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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O conceito anarquista da revolução (1921) – Luigi Fabbri

Luigi Fabbri (1877-1935) e a folha de rosto da obra da qual publicamos um capítulo.

Nesta publicação vamos compartilhar uma tradução revisada (dessa versão: link) e ampliada do capítulo 10 da obra “Dittatura e Rivoluzione” (publicada originalmente em 1921) de Luigi Fabbri. Trata-se da discussão acerca do que Fabbri considera ser o “concetto anarchico della Rivoluzione” (o conceito anarquista da revolução), com importantes contribuições para a desmistificação da teoria anarquista revolucionária.

Há de se destacar o contexto da obra: foi um ano depois do Biênio Vermelho (1919-1920) e um ano antes da ascensão de Mussolini (1922). As reflexões de Fabbri emergem conectadas com a experiência de luta proletária italiana, mas também em constante diálogo com a situação da “revolução russa”. Diante da ameaça fascista, Fabbri demonstra estar plenamente consciente da necessidade da revolução como único método de combater efetivamente o movimento reacionário.

A discussão de Luigi Fabbri suscita muitas reflexões sobre a práxis revolucionária, por isso consideramos fundamental compartilhar essa tradução em nosso blog, embora fosse melhor se dispuséssemos do texto integral do livro traduzido.

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Uma revolução que, pelo menos na Europa Latina, e mais especialmente na Itália, não levasse em consideração o elemento anarquista e acreditasse ser possível se desenvolver independentemente dele ou contra ele, correria os perigos mais graves: o primeiro de todos seria a guerra civil no seio da revolução, o perigo de provocar uma revolução dentro da própria revolução, antes mesmo de desaparecer qualquer possibilidade de contrarrevolução.

Deve-se considerar que na Itália os anarquistas hoje têm uma força numérica que não é indiferente [1], que têm uma influência e uma força de irradiação reconhecida por todos e que, em um período revolucionário, não poderiam deixar de se multiplicar.

Se trata de uma força revolucionária, e não cartas e cédulas eleitorais, com a qual todo aquele que pensa seriamente a revolução deve levar em consideração, não como um peso morto que seria materialmente explorado em seu devido tempo, mas como uma força consciente, possuindo uma orientação e vontade de agir determinadas e cujo desacordo pode ser prejudicial não só para os partidos dissidentes, mas também e sobretudo para a causa da revolução.

Não se trata, por parte dos anarquistas, de uma questão de teimosia, de uma presunção ou um desejo tolo de ser levado em consideração. Os anarquistas têm pouco espírito partidário; eles não propõem nenhum fim imediato além da extensão de sua propaganda. Eles não são um partido de governo ou um partido de interesses – a menos que por interesse se entenda o pão e a liberdade para todos –, mas apenas um partido de ideias. Esta é a sua fraqueza na medida em que qualquer sucesso material é vedado a eles e os outros, mais astutos ou mais fortes, exploram e usam os resultados parciais de seu trabalho.

Mas esta é também a força dos anarquistas, porque só enfrentando as derrotas, eles – os eternos vencidos – preparam a vitória final, a verdadeira. Não tendo interesses pessoais ou grupais próprios para afirmar e rejeitando qualquer pretensão de domínio sobre a multidão em cujo meio vivem e da qual compartilham suas ansiedades e esperanças, não dão ordens a que devam obedecer mais tarde, não pedem nada, mas dizem: “vossa sorte será como vós fareis; a saúde está em vocês; conquiste-a com vosso aperfeiçoamento espiritual, com vosso sacrifício e com vosso risco. Se quiseres, vencerás. Não queremos ser mais do que uma parte de vocês na luta”.

Se, portanto, os anarquistas muitas vezes apelam por um entendimento entre todos os que trabalham pela revolução, se estão preocupados com uma possível discórdia dentro da revolução, o que os move é apenas um desejo sincero de que a revolução em si não acabe sendo distanciada ou dificultada por uma intransigência que é bastante intolerante, não para com as classes e partidos burgueses – diante dos quais nunca se têm o bastante de intransigência – mas também para com as forças e frações proletárias, sinceramente revolucionárias, anticapitalistas, internacionalistas e inimigas sem mediação das instituições atuais, como são, sem dúvida, os anarquistas.

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A intolerância de muitos socialistas, mesmo de certos revolucionários, face ao anarquismo depende em grande parte da sua absoluta ignorância sobre as ideias, os objetivos e os métodos dos anarquistas.

É espantoso constatar como pessoas das mais inteligentes, duma vasta cultura política e econômica, entre os socialistas, quando se trata da anarquia não sabem dizer mais do que os habituais lugares comuns sem sentido, difundidos pela pior imprensa burguesa: as afirmações mais estrambólicas e difamatórias, as interpretações mais tolas. Toda a ciência socialista sobre o anarquismo parece condensada naquele velho libelo em que Plekhanov, em 1893, desafogava a sua bílis anti-anarquista, sem nenhum respeito pela verdade e sem nenhuma honestidade intelectual [2]; ou naquele conhecido livro de Lombroso sobre os anarquistas, que toma por documentos verdadeiros os relatórios da polícia e dos diretores das prisões, e cataloga, sabe-se lá porquê, entre os anarquistas gente que em nove décimos jamais sonhou sê-lo!

Inúmeras refutações socialistas do anarquismo têm aparecido em jornais, livros e revistas; mas, com algumas louváveis exceções, quase sempre refutam ideias que de nenhuma forma são anarquistas, atribuídas aos anarquistas seja por ignorância ou por artifício polêmico. Especialmente sobre o conceito da revolução foram postas em circulação pretensas teorias anarquistas, tão extravagantes que nos obrigam a duvidar da boa fé de quem as enuncia. Quanta tinta derramada para demonstrar aos “anarquistas iludidos” que a revolução não se faz com pedras, com velhos fuzis ou com qualquer revólver, que as barricadas já não correspondem às necessidades da luta presente! Que os motins isolados e improvisados não bastam! Que os atentados individuais por si só não fazem a revolução! Que a revolta é uma coisa e a revolução é outra!… E por aí fora, com descobertas peregrinas de semelhante cunho. – Ignorando ou fingindo ignorar que os anarquistas têm da revolução o conceito mais exato, e ao mesmo tempo mais prático, segundo o significado etimológico, tradicional e histórico da palavra.

A revolução, na linguagem política e social – e também na linguagem popular – é um movimento geral através do qual um povo ou uma classe, saindo da legalidade e fazendo cair as instituições vigentes, quebrando o pacto leonino imposto pelos dominadores às classes dominadas, com uma série mais ou menos longa de insurreições, revoltas, tumultos, atentados e lutas de toda a sorte, derruba definitivamente o regime político e social a que até então estava sujeito, e instaura uma ordem nova.

A derrubada de um regime costuma ocorrer num tempo relativamente breve: poucos dias na revolução de julho de 1830 que substituiu em França uma dinastia por outra, pouco mais de um ano na revolução italiana de 1848; seis ou sete anos na revolução francesa de 1789, uma dúzia de anos na revolução inglesa da metade do século XVII. A revolução, isto é, a demolição de fato de um regime político e social preexistente, é em substância a conclusão de uma evolução anterior, que se traduz na realidade material quebrando violentamente as formas sociais e o invólucro político não mais apto a contê-la. Ela termina com o regresso a um estado normal, quando a luta é cessada, seja com a vitória a permitir à revolução instaurar um novo regime, seja com a sua derrota parcial ou total a restaurar, em parte ou no todo, o regime antigo, dando lugar à contrarrevolução.

A característica principal, pela qual se pode dizer que a revolução começou, é a saída da legalidade, a rutura do equilíbrio e da disciplina estatal, a ação impune e vitoriosa da praça contra a lei. Antes de um fato específico e resolutivo deste gênero, não há ainda revolução. Pode haver um estado de ânimo revolucionário, uma preparação revolucionária, condições mais ou menos favoráveis à revolução; podem dar-se episódios mais ou menos felizes de revolta, tentativas insurrecionais, greves violentas ou não, manifestações até sangrentas, atentados, etc. Mas enquanto a força permanece na lei velha e no velho poder, não se entrou ainda em revolução.

A luta contra o Estado, defensor armado do regime, é portanto a condição sine qua non da revolução. A qual tende a limitar o mais possível o poder do Estado e a desenvolver o espírito de liberdade; a levar até ao limite máximo o povo, os súbditos da véspera, os explorados e os oprimidos, ao uso de todas as liberdades individuais e coletivas. No exercício da liberdade, não restringido por leis e governos, reside a saúde de toda a revolução, a garantia de que ela não seja limitada ou contida nos seus progressos, a sua melhor salvaguarda contra as tentativas internas e externas de a estrangular.

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Alguns dizem-nos: “Compreendemos que, como anarquistas e sendo contrários a toda a ideia de governo, vocês são contra a ditadura que é a sua expressão mais autoritária; mas não se trata de a propor como objetivo, e sim como meio, ainda que seja antipático mas necessário, como é um meio necessário mas antipático a violência, durante o período provisório revolucionário, necessária para vencer as resistências e os contra-ataques burgueses”.

Uma coisa é a violência, outra é a autoridade governativa, seja esta ou não ditatorial. Se é verdade, de fato, que todas as autoridades governativas se baseiam no uso da violência, seria inexato e errôneo dizer que toda a “violência” é um ato de autoridade, e que, sendo necessária a primeira, também necessária se torna a segunda. A violência é um meio, que assume o caráter do fim para que é aplicada, do modo como é usada, das pessoas que dela se servem. Ela é um ato de autoridade quando é aplicada para impor aos outros a vontade de quem comanda; quando é emanação governativa ou patronal, e serve para manter escravos povos e classes; para impedir a liberdade individual dos súbditos, para fazer obedecer pela força. É ao invés libertária, vale dizer, ato de liberdade e libertação, quando é aplicada contra quem comanda e por quem não quer mais obedecer; quando é dirigida a impedir, diminuir ou destruir uma escravidão qualquer, individual ou coletiva, econômica ou política; e é aplicada pelos oprimidos diretamente, indivíduos, povos ou classes, contra o governo e a classe dominante. Tal violência é a revolução em ato; mas deixa de ser libertária, e assim revolucionária, logo que, vencido o velho poder, quer ela própria tornar-se poder, e se cristaliza numa forma qualquer de governo.

É este o momento mais perigoso de toda a revolução: quando a violência libertária e revolucionária vencedora se pode transformar em violência autoritária e contrarrevolucionária, moderadora e limitadora da vitória popular insurrecional. É o momento em que a revolução pode devorar-se a si mesma, se lhe tomarem a dianteira as tendências jocobinas, estatais, que já se manifestam através do socialismo marxista favorável ao estabelecimento dum governo ditatorial. A tarefa específica dos anarquistas, decorrente das suas próprias concepções teóricas e práticas, é justamente reagir contra tais tendências autoritárias e liberticidas; com a propaganda hoje e com a ação amanhã.

Aqueles que fazem uma distinção entre anarquia teórica e anarquia prática, para sustentar que a anarquia prática não deveria ser anarquista mas ditatorial, não compreenderam bem a essência do anarquismo, no qual não é possível separar a teoria da prática, porquanto para os anarquistas a teoria decorre da prática e é por sua vez um guia para a conduta, uma verdadeira e própria pedagogia da ação.

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Muitos creem que a anarquia consista só na afirmação revolucionária e ideal ao mesmo tempo de uma sociedade sem governo, a instaurar no futuro, mas sem ligação com a realidade atual, para que hoje se possa ou se deva agir em contradição com o fim que nos propomos, sem escrúpulos e sem limites. Assim, à espera da anarquia, ontem nos aconselhavam provisoriamente a votar nas eleições, como hoje nos propõem aceitar provisoriamente a ditadura considerada proletária ou revolucionária.

Mas nada disso! Se fôssemos anarquistas só no fim e não nos meios, o nosso partido seria inútil; pois a frase de Bovio, de que anarquista é o pensamento e para a anarquia vai a história, pode ser dita e aprovada (como de fato muitos dizem subscrevê-la) também por aqueles que militam em outros partidos de progresso. O que nos distingue, não só na teoria mas também na prática, dos outros partidos é que nós não somente temos um objetivo anarquista mas também um movimento anarquista, uma metodologia anarquista; porquanto pensamos que as vias a percorrer, tanto durante o período preparatório da propaganda como no período revolucionário, são as vias da liberdade.

A função do anarquismo não é tanto de profetizar um futuro de liberdade, mas de o preparar. Se todo o anarquismo consistisse na visão longínqua de uma sociedade sem Estado, ou na afirmação de direitos individuais, ou numa questão puramente espiritual, abstraída da realidade vivida e dizendo respeito só às consciências particulares, não haveria nenhuma necessidade de um movimento político e social anarquista. Se o anarquismo fosse simplesmente uma ética individual, a cultivar dentro de nós, ao mesmo tempo adaptando-se na vida material a atos e movimentos com ela contraditórios, poderíamos dizer-nos anarquistas e pertencer aos mais diversos partidos; e poderiam ser chamados anarquistas muitos que, embora sendo espiritual e intelectualmente emancipados, no terreno prático são e continuam nossos inimigos.

Mas o anarquismo é outra coisa. Não é um meio de nos fecharmos na torre de marfim, mas sim uma manifestação do povo, proletária e revolucionária, uma participação ativa no movimento de emancipação humana com critérios e finalidades igualitárias e libertárias ao mesmo tempo. A parte mais importante do seu programa não consiste somente no sonho, que todavia queremos que se realize, duma sociedade sem patrões e sem governos, mas sobretudo na concepção libertária da revolução, da revolução contra o Estado e não por meio do Estado, da ideia de que a liberdade é não só o calor vital que aquecerá o novo mundo de amanhã, mas também e sobretudo, hoje mesmo, uma arma de combate contra o velho mundo. Neste sentido a anarquia é uma verdadeira e própria teoria da revolução.

Tanto a propaganda hoje como a revolução amanhã têm e terão, por conseguinte, necessidade do máximo possível de liberdade para se desenvolverem. Isto não quer dizer que não devemos e não podemos prosseguir da mesma forma, mesmo que a liberdade nos seja em parte, pouco ou muito, tirada; mas é do nosso interesse tê-la e querê-la o máximo possível. Do contrário, não seríamos anarquistas. Noutros termos, nós pensamos que quanto mais agirmos libertariamente, tanto mais contribuiremos não só para nos aproximarmos da anarquia, mas também para consolidar a revolução; ao passo que da anarquia nos afastaremos, e enfraqueceremos a revolução, toda a vez que recorrermos a sistemas autoritários. Defender a liberdade para nós e para todos, combater pela liberdade cada vez mais extensa e completa, tal é portanto a nossa função, hoje, amanhã, sempre – na teoria e na prática.

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Liberdade até para os nossos inimigos?, Perguntasse-nos. A pergunta é ingênua ou desonesta. Estamos em luta com os inimigos, e na peleia não se reconhece ao inimigo nenhuma liberdade, nem sequer a de viver. Se fossem inimigos só… teóricos, se os encontrássemos à nossa frente, desarmados, na impossibilidade de atentar contra a nossa liberdade, despojados de todo o privilégio e portanto em paridade de condições, seria coisa admissível. Mas preocuparmo-nos com a liberdade dos nossos inimigos quando nós temos algum pobre jornal e uns poucos semanários e eles possuem centenas de diários de grande tiragem; quando eles estão armados e nós desarmados, enquanto eles estão no poder e nós somos súditos, eles ricos e nós pobres, ora! seria ridículo… Seria o mesmo que reconhecer a um assassino a liberdade de nos matar! Tal liberdade nós lhes negamos e negaremos sempre, também em período revolucionário, enquanto eles conservarem a sua condição de verdugos e nós não tivermos conquistado total e completamente a nossa liberdade, não só em direito mas de fato.

Mas esta liberdade não a poderemos conquistar senão utilizando-a também como meio, onde fazer isso depende de nós; vale dizer, dando desde já uma direção cada vez mais livre e libertária ao nosso movimento, ao movimento proletário e popular; desenvolvendo o espírito de liberdade, de autonomia e de livre iniciativa no meio das massas; educando-as para uma intolerância cada vez maior a todo o poder autoritário e político, encorajando o espírito de independência de juízo e de ação face aos líderes de toda a espécie; habituando o povo ao desprezo de todo o freio e disciplina impostos pelos outros e de cima, que não seja portanto o freio da própria consciência e a disciplina livremente escolhida e aceite, seguida só enquanto se considera boa e útil ao objetivo revolucionário e libertário estabelecido.

É claro que uma massa educada nesta escola, um movimento tendo esta direção (e tal é o movimento anarquista), encontrará na revolução a ocasião e o meio de se desenvolver no seu sentido até limites hoje sequer imagináveis; e será o obstáculo natural, e ao mesmo tempo voluntário, à formação e afirmação de qualquer governo mais ou menos ditatorial. Entre este movimento para uma liberdade cada vez maior e a tendência centralizadora e ditatorial não pode haver senão conflito, mais ou menos forte e violento, com maiores ou menores tréguas, em função das circunstâncias; mas concordância nunca.

E isso não por um capricho exclusivamente doutrinário e abstrato, mas porque os negadores do poder – é este, repetimos, o lado mais importante da teoria anarquista, que pretende ser a mais prática das teorias – pensam que a revolução sem a liberdade nos levaria a uma nova tirania; que o governo, apenas pelo fato de o ser, tende a conter e limitar a revolução; e que é do interesse da revolução e do seu progressivo desenvolvimento combater e pôr obstáculos a toda a centralização de poderes, impedir a formação de qualquer governo, se for possível, ou impedir ao menos que ele se reforce, se torne estável e se consolide. Quer isto dizer que o interesse da revolução é contrário à tendência que toda a ditadura tem em si, por mais proletária ou revolucionária que se diga, de se tornar forte, estável e sólida.

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Mas não! Replicam outros; tratar-se-ia de uma ditadura provisória enquanto dura a obra de deposição da burguesia, para a combater, vencer e expropriar.

Quando se diz “ditadura” subentende-se sempre provisória, mesmo no significado burguês e histórico da palavra. Todas as ditaduras, nos tempos idos, foram provisórias nas intenções dos seus promotores e, nominalmente, também de fato. As intenções em tal caso contam pouco, pois trata-se de formar um organismo complexo, que seguiria a sua natureza e as suas leis e anularia toda a apriorística intenção contrária ou limitadora. O que temos que ver é: primeiro, se as consequências do regime ditatorial são mais danosas do que vantajosas para a revolução; segundo, se os objetivos destruidores e reconstrutivos para que a ditadura se quer, não podem ser alcançados também e melhor sem ela, pelas vias amplas da liberdade.

Nós cremos que sim; e cremos que a revolução é mais forte, mais incoercível, mais difícil de vencer, quando não há um centro onde atacá-la: quando ela está em qualquer lugar, sobre todos os pontos do território, e em qualquer lugar o povo proceda livremente a realizar os dois fins principais da revolução: a destruição da autoridade e a expropriação dos patrões.

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Quando censuramos à concepção ditatorial da revolução o grave erro de impor a vontade duma pequena minoria à grande maioria da população, respondem-nos que as revoluções são feitas pelas minorias.

Também na literatura anarquista se encontra muito frequentemente repetida esta expressão, que diz de fato uma grande verdade histórica. Mas convém compreendê-la no seu verdadeiro significado revolucionário, e não lhe dar, como os bolcheviques, um sentido que antes nunca tivera. Que as revoluções sejam feitas pelas minorias é de fato verdade… até um certo ponto. As minorias, na realidade, iniciam a revolução, tomam a iniciativa da ação, arrombam a primeira porta, abatem os primeiros obstáculos, pois sabem ousar o que as maiorias inertes ou misoneístas receiam, no seu amor à vida tranquila e o seu temor aos riscos.

Mas se, uma vez quebradas as primeiras amarras, as maiorias populares não seguem as minorias audazes, o ato destas ou é seguido por uma reação do velho regime que tira a desforra, ou resolve-se na substituição de uma dominação por outra, de um privilégio por outro. É necessário então que a minoria rebelde tenha mais ou menos um consentimento da maioria, lhe interprete as necessidades e os sentimentos latentes; e, vencido o primeiro obstáculo, realize as aspirações populares, deixe às massas a liberdade de se organizarem a seu modo, tornando-se a minoria num certo sentido a maioria.

Se isto não ocorre, não dizemos que a minoria não tenha o mesmo direito à revolta. Segundo o conceito anarquista da liberdade, todos os oprimidos têm direito de se rebelar à opressão, tanto o indivíduo como a coletividade, as minorias como as maiorias. Mas uma coisa é rebelar-se à opressão, outra é tornar-se opressor por sua vez, como mais vezes dissemos. Também quando as maiorias toleram a opressão ou são dela cúmplices, a minoria que se sinta oprimida tem direito a rebelar-se, a querer para si a sua liberdade. Mas igual e maior direito teriam as maiorias, contra qualquer minoria que pretendesse sob qualquer pretexto sujeitá-las.

De resto, na realidade factual, os opressores são sempre uma minoria, tanto quando oprimem abertamente em nome próprio, como quando exercem a opressão em nome de hipotéticas coletividades ou maiorias. A revolta é, portanto, iniciativa de uma minoria consciente, insurgida em meio a uma maioria oprimida, contra uma outra minoria tirânica; mas tal revolta só se torna revolução, só pode ter eficácia renovadora e libertadora, se com o seu exemplo conseguir sacudir a maioria, arrastá-la, pô-la em movimento, conquistar-lhe o favor e a adesão.

Abandonada ou adversada pelas maiorias populares, a revolta, se derrotada, passaria à história como um movimento heroico e infeliz, fecundo precursor dos tempos, etapa sanguinosa mas necessária de uma vitória indefectível no futuro. Caso contrário, se vencedora, a minoria rebelde tornada senhora do poder a despeito das maiorias, um novo jugo sobre o pescoço dos súbditos, acabaria por matar a mesma revolução por ela suscitada.

Em certo sentido poder-se-ia dizer que, se uma minoria rebelde não consegue com o seu ímpeto arrastar atrás de si a maioria dos oprimidos, ela seria mais útil à revolução se derrotada e sacrificada. Pois se com a vitória se tornasse ela opressora, acabaria por apagar nas massas toda a fé na revolução, fazê-las talvez mesmo odiar uma revolução da qual vissem sair nada além de uma nova tirania – de que sentiriam o peso e o dano, qualquer que fosse o pretexto ou o nome com que viesse lhe cobrir.

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Especialmente depois da revolução russa, vem sendo defendida a ideia do poder ditatorial da revolução, como um meio necessário de luta contra os inimigos internos, contra as tentativas dos ex-dominadores desejosos de recuperar o poder econômico e político. O governo serviria, portanto, para organizar, nos primeiros momentos de maior perigo, o terrorismo antiburguês em defesa da revolução [3].

Nós não negamos de modo nenhum a necessidade do uso do terror, especialmente quando aos inimigos internos vêm em ajuda, com forças armadas, os inimigos externos. O terrorismo revolucionário é uma consequência inevitável quando o território sobre o qual a revolução ainda não se reforçou o suficiente está a ser invadido por exércitos reacionários. Cada insídia da contrarrevolução, a partir de dentro, é demasiado funesta em tais circunstâncias para que não deva ser exterminada com ferro e fogo.

A lenda de Bruto, que manda para o patíbulo os filhos, cúmplices internos dos Tarquínios expulsos de Roma e que ameaçavam a liberdade romana à cabeça dum exército estrangeiro, é o símbolo desta trágica necessidade do terror. Assim em França se sentiu a necessidade, em 1792, de exterminar os nobres, os padres e os reacionários acumulados nas prisões, quando Brunswick se acercava ameaçadoramente a Paris, guiado pelos emigrantes.

O terror torna-se inevitável quando a revolução é encurralada por todos os lados. Sem a ameaça externa, as ameaças contrarrevolucionárias internas não metem medo; basta para as manter inativas o conhecimento da sua impotência material. Deixá-las tranquilas poderia ser até mesmo um erro, e talvez um perigo para o futuro, mas não constitui perigo imediato. Por isso pode-se facilmente ser arrastado face aos próprios inimigos a um sentimento de generosidade e piedade. Mas quando estes inimigos têm para lá das fronteiras forças armadas prontas a intervir em seu socorro, quando eles acham aliados nos inimigos externos, então tornam-se um perigo, que se faz cada vez mais forte quanto mais avança o outro perigo de fora. A sua supressão torna-se então questão de vida ou de morte.

Quanto mais inexorável é a revolução em tais momentos, melhor consegue evitar maiores lutas para o futuro. Uma excessiva tolerância hoje poderia tornar necessário amanhã um rigor duplamente mais grave [4]. Se depois ela tivesse por consequência a derrota da revolução, chacinas muito mais terríveis viriam punir a fraqueza com o terror branco da contrarrevolução!

Não é necessário de resto valorizar demais a retórica, de que faz pompa a imprensa burguesa, para vituperar e caluniar o terrorismo revolucionário.

Há quatro anos que não fazem mais do que falar dos horrores, das chacinas, das infâmias e das desordens revolucionárias de Petrogrado e Moscou. Mas se se tivesse a paciência de ir às bibliotecas resgatar os diários de Roma, Turim, Viena, Coblença, Berlim, Londres e Madrid de 1789 a 1815, aproximadamente, ler-se-iam palavras idênticas de horror sobre as chacinas, as infâmias e as desordens da Grande Revolução. Aqueles que se lembram dos tempos da Comuna de Paris de 1871, recordam igualmente com que linguagem repulsiva se falava das “chacinas” dos petroleiros comunards: não havia palavras que chegassem para os vituperar como os piores assassinos. Não obstante, quantos apologistas da Comuna parisiense não estão hoje entre os vituperadores da Comuna de Moscou!

Os patriotas italianos sinceros devem recordar-se das infâmias que nos jornais moderados e bonapartistas de Paris escreveram – de acordo com os jornais clericais vienenses – contra a República Romana de 1849 e de como então as almas mais pias se escandalizaram e horrorizaram pelas chacinas atribuídas aos carbonários e aos mazzinianos. Também sobre a revolução russa um dia se saberá a verdade verdadeira e talvez muitos dos seus atuais difamadores mudarão de opinião. Aí, provavelmente, os únicos que persistirão na crítica serão… os anarquistas!

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Nenhum direito tem a burguesia de se escandalizar com o terrorismo da revolução russa, ela que nas suas revoluções fez outro tanto, que depois aplicou o terror em sua vantagem contra o povo toda a vez que este tentou seriamente sacudir o seu jugo, com uma ferocidade que nenhuma revolução jamais alcançou.

Como anarquistas, porém, nós fazemos todas as nossas reservas, não contra o uso do terror em geral, mas contra o terrorismo codificado, legalizado, feito instrumento de governo – mesmo que seja um governo que se diga e se creia revolucionário. O terrorismo autoritário, na realidade, pelo fato de ser tal, deixa de ser revolucionário, torna-se uma ameaça perene para a revolução e também uma razão de fraqueza. A violência só encontra sua justificação na luta e na necessidade de libertação de uma opressão violenta; mas a legalização da violência, o governo violento, é ele mesmo uma prepotência, uma nova opressão.

Torna-se, por isso, causa de fraqueza para o terrorismo revolucionário o fato dele ser exercido não livremente pelo povo e contra os seus inimigos somente, não por iniciativa independente dos grupos revolucionários, mas pelo governo; com a consequência natural de que o governo persiga, junto com os verdadeiros inimigos da revolução, também revolucionários sinceros, mais avançados do que ele, mas discordantes. Além disso, o terrorismo, como ato de autoridade governativa, é mais suscetível de recolher aquelas antipatias e aversões populares que sempre se determinam em oposição a todo o governo, de qualquer espécie que seja; apenas porque é um governo. O governo, também quando recorre a medidas radicais, pelas responsabilidades que sobre ele pesam e por todo o conjunto de influências que sofre do exterior e do interior, é levado inevitavelmente a cautelas e a atos ou mais violentos ou mais remissivos a critérios sugeridos mais do que pelo interesse do povo e da revolução, pela necessidade de defender o seu poder e a segurança pessoal, presente ou futura, ou até o simples bom nome, dos seus componentes.

Para nos livrarmos em qualquer lugar da burguesia, para proceder àquelas medidas sumárias que podem ser necessárias numa revolução, não há necessidade de ordens de cima. Aliás, quem está no poder, por um sentido natural de responsabilidade, pode ter hesitações e escrúpulos perigosos, que as massas não têm. A ação direta popular – que poderemos chamar terrorismo libertário – é portanto sempre mais radical, sem contar que, localmente, se pode saber muito melhor quem e onde atacar, do que a partir do poder central distante, o qual seria obrigado a confiar em tribunais cada vez menos justos e ao mesmo tempo mais ferozes do que a justiça sumária popular. – Os quais, mesmo quando levam a cabo atos de verdadeira justiça, não atacam por sentimento, mas por mandato, tornam-se, assim pela sua frieza, antipáticos ao povo e são levados a rodear os seus atos de crueldade, mesmo que necessária, com uma teatralidade inútil e uma hipócrita ostentação duma igualdade legislativa inexistente e impossível.

Em todas as revoluções, assim que a justiça popular se torna legal, organizada a partir de cima, pouco a pouco se transforma em injustiça. Torna-se talvez mais cruel, mas é também levada a atacar os próprios revolucionários, a poupar muitas vezes os inimigos, a tornar-se instrumento do poder central em sentido cada vez mais repressivo e contrarrevolucionário. Como instrumento de violência destrutiva, portanto, não só pode passar sem o poder na revolução, mas a mesma violência é tanto mais eficaz e radical quanto menos se concentra numa autoridade determinada.

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Àqueles que contra os nossos argumentos opõem o que acontece na Rússia, nós respondemos que lá a experiência está ainda em curso e é cedo demais para nos basearmos nela como prova de verdade. Cita-se muito os decretos emanados do governo soviético, mas para perceber se são bons seria preciso saber se, como e até que ponto foram aplicados, os seus resultados, etc. Para concluir que lá se fez bem, seria preciso que a experiência estivesse concluída, com a vitória ou com a derrota, de modo a saber e perceber se a ditadura terá mais ajudado ou estorvado uma ou outra. Atualmente nós podemos, assim como os favoráveis à ditadura revolucionária, excluir que uma das causas das condições terríveis em que se debate a revolução russa seja justamente a sua direção excessivamente autoritária e ditatorial? Não, certamente.

Nós, com o maior senso de objetividade que nos foi possível, dada a nossa passionalidade de homens de partido, examinamos num capítulo anterior as condições criadas na Rússia pela ditadura em relação aos interesses da liberdade. E por este lado as conclusões que se podem tirar não são, por certo, encorajadoras! Mas o nosso objetivo não é o de nos erigirmos em juízes nem tampouco de fazer da crítica histórica um fim em si mesma, mas sim de examinar as ideias e os fatos, tendo em conta o que poderia ser a revolução nos nossos países. Podemos também admitir que na Rússia as coisas não pudessem ir diferentemente de como vão e não se pudesse fazer diferentemente do que se fez. Mas é certo que nos países ocidentais não se poderia agir do mesmo modo que na Rússia.

As nossas considerações pretendem sobretudo ter um valor aqui, onde nós vivemos, como norma e guia de uma eventual revolução mais ou menos próxima; para que tenhamos o dever de não imitar cegamente o que se diz ou imaginamos se tenha feito na Rússia ou noutro lugar, e sim preparar positivamente o terreno para a nossa revolução, vendo o que convém e o que não convém ao seu triunfo, dadas as nossas condições, os meios de que podemos dispor e os fins que nos propomos com a revolução – aqui, no nosso ambiente, com os nossos sentimentos e as nossas ideias.

Aqueles que citam tão frequentemente Lênin devem a tal propósito recordar o honesto conselho que ele deu aos revolucionários da Hungria, quando lá rebentou a desgraçada revolução tão mal acabada, de terem o cuidado de não macaquear aquilo que se tinha feito na Rússia, porque nela se tinham cometido erros que era preciso evitar; e porque o que podia ser útil, necessário ou inevitável na Rússia, podia ser, ao contrário, evitável e nocivo noutro lugar. O conselho de Lênin é bom para os revolucionários de todos os países – compreendidos os revolucionários de Itália.

Notas:


[1] – A revelação desta força, no Congresso da Unione Anarchica Italiana (UAI), realizado em Bolonha de 1 a 4 de julho de 1911, foi uma surpresa para os próprios anarquistas. Existem agora dezenas de milhares de anarquistas na Itália, reunidos em algumas centenas de grupos. E deve-se notar que nem todos os anarquistas estão associados, nem todo se conhecem.… Além de seis ou sete periódicos semanais ou quinzenais, o anarquismo na Itália tem um jornal diário (Umanità Nova, Milão) que em um ano coletou mais de meio milhão de liras em assinaturas voluntárias, com um movimento financeiro superior a um milhão, e com uma circulação de cerca de 50.000 exemplares. Além disso, ao lado do movimento anarquista, há o movimento operário da Unione Sindacale Italiana (USI) que, embora completamente autônomo de qualquer política partidária, tem diretivas claramente libertárias, com líderes que são, em sua maioria, anarquistas militantes, e tem mais de 300.000 membros organizados.

[2] – O presente volume estava já impresso em mais de metade quando saiu pelas edições do Avanti! (Milão, 1920) um novo livro, “Estado e Revolução”, de Lênin, o qual reconhece a superficialidade de Plekhanov, que tratou o tema evitando completamente o que havia de mais atual e politicamente essencial nas diferenças entre socialismo e anarquia, e acompanhando a parte histórica com considerações filisteias e vulgares pretendendo demonstrar que um anarquista dificilmente se pode distinguir de um bandido (Lênin, “Stato e Rivoluzione” – pág. 118).

[3] – Falamos no “terrorismo” não somente no significado particular de política terrorista de governo, mas no sentido geral do uso da violência até aos extremos limites mais mortíferos, o que pode ser feito tanto por um governo por meio dos seus gendarmes, quanto diretamente pelo povo no curso de um tumulto e durante a revolução.

[4] – Neste sentido Giovanni Bovio dizia que a Revolução “comete piedosamente ações cruéis, e evita a femínea piedade; desculpa uma matança e condena os Soderini”. (G. Bovio, “Dottrina dei partiti in Europa”, Nápoles, 1886 – pág. 137).

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Extratos de um artigo de Carlo Romani sobre o anarquismo italiano (2013)

Errico Malatesta & Luigi Fabbri, dois militantes importantes do anarquismo italiano.



Com o objetivo de difundir informações acerca da formação histórica do movimento anarquista, vamos compartilhar trechos de uma Conferência proferida pelo historiador Carlo Romani, publicada na forma de artigo na Revista de Estudos Afro-americanos em 2013. Esse material aborda as especificidades da contribuição do anarquismo italiano para a doutrina social do anarquismo como um todo. Selecionamos os trechos que consideramos mais pertinentes. É possível acessar o documento completo em:

Como sugestão de leitura complementar, indicamos os seguintes artigos: 

Observação: incluíamos entre colchetes as notas do autor utilizadas nos trechos selecionados e adaptamos a numeração das mesmas ao nosso próprio extrato.

***


A ideia de federações anarquistas, de grupos declaradamente anarquistas só começa a surgir em meados da década de 1880, até então, não se encontrava nos grupos locais sua associação efetiva à palavra anarquismo, anarquista, apesar de que, enquanto militantes, se declaravam assim.

Os historiadores começaram a identificar isso como uma descontinuidade, para quem não conhece a forma de organização inicial anarquista o movimento é aparentemente invisível até a metade dos anos 1880, pois está diluído no que sobrou das antigas seções locais e regionais dos trabalhadores [1]. Mas, esse movimento sindicalista é somente visível para essa historiografia marxista como um movimento social não socialista de trabalhadores, com componentes muito pouco próximos ao pensamento revolucionário de Marx dentro das sessões da Internacional. Santarelli entendeu isso como um ponto de fragilidade da organização dos operários e trabalhadores italianos.

As sessões da Internacional na Itália desde 1868, particularmente, se aproximaram muito mais das propostas coletivistas bakuninistas do que da vertente do comitê central liderado teoricamente por Marx. Em 1872, quando houve a cisão - o rompimento que encerra a Primeira AIT – a maioria das sessões italianas não seguiu o caminho do comitê central, elas aderiram à Federação do Jura e depois à Internacional fundada em Saint-Imier que dá continuidade ao internacionalismo operário até o ano de 1878. Cerca de 90% das sessões italianas seguiram esse mesmo caminho sindical, do mundo mediterrâneo e eslavo, apenas alguns centros do norte da Itália não realizaram esse caminho e migraram para as posições socialistas que levariam à criação do Partido Socialista [2].

Ocorre que os historiadores que se debruçaram sobre a gênese do movimento anarquista, somente conseguiram localizar efetivamente a presença do nome anarquismo a partir da segunda metade da década de 1880, quando há uma retomada da movimentação e da organização dos trabalhadores após uma forte repressão desencadeada no final da década anterior no sentido de combater efetivamente todas as sessões da Primeira Internacional.

O que tivemos foram momentos mais combativos dos movimentos de organização de trabalhadores na Itália durante a década de 1870. A partir da segunda metade da década de 1870, temos um declínio acentuado. Em 1878 foram promulgadas pela primeira vez leis que foram de chamadas leis contra as “associações para delinquência”, uma forma legal de punir os membros da Internacional, que foram colocados na categoria de bandidos, de delinquentes, malfeitores [3].

Entre 1878 e 1885, houve uma varrida muito grande contra os trabalhadores envolvidos em organizar sindicalmente seus companheiros, acontecendo a primeira diáspora desses militantes italianos para outros países da Europa que ainda eram mais flexíveis como a Suíça, a França e a Alemanha. E começa também a emigração de italianos para os EUA e depois para a Argentina. Malatesta, por exemplo, em 1885 vai para a Argentina e vai procurar ouro na Patagônia como forma de financiar a luta revolucionária socialista, antiparlamentar. Esses militantes emigrantes saídos da Itália ainda não se declaravam anarquistas, mas em grande parte seguidores das ideias de Bakunin. Malatesta somente vai enunciar um projeto socialista e anarquista de libertação social em Buenos Aires com a publicação de seu periódico La Questione Sociale em meados de 1885.

A partir de 1886, há uma organização efetiva do movimento anarquista italiano até mais ou menos o ano de 1893. Em 1893, no ápice do novo movimento de organização dos trabalhadores, começam a eclodir processos de convulsão social como os fasci operários na Sicília em novembro e dezembro.

Na realidade, os fasci, que hoje vinculamos ao fascismo, tiveram justamente sua origem nesses grupos de anarquistas federados em suas cidades (Palermo, Catânia) operantes na Itália meridional. O fasci corresponderia hoje a uma espécie de bonde de pessoas que promoverá um arrastão, um tumulto. Essa tática de luta dos trabalhadores sicilianos depois será usada pelas esquadras fascistas adeptas de Mussolini a partir de 1919 para atacar seus opositores.

Em 1894, o movimento dos fasci operários sicilianos assumiu outra proporção e atingiu os trabalhadores anarquistas federados da Lunigiana na Toscana, região das marmorarias de Carrara, onde vão acontecer os grandes motins que se propagaram por toda a península. E temos em seguida outro ciclo forte de repressão dentro do governo do primeiro-ministro Francesco Crispi, que novamente vai criminalizar a associação anarquista como associação de delinquentes [4].

Em 1898, teremos um último grande motim na Itália desse século, que aconteceu em maio em Milão, onde o general Bava-Beccaris – sob a ordem de Umberto I – mandou atirar na multidão, matando cerca de 400 pessoas entre homens, mulheres e crianças, que estavam atrás das barricadas [5]. A vingança será o motivo reclamado por Gaetano Bresci para fazer o atentado que vai matar o rei Umberto I dois anos depois.

O movimento socialista dos trabalhadores na Itália, inicialmente fortemente influenciado pelos bakuninistas que vão assumir o caráter anarquista na metade da década de 1880, é muito intermitente, não conseguimos perceber uma linha de continuidade ascendente. O movimento também sofre com a concorrência dos socialistas parlamentaristas, do Partido Socialista Italiano criado em 1890.

O estudo sobre o anarquismo italiano para ser bem realizado implica, em primeiro lugar entender a especificidade de sua organização, de um movimento que não tem um partido, uma estrutura centralizada, que, portanto, sofre rapidamente com a uma possível repressão colocada em curso, mas que, ao mesmo tempo, pode se reorganizar quatro ou cinco anos depois, justamente por ser flexível, não ter essa estrutura rigidamente organizada.

Esse é um problema historiográfico, do anarquismo como um todo e particularmente do anarquismo italiano. A Itália é uma península dividida economicamente e culturalmente desde o centro em direção ao norte, que tem uma população de origem germânica. O norte tem um perfil capitalista bastante avançado, onde a Igreja não tem uma participação junto ao latifúndio, aos velhos sistemas agrários do sul. As cidades de Milão, Turim, Bolonha, já eram centros industriais importantes nas últimas décadas do XIX, de grande destaque no cenário europeu.

Desde a década de 1870, todo o norte da Itália já está integrado por linhas férreas ao resto da Europa. Há uma ponte comercial que liga Turim a Lyon, um importante eixo de comunicação que vem desde a época da rota da seda, ainda no século XV, da transferência de mercadorias de Florença para os centros têxteis que existiam em Lyon. Portanto, o centro-norte da Itália é efetivamente integrado a uma Europa que tem um forte dinamismo econômico capitalista, que o centro-sul não tem.

Estão aí, as raízes dos problemas contemporâneos da Itália, da cisão dela em duas, do surgimento do “populismo” de Berlusconi, da tentativa de separação promovida pela Lega Norte, de uma Itália capitalista e uma Itália economicamente mais atrasada, ainda ligada aos valores morais da Igreja católica, o centro-sul onde justamente o fascismo se estabeleceu.

A Itália não é como a França, país que faz efetivamente a ponte entre o mundo germânico e o mundo latino na Europa. Por isso que a França possui sua grandeza cultural no elemento de união entre duas culturas distintas. Já a Itália a tem em uma proporção bem menor e apenas em parte dela, a setentrional, cuja região tem um perfil importante dentro da dinâmica do capitalismo europeu a partir da segunda metade do século XIX, tanto que o Risorgimento, ou seja, o movimento de unificação da Itália, parte da região mais próxima da França, do Piemonte, de Turim, local onde será a futura sede da fábrica nacional de automóveis, a FIAT, financiada pelo Estado.

(…)

Como as ideias anarquistas chegaram à Itália? No sentido de que ainda não se tinha o conceito claro de anarquismo no movimento, mas você tinha a prática, uma prática pouco organizada e que buscava uma ideia de organização sem autoridade.

Chegam via Bakunin. O anarquismo na Itália começa a se desenvolver quando Bakunin chega em Florença em 1863, onde vai criar uma sociedade secreta e depois segue para Nápoles, local em que encontra com Malatesta que se tornará seu discípulo na irmandade internacional fundada pelo russo.

Esse é outro ponto, por que Bakunin vai para Nápoles e não para Milão ou Turim? Porque Bakunin tinha um princípio, uma ideia que desenvolve mais claramente em sua estada na Itália, é o que ele vai debater em 1868 dentro da AIT. Bakunin dirá que não adianta o senhor Marx e os delegados ligados ao comitê acharem que os operários ingleses ou alemães, ou a aristocracia operária nas fábricas, serão a linha de frente de um processo revolucionário, porque não serão. Eles serão os primeiros a se aburguesarem, como é a tendência de todo operário na medida em que ascende socialmente, como por exemplo, é o caso do operário do ABC paulista.

(…)

Do ponto de vista da economia, os princípios máximos dos liberais não se realizarão, porque irá aparecer um fator de divisão de classe interno à sociedade, dentro daquela lógica burguesa, fazendo com que alguém trabalhe para alguém que já acumulou antes. Estava posta a divisão em classes que rompeu com a utopia liberal da igualdade política criticada por Godwin.

Esse último grupo social formará o proletariado, que ainda se encontrava mais próximo dos elementos da antiga comuna, mas que uma parte dele, com a disciplina das igrejas protestantes começam a ter uma perspectiva de aburguesamento pelo caminho do trabalho fabril. Nos locais onde não se teve esse processo de disciplina, como é o caso da Itália meridional, extremamente ligada ao campo e aos valores transcendentes da Igreja Católica, em que há mais o interesse da população em permanecer no seu modo de vida original comunitário, é onde Bakunin vai falar que haveria maior possibilidade de se encontrar uma resistência ante esse novo fenômeno que é o capitalismo, que está se desenvolvendo no mundo inteiro, a partir da superação das lógicas agrárias anteriores e do casamento entre a burguesia que ascendeu junto aos antigos proprietários de terra. Não serão nesses operários da indústria em vias de se aburguesar que encontraremos essa resistência para uma revolução, porque a tendência deles seria a de se incorporarem nessa dinâmica maior em curso dentro do capitalismo. E é no sul da Itália, que Bakunin vai encontrar essa vitalidade pré-capitalista.

(…)

Voltando ao problema historiográfico do anarquismo italiano, tanto Cerrito, que é o primeiro a colocar esse problema no final dos anos 1960, quanto depois, em um segundo momento, Carl Levy, que escreve sobre a Itália e o anarquismo italiano no final dos anos 1980 e Davide Turcato, já no século XXI, farão alguns apontamentos.

Cerrito fala que as fontes da polícia são importantes, porque o movimento, mesmo antes de ser efetivamente anarquista, já sofria continuamente com a repressão da polícia durante três décadas, a partir de 1871, da Comuna de Paris, até 1902-03. Será extremamente perseguido pela polícia italiana. Logo, as fontes da polícia nos permitem identificar os momentos em que os agentes da repressão, as chamadas “forças da ordem” tiveram um efetivo enfrentamento contra o movimento que tentava se organizar.

As fontes da polícia começaram a ficar disponíveis justamente a partir da década de 1960, quando se organiza um grande inventário no Arquivo Central do Estado, em Roma, o do CPC (Casellario Politico Centrale), que consegue estruturar toda a atuação da Pubblica Sicurezza, a segurança pública italiana, desde 1880. Contêm fichários nominais, fichários das federações, fichários de partidos, fichários relativos a jornais, entre outros, que permitem essa reconstrução, mesmo que no século XIX ainda não existisse uma organização efetiva de controle social na polícia italiana. Mas a partir de 1894, no governo Crispi, a Itália passa a ter uma ação preventiva mais sistemática, algo que no Brasil só vai começar a existir em 1922, com a criação da Delegacia Auxiliar do Rio de Janeiro que tinha a tarefa de delegacia política. Essa política preventiva de segurança brasileira inicia-se no governo de Arthur Bernardes que vai criar o DOPS, cujos fundos estaduais cumprem atualmente para o historiador brasileiro guardado as devidas proporções, o papel do CPC (ROMANI, 2011, pp. 161-178).

Essa política de repressão começou a ser realizada na Itália em comum acordo com a Suíça e a França no final dos anos de 1880. Nesse sentido, os arquivos da polícia são importantes para que se construa uma história da relação da repressão oficial com o movimento anarquista.

Um segundo ponto inicia-se a partir da luta específica da organização do movimento e de como ele se difunde. Como seria possível rastrear um movimento que não tem uma organização formal? Será através da imprensa e daqueles que escrevem, dos atores sociais, dos agentes políticos, que são os protagonistas dos periódicos. Porque, às vezes, os periódicos mudam de nome, mas os diretores permanecem, dificilmente acontece o contrário, quando você tem um periódico que muda de diretor.

Temos então, uma linha de identificação do periódico ao individuo que o dirige e ao grupo de colaboradores, que eventualmente assume a direção de um periódico posterior, e ai se dá o personalismo. Essa linha de continuidade que devemos traçar é muito intermitente, como por exemplo, L’Agitazione, fundado por Malatesta, que começa em 1897 e acaba em 1898, e somente retorna com o mesmo nome em 1913. Mas, essa mesma tendência anarquista publica desde 1894 L’Avvenire Sociale e a partir de 1903 vai publicar Il Libertario, cujo diretor Pasquale Binazzi havia estado antes no periódico de Malatesta e que se reencontrarão em 1920 em Umanità Nova. Se não prestarmos atenção em que a política de redação, os colaboradores e o editor são os mesmos, o que representa uma continuidade, aparentemente terão sinais de descontinuidade do movimento.

Segundo aqueles historiadores citados, a melhor forma de se fazer a história do anarquismo seria a de confrontar as fontes oficiais, que são as fontes da polícia, com as fontes produzidas pelos anarquistas através do que eles deixaram de legado, principalmente a imprensa. Pois, por não ter estatutos, atas, o movimento anarquista é mais difícil de produzir uma história processual, diferentemente do procedimento dos partidos políticos. E do entendimento de como se movem essas diferentes tendências em relação a como o mundo muda, mudam também os problemas históricos sociais colocados, e nesse sentido, como as perspectivas de transformação dos anarquistas vão mudar também.

Turcato coloca outro problema, no caso específico do anarquismo italiano, sendo necessário para o entendimento dessa continuidade, ter um olhar não limitado, estudar não somente a Itália. Porque o anarquismo italiano é um anarquismo que se realiza na diáspora, a partir principalmente da repressão do governo Crispi na década de 1890.

A repressão feita a partir do final da década de 1880, através de um tipo de confinamento de prisioneiros políticos acusados de associação à delinquência, em prisões que não são como as convencionais, eram penhascos, ilhas, onde eram confinados os chamados agitadores políticos, integrantes de diversos movimentos sociais. Eles permaneciam presos durante anos, até um momento em que uma determinada mudança acontecia, um acalmar da convulsão social que assolava periodicamente a Itália, que permitia um relaxamento da prisão possibilitando o retorno do preso ao seu local de origem.

Muitos deles, nessas idas e vindas, como foi o caso de Oreste Ristori, de Malatesta, de Damiani, emigraram. Damiani chegou ao Brasil em 1897, indo para Curitiba e depois vai para São Paulo. E em São Paulo, Damiani – que é uma figura importantíssima no anarquismo italiano – é menos conhecido do que Ristori, porque Ristori chegou ao Brasil com status de propagandista vindo da Argentina e veio para cá publicar La Battaglia, enquanto Damiani só será seu sucessor no periódico em 1912, depois de Ristori ser preso e se desiludir com o movimento anarquista.

Para se reconstruir a história do movimento anarquista da Itália, devemos confrontar os arquivos oficiais, analisar a imprensa, buscar essas linhas de continuidade que existem, mas que não são evidentes, e procurar refletir sobre como esses elementos se articulam com os de outros países, pois o anarquismo vai na esteira da emigração, não como um movimento migratório exclusivamente por motivos econômicos, mas por conta de sua perseguição política. Primeiro, buscando refúgio nos países limítrofes, particularmente no sul da França, em Nice, em Marselha, ou na Suíça, que são os grandes centros iniciais da rearticulação do anarquismo italiano na década de 1890 fora da Itália, e depois indo para os EUA e em seguida para a Argentina, Uruguai e, enfim, o Brasil, em São Paulo.

O Risorgimento é o movimento que começa a partir da casa real de Turim, com o objetivo de unificação nacional, pois já se tinha um nome nacional, mas a Itália ainda não era unificada, o que tem a ver com a perspectiva do republicanismo jacobino que não ocorrerá.

Contudo, no começo da década de 1860, os republicanos eram muito fortes, principalmente na pequena burguesia e em uma parcela dos trabalhadores que acreditavam em uma transformação herdeira de certo jacobinismo arraigado na península.

Quando Bakunin chega a Nápoles em 1864, começa a se difundir no sul da Itália outro ideal de libertação, não mais nacional. Nessa década começam a proliferar sessões da Internacional inicialmente nas cidades de Palermo, Nápoles, Bari, Catânia, que não eram os grandes centros operários industrializados, que ficavam na região do centro-norte do país.

Dois nomes vão aparecer como interlocutores de Bakunin nessa época e que depois vão dar o primeiro impulso à organização do movimento anarquista no começo da década de 1870 na Itália: Carlo Cafieiro e Errico Malatesta.

Por conta da influencia bakuninista, as associações assumem de certa forma, uma tentativa de buscar permanecer como associações secretas, porque a visibilidade facilitaria a possibilidade de repressão ao grupo, mas que os grupos visíveis se organizariam não na forma de ação política declarada, mas na ação de forma sindical, através das sessões da Internacional, para burlar a repressão por parte da polícia e dos agentes militares para quem, depois da Comuna de 1871, as sessões da Internacional foram ligadas diretamente à causa da revolução. A partir de 1872, as sessões italianas da Internacional serão perseguidas também.

Surge na Itália então, uma vertente que vai ser muito forte, uma forma de associação socialista e anárquica denominada de anti-organizacionista. O anti-organizacionismo vai dominar o cenário do movimento social italiano, os grupos sociais de trabalhadores e anarquistas na década de 1880 não ligados a uma concepção de partido tanto republicano quanto socialista.

Mas, junto com Malatesta, outros nomes importantes do anarquismo da década de 1880, como Andrea Costa, que depois se tornará socialista, e principalmente no final dessa década, Francesco Saverio Merlino, vão perceber a carência, a necessidade, a falta de uma organização dos grupos socialistas anárquicos voltados para o movimento social.

Porque a palavra de ordem de todos os grupos e movimentos na década de 1870, inclusive dos jovens malatestianos era a “revolução social”. Havia uma ideia fortemente influenciada por Bakunin, de que não seria necessária uma grande organização articulada em todo o país para se empreender uma revolução social, porque a revolução aconteceria por uma demanda, uma necessidade dos trabalhadores, uma necessidade dada veementemente por um desequilíbrio econômico existente, pela desigualdade social, também essa a fragilidade do capitalismo da década de 1870 na Itália. E as sessões da Internacional passaram a ser braços dessa agitação social, de difusão da revolução social, e por isso foram perseguidas.

Em 1878, por conta dessa perseguição mais acentuada da polícia italiana, há um desmantelamento das primeiras organizações, que só voltarão a se reorganizar a partir de 1886 na região da Toscana, mudando assim o epicentro do anarquismo italiano da região meridional, onde ele se iniciou, para a região que em meados do século seguinte será denominada de região vermelha da Itália, porque fortemente comunista, na Emília-Romanha, em Bolonha, e na Toscana.

O anarquismo será inserido mais efetivamente dentro das organizações operárias no final dos anos de 1880 e começo dos anos de 1890 quando vão aparecer federações anarquistas como a de Livorno, Florença, Carrara, depois em Imola, em Cesena, e em várias outras cidades.

Na década de 1890, o anarquismo na Itália começa a adquirir uma característica mais organizada, mas muitos ainda permanecem individualistas e resistentes à organização, porque entendem que a organização seria uma forma de centralização política e ainda tem em mente o que acontecera anos antes na Internacional [6].

Mas, foi principalmente com Malatesta e com Merlino que se começa a colocar o outro problema do anarquismo italiano, o que diz respeito à sua organização e relação com os sindicatos.

No início do século XX, o que está na pauta das discussões dos agrupamentos locais, o tema central do debate no seio do anarquismo, é a questão da organização e da não organização.

Em 1902, os organizacionistas já se tornaram ampla maioria na Itália e é nesse momento que surgirá a liderança histórica do anarquismo italiano, como o grande nome, aquele que vai difundir por todo o mundo a ideia de comunismo anarquista, que é Errico Malatesta. É quem pega Kropotkin e o transforma, fazendo uma fusão entre o ideal anarquista do voluntarismo, do princípio da não hierarquia, da ação individual, da importância das individualidades continuarem tendo papel fundamental na construção e na organização do social, associando isso a uma forma de luta, que é mais articulada, que tem um prenuncio não de estrutura de partido que vai concorrer às eleições, mas em um sentido lato de um partido da anarquia, um grupo da população que defende uma nova possibilidade de organização social diferente da existente.

A partir de 1902, Malatesta começa a escrever com mais intensidade e um de seus trabalhos é justamente desmontar essa tendência individualista que pretende resolver a revolução social por si própria através da ação direta e dos atentados, combatendo a posição dos chamados “galleanistas”.

O ano de 1907 é também um momento histórico para o anarquismo italiano em sua relação histórica com o sindicalismo. É um ponto de virada, não só porque reafirma a supremacia numérica da vertente organizacionista dentro do movimento, mas também porque a partir do debate iniciado por Malatesta no Congresso de Amsterdam, anuncia-se o predomínio na Itália da vertente anarco-comunista sobre a do sindicalismo, que passaria a se chamar de revolucionário. É quando Malatesta rechaça a redução do anarquismo a uma concepção sindicalista apenas da revolução social, mas reafirma o compromisso de um anarquismo de classe, portanto, coloca a questão classista como questão prioritária dentro do anarquismo, apesar de entender que não é a classe operária a única protagonista da revolução, mas que ela tem um elemento importante de contribuição. Com isso, manteve-se a aproximação da tendência do anarquismo comunista com as ideias sindicalistas, das quais Neno Vasco, por exemplo, foi grande disseminador no Brasil (SAMIS, 2009), mas nunca confundindo-as, ou reduzindo apenas o anarquismo a uma luta revolucionária de socialistas sindicalistas, diferenciado-o, inclusive, daquilo que na Argentina se tornaria o finalismo da FORA (COLOMBO, 2004) e na Espanha o anarco-sindicalismo que gerará posteriormente a CNT (MADRID, 2004). Para Malatesta, as classes oprimidas tem o dever e a primazia da condução da revolução socialista anarquista, mas sua realização é uma tarefa a ser empreendida por toda a sociedade.

A partir de 1907, o anarquismo da Itália começa a ter componentes cada vez mais próximos do comunismo, no sentido organizativo da palavra.

Eu vou parando por aqui no momento histórico em que a questão da organização deixou de ser um problema para o anarquismo italiano e em que ele pode também se distanciar da relação direta com o sindicalismo, fenômeno que será muito mais forte no anarquismo ibérico.


Notas do autor:


[1] – Na Itália, durante o início da década de 1870 proliferaram muitas seções regionais e locais da Associação Internacional dos Trabalhadores, a AIT. O esmagamento da Comuna de Paris em 1871 e a perseguição em seguida aos internacionalistas atingiram não somente a França, mas espalhou-se por toda a Europa, principalmente na Suíça e Itália. Da repressão aos comunnards (participantes da Comuna de Paris) e aos internacionalistas forma-se uma primeira articulação conjunta entre as polícias de diversos países europeus. Notadamente empenhadas em perseguir e derrotar a rede de ativistas e de sindicalistas que havia sido formada nessa década. O italiano Amilcare Cipriani, por exemplo, que havia sido também um comunnard foi desterrado para a Nova Caledônia em comum acordo com o Estado italiano que recusou sua deportação.

[2] – O movimento sindical na década de 1880 foi fortemente abalado pela perseguição ocorrida aos internacionalistas na década anterior. Muitos trabalhadores e suas organizações, principalmente nos centros operários mais desenvolvidos no norte-nordeste da Europa, optaram por seguir um caminho de luta parlamentar institucional. Essa política levou à fundação dos Partidos Socialistas (democráticos) nos países europeus e ao surgimento em 1889-90 da chamada II Internacional dos Trabalhadores, articulada em torno do parlamentarismo socialista, estratégia que se afasta do pensamento revolucionário marxista e opta pela política da luta pelos direitos constitucionais dos trabalhadores.

[3] – Vemos que o enquadramento de militantes anarquistas ou de revolucionários de qualquer tipologia na categoria de delinquentes tem uma longa história que continua até o presente. Com pequenas modificações de nomes, malfeitores na Itália, delinquentes, terroristas, subversivos em períodos de anticomunismo, até chegarmos aos vândalos na mídia atual. As atuais leis antiterrorismo são apenas uma versão repaginada das primeiras leis contra a associação de delinquentes como resultado da organização dos trabalhadores durante a Primeira Internacional.

[4] – Como resultado dessa nova onda de repressão aos trabalhadores, principalmente aos anarquistas, será reativado o regime do domicílio coatto, no qual o prisioneiro é confinado em uma ilha ao largo da península. Oreste Ristori, que citamos acima, por exemplo, passará por quase todas as ilhas de confinamento na Itália (Tremiti, Ponza, Ustica Favignana, Port'Ercole), fator que longe de desarticular o anarquismo, como pensava o governo, permitiu aos anarquistas de diversas regiões da Itália se conhecerem mutuamente como se estivessem vivendo em um congresso permanente, fortalecendo, paradoxalmente, o movimento.

[5] – Sobre os motins de maio há o excelente estudo de Louise Tilly em língua inglesa (Tilly, 1992).

[6] – Nessa corrente o principal nome do chamado individualismo italiano (nome como ficou conhecida essa corrente anarquista na história) é Luigi Galleani.


Referências do autor:


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CERRITO, Gino. Il Movimento anarchico dalle sue origine al 1914. Rassegna Storica Toscana XIV, (1), p.109-138, jan.-jun., 1968.

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