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sábado, 29 de maio de 2021

Prefácio de “L'Humanitaire (1841): Naissance d'une presse anarchiste?” (2014) – Jean-Michel Paris

Capa do livro da qual extraímos o prefácio que traduzimos. Retirada de: link.

Nessa publicação vamos compartilhar a tradução que fizemos do prefácio da obra  “L'Humanitaire (1841): Naissance d'une presse anarchiste?”, publicada pela primeira vez 2014 pelo historiador Jean-Michel Paris. Trata-se de um estudo daquele que teria sido o primeiro jornal anarco-comunista da história. Não obstante, apenas o prefácio da obra está disponível na internet (daí o limite de texto que conseguimos traduzir).

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Prefácio


Epígrafe: Parece-me impossível lidar com a gênese do comunismo sem primeiro compreender as condições de seu surgimento no movimento da década de 1840. Michèle Riot-Sarcey, Cahiers d'Histoire nº 77.

Julho de 1841, apenas um ano após o primeiro banquete comunista em Belleville, apareceu L'Humanitaire, um jornal comunista que foi imediatamente condenado por outros jornais comunistas – Le Populaire de Etienne Cabet e La Fraternité de Richard Lahautière – e depois pelo conjunto da imprensa. Enquanto a opinião burguesa expressava seu terror das conspirações comunistas todos os dias, os tolos, sem dúvida os trabalhadores exaltados, ousavam exigir a abolição da propriedade, do casamento, da família, da destruição das cidades e da negação da divindade [1]. Mas que loucura! Eles queriam eliminar todas as instituições mais sagradas para trazer o homem de volta a um estado de natureza primitiva? Esses bárbaros foram, portanto, silenciados.

Francamente materialista e até anarquista, este jornal, que escandaliza pela audácia das suas doutrinas [2], é sem dúvida um testemunho original da formação de ideologias radicais sob a Monarquia de Julho.

A sua publicação, em julho e agosto de 1841, já foi mencionada por Georges Sencier [3], Maurice Dommanget [4], Jacques Grandjonc [5], Alain Maillard [6] ou Max Nettlau [7] que o considerou o primeiro órgão comunista libertário e o único na França por mais de quarenta anos, mas os atores desta aventura escandalosa foram pouco estudados. Porém, se para certos autores, o lugar deste jornal é de primeira ordem no movimento revolucionário [8], o que podemos entender hoje da condenação quase unânime de um jornal cujos meios eram muito limitados, ou desta hostilidade obsessiva de Cabet, auto-proclamado grande mestre dos comunistas, e de Lahautière, os primeiros a denunciar as interpretações antinaturais, antissociais e monstruosas que o jornal l'Humanitaire dá da doutrina comunista [9]? A agressividade deles, muito antes das condenações da polícia e da corte judicial, não foi excessiva, e não merecem, enfim, que se examinem suas fontes e a expressão? Por que um discurso de operários desconhecidos abalou tanto as mentalidades, sete anos antes da revolução de 1848? Não estamos convencidos de que os argumentos de uns e de outros são suficientes para nosso entendimento, por isso o objetivo deste ensaio é, antes de tudo, produzir outro conhecimento mais preciso dos diferentes protagonistas que conceberam, apoiaram ou se opuseram a esta estranha publicação.

As fontes documentais são numerosas, mas também muito fragmentadas, das quais por vezes aproximam informações que empobrecem ou distorcem a análise. Assim, Gabriel Charavay, gerente de L'Humanitaire, é frequentemente apresentado como livreiro, até editor, por Armand Cuvillier, em 1956 [10], que não percebe o duvidoso amálgama de L'Atelier que o classificou entre os burgueses em busca de utopias social, com o ex-procurador-geral Cabet, ou o advogado Lahautière. Charavay não era Rouanet nem França naquela época, e Cabet tinha toda a razão em falar dele como um sujeito de livraria na sala. Trabalhador de meias, como o pai e o irmão mais velho Jean, ele é um autodidata que parece ter fugido da convocação para o serviço militar obrigatório em Paris por quatro anos. O pai, desde 1833, tornou-se livreiro em Lyon, e esta família demonstrou uma autêntica paixão pelos autógrafos da Revolução, mas, após ter publicado L'Humanitaire durante dois meses, Charavay era apenas balconista de livraria em setembro de 1841, um jornalista novato, provincial de 23 anos, completamente desconhecido e sem influência em Paris, isto é, ninguém.

A diversidade dos folhetos comunistas, por volta de 1840, é provavelmente a expressão de uma grande variedade de experiências e personalidades. Antes de examinar L'Humanitaire e questioná-lo, comparando-o com outros jornais da época, vamos primeiro relembrar os fatos relatados pela polícia, pela imprensa ou por testemunhas como Dézamy, De La Hodde, Cabet, Chenu e Button. Ao contrário do filósofo Marx, seu contemporâneo nascido em um ambiente culto, os editores e assinantes são todos pessoas modestas, de origens e situações modestas. Artesãos, operários ou lojistas da velha Paris, mas também pensadores livres cuja ambição servia a uma aspiração coletiva: desenvolver os princípios da ciência social. Não era seu estilo tão fortemente meticuloso [11] tanto quanto o de Proudhon, que eles queriam chocar? Neste caso, cerca de vinte homens estão inquietos. Chegou à velha Paris por alguns meses, às vezes alguns anos. Desenraizados. Duas gerações.

Da revolução de julho, disse Cormenin em 1832, nasceu a soberania do povo e, da soberania do povo, o sufrágio universal [12]. Em seu discurso à associação de imprensa, ele expressou um sentimento republicano que será cada vez mais compartilhado, mas também cada vez mais combatido. Depois dos Três Anos Gloriosos, a liberdade de opinião, que parecia garantida pela Carta, pode rapidamente ser levada aos tribunais. Em 1834, Cormenin lançou, em uma carta sobre a liberdade de imprensa, este aviso: Hoje o Nacional está sendo perseguido, amanhã será você, então o Mensageiro, depois o Bom Senso, depois o Tempo, depois o Constitucional e o resto. Informe uma ação judicial e será condenado por infidelidade.

Louis, Marie de Lahaye, visconde de Cormenin, não era fã das barricadas; deputado, oficial da Legião de Honra e ex-Mestre de Pedidos, ele conhecia bem a lei. Sem dúvida, um exemplo de fonte de incentivo para jovens advogados, como Celliez, Rivierre, Madier de Montjau ou Maud'heux, que foram os raros defensores desses trabalhadores comprometidos.

Por fim, as condenações levantam questões. Para alguns, são até graves. Max Nettlau não exagerou ao denunciar a perseguição a quaisquer comunistas que publicaram um periódico, em tom moderado mas resoluto, sem amargura, e escrito com cuidado. Dois anos de prisão em uma fortaleza em Doullens para Gabriel Charavay. Por quais ofensas? Pertencer a uma associação ilícita composta por mais de vinte pessoas e disfarçada com a ajuda de um jornal conhecido como Humanitário, fundada no intuito de facilitar, em momentos próximos e determinados, e ao mesmo tempo ocultar, as reuniões dos comunistas, em um objetivo óbvio de desordem e anarquia. Por que usar uma repressão tão brutal quando um homem quer escrever, ser jornalista e colecionar livros? Seu delito foi tão grave quanto o de J.J. May, condenado em maio de 1840, a um ano de prisão por detenção de pólvora e munições de guerra, tão grave quanto o de Benjamin Flotte, condenado a 2 anos, em abril de 1840, por fabricação e posse de armas e munições de guerra? Esses lutadores não eram mais perigosos do que ele?

E também Gabriel Charavay não tinha escrito a May: Não esqueçamos a calma, a moderação e o tom de fraternidade que são tão preciosos para a nossa Causa [13]? Mas teria a justiça mostrado que ele não respeitou essa regra de conduta? Além disso, qual era a lei desta justiça? A justiça é possível quando comunistas igualitários são julgados por ricos proprietários de terras? Proprietários de casas que tiveram o privilégio de serem eleitores e de serem eleitos, e que criticaram os desfavorecidos por não terem as mesmas ideias, os mesmos sonhos que eles. Proprietários a quem a herança familiar certamente favorecia e que os confortavam por laços afetivos em uma visão social injusta. Como alguém pode acreditar que tal justiça não foi uma farsa? O fabricante de chapéus Dauvergne, que nunca teve nada, e Croissant, este advogado do rei que sempre viveu no agradável conforto burguês, poderiam entender igualdade, liberdade, fraternidade da mesma maneira, poderiam defender os valores de 89 [1789] pelos mesmos motivos? A justiça de Croissant era uma injustiça insuportável, que uma nova geração de desprivilegiados teria desejado abolir aprendendo, falando abertamente, debatendo. Mas o que este julgamento político revela sobre um regime que se dizia revolucionário? Que o privilégio de falar publicamente, sete anos antes da revolução de 1848, ainda estava reservado a uma elite e era brutalmente defendido.

Filósofos do subúrbio, publicitários proibidos, esses jornalistas aprendizes de um verão comunista [14], pagaram caro pela admissão de sua incredulidade, de seu sonho talvez ingênuo de uma humanidade sem crenças nem preconceitos, finalmente pacificada. Alguns anos depois, um informante da Prefeitura de Polícia, Lucien De La Hodde, saudou, a seu modo, claro, a memória de um deles: o Sr. Jean Joseph May, falecido – o Deus da comunidade guarda seus alma! – não era um homem comum, uma vez que o sr. Proudhon se dignou a tirar dele suas idéias. O famoso sistema de governo anárquico, isto é, de governo sem governantes ou governados, não é nem mais nem menos que propriedade do Sr. May [15].

Jean Joseph May não encontrou tempo nem tranquilidade para desenvolver seu trabalho. Perseguido pela polícia de Guizot, excluído da comunidade de pensadores autorizados, por um regime intolerante, morreu em Toulon (Var) a 9 de novembro de 1844, aos vinte e oito anos.

Classificados entre os utópicos, como precursores da imprensa anarquista, aparecem de fato, ao lê-los, muito mais próximos de Marx do que de Proudhon. Se tivessem lido, em 1843, as cartas que Marx dirigiu a Ruge, May e Charavay, sem dúvida teriam ficado muito felizes em debater com ele [Marx]: este é precisamente o mérito da nova orientação: a saber, que não antecipamos o mundo de amanhã pelo pensamento dogmático, mas, pelo contrário, só queremos encontrar o novo mundo no final da crítica do antigo... fazer da religião, da ciência, etc., o objeto de nossa crítica. Além disso, queremos atuar em nossos contemporâneos e, mais particularmente, em nossos contemporâneos alemães. A questão é: como você faz isso? Dois tipos de fatos são inegáveis. Religião, por um lado, e política, por outro, são os assuntos que estão no centro do interesse na Alemanha hoje; devemos tomá-los como ponto de partida no estado em que se encontram, e não se opor a eles com um sistema pronto do tipo Voyage en Icaria [16].

Com a ajuda de testemunhos, encontrados ainda legíveis, tentemos, por um momento, aproximar-nos, talvez compreender, estes ousados operários de 1841.

Notas:


[1]Gazette des tribunaux du 11 novembre 1841.

[2]Dictionnaire universel du XIXe siècle de P. Larausse.

[3] – G. Sencier, Le babouvisme après Babeuf.

[4] – M. Dommanget, Auguste Blanqui et la révolution de 1848. Paris, 1972. Lire aussi Sylvain Maréchal l'égalitaire (1950), Auguste Blanqui à Belle-Lle, (1934).

[5] – J. Grandjonc, Communisme / Kommunismus / Communism, Trier, Karl-Marx-Haus, 1989.

[6] – A Maillard, La communauté des égaux, (1999).

[7] – M. Nettlau, Histoire de l'anarchie, (1933).

[8] – M. Dommanget écrit: “l'Humanitaire, jornal efémero mas cujo lugar é de primeira ordem no movimento revolucionário”. Dans Auguste Blanqui et la révolution de 1848, page 213.

[9]La Fraternité, nº d'août 1841.

[10] – A. Cuvillier, Hommes et idéologies de 1840, page 130, Paris (1956).

[11]Lettre de Marx à Schweitzer du 24 janvier 1865. Editions sociales (1977).

[12] – Cormenin, Discours à l'association de la presse, (1832).

[13] – Archives Nationales, CC 791, Cour des Pairs, Tribunal civil de la Seine.

[14] – Jean Claude Caron, L'été rouge, Aubier (2002).

[15] – De La Hodde, Histoire des sociétés secrètes et du parti réoublicain. Paris (1850).

[16]Lettre de Marx à Ruge de septembre 1843, Editions sociales (77).

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A bandeira negra, o anarquismo e um comentário adicional sobre a Jolly Roger

Imagem atribuída a um panfleto convocando ao Congresso de Amsterdã de 1907 (Congresso Internacional Anarquista).


Resumo: discussão acerca da presença da bandeira negra como símbolo anarquista na luta do proletariado e sua possível origem histórica remota.

Observação: todas as citações utilizadas foram traduzidas do original.

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1. Bandeira Negra na história do movimento operário e no anarquismo


Não existe um consenso sobre qual seria a origem “exata” da bandeira negra no movimento anarquista. Registram-se emergências difusas num mesmo período histórico, mas não se sabe ao certo qual a associação possível entre esses usos. No entanto, antes mesmo da consolidação do comunismo anarquista, a bandeira negra já havia sido hasteada nas lutas proletárias. Portanto, podemos começar por esses precedentes.

Albert Meltzer argumentou que a associação entre a bandeira negra e a revolta da classe trabalhadora “se originou em Rheims [França] em 1831 ([com a palavra de ordem] ‘Trabalho ou Morte’) em uma manifestação de desempregados” (1976, p. 49). Sharif Gemie também registra essa ocorrência das bandeiras negras em ocasião das revoltas de Lyon em novembro de 1831. Menciona-se um relatório policial enviado ao prefeito de Lyon que dizia: “Os tecelões de seda da Croix-Rousse decidiram que amanhã irão para Lyon, carregando uma bandeira negra, pedindo trabalho ou morte” (GEMIE, 1999, p. 52).

No caso dessas duas situações, estamos diante de lutas proletárias que precederam as revoluções de 1848 que sacudiriam a Europa. O proletariado ainda estava desenvolvendo seu programa de lutas, mas não havia amadurecido em sua perspectiva revolucionária. Como argumenta Piotr Kropotkin: “Quando, em 1848, os trabalhadores reclamavam o direito ao trabalho, organizavam-se ateliês nacionais ou municipais, e mandavam-se os homens penar nesses ateliês à razão de 40 soldos por dia!” (2011, p. 31). Essas demandas, como a noção de “República Social” com a qual se insurgiram em 1848 na França, não poderiam instituir uma nova sociedade, mas já preparavam as bases do futuro programa comunista (onde se abdicaria da “demanda por trabalho” em prol da luta pelas necessidades contra o Capital).

Mais uma vez na França, um pouco antes da Comuna de Paris (1871), teríamos outra ocorrência das bandeiras negras, conforme relata Louise Michel. Em ocasião da noite que precedeu o armistício de Thiers na guerra franco-prussiana, ela descreve que: “Por um momento, as bandeiras negras nas janelas tremularam no ar, e então não havia mais um sopro de vida” (MICHEL, 2014, p. 132). Nesse caso, a bandeira hasteada nas casas estava significando que não haveria rendição da parte do povo (o oposto da bandeira branca) em caso de assinatura do armistício. Como ela sintetizaria num de seus poemas, escrito durante a Comuna: “A morte carregará a bandeira; A bandeira negra que rasteja em sangue; E o roxo florescerá da terra; Livre sob o céu escaldante” (Michel, “Canção das Prisões” [Chanson des Prisons], maio de 1871, in: BRÉCY, 1991, p. 43).

Depois desses precedentes, o movimento operário revolucionário, que estava se organizando desde a Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1876), além de sofrer o revés em função da repressão pós-Comuna, também vai se dividir em duas tendências: uma “federalista”, reunida na Internacional de Saint-Imier (fundada por Bakunin e James Guillaume em setembro de 1872, após a expulsão dos bakuninistas e coletivistas da AIT, dissolvida em 1877) e a outra mais “centralista”, reunida entorno do Conselho Geral da AIT, que transferiu sua cede para Nova Iorque e foi dissolvido em 1876.

A reorganização do movimento revolucionário do proletariado, a partir da tendência “federalista”, vai passar por uma série de críticas que vão levar à constituição do Comunismo Anarquista. Uma das principais críticas se voltava contra o apelo fetichista ao trabalho do “coletivismo” presente no princípio de “repartir os produtos segundo a contribuição na produção”. Em 1880, em um congresso da seção de La Chaux-de-Fonds, remanescente federação jurassiana da “Internacional Federalista”, foi lido e aprovado o comunicado “Anarchie et communisme” de Carlo Cafiero (disponível em português: link). O periódico L'Avant-Garde difundiu o comunicado que, no mesmo ano, foi publicado em Le Révolté, em Genebra. Desde então, podemos falar em consolidação das bases fundamentais do programa revolucionário anarquista.

O movimento anarquista emergente tinha consciência da necessidade de coordenar a luta internacional do proletariado segundo uma orientação revolucionária. Neste sentido que, em julho de 1881, os anarquistas fundam a Associação Internacional das Pessoas de Trabalho (IWPA), como uma tentativa de organizar o anarquismo em nível internacional, estabelecida em uma convenção realizada em Londres. Essa organização ficou conhecida na época como “Internacional Negra”, popularizando a cor negra como símbolo do movimento operário revolucionário. Participaram da reunião na Inglaterra delegados estadunidenses que, no mesmo ano, adotariam as linhas políticas da IWPA na Convenção de Chicago.

Podemos associar à “Internacional Negra” as seguintes ocorrências da bandeira negra como símbolo do anarquismo enquanto programa revolucionário do proletariado:

  1. Em uma reunião pública de 18 de março em 1882, para comemorar a Comuna de Paris, Louise Michel proclamou que “a bandeira vermelha não era mais apropriada; [os anarquistas] deveriam levantar a bandeira negra da miséria” (An Anarchist FAQ). No ano seguinte, ela colocou suas palavras em prática. Segundo George Woodcock, Michel hasteava a bandeira negra em 9 de março de 1883, durante uma manifestação de desempregados em Paris. O protesto dos desempregados foi interrompido pela polícia e cerca de 500 manifestantes, com Michel na frente carregando uma bandeira preta e gritando “Pão, trabalho ou chumbo!”, marchou em direção ao Boulevard Saint-Germain. A multidão saqueou três padarias antes que a polícia atacasse. Michel foi presa e condenada a seis anos de confinamento solitário (An Anarchist FAQ).
  2. O jornal “Le Drapeau Noir” (A Bandeira Negra), iniciado em 1882, como uma das primeiras publicações do movimento a usar o preto como símbolo.
  3. O anarquista estadunidense, August Spies, teria hasteado a bandeira negra desde 1884 nas lutas de Chicago até a Revolta de Haymarket em 1886. Vale destacar que Spies adotava a linha política da Internacional Negra, desde a Convenção de Chicago que mencionamos acima. Os eventos de Haymarket geraram a comoção social pelos militantes que foram condenados a morte injustamente. Eles ficaram conhecidos como os “mártires de Chicago”, dando mais ênfase ao caráter expressivo da cor negra (luto pelos que tombaram e luta contra seus algozes).

Nesses fatos históricos, o princípio da ação direta está associado tanto no caso estadunidense quanto no caso francês. O sentido da cor negra demonstra uma negação a qualquer forma de conciliação de interesses com os dominantes, tanto que esse foi um dos motivos pelos quais a IWPA se chamou de “Black Internacional”, dado que estavam se opondo ativamente à reorganização da tendência social-democrata e seus métodos reformistas de ação indireta (disputa no parlamento da burguesia, apelo aos capitalistas por reformas trabalhistas, regulação legal dos sindicatos, dentre outras coisas). Os anarquistas continuavam fiéis ao princípio da AIT de que “a emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora” e adotavam isso na prática que denominavam de ação direta [1].

Mas é necessário reconhecer que a bandeira vermelha não havia sido abandonada pela classe proletária. O anarquismo acrescentou ao movimento socialista o princípio de não mediação com as organizações sociais burguesas. A bandeira negra foi hasteada justamente para demonstrar que não haveria mais capitulações que fizessem o socialismo recuar, pois se lutaria desde o princípio em função do objetivo socialista: o comunismo. Uma luta sem tréguas, empregando os meios de nossa própria classe social através da ação direta. Quando o proletariado adotou a cor negra como um de seus símbolos de luta, ele anunciou para classe dominante seu grito de guerra: “socialismo ou morte”!

2. Aproximações com a Jolly Roger


Uma de nossas referências afirma ser possível fazer uma associação das bandeiras de pirata (Jolly Roger) com a bandeira negra. Vamos explicar aqui porque consideramos plausível essa hipótese. Mas não somente isso: porque é necessário cultivar nosso imaginário com outros mundos possíveis.

Apesar de não concordarmos com os posicionamentos desse autor e também considerá-lo um tanto quanto tendencioso, precisamos reconhecer o esforço de pesquisa realizado por Peter Lamborn Wilson para desenvolver seu conceito de “Utopias Piratas”:

Os piratas e corsários do século XVIII montaram uma “rede de informações” que se estendia sobre o globo. Mesmo sendo primitiva e voltada basicamente para negócios cruéis, a rede funcionava de forma admirável. Era formada por ilhas, esconderijos remotos onde os navios podiam ser abastecidos com água e comida, e os resultados das pilhagens eram trocados por artigos de luxo e de necessidade. Algumas dessas ilhas hospedavam “comunidades intencionais”, mini-sociedades que conscientemente viviam fora da lei e estavam determinadas a continuar assim, ainda que por uma temporada curta, mas alegre (Hakim Bey, em pdf: “TAZ – Zona Autônomas Temporárias”).

Segundo Wilson, esses assentamentos eram transculturais (agregavam pessoas de diferentes origens) e, em certos casos, eram abolicionistas (no sentido de que libertavam escravizados, inclusive através de ataques a navios negreiros). Essa “história alternativa” da pirataria é cheia de controvérsias e acusada de romantizar “bandidos”. Mas também temos motivos para duvidar da versão “hegemônica”, pois sabemos muito bem como a historiografia dominante tem retratado qualquer “movimento social” desviante dos “padrões da época”. Mas vejamos outra fonte antes.

Na introdução do romance “Cidades da noite escarlate” (1981), de William Burroughs, também há um esforço de pesquisa onde o autor menciona o que poderia ter sido estas “utopias piratas”. Já no início de seu livro, Burroughs afirma que “os princípios liberais englobados na revolução francesa e americana, e mais tarde nas revoluções liberais de 1848, já haviam sido codificados e aplicados por comunidades de piratas cem anos antes” (BURROUGHS, 1995, p. 9). Ele cita como exemplo a colônia pirata do capitão Mission fundada no século XVIII:

A colônia recebeu o nome de Libertaria e era regida pelos Artigos elaborados pelo capitão Mission. Os Artigos proclamam, entre outras coisas: todas as decisões relacionadas com a colônia serão submetidas à votação dos colonos; a abolição da escravidão por qualquer motivo, inclusive dívida; a abolição da pena de morte; e liberdade para seguir quaisquer crenças ou práticas religiosas, sem sanção ou molestamento (BURROUGHS, 1995, p. 10).

A referência que é utilizada ao se falar da Libertaria é um livro assinado por um desconhecido “Charles Johnson”, Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos (publicado pela primeira vez em 1724). Acredita-se que o autor verdadeiro tenha sido Daniel Defoe (autor do romance de Robinson Crusoé).

Apesar das prováveis inconsistências nessas hipóteses que atribuem práticas libertárias aos piratas, além de uma ressonância com o mito da criminologia lombrosiana de que o anarquista seria um “criminoso nato”, não é impossível imaginar que processos do gênero possam ter acontecido. Por exemplo, na Europa Medieval houve um movimento herege conhecido como “Irmãos do Livre Espírito”:

As doutrinas dos Irmãos do Espírito Livre lembram as heresias do primeiro século do cristianismo. Pela contemplação mística, ensinavam, o homem une-se a Deus, une-se de tal forma que ele é Deus, e eleva-se acima de todas as leis, igrejas e ritos criados por Deus para o homem comum, então pode fazer tudo o que deseja. Unido com Deus o pecado torna-se impossível ao místico, portanto ele pode fazer tudo aquilo que deseja. (…) Os Irmãos do Espírito Livre não se colocaram como um movimento organizado, funcionavam como um corpo difuso de esotéricos, satisfeitos em operar dentro da Igreja e no movimento das comunidades místicas seculares. Eles deixaram poucos registros em sua passagem exceto quando eram capturados por seus inimigos, ou em testemunho extraído sob tortura quando eram julgados (REXROTH, 2002).

O que é importante destacar é o seguinte: esses eventos históricos são relembrados pelas gerações posteriores não apenas como meros fatos, mas como situações de significância e inspiração prática. Compreendemos melhor o conceito de “utopia” como um mundo possível que nosso imaginário é capaz de formular a partir das próprias premissas de uma condição histórica. Não se trata de um horizonte romântico de algo que jamais existirá, mas uma forma de fabulação de um modo de vida alternativo pelo qual nos esforçamos ativamente por construir.

Neste sentido, a inspiração nas Jolly Rogers não é uma hipótese descartável para atribuir à escolha da cor negra pelos movimentos sociais que citamos na primeira seção. Segundo Jason Wehling, a simbologia das bandeiras de pirata foi apropriada por movimentos que se colocavam na ilegalidade pelas demandas que faziam. Os piratas geralmente hasteavam as bandeiras antes de um ataque a outro navio para lançar a mensagem “rendam-se ou morram!”. A ideia dos movimentos citados por Wehling (1995) era reproduzir esse lema contra as autoridades dominantes de sua época.

Argumentamos acima que a bandeira negra do proletariado simboliza a luta direta pelo objetivo socialista e falamos que hasteá-la significava declarar: “socialismo ou morte”. Além disso, o conceito de ação direta no anarquismo tem sido usado muitas vezes para praticar o que Luigi Fabbri denomina “terrorismo libertário” (veja-se: link). E embora lutemos pela abolição do próprio tráfico (ou seja, mercado) enquanto instituição que estava presente na pirataria, não negamos que vamos expropriar a classe dominante, ainda isso não seja uma pilhagem, mas sim um ato de tomar de volta tudo que nos fora expropriado no passado. A questão, portanto, reside numa mera semelhança estética, mas que funciona para traduzir o lema de que iremos lutar com todas as nossas forças para destruir o capitalismo e construir o comunismo libertário.

Notas:


[1] – Sobrea oposição entre ação direta e indireta, veja também: COSTA, Emilio. Acção directa e acção legal. Lisboa: União das Associações de Classe de Lisboa, 1912. Disponível em: link.

Referências:


BRÉCY, Robert. La Chanson de la Commune: Chansons et poèmes inspirés par la Commune. Paris: Les Éditions Ouvrières, 1991.

BURROUGHS, William. Cidades da noite escarlate. Tradução de Pinheiro de Lemos. São Paulo: Siciliano, 1995.

GEMIE, Sharif. French Revolutions, 1815-1914: An Introduction. Edimburgo: Edinburgh University Press, 1999.

KROPOTKIN, Piotr. A Conquista do Pão. Tradução de Cesar Falcão. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011.

MCKAY, Ian (Org.). Appendix – The Symbols of Anarchy, In: An Anarchist FAQ. Disponível em: link. Acesso em: 18 nov. 2020.

MELTZER, Albert (ed.). The 'Black flag' anarcho-quiz book. Sanday: Simian Publications, 1976.

MICHEL, Louise. La Comuna de París: Historia y recuerdos. Madrid: Lamalatesta, 2014.

REXROTH, Kenneth. Comunalismo: das origens ao século XX. Tradução livre pelo Coletivo Periferia. eBookLibris: link.

WEHLING, Jason. Anarchism and the History of the Black Flag. 14 jul. 1995. Disponível em: link. Acesso em: 18 nov. 2020.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Extratos de um artigo de Carlo Romani sobre o anarquismo italiano (2013)

Errico Malatesta & Luigi Fabbri, dois militantes importantes do anarquismo italiano.



Com o objetivo de difundir informações acerca da formação histórica do movimento anarquista, vamos compartilhar trechos de uma Conferência proferida pelo historiador Carlo Romani, publicada na forma de artigo na Revista de Estudos Afro-americanos em 2013. Esse material aborda as especificidades da contribuição do anarquismo italiano para a doutrina social do anarquismo como um todo. Selecionamos os trechos que consideramos mais pertinentes. É possível acessar o documento completo em:

Como sugestão de leitura complementar, indicamos os seguintes artigos: 

Observação: incluíamos entre colchetes as notas do autor utilizadas nos trechos selecionados e adaptamos a numeração das mesmas ao nosso próprio extrato.

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A ideia de federações anarquistas, de grupos declaradamente anarquistas só começa a surgir em meados da década de 1880, até então, não se encontrava nos grupos locais sua associação efetiva à palavra anarquismo, anarquista, apesar de que, enquanto militantes, se declaravam assim.

Os historiadores começaram a identificar isso como uma descontinuidade, para quem não conhece a forma de organização inicial anarquista o movimento é aparentemente invisível até a metade dos anos 1880, pois está diluído no que sobrou das antigas seções locais e regionais dos trabalhadores [1]. Mas, esse movimento sindicalista é somente visível para essa historiografia marxista como um movimento social não socialista de trabalhadores, com componentes muito pouco próximos ao pensamento revolucionário de Marx dentro das sessões da Internacional. Santarelli entendeu isso como um ponto de fragilidade da organização dos operários e trabalhadores italianos.

As sessões da Internacional na Itália desde 1868, particularmente, se aproximaram muito mais das propostas coletivistas bakuninistas do que da vertente do comitê central liderado teoricamente por Marx. Em 1872, quando houve a cisão - o rompimento que encerra a Primeira AIT – a maioria das sessões italianas não seguiu o caminho do comitê central, elas aderiram à Federação do Jura e depois à Internacional fundada em Saint-Imier que dá continuidade ao internacionalismo operário até o ano de 1878. Cerca de 90% das sessões italianas seguiram esse mesmo caminho sindical, do mundo mediterrâneo e eslavo, apenas alguns centros do norte da Itália não realizaram esse caminho e migraram para as posições socialistas que levariam à criação do Partido Socialista [2].

Ocorre que os historiadores que se debruçaram sobre a gênese do movimento anarquista, somente conseguiram localizar efetivamente a presença do nome anarquismo a partir da segunda metade da década de 1880, quando há uma retomada da movimentação e da organização dos trabalhadores após uma forte repressão desencadeada no final da década anterior no sentido de combater efetivamente todas as sessões da Primeira Internacional.

O que tivemos foram momentos mais combativos dos movimentos de organização de trabalhadores na Itália durante a década de 1870. A partir da segunda metade da década de 1870, temos um declínio acentuado. Em 1878 foram promulgadas pela primeira vez leis que foram de chamadas leis contra as “associações para delinquência”, uma forma legal de punir os membros da Internacional, que foram colocados na categoria de bandidos, de delinquentes, malfeitores [3].

Entre 1878 e 1885, houve uma varrida muito grande contra os trabalhadores envolvidos em organizar sindicalmente seus companheiros, acontecendo a primeira diáspora desses militantes italianos para outros países da Europa que ainda eram mais flexíveis como a Suíça, a França e a Alemanha. E começa também a emigração de italianos para os EUA e depois para a Argentina. Malatesta, por exemplo, em 1885 vai para a Argentina e vai procurar ouro na Patagônia como forma de financiar a luta revolucionária socialista, antiparlamentar. Esses militantes emigrantes saídos da Itália ainda não se declaravam anarquistas, mas em grande parte seguidores das ideias de Bakunin. Malatesta somente vai enunciar um projeto socialista e anarquista de libertação social em Buenos Aires com a publicação de seu periódico La Questione Sociale em meados de 1885.

A partir de 1886, há uma organização efetiva do movimento anarquista italiano até mais ou menos o ano de 1893. Em 1893, no ápice do novo movimento de organização dos trabalhadores, começam a eclodir processos de convulsão social como os fasci operários na Sicília em novembro e dezembro.

Na realidade, os fasci, que hoje vinculamos ao fascismo, tiveram justamente sua origem nesses grupos de anarquistas federados em suas cidades (Palermo, Catânia) operantes na Itália meridional. O fasci corresponderia hoje a uma espécie de bonde de pessoas que promoverá um arrastão, um tumulto. Essa tática de luta dos trabalhadores sicilianos depois será usada pelas esquadras fascistas adeptas de Mussolini a partir de 1919 para atacar seus opositores.

Em 1894, o movimento dos fasci operários sicilianos assumiu outra proporção e atingiu os trabalhadores anarquistas federados da Lunigiana na Toscana, região das marmorarias de Carrara, onde vão acontecer os grandes motins que se propagaram por toda a península. E temos em seguida outro ciclo forte de repressão dentro do governo do primeiro-ministro Francesco Crispi, que novamente vai criminalizar a associação anarquista como associação de delinquentes [4].

Em 1898, teremos um último grande motim na Itália desse século, que aconteceu em maio em Milão, onde o general Bava-Beccaris – sob a ordem de Umberto I – mandou atirar na multidão, matando cerca de 400 pessoas entre homens, mulheres e crianças, que estavam atrás das barricadas [5]. A vingança será o motivo reclamado por Gaetano Bresci para fazer o atentado que vai matar o rei Umberto I dois anos depois.

O movimento socialista dos trabalhadores na Itália, inicialmente fortemente influenciado pelos bakuninistas que vão assumir o caráter anarquista na metade da década de 1880, é muito intermitente, não conseguimos perceber uma linha de continuidade ascendente. O movimento também sofre com a concorrência dos socialistas parlamentaristas, do Partido Socialista Italiano criado em 1890.

O estudo sobre o anarquismo italiano para ser bem realizado implica, em primeiro lugar entender a especificidade de sua organização, de um movimento que não tem um partido, uma estrutura centralizada, que, portanto, sofre rapidamente com a uma possível repressão colocada em curso, mas que, ao mesmo tempo, pode se reorganizar quatro ou cinco anos depois, justamente por ser flexível, não ter essa estrutura rigidamente organizada.

Esse é um problema historiográfico, do anarquismo como um todo e particularmente do anarquismo italiano. A Itália é uma península dividida economicamente e culturalmente desde o centro em direção ao norte, que tem uma população de origem germânica. O norte tem um perfil capitalista bastante avançado, onde a Igreja não tem uma participação junto ao latifúndio, aos velhos sistemas agrários do sul. As cidades de Milão, Turim, Bolonha, já eram centros industriais importantes nas últimas décadas do XIX, de grande destaque no cenário europeu.

Desde a década de 1870, todo o norte da Itália já está integrado por linhas férreas ao resto da Europa. Há uma ponte comercial que liga Turim a Lyon, um importante eixo de comunicação que vem desde a época da rota da seda, ainda no século XV, da transferência de mercadorias de Florença para os centros têxteis que existiam em Lyon. Portanto, o centro-norte da Itália é efetivamente integrado a uma Europa que tem um forte dinamismo econômico capitalista, que o centro-sul não tem.

Estão aí, as raízes dos problemas contemporâneos da Itália, da cisão dela em duas, do surgimento do “populismo” de Berlusconi, da tentativa de separação promovida pela Lega Norte, de uma Itália capitalista e uma Itália economicamente mais atrasada, ainda ligada aos valores morais da Igreja católica, o centro-sul onde justamente o fascismo se estabeleceu.

A Itália não é como a França, país que faz efetivamente a ponte entre o mundo germânico e o mundo latino na Europa. Por isso que a França possui sua grandeza cultural no elemento de união entre duas culturas distintas. Já a Itália a tem em uma proporção bem menor e apenas em parte dela, a setentrional, cuja região tem um perfil importante dentro da dinâmica do capitalismo europeu a partir da segunda metade do século XIX, tanto que o Risorgimento, ou seja, o movimento de unificação da Itália, parte da região mais próxima da França, do Piemonte, de Turim, local onde será a futura sede da fábrica nacional de automóveis, a FIAT, financiada pelo Estado.

(…)

Como as ideias anarquistas chegaram à Itália? No sentido de que ainda não se tinha o conceito claro de anarquismo no movimento, mas você tinha a prática, uma prática pouco organizada e que buscava uma ideia de organização sem autoridade.

Chegam via Bakunin. O anarquismo na Itália começa a se desenvolver quando Bakunin chega em Florença em 1863, onde vai criar uma sociedade secreta e depois segue para Nápoles, local em que encontra com Malatesta que se tornará seu discípulo na irmandade internacional fundada pelo russo.

Esse é outro ponto, por que Bakunin vai para Nápoles e não para Milão ou Turim? Porque Bakunin tinha um princípio, uma ideia que desenvolve mais claramente em sua estada na Itália, é o que ele vai debater em 1868 dentro da AIT. Bakunin dirá que não adianta o senhor Marx e os delegados ligados ao comitê acharem que os operários ingleses ou alemães, ou a aristocracia operária nas fábricas, serão a linha de frente de um processo revolucionário, porque não serão. Eles serão os primeiros a se aburguesarem, como é a tendência de todo operário na medida em que ascende socialmente, como por exemplo, é o caso do operário do ABC paulista.

(…)

Do ponto de vista da economia, os princípios máximos dos liberais não se realizarão, porque irá aparecer um fator de divisão de classe interno à sociedade, dentro daquela lógica burguesa, fazendo com que alguém trabalhe para alguém que já acumulou antes. Estava posta a divisão em classes que rompeu com a utopia liberal da igualdade política criticada por Godwin.

Esse último grupo social formará o proletariado, que ainda se encontrava mais próximo dos elementos da antiga comuna, mas que uma parte dele, com a disciplina das igrejas protestantes começam a ter uma perspectiva de aburguesamento pelo caminho do trabalho fabril. Nos locais onde não se teve esse processo de disciplina, como é o caso da Itália meridional, extremamente ligada ao campo e aos valores transcendentes da Igreja Católica, em que há mais o interesse da população em permanecer no seu modo de vida original comunitário, é onde Bakunin vai falar que haveria maior possibilidade de se encontrar uma resistência ante esse novo fenômeno que é o capitalismo, que está se desenvolvendo no mundo inteiro, a partir da superação das lógicas agrárias anteriores e do casamento entre a burguesia que ascendeu junto aos antigos proprietários de terra. Não serão nesses operários da indústria em vias de se aburguesar que encontraremos essa resistência para uma revolução, porque a tendência deles seria a de se incorporarem nessa dinâmica maior em curso dentro do capitalismo. E é no sul da Itália, que Bakunin vai encontrar essa vitalidade pré-capitalista.

(…)

Voltando ao problema historiográfico do anarquismo italiano, tanto Cerrito, que é o primeiro a colocar esse problema no final dos anos 1960, quanto depois, em um segundo momento, Carl Levy, que escreve sobre a Itália e o anarquismo italiano no final dos anos 1980 e Davide Turcato, já no século XXI, farão alguns apontamentos.

Cerrito fala que as fontes da polícia são importantes, porque o movimento, mesmo antes de ser efetivamente anarquista, já sofria continuamente com a repressão da polícia durante três décadas, a partir de 1871, da Comuna de Paris, até 1902-03. Será extremamente perseguido pela polícia italiana. Logo, as fontes da polícia nos permitem identificar os momentos em que os agentes da repressão, as chamadas “forças da ordem” tiveram um efetivo enfrentamento contra o movimento que tentava se organizar.

As fontes da polícia começaram a ficar disponíveis justamente a partir da década de 1960, quando se organiza um grande inventário no Arquivo Central do Estado, em Roma, o do CPC (Casellario Politico Centrale), que consegue estruturar toda a atuação da Pubblica Sicurezza, a segurança pública italiana, desde 1880. Contêm fichários nominais, fichários das federações, fichários de partidos, fichários relativos a jornais, entre outros, que permitem essa reconstrução, mesmo que no século XIX ainda não existisse uma organização efetiva de controle social na polícia italiana. Mas a partir de 1894, no governo Crispi, a Itália passa a ter uma ação preventiva mais sistemática, algo que no Brasil só vai começar a existir em 1922, com a criação da Delegacia Auxiliar do Rio de Janeiro que tinha a tarefa de delegacia política. Essa política preventiva de segurança brasileira inicia-se no governo de Arthur Bernardes que vai criar o DOPS, cujos fundos estaduais cumprem atualmente para o historiador brasileiro guardado as devidas proporções, o papel do CPC (ROMANI, 2011, pp. 161-178).

Essa política de repressão começou a ser realizada na Itália em comum acordo com a Suíça e a França no final dos anos de 1880. Nesse sentido, os arquivos da polícia são importantes para que se construa uma história da relação da repressão oficial com o movimento anarquista.

Um segundo ponto inicia-se a partir da luta específica da organização do movimento e de como ele se difunde. Como seria possível rastrear um movimento que não tem uma organização formal? Será através da imprensa e daqueles que escrevem, dos atores sociais, dos agentes políticos, que são os protagonistas dos periódicos. Porque, às vezes, os periódicos mudam de nome, mas os diretores permanecem, dificilmente acontece o contrário, quando você tem um periódico que muda de diretor.

Temos então, uma linha de identificação do periódico ao individuo que o dirige e ao grupo de colaboradores, que eventualmente assume a direção de um periódico posterior, e ai se dá o personalismo. Essa linha de continuidade que devemos traçar é muito intermitente, como por exemplo, L’Agitazione, fundado por Malatesta, que começa em 1897 e acaba em 1898, e somente retorna com o mesmo nome em 1913. Mas, essa mesma tendência anarquista publica desde 1894 L’Avvenire Sociale e a partir de 1903 vai publicar Il Libertario, cujo diretor Pasquale Binazzi havia estado antes no periódico de Malatesta e que se reencontrarão em 1920 em Umanità Nova. Se não prestarmos atenção em que a política de redação, os colaboradores e o editor são os mesmos, o que representa uma continuidade, aparentemente terão sinais de descontinuidade do movimento.

Segundo aqueles historiadores citados, a melhor forma de se fazer a história do anarquismo seria a de confrontar as fontes oficiais, que são as fontes da polícia, com as fontes produzidas pelos anarquistas através do que eles deixaram de legado, principalmente a imprensa. Pois, por não ter estatutos, atas, o movimento anarquista é mais difícil de produzir uma história processual, diferentemente do procedimento dos partidos políticos. E do entendimento de como se movem essas diferentes tendências em relação a como o mundo muda, mudam também os problemas históricos sociais colocados, e nesse sentido, como as perspectivas de transformação dos anarquistas vão mudar também.

Turcato coloca outro problema, no caso específico do anarquismo italiano, sendo necessário para o entendimento dessa continuidade, ter um olhar não limitado, estudar não somente a Itália. Porque o anarquismo italiano é um anarquismo que se realiza na diáspora, a partir principalmente da repressão do governo Crispi na década de 1890.

A repressão feita a partir do final da década de 1880, através de um tipo de confinamento de prisioneiros políticos acusados de associação à delinquência, em prisões que não são como as convencionais, eram penhascos, ilhas, onde eram confinados os chamados agitadores políticos, integrantes de diversos movimentos sociais. Eles permaneciam presos durante anos, até um momento em que uma determinada mudança acontecia, um acalmar da convulsão social que assolava periodicamente a Itália, que permitia um relaxamento da prisão possibilitando o retorno do preso ao seu local de origem.

Muitos deles, nessas idas e vindas, como foi o caso de Oreste Ristori, de Malatesta, de Damiani, emigraram. Damiani chegou ao Brasil em 1897, indo para Curitiba e depois vai para São Paulo. E em São Paulo, Damiani – que é uma figura importantíssima no anarquismo italiano – é menos conhecido do que Ristori, porque Ristori chegou ao Brasil com status de propagandista vindo da Argentina e veio para cá publicar La Battaglia, enquanto Damiani só será seu sucessor no periódico em 1912, depois de Ristori ser preso e se desiludir com o movimento anarquista.

Para se reconstruir a história do movimento anarquista da Itália, devemos confrontar os arquivos oficiais, analisar a imprensa, buscar essas linhas de continuidade que existem, mas que não são evidentes, e procurar refletir sobre como esses elementos se articulam com os de outros países, pois o anarquismo vai na esteira da emigração, não como um movimento migratório exclusivamente por motivos econômicos, mas por conta de sua perseguição política. Primeiro, buscando refúgio nos países limítrofes, particularmente no sul da França, em Nice, em Marselha, ou na Suíça, que são os grandes centros iniciais da rearticulação do anarquismo italiano na década de 1890 fora da Itália, e depois indo para os EUA e em seguida para a Argentina, Uruguai e, enfim, o Brasil, em São Paulo.

O Risorgimento é o movimento que começa a partir da casa real de Turim, com o objetivo de unificação nacional, pois já se tinha um nome nacional, mas a Itália ainda não era unificada, o que tem a ver com a perspectiva do republicanismo jacobino que não ocorrerá.

Contudo, no começo da década de 1860, os republicanos eram muito fortes, principalmente na pequena burguesia e em uma parcela dos trabalhadores que acreditavam em uma transformação herdeira de certo jacobinismo arraigado na península.

Quando Bakunin chega a Nápoles em 1864, começa a se difundir no sul da Itália outro ideal de libertação, não mais nacional. Nessa década começam a proliferar sessões da Internacional inicialmente nas cidades de Palermo, Nápoles, Bari, Catânia, que não eram os grandes centros operários industrializados, que ficavam na região do centro-norte do país.

Dois nomes vão aparecer como interlocutores de Bakunin nessa época e que depois vão dar o primeiro impulso à organização do movimento anarquista no começo da década de 1870 na Itália: Carlo Cafieiro e Errico Malatesta.

Por conta da influencia bakuninista, as associações assumem de certa forma, uma tentativa de buscar permanecer como associações secretas, porque a visibilidade facilitaria a possibilidade de repressão ao grupo, mas que os grupos visíveis se organizariam não na forma de ação política declarada, mas na ação de forma sindical, através das sessões da Internacional, para burlar a repressão por parte da polícia e dos agentes militares para quem, depois da Comuna de 1871, as sessões da Internacional foram ligadas diretamente à causa da revolução. A partir de 1872, as sessões italianas da Internacional serão perseguidas também.

Surge na Itália então, uma vertente que vai ser muito forte, uma forma de associação socialista e anárquica denominada de anti-organizacionista. O anti-organizacionismo vai dominar o cenário do movimento social italiano, os grupos sociais de trabalhadores e anarquistas na década de 1880 não ligados a uma concepção de partido tanto republicano quanto socialista.

Mas, junto com Malatesta, outros nomes importantes do anarquismo da década de 1880, como Andrea Costa, que depois se tornará socialista, e principalmente no final dessa década, Francesco Saverio Merlino, vão perceber a carência, a necessidade, a falta de uma organização dos grupos socialistas anárquicos voltados para o movimento social.

Porque a palavra de ordem de todos os grupos e movimentos na década de 1870, inclusive dos jovens malatestianos era a “revolução social”. Havia uma ideia fortemente influenciada por Bakunin, de que não seria necessária uma grande organização articulada em todo o país para se empreender uma revolução social, porque a revolução aconteceria por uma demanda, uma necessidade dos trabalhadores, uma necessidade dada veementemente por um desequilíbrio econômico existente, pela desigualdade social, também essa a fragilidade do capitalismo da década de 1870 na Itália. E as sessões da Internacional passaram a ser braços dessa agitação social, de difusão da revolução social, e por isso foram perseguidas.

Em 1878, por conta dessa perseguição mais acentuada da polícia italiana, há um desmantelamento das primeiras organizações, que só voltarão a se reorganizar a partir de 1886 na região da Toscana, mudando assim o epicentro do anarquismo italiano da região meridional, onde ele se iniciou, para a região que em meados do século seguinte será denominada de região vermelha da Itália, porque fortemente comunista, na Emília-Romanha, em Bolonha, e na Toscana.

O anarquismo será inserido mais efetivamente dentro das organizações operárias no final dos anos de 1880 e começo dos anos de 1890 quando vão aparecer federações anarquistas como a de Livorno, Florença, Carrara, depois em Imola, em Cesena, e em várias outras cidades.

Na década de 1890, o anarquismo na Itália começa a adquirir uma característica mais organizada, mas muitos ainda permanecem individualistas e resistentes à organização, porque entendem que a organização seria uma forma de centralização política e ainda tem em mente o que acontecera anos antes na Internacional [6].

Mas, foi principalmente com Malatesta e com Merlino que se começa a colocar o outro problema do anarquismo italiano, o que diz respeito à sua organização e relação com os sindicatos.

No início do século XX, o que está na pauta das discussões dos agrupamentos locais, o tema central do debate no seio do anarquismo, é a questão da organização e da não organização.

Em 1902, os organizacionistas já se tornaram ampla maioria na Itália e é nesse momento que surgirá a liderança histórica do anarquismo italiano, como o grande nome, aquele que vai difundir por todo o mundo a ideia de comunismo anarquista, que é Errico Malatesta. É quem pega Kropotkin e o transforma, fazendo uma fusão entre o ideal anarquista do voluntarismo, do princípio da não hierarquia, da ação individual, da importância das individualidades continuarem tendo papel fundamental na construção e na organização do social, associando isso a uma forma de luta, que é mais articulada, que tem um prenuncio não de estrutura de partido que vai concorrer às eleições, mas em um sentido lato de um partido da anarquia, um grupo da população que defende uma nova possibilidade de organização social diferente da existente.

A partir de 1902, Malatesta começa a escrever com mais intensidade e um de seus trabalhos é justamente desmontar essa tendência individualista que pretende resolver a revolução social por si própria através da ação direta e dos atentados, combatendo a posição dos chamados “galleanistas”.

O ano de 1907 é também um momento histórico para o anarquismo italiano em sua relação histórica com o sindicalismo. É um ponto de virada, não só porque reafirma a supremacia numérica da vertente organizacionista dentro do movimento, mas também porque a partir do debate iniciado por Malatesta no Congresso de Amsterdam, anuncia-se o predomínio na Itália da vertente anarco-comunista sobre a do sindicalismo, que passaria a se chamar de revolucionário. É quando Malatesta rechaça a redução do anarquismo a uma concepção sindicalista apenas da revolução social, mas reafirma o compromisso de um anarquismo de classe, portanto, coloca a questão classista como questão prioritária dentro do anarquismo, apesar de entender que não é a classe operária a única protagonista da revolução, mas que ela tem um elemento importante de contribuição. Com isso, manteve-se a aproximação da tendência do anarquismo comunista com as ideias sindicalistas, das quais Neno Vasco, por exemplo, foi grande disseminador no Brasil (SAMIS, 2009), mas nunca confundindo-as, ou reduzindo apenas o anarquismo a uma luta revolucionária de socialistas sindicalistas, diferenciado-o, inclusive, daquilo que na Argentina se tornaria o finalismo da FORA (COLOMBO, 2004) e na Espanha o anarco-sindicalismo que gerará posteriormente a CNT (MADRID, 2004). Para Malatesta, as classes oprimidas tem o dever e a primazia da condução da revolução socialista anarquista, mas sua realização é uma tarefa a ser empreendida por toda a sociedade.

A partir de 1907, o anarquismo da Itália começa a ter componentes cada vez mais próximos do comunismo, no sentido organizativo da palavra.

Eu vou parando por aqui no momento histórico em que a questão da organização deixou de ser um problema para o anarquismo italiano e em que ele pode também se distanciar da relação direta com o sindicalismo, fenômeno que será muito mais forte no anarquismo ibérico.


Notas do autor:


[1] – Na Itália, durante o início da década de 1870 proliferaram muitas seções regionais e locais da Associação Internacional dos Trabalhadores, a AIT. O esmagamento da Comuna de Paris em 1871 e a perseguição em seguida aos internacionalistas atingiram não somente a França, mas espalhou-se por toda a Europa, principalmente na Suíça e Itália. Da repressão aos comunnards (participantes da Comuna de Paris) e aos internacionalistas forma-se uma primeira articulação conjunta entre as polícias de diversos países europeus. Notadamente empenhadas em perseguir e derrotar a rede de ativistas e de sindicalistas que havia sido formada nessa década. O italiano Amilcare Cipriani, por exemplo, que havia sido também um comunnard foi desterrado para a Nova Caledônia em comum acordo com o Estado italiano que recusou sua deportação.

[2] – O movimento sindical na década de 1880 foi fortemente abalado pela perseguição ocorrida aos internacionalistas na década anterior. Muitos trabalhadores e suas organizações, principalmente nos centros operários mais desenvolvidos no norte-nordeste da Europa, optaram por seguir um caminho de luta parlamentar institucional. Essa política levou à fundação dos Partidos Socialistas (democráticos) nos países europeus e ao surgimento em 1889-90 da chamada II Internacional dos Trabalhadores, articulada em torno do parlamentarismo socialista, estratégia que se afasta do pensamento revolucionário marxista e opta pela política da luta pelos direitos constitucionais dos trabalhadores.

[3] – Vemos que o enquadramento de militantes anarquistas ou de revolucionários de qualquer tipologia na categoria de delinquentes tem uma longa história que continua até o presente. Com pequenas modificações de nomes, malfeitores na Itália, delinquentes, terroristas, subversivos em períodos de anticomunismo, até chegarmos aos vândalos na mídia atual. As atuais leis antiterrorismo são apenas uma versão repaginada das primeiras leis contra a associação de delinquentes como resultado da organização dos trabalhadores durante a Primeira Internacional.

[4] – Como resultado dessa nova onda de repressão aos trabalhadores, principalmente aos anarquistas, será reativado o regime do domicílio coatto, no qual o prisioneiro é confinado em uma ilha ao largo da península. Oreste Ristori, que citamos acima, por exemplo, passará por quase todas as ilhas de confinamento na Itália (Tremiti, Ponza, Ustica Favignana, Port'Ercole), fator que longe de desarticular o anarquismo, como pensava o governo, permitiu aos anarquistas de diversas regiões da Itália se conhecerem mutuamente como se estivessem vivendo em um congresso permanente, fortalecendo, paradoxalmente, o movimento.

[5] – Sobre os motins de maio há o excelente estudo de Louise Tilly em língua inglesa (Tilly, 1992).

[6] – Nessa corrente o principal nome do chamado individualismo italiano (nome como ficou conhecida essa corrente anarquista na história) é Luigi Galleani.


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