões. Ideias semelhantes já foram comuns na arqueologia do Oriente Próximo. Mas os primeiros textos administrativos de Uruk não fazem nenhuma referência a sistemas de campo ou água. E pesquisas arqueológicas sugerem que as primeiras cidades da Mesopotâmia ainda eram sustentadas principalmente por sistemas de irrigação simples por gravidade, que podiam ser geridas em escala local, sem controle burocrático centralizado (ADAMS, 1981).

Muito pouco se sabe de fato sobre a organização política das primeiras cidades da Mesopotâmia, aquelas do quarto milênio a.C. ou “Período de Uruk”. Fontes escritas dessa época derivam esmagadoramente do sítio de Uruk, no sul do Iraque, e se limitam em grande parte a documentos de contabilidade e recibos de mercadorias (NISSEN et al., 1993). Estes se relacionam com a organização econômica interna dos complexos de templos que ocupavam o recinto central da cidade. Fora dessas grandes instituições, famílias menores e grupos de descendência comum mantiveram uma autonomia significativa na produção agrária e artesanal (POLLOCK et al., 1996). Não há evidências neste ponto que sugiram que a administração alfabetizada estava diretamente envolvida na vida política da comunidade urbana. A arte pictórica do final do quarto milênio inclui uma figura masculina padrão com atributos de liderança (SCHMANDT-BESSERAT, 1993); mas não podemos saber se seu cargo era permanente e hereditário, ou concedido em uma base temporária por consentimento popular.

Evidências claras para as elites dinásticas aparecem apenas mais tarde na história da Mesopotâmia, no terceiro milênio a.C. ou “Primeiro Período Dinástico”, muitos séculos após o aparecimento inicial das cidades. Só então as propriedades privadas, guerra intermunicipal e decretos reais aparecem no registro escrito; só então encontramos representações monumentais de reis e suas milícias organizadas, reivindicando sanção dos deuses da cidade; e só então as tumbas reais e de elite fazem sua primeira aparição no registro arqueológico (POLLOCK, 1999). Neste e na maioria dos períodos posteriores da história da Mesopotâmia, instituições autocráticas existiam ao lado de assembleias cívicas, conselhos tribais e outros órgãos de tomada de decisão cuja influência era baseada no consenso e na representação popular, em vez de coerção ou controle de cima para baixo (VAN DE MIEROOP, 1999). Um épico sumério posterior, como o conto de Gilgamesh e Agga, atribui a essas assembleias populares um papel central no governo urbano, talvez até mesmo subordinado à autoridade dos reis (ver também [BARJAMOVIC, 2004], com mais referências).

Voltando ao quarto milênio a.C., e se limitarmos nossa comparação às primeiras fases da vida urbana em cada região, tanto a Mesopotâmia quanto a Ucrânia podem ser consideradas exemplos de “cidades antes do estado”, como de fato podem os ser os centros urbanos do terceiro milênio do Vale do Indo (POSSEHL, 2003). Quais eram, então, as diferenças salientes entre eles? Aqui, podemos adaptar o método de Goody de forma útil, com foco na comparação de práticas sociais cotidianas, em vez de amplos contrastes institucionais. Em Cooking, Cuisine and Class (1982), ele destacou a ligação inicial de comida, hierarquia e comércio especializado como uma característica distintiva das sociedades eurasianas, começando com a produção centralizada de comestíveis graduados em templos mesopotâmicos. Ao encerrar essa discussão, sugerirei que, novamente, o caso ucraniano se afasta de seu esperado padrão eurasiano, de maneiras que são, mesmo assim, instrutivas.

Evolução divergente na Eurásia: formas predatórias e insulares de urbanização


As reconstruções atuais das primeiras instituições urbanas de grande escala na Mesopotâmia sugerem que se tratavam de complexos de templos, combinando funções rituais e econômicas, mas sem um papel político claramente definido (por exemplo: UR, 2014). Eles foram construídos no coração da cidade, reproduzindo em escala monumental o formato de habitações comuns e abrigando uma equipe dependente de administradores, padres, fazendeiros e artesãos, bem como áreas de armazenamento anexas, cozinhas e oficinas. Os templos também realizavam tarefas rituais executivas que não podiam ser reproduzidas em ambientes domésticos ordinários. Eles representavam a cidade para seus patronos divinos em nome da população em geral: um papel simbolizado por sua escala, aparência magnífica e, acima de tudo, pela custódia de estátuas de culto – feitas em materiais exóticos – que recebiam um regime regular de oferendas de alimentos.

Como as “indústrias de cottage” [3] pré-históricas que vieram antes delas, essas “Casas dos Deuses” promoveram o setor manufatureiro como parte integrante da economia doméstica e com sanção divina adicional. Eles eram centros de conhecimento e indústria – os antigos canteiros de nossas fábricas modernas, procedimentos contábeis e métodos de cronometragem – onde bens e trabalho eram quantificados em padrões e medidas fixos. A produção era baseada em um princípio maximizador, transformando os vastos excedentes agrários da planície de inundação da Mesopotâmia em estoques de produtos facilmente comercializáveis, como têxteis de lã, artigos de couro e comestíveis processados – incluindo vários graus de laticínios e produtos à base de cereais – embalados centralmente e selados para garantir a integridade ao passarem entre partes desconhecidas (ENGLUND, 1998; WENGROW, 2008).

Mas os materiais mais valiosos empregados pelos artesãos urbanos não podiam ser obtidos localmente. Madeira, pedra fina e metais – incluindo prata usada como moeda – tinham que ser todos adquiridos através do comércio com forasteiros, além da planície de inundação. Como tem sido evidente há algumas décadas, o crescimento inicial do assentamento urbano no sul da Mesopotâmia estava assim ligado ao estabelecimento de colônias comerciais e postos avançados ao longo dos cursos superiores do Tigre e do Eufrates, disseminando as manufaturas das terras baixas para as principais zonas de abastecimento nas terras altas vizinhas. Conduzida na ausência de exércitos permanentes ou outros meios óbvios de coerção, esta “Expansão de Uruk” – como ficou conhecida – foi a primeira grande expansão comercial do mundo, ligando a alocação local de recursos agrários às forças de mercado operando em uma escala de nível inter-regional (ALGAZE, 1993; WENGROW, 2010).

Em contraste, o crescimento de “megassítios” entre o Bug e o Dnieper tem sido geralmente visto como um processo insular, com apenas uma interação limitada através de fronteiras culturais bem definidas, separando as populações de Tripolye de seus vizinhos na estepe Pontic. Uma visão, há muito estabelecida na arqueologia da Europa continental, sustenta que os megasítios eram cidades de refúgio – não muito diferentes das dos Tallensi, descritas por Goody – povoadas por fazendeiros fugindo das incursões predatórias de guerreiros montados das estepes. Esta interpretação é agora considerada implausível (ver: ANTHONY, 2007; KOHL, 2002). Mas isso captura algo da orientação interna da economia e da sociedade de Tripolye. Os bens comercializados na esfera de Tripolye incluíam metais balcânicos e conchas mediterrâneas; mas há pouco que possa sugerir [4] que a produção local estivesse fortemente voltada para a aquisição de tais importações de longo alcance, ou que tivessem funções sociais e rituais cruciais nos assentamentos de Tripolye.

Na medida em que pode ser reconstruída, a vida ritual dos megassítios de Tripolye parece ter sido fortemente focada e contida no reino doméstico. Seus principais componentes materiais poderiam ser adquiridos dentro da economia regional da zona da estepe-floresta, como a argila, o pigmento usado para fazer estatuetas (BAILEY, 2010) e recipientes de comida ritual (LAZAROVICI, 2010). Estes últimos não mostram sinais da padronização e uniformidade graduada tão evidentes nas assembleias domésticas da Mesopotâmia. Em vez disso, cada vaso foi decorada individualmente com desenhos policromados de intensidade muitas vezes hipnotizante. A cerâmica de Tripolye também exibe uma variedade estonteante de formas, sugerindo inovação constante e ócio criativo nas regras de comensalidade: cada família, até certo ponto, inventando sua própria cozinha. Figuras antropomórficas, encontradas na maioria das residências de Tripolye, representam o mundo social autocontido da casa, repleto de representações em miniatura de móveis e equipamentos de festa em conjuntos harmoniosamente ordenados.

Conclusão: mais uma homenagem à Catalunha


Para resumir: na Eurásia Ocidental, o surgimento dos primeiros assentamentos urbanos do mundo teve, não um, mas dois focos primários. O primeiro – mais conhecido e muito discutido por Jack Goody – situava-se ao longo dos férteis solos aluviais dos rios Tigre e Eufrates, onde hoje é o Iraque e parte da Síria (antiga Mesopotâmia). O segundo, e menos conhecido, situava-se nas margens da estepe-floresta do rio Dniester. No quarto milênio a.C., essas duas áreas testemunharam o crescimento de assentamentos nucleados em uma escala sem precedentes na história da humanidade. As comunidades agrícolas anteriores (neolíticas) muitas vezes atingiram tamanhos da ordem de dezenas de hectares. Mas as aglomerações urbanas do quarto milênio se estendiam regularmente por centenas e suas populações chegavam a muitos milhares. Um grande limiar foi cruzado nas escalas de organização social e, nesse sentido, o termo “Revolução Urbana” permanece apropriado.

Mas ainda mais impressionantes são os caminhos divergentes para a urbanização seguidos nos casos da Mesopotâmia e da Ucrânia. A primeira, via mesopotâmica, baseava-se na centralização das funções comerciais, burocráticas e rituais em instituições de grande porte – Casas dos Deuses – que competiam de forma predatória pelo acesso às rotas comerciais inter-regionais e materiais exóticos. O último, o caminho ucraniano, foi baseado em um sistema regionalmente contido de compras e trocas, que parece ter funcionado efetivamente por muitos séculos com pouca gestão centralizada ou acumulação de recursos acima do nível da família individual ou do pequeno bairro. Até agora, esses dois casos de urbanização primeva não foram explicitamente comparados, e apenas o primeiro modelo – mesopotâmico – é considerado um estágio exemplar na evolução da “sociedade complexa” ou “civilização primeira”.

Comparação entre distintas formas de organização urbana. Imagem extraída de: link.

Isso pode ser parcialmente entendido como resultado da geopolítica recente, que durante décadas tornou as descobertas ucranianas inacessíveis aos estudiosos ocidentais. Mas hoje, eu sugiro, são apenas viseiras teóricas que nos impedem de incorporar totalmente as primeiras cidades da zona da estepe-floresta em nossa compreensão mais ampla da evolução social. Eles permanecem como um desafio permanente aos modelos gerenciais e comerciais de crescimento dos assentamentos pré-industriais, e como um lembrete das possibilidades pelas quais muitos da geração de Jack Goody deram suas vidas, na Espanha pré-franquista e em outros lugares: possibilidades de organização igualitária em escala urbana. Para concluir, as primeiras cidades ucranianas – em conjunto com suas contrapartes mesopotâmicas – representam fios fundadores de uma teia complexa, na qual a história das sociedades eurasianas permanece emaranhada. Na medida em que o conceito de “Revolução Urbana” deva ser mantido, devemos incluí-los.

Notas:


[1] – Sou profundamente grato ao Max Planck Institute for Social Anthropology pela honra de ministrar essa Goody Lecture. Minha escolha de tema foi em resposta a uma provocação de David Graeber, que me perguntou se a pré-história humana fornece exemplos de experimentos igualitários em escala urbana. Espero que isso ajude um pouco a fornecer uma resposta. Por suas observações sobre rascunhos anteriores, sou grato a Maurice Bloch, Ewa Domaradzka e Alpa Shah. Meus agradecimentos também a John Chapman, que foi um conselheiro generoso no material ucraniano.

[2] – [Nota da tradução]: Loess é um tipo de solo sedimentar.

[3] – [Nota da tradução]: As cottages eram cabanas/casas de campo típicas da vida agrária eurasiana.

[4] – [Nota da tradução]: David Wengrow se refere aqui às evidências disponíveis.

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